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De Onde Viemos

Somos um cérebro. O jogo da vida é um jogo de habilidades, mas não é necessário ter nenhuma habilidade particular para que ele comece: disponha algumas estruturas que podem se replicar no espaço de design, e faça-as jogar algumas rodadas. Alguns designs têm maior probabilidade de emergir no espaço de design a partir de um início randômico, ¿quais são esses? São aqueles com maior aptidão, mas não em qualquer sentido não-trivial, somente no sentido tautológico de ser muito semelhante ou idêntico aos “vencedores” anteriores, que por sua vez são idênticos ou quase a seus antecessores e assim por diante. Gerações e gerações de replicadores repetem-se continuamente, por vezes fazendo cópias perfeitas, por vezes melhorias (quase cópias que se replicam ainda mais rápido), e por vezes cópias definitivamente menos autocopiadoras. Conforme os ricos se tornam mais ricos no espaço de design, algumas formas coalescem, formando coacervados, bactérias, algas azuis e eventualmente protozoários, vegetais, fungos e professores de aritmética. Nesse eônico processo de reproduzir-se os replicadores foram se tornando mais e mais complexos. A suspeita atual é que viemos do barro, como já antecipava, quem diria, a bíblia! Viemos do barro que gerou estruturas autocopiadoras que gerou RNA que gerou DNA que gerou Memes* que junto ao DNA de uma espécie particular de macaco falante nos trouxe até este ponto, em que você lê essas palavras. Devemos contemplar aqui, no uso da palavra ‘aptidão’ a possibilidade de uma definição sintática e não semântica de aptidão, isto é, uma aptidão totalmente mecânica, em oposição a uma aptidão baseada numa noção de sentido ou objetivo. Uma definição totalmente física/estrutural/sintática de aptidão, que independe de uma função particular, um sentido, uma teleologia. Durante as batalhas travadas por RNA, DNA, seus possíveis antecessores, e mais recentemente memes e memeplexos, os vencedores são aqueles que, mecanicamente, em virtude da interação entre suas estruturas, e as estruturas do ambiente ao seu redor – inclusive seus co-replicadores – conseguiram reproduzir-se melhor que variedades distintas.

A natureza não é exatamente boazinha, como diria Bertrand Russell: “O Universo pode ter um propósito, mas não há nada no nosso conhecimento que indique que esse propósito tenha qualquer semelhança com os nossos”. Nossos propósitos, nossos objetivos últimos, foram arquitetados pela seleção natural agindo sobre nossos ancestrais em dois níveis, o nível dos cromossomos, e, muito distante desse, o nível dos pensamentos. Em ambos esses níveis surgem as mais importantes estruturas replicadoras. A união do processo evo-devo biológico e da reprodução verbal ou escrita marcam a coevolução gene memética que organizou todo o design que vemos ao nosso redor nas cidades atuais e nas sociedades humanas.

Não gostamos dos memes, ou melhor, a maioria de nós não gosta do meme “meme”. A indigestão não é apenas um produto do senso comum, é sentida também pelos sociólogos, antropólogos, intelectuais de escola francesa e pós-modernistas também, e não é sem razão, a principal característica do conceito de meme é ser definidos como algo que está agindo em benefício próprio. Ora, se age em benefício próprio, se ele tem autonomia, ¿onde fica a minha autonomia, a minha individualidade? O incômodo gerado pela ideia do meme é semelhante ao gerado pela ideia do gene egoísta, é um golpe no nosso antropocentrismo. ¿Quem está disposto de bom grado a aceitar que é apenas um veículo de genes? A ideia é estranha, e não parece fazer sentido. Da mesma maneira, quando concedemos autonomia aos memes, estamos lhe dando o estatuto de entidades autônomas, os donos da bola, e isso significa que estamos tirando a autonomia de nós, pessoas. É famosa a descrição das feridas narcísicas de Freud. Copérnico nos tirou do centro do universo, Darwin nos deu primos peludos, e ele Freud, nos tirou a responsabilidade pela totalidade da nossa mente, ao postular a existência de um inconsciente. A memética pode ser pensada como a quarta ferida narcísica, pois ela nos tira do controle até mesmo de alguns processos mentais conscientes. As ideias estão se replicando em benefício próprio, e nós somos apenas os veículos de transmissão no processo, os fios condutores que garantem a reprodução e evolução delas.

Conforme nossa dupla herança se manifestava em fenótipo extendido, isso é, em nossas casas, instrumentos, instituições, móveis, ímoveis, invenções etc… fomos nos tornando algo raramente visto na natureza, organismos consumidores de energia cuja quantidade de energia disponível supera em muito a energia demandada para a sobrevivência biológica. Em qualquer cenário com iterações de um jogo evolucionário, a tendência dos indivíduos sobreviventes é o limiar mínimo para o sustento, talvez algo que conectemos com o nível de vida da África subsaariana, e não com a abundância de bens do início do séc XXI. Malthus percebeu isso na esfera econômica, e suas predições foram sistematicamente invalidadas ao longo dos dois séculos que se seguiram. O que se passa é que estamos em um período de transição, um período em que o custo de invenção é baixo e o custo de reprodução dos seres pensantes é alto. Nossos memeplexos estão evoluido mais rápido que nossos genes, e por isso vivemos em um tempo de abundância de alimento, de sustento, saúde, ornamentos e moradia. Entretanto, uma análise minuciosa da possibilidade de emulações de cérebros como os nossos numa interface de computadores no futuro, feita pelo economista e físico Robin Hanson, sugere que nossa época é a exceção e não a regra malthusiana, isto porque em breve, reproduzir uma pessoa se tonrará quase tão fácil quanto reproduzir alguns gigabites de vídeo hoje em dia através de sistes de compartilhamento. Com isso, o custo de vida desses novos indivíduos será mais baixo, eles aceitarão empregos por preços menores, e voltaremos a um estado que deixamos quando da invenção da agricultura, isto é, o estado de abundância em que a evolução não esta numa perseguição milimétrica das mudanças que provém mais energia aos indivíduos. Em outras palavras, desde o período neolítico, os humanos estão numa fase transicional de seu desenvolvimento em que é possível haver afluência material em quantidade, em particular depois da revolução industrial. Essa fase é apenas transacional porque será seguida de um período em que voltaremos a poder nos reproduzir na mesma velocidade em que inventamos maneiras de reordenar e utilizar energia. Somos cérebros ricos.

Nietzsche foi um dos primeiros a compreender de uma maneira mais naturalista o todo da natureza. Em sua época, não havia companhia para seus pensamentos, sua visão de mundo estava solitária, tamanhamente solitária que ele cria a ideia de espíritos-livres, que servem para ele como companhias intelectuais, amigos, com os quais podemos sentar, tagarelar, e rir. Os tempos de Nietzsche eram demasiado áridos intelectualmente, e sua mente estava situada no topo, onde o ar é rarefeito. Graças a Nietzsche, Russell, Darwin, Mendel, Sagan, Dawkins, Dennett, Drescher e centenas de outros, não vivemos mais num tempo onde compreender os mistérios do universo é algo que leva a solidão intelectual, e a uma angústia intempestiva diante da surdez do cosmos à nossas ansiedades. O cosmos pode não responder a nossa angústias, mas parte dele pode compartilhá-las conosco, conversar sobre elas, por vezes resolvê-las. Nós seres humanos, parte do cosmos, como seres sociais, somos capazes de compartilhar nossas angústias, de interconectar nosso mundo mental com o de outra pessoa, de empatizar, e de, ao gerar uma fundação comum, tornarmo-nos parte um do outro, em certo nível. Essa possibilidade de compartilhar e fundir, não só em pensamento, mas em emoção, no choque diante da maravilha de existir é algo de fascinante, e o poder expressivo da linguagem tem dificuldade de fazer jus a uma cena como essa (leia como se fosse o narrador):

Depois de tantas eras, dias e noites no escuro, sob camadas e camadas de lençóis e névoas, posso agora me levantar, e olhar além. Em pouco mais de vinte anos, refiz a jornada mental de toda a minha espécie, compreendi milhares de vezes mais do que um ser humano jamais poderia compreender sozinho. A herança escrita me permitiu entender o mundo que me circunda. Posso ver com uma clareza que nunca se imaginou atingir entender o que são essas mãos, esses pés, dedos. Dedos!

Convido meus amigos para sentarmos no parque, tomando nossas bebidas favoritas, num fim de tarde ensolarado. Ali, juntos, observamos ainda outra vez a queda da bola de fogo. Se a visão é mesmerizante por ela mesma, ¿o que dizer do fato de podermos nos olhar nos olhos e sentir que compartilhamos o conhecimento de que lá, distante, existe de fato uma bola gigantesca, queimando e se deixando entender por nós?

No Que Consiste Ser o Produto de Uma Dupla Herança Gene Meme

Genes e memes são parecidos em serem replicadores, em ter uma existência puramente mecanica que explicam partes complementares do design do mundo, em serem transmissíveis na vertical, isto é, de pais para filhos, e em formarem coalizões entre si que se reproduzem melhor juntas do que separadas, pense por exemplo em cromossomos e religiões, geneplexos e memeplexos que se reproduzem com um cerne comum composto de vários genes e memes respectivamente.

Genes e memes são bastante distintos no entanto, os segundos se replicando mais rápido, com menos fidelidade, na transversal bem como na vertical e constituídos por muito menos acurácia e precisão do que os genes. Essas diferenças se somam quando falamos dos intermediários entre a expressão gênica e a expressão memética, como por exemplo os traços de personalidade, ideologias, sexualidades, cortejos, seduções e demais processos psicológicos que envolvem a um só tempo uma influência da evolução biológica e da evolução cultural.

A maioria das coisas que apreciamos sobre a vida se encontram nesse lugar, que podemos chamar genomemético; O amor, a música, as artes, a beleza, o conhecimento, a contemplação, o ócio criativo, e até mesmo o trabalho se encontram nessa enorme esfera coordenada pelos genes e memes, de forma sintática e mecânica, mas ainda assim produzindo coisas impressionantes e valorosas, que por vezes em dias exaltados acabamos por identificar com os sentidos da vida.

O que nos diferencia por sermos produto de dupla herança em relação aos animais não culturais é o quanto nossas intenções estão desprendidas das intenções originais das quais são resultado. Enquanto é relativamente fácil traçar a rota entre um gene de castor, o castor, o cérebro dele, e o comando interno que o faz construir uma represa, é difícil traçar o caminho entre nossas intenções (explícitas ou implícitas) e as intenções auto-replicativas dos genes e memes que nos formaram. O caminho é sinuoso e indefinido, definido pela a coevolução de dois tipos de replicadores, e milhões de interações disponíveis no espaço de design. Os racionais por trás do comportamento de assoprar velas de um bolo são difíceis de traçar, envolvendo fatos desde ritualização biológica, até a composição e modificação da melodia da música. Nossas intenções são muito mais nossas , porque os caminhos que as conectam aos replicadores dos quais são de fato intenções é de tal maneira tortuoso que por muitas vezes, em disciplinas como a sociologia e a psicologia, é melhor tratrar de nossas intenções no nível intencional mesmo, a perspectiva intencional paga mais dividendos que qualquer outra maneira de prover um inventário da natureza humana. A análise de pessoas em termos de crenças, desejos, sonhos, vontades, ânsias, se paga com muito mais eficiência do que em termos puramente biológicos. É razoável dizer que essas categorias mentais só evoluíram enquanto algo sobre o que falamos porque eram contrações computacionalmente tratáveis de análises de comportamentos que seriam demasiado complexas e portanto intratáveis. A razão pela qual temos estados mentais tais quais são os estados intencionais, isto é; desejar, querer, supor, crer, é em parte que os mecanismos que subsidem sob esses estados tornaram-se complexos demais, e era facilitador comprimí-los em um só conceito, isento de toda a complexidade que permanece nos níveis inferiores (biológico,bio-químico, físico).

Chamemos grau de originalidade a medida de distância entre os racionais para o comportamento de um indivíduo e o comportamento dos replicadores que o geraram. Se antes estavamos nos retratando como cérebros ricos, agora podemos começar a entender que nossa riqueza nos permite desvios, delírios, contemplações do inexistente, astrologia entre outros, isto é, estamos em um momento de abundância tal que é possível aos memes de insanidades dominarem parte da memosfera, e dos genes para o delírio de dominar a biosfera, isso porque aquele que crê e age de acordo com ideologias falsas, hoje, não é punido com a morte. Não caçamos mais bruxas. O contato entre a realidade bio-física da vida, e o aproveitamento e compreensão da vida tornou-se menor do que nunca com a explosão cultural humana. Seitas, cleros, danças, ideologias políticas, são todos em parte delírios da evolução, que nos permitem dizer que existe algo que foi sim originado no nível mental, são nossos luxos e nossos delírios, e em parte são também o que nos faz humanos. Nossa humanidade pode ser identificada por várias coisas, mas talvez a mais marcante de um ponto de vista reducionista seja a distância entre os sistemas de pensamento nos quais nos envolvemos, e a motivação originária que mantém os genes e memes dos quais esses sistemas são compostos (a replicação dos traços que determinam). Somos cérebros ricos e delirantes.

Sistemas Intencionais Meméticos

Esses somos nós, primatas, visuais, emocionais, sociais, separados em várias dimensões tanto de nossas origens genéticas quanto de nossas origens meméticas. Nossa dupla herança configura um novo princípio de design nunca antes testado na natureza, que nos permite tamanha variação intercultural, e tamanha capacidade de detectar essa variação, que alguns antropólogos antigos até conseguiram esquecer nossas origens e tentaram montar uma teoria pura do Homem, uma teoria que encompassasse toda a variação potencial do humano sob um registro só seu. Evidentemente eles estavam errados, e a psicologia evolucionária e a memética estão aí para mostrar que muitos de nossos comportamentos podem sim ser conectados a seus alicerces, aos princípios fundacionais que em boa parte os regem, em suma, a racionais replicativos, cujos replicadores são, em última instância, geneplexos e memeplexos. Não apenas mitos delirantes ocupam o resto de nosso espaço mental. Nossa cognição não se divide entre “aquilo que tem valor evolutivo claro para meus replicadores internos” e “aquilo que pode ser considerado mito, delírio, ou ilusão”. É fato que simbologias místicas, religiões, e seitas se encontram na linha tenue entre Cila e Caribdis, no entanto também a ética, a estética, a arte, a apreciação do belo e o senso de justiça se encontram nessas entrelinhas. Nossa tecnologia e as razões pelas quais foi criada são, em grande parte, produtos desse “limbo” evolutivo, esse espaço escuro, por que mal explorado, que se separa dos dois mundos de explicação clara e distinta que são a genética e a sociologia memética.

Alguns sistemas saíram das rédeas de seus controladores a tal ponto que tornaram-se organizações independentes, como grandes empresas, times de futebol, a igreja, institutos de ética e companhias de teatro. Pólos estes em que cada indivíduo, em seu gênio e criatividade, é substituível, sistemas cujas intenções são o fim de si próprias, e sobrevivem a saída de qualquer de seus membros. Se o artilheiro desiste da bola, se o Papa torna-se ateu, se o ator falta, outro artilheiro é encontrado, outro papa é eleito, outro ator o substitui, o sistema, em sua organicidade, se molda ao redor daquela falta, porque o sistema, ele mesmo, tem suas vontades, desejos, razões de ser, que sobrevivem a seus originadores. São sistemas intencionais culturais, ou Sistemas Intencionais Meméticos. Eles possuem a maioria das características dos sistemas intencionais que conhecemos, animais e pessoas. A forma de recortá-los para encontrar o que é um “desejo” uma “crença” ou uma “intenção” é distinto da maneira como recortamos as pessoas para apreendê-las enquanto sistemas intencionais, mas isso se dá, principalmente porque já somos naturalmente equipados com a empatia para lidar com pessoas, utilizando nossa teoria da mente – nossa capacidade de abstrair outras mentes – para analisá-las. Os Sistemas Intencionais Meméticos constituem boa parte daquilo com que interagimos, quando vemos alguém na qualidade de representante de empresa, enquanto padre, ou representando um grupo de cientistas. Somos cérebros ricos, delirantes e que frequentemente interagem com Sistemas Intencionais Meméticos e com outras pessoas, outros cérebros ricos e delirantes.

* O conceito de “memes”, unidades replicativas de elementos da cultura nomeadas por Dawkins, vale-se das seguintes perguntas ¿Quais estruturas possíveis poderiam provocar o surgimento e manutenção da cultura, sem serem elas mesmas estruturas culturais? ¿Como fugir da circularidade de explicar o surgimento e complexificação da cultura a partir de uma entidade não essencialmente cultural? Exemplos de memes: Celibato, Vontade de se matar por sua religião, Comer a carne dos mortos , E=MC²,“A união faz a força”, “Bond, James Bond”, Facebook.

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Leituras para uma boa formação filosófica

Desde a ultima vez que fiz uma lista de livros importantes aqui no blog minhas concepções mudaram bastante, por isso resolvi fazer uma nova lista. Ai vai:

On the Plurality of Worlds, David Lewis

Livro em que o autor defende o realismo modal: todos os mundos possíveis logicamente existem. Simplesmente brilhante, um exemplo máximo do que é pensar analiticamente. Deixando o mérito da tese de lado, esse livro serve primordialmente para ensinar a pensar. Claro, complexo, engraçado, central, genial!

Antropic Bias, Nick Bostrom

Dissertação a cerca de como raciocinar quando o objeto de estudo sofre efeitos de seleção dependentes do observador. Aplicação de uma reformulação mais exata do principio antropico – a Self Sample Assumption – a temas como: interpretações dos muitos mundos, teoria das decisões, termodinâmica e cosmologia. Inteligente, complexo e divertido.

Axiomatic Set Theory, Patrick Supes

Exposição detalhada e axiomática da teoria dos conjuntos.

Inexhaustibility: A Non-Exhaustive Treatment, Torkel Franzen

Introdução, a partir do zero, ao teorema de Godel bem como a resultados mais recentes a respeito. Aborda lógica de primeira ordem (sintaxe, semântica e metateoremas) recursividade e ordinais para ao final introduzir o teorema de Godel e fechar o livro com teoremas recentes de Feferman.

Física Quântica, Eisberg

Física quântica básica qualitativa. Ótima primeira introdução ao tema.

Naming and Necessity, Saul Kripke

O autor propõe a existência de enunciados a priori contingentes e a posteriori necessários. Traça uma analise da linguagem e de como se constrói a referencia, fazendo uso do instrumental de mundos possíveis.

Alguns artigos:

Infinite Ethics, Nick Bostrom

Relevante e profunda analise sobre os problemas que a ética enfrenta do fato do universo ser infinito: a ação finita de qualquer individuo não altera o computo infinito total. Hiper reais, aritmética ordinal, cosmologia moderna e uma lição de como usar todo o instrumental cientifico- matemático a nosso dispor para resolver questões filosóficas.

Existencial Risks, Nick Bostrom

Discute os riscos existenciais que a humanidade sofre. Estamos especialmente despreparados para eles, uma vez que nunca fomos extintos. Tem como ser mais importante e essencial do que refletir sobre como evitar o fim da humanidade?

Cognitive Bias, Elizier Yudkowsky

Apresenta os bias cognitivos que afetam nossos julgamentos dos riscos existenciais.

Beyond Belief, Daniel Dennett

Content and Epistemology of Phenomenal Beliefs, David Chalmers

É apresentada a tese de que a consciencia não é redutivel ao fisico, bem como sua justificação. Argumentação direta, bem construida e brilhante.

The Road To Reality – Roger Penrose

Acabo de lembrar de um livro que vale recomendar para filósofos. Imagino que vocês o conheçam, eu o tenho e só o folheei – lê-lo vai requerer certo empreendimento: difficulty grows exponentially – mas ele é muito completo. Ele é essencialmente um compendio matemático que abrange tudo o que se precisa saber para estar familiar com a física, até a contemporânea – ele vai desde números complexos até teoria dos Twistors, passando por loops, super simetria, EPR, superfícies rimanianas.  Útil para quem gosta de matemática, física, ou apenas as idéias malucas do Penrose. Uma vez o Diego me disse: “eu quero aprender 3 séculos de física em 16(? ou algo assim, bem menor que 100) dias”. Esta pode ser uma boa oportunidade, apesar de talvez os últimos dias dos 16 devam ter uma certa dedicação integral.

Ele tem 34 capítulos e 1050 páginas. Se alguém for se atraver a ler, pelo menos algumas partes, posso dar uma olhada. Quem sabe me anime antes e poste algum dia. Já estou de olho no capítulo 23, The Entangled Quantum World.

Lx

Breve autobiografia intelectual de um jovem de vinte anos.

Desde que era criança nas minhas leituras da Dialética do Esclarecimento e nas de revistas de divulgação cientifica sentia um dispare entre os dois. Quando mais tarde no colegial fui informado que teria durante minha carreira escolher entre as duas áreas, ciências humanas e naturais, aquele desconforto inocente inicial cresceu e tomou forma num desejo de unificar ambos, para não ter que escolher nenhuma das duas áreas, perdendo assim a outra. Ademais naquela época minhas leituras da Metafísica aristotélica já semeariam um desejo de universais que dêem conta de explicar vários particulares – também quanto não foram essas leituras um ponto marcante na genealogia do meu desapego ao mundo pratico. Alguns anos mais tarde, nas leituras de Hegel e eternas revisitações de Adorno percebi que um universal vazio e abstrato não se sustenta, coisa que o velho Aristóteles concordaria. Mas para alem de Aristóteles, para que este universal realmente abarque uma totalidade ele precisa estar se desenvolvendo numa negação constante que passa pelo particular, era a tensão dialética. Esta que em grande parte das ciências humanas parece ser útil para ser usada como método de analise do real. Um todo diferente se dá nas ciências exatas, um pensamento racional linear que segue uma lógica clássica e matemática, pensamento que se desvelava para mim nas leituras obcecadas e incessantes de um livro introdutório à Física Quântica.

 

Pelos pais que tive, que seguiram a carreira intelectual, quando chegou o momento da escolha do curso para a graduação havia uma certa expectativa, de minha parte principalmente, que aquilo iria afetar dramaticamente todo o resto da minha vida. Como a balança não pendia para nenhum lado em termos estritamente epistemológicos acabei escolhendo com base no grupo de pessoas que queria estar e com base em qual área recebia mais incentivo da sociedade (e de capital), talvez por essa ultima financiar mais as exatas – concedendo que capital atrai pessoas e que uma maior concorrência seleciona os melhores – as pessoas com as quais queria conviver estavam nas exatas. Disto resultou que fiz um ano do curso de Química para o meu total desapontamento com as pessoas que ali estavam, pois pareciam procurar mais o capital e a aceitação social do que o conhecimento e para piorar a própria estrutura do curso refletia isso em parte, com sua racionalidade técnica extremada que Adorno tanto critica por sua alienação extremada. Mudei para a Filosofia no outro ano.

É difícil dizer precisamente que caminhos teria percorrido na filosofia caso uma parte da minha vida não fosse dedicada ao estudo de ciências exatas. Confesso que minha habilidade natural com ciências exatas não é muito elevada, talvez sendo esse um dos motivos pelo qual mudei de rota, mas apesar disso guardo grande admiração pelo modo que essa área do conhecimento é construída. Lembro-me de um dia em que estávamos discutindo habito em David Hume, havia uma tendência a cair em discussões conceituais infindáveis quando o Diego resolveu soltar sua carta na manga e deu a explicação neurológica de porque temos hábitos. Incrível como toda aquela nevoa metafísica se desanuviou e – algo difícil no meio filosófico – se revelou algo claro, coerente e compatível com a experiência. Ao meu ver a discussão tinha se encerrado ali. De algum modo me senti numa situação análoga àquela de quando a ciência vem explicar o que os mitos tentavam dar um leve esboço tosco de explanação racional. Russell dizia que a religião trata daquilo que imaginamos, a filosofia do que não sabemos ao certo e a ciência do que sabemos com certeza. Essa visão parece diminuir a filosofia em certos aspectos, mas em outros creio que a coloca num local privilegiado de produção de conhecimento, ou seja, tornar aquilo que não sabemos em conhecimento certo. Só guardo certas ressalvas, pois a religião – aquilo que não sabemos e imaginamos – é justamente aquele tipo de conhecimento que sentimos como absolutamente certo, logo como bem lembra inúmeras vezes Adorno, é necessário o cuidado para que a ciência não recaia no mito.

 

De algum modo me causa mal estar saber que no campo do conhecimento existem duas respostas diferentes a pergunta “Como proceder diante do real?”. As ciências humanas e parte da filosofia parecem responder de um modo e as ciências exatas de outro. Essa divergência se da, ao meu ver, pois nas ciências naturais sujeito e objeto são separados e nas ciências humanas não. Segundo Adorno, esse ultimo fato justificaria o método dialético nas ciências humanas. Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais. Recentemente elaborei um texto tratando desses e outros assuntos pertinentes a uma tentativa de unificação que logo digitarei e postarei aqui no blog.

 

Se no campo da teoria objetiva ainda não encontrei satisfatoriamente uma relação entre ambas essas áreas, na minha pratica subjetiva tenho claro que as ciências naturais me fornecem parâmetros formais e de conteúdo na filosofia. Formais, pois quando os pensamentos lógicos, racionais e empiristas são passíveis de serem aplicados temos a obrigação moral de o fazer e onde eu aprendi a pensar assim foi nas ciências exatas. De conteúdo, pois existem certas áreas do conhecimento que já são conhecidas ao certo e não podem mais serem debatidas como se fossem conhecidas com duvida, como certas partes da psicologia e a existência de princípios metafísicos ocultos (Deus entre eles),  assim a contribuição é de mostrar que conteúdos simplesmente não são mais território da filosofia. Nas palavras de Adorno: “A filosofia não se transformará em ciência, mas sob a pressão dos ataques empiristas banira todos os posicionamentos que, por serem especificamente científicos, são devidos às ciências particulares e obscurecem os posicionamentos filosóficos”

 

Desta experiência de vida penso que aprendi duas coisas: (1) dedicar toda a sua existência a unificar o conhecimento humano na adolescência te faz ter crises existenciais desnecessárias para essa idade e virgem ao final do colegial. (2) Ter namoradas, vida social (por comparação) e diversões banais te faz ligeiramente mais feliz, mas burro e com saudades do tempo que lia Kant o dia todo. Dessas duas considerações concluo uma terceira: (3) tenho que achar um meio termo.

 

Retornando ao meu dilema epistêmico: cada vez que cedia a um lado sentia que traia o outro, como se fosse para a Filosofia para nunca mais voltar a Álgebra Linear e a Física. O velho Aristóteles havia, no entanto, graciosamente plantado suas sementes em mim ao definir a filosofia como “a ciência das ciências”, “a arte da sapiência”, que lida com os universais e com a causa primeira. Mesmo o nosso dicionário aponta a filosofia em primeiro lugar como “O estudo do real.” (atenção para o ponto final). Por que então hoje em dia tão freqüentemente identificamos esta nobre ciência das ciências com as ciências humanas? Por que, na USP em grau máximo, nas universidades os departamentos de filosofia parecem mais agrupados com as ciências humanas do que com as naturais? Quanta inveja da Grécia Antiga em que a physis era também tarefa de obrigação de qualquer filosofo, conjuntamente com escrever textos sobre moral e poética.

 

Recentemente, talvez um pouco a margem dessa minha busca obsessiva por unificação, retornei Nietzsche após 11 anos. Devo dizer que minha plena concordância com esse pensador me faz pensar se lá nos começos de minha infância a leitura do Zaratustra não plantou profundas raízes em minha personalidade. Sempre acreditei como Aristóteles que: “De fato, o sábio não deve ser comandado, mas comandar, nem deve obedecer a outros, mas a ele deve obedecer quem é menos sábio” ou seja, que a filosofia é a tarefa dos senhores.

5 Questões que quero descobrir a resposta

1 O que é mais simples é mais provável que o complexo? Se sim, porque, que lei rege isso?

2 O espaço é infinito em algum sentido? Seja espacialmente, seja em quantidade de universos etc?   Isso implicaria que existem infinitos mundos iguais ao nosso, etc….

3 Há razões para se agir moralmente?  Se houver, são razões para se agir moralmente em qualquer caso, ou razões para se agir moralmente quando isso for aumentar a felicidade do mundo?

4 Existe algo além da felicidade?  Se modificarmos a condição humana, e alterarmos nossos cérebros, será que existe no espaço do possível outro sentimento que não surge por seleção natural que também é um fim em si mesmo?

5  Relacionamento amoroso vale a pena? Darwin, antes de se casar, fez uma lista de prós e contras do casamento em relação a comprar um cachorro.  Se essa lista fosse feita, com uma enumeração extensiva, será que o resultado seria positivo para o lado do relacionamento? Ou esse tempo seria melhor dedicado a alguma outra atividade?

Complexidade irredutível

Destoando um pouco dos tópicos usuais daqui, estou postando o meu primeiro post no blog. Que por sinal, publiquei também no meu blog particular.

Muitas pessoas tomam a complexidade e a beleza da natureza como evidências da existência de Deus ou de alguma outra entidade inteligente ou superior. Primeiramente, quero mostrar que existe aí um claro viés de observação: O universo é basicamente uma vasta imensidão de vácuo com umas bolinhas de gás lá e cá e nele a Terra parece ser uma incrível exceção; nosso planeta é um lugar muito especial no universo, não conhecemos nenhum outro tão diversificado em formas e estruturas complexas, assim, precisamos tomar cuidado ao tomar a Terra como referência. Nós vemos tanta complexidade porque o surgimento da vida (e nosso) requer tal complexidade; não poderíamos ter aparecido num lugar típico qualquer para observar a não-complexidade do universo. Já o viés da beleza deve-se simplesmente ao fato de vivermos melhor se admirarmos a natureza do que se não o fizermos; isto é útil a nossa sobrevivência e provavelmente foi selecionado por causa disso. Talvez daqui a milhares de anos as pessoas vejam mais beleza nas paisagens artificias porque isto as tornará mais adaptadas. Não é tanto a beleza da natureza que nos impressiona, quanto nós que impressionamos beleza na natureza.

Descontando-se os viéses, é muito interessante que existam tais formas na natureza e conceber o seu aparecimento espontâneo me pareceu completamente implausível até que conheci sistemas muito simples capazes de gerar grande complexidade. Vou dar alguns exemplos:

Os números primos

Os números naturais são os números que usamos para contar: 0, 1, 2, 3, 4, …
É um teorema bem conhecido que todo número natural maior que um pode ser expresso como a multiplicação de alguns dentre estes números, chamados por isto números primos (primeiros). Na verdade os primos são infinitos, mas são poucos comparados aos naturais. Ou seja, alguns dos naturais (os primos) são suficientes para gerar todos os outros por multiplicação. Veja:
2 é primo
3 é primo
4 = 2*2
5 é primo
6 = 2*3
7 é primo
8 = 2*2*2
9 = 3*3
10 = 2*5

No entanto, embora definir os naturais (zero e sucessor) e os primos (números que têm exatamente dois divisores distintos) seja relativamente simples, a estrutura da seqüência dos números primos é extremamente complicada. É muito difícil de se prever a sequência dos primos sem ter de testar a primalidade de uma montanha de números, e os matemáticos têm tentado compreender as propriedades desta seqüência há mais de 2000 anos. É um grande mistério de onde vem tal complexidade:

Descubra o padrão, entre para a história e tenha o mundo aos seus pés.Riemann menos Pi. Obtido em: http://www.secamlocal.ex.ac.uk/people/staff/mrwatkin/zeta/ss-a.htm

A regra 110

Stephen Wolfram inventou um sistema muito interessante de codificar certas regras de gerar padrões em fileiras de quadradinhos (autômatos celulares):

A regra 110A regra é a seguinte: começa-se de uma linha de quadradinhos brancos, com exceção de alguns pretos; para cada quadradinho da linha, compara-se ele com seus vizinhos, e pinta-se o quadradinho abaixo de acordo com a regra. Repete-se para cada nova linha formada. Curiosamente, aparecem padrões como estes:

A regra 110

Regra 126Regra 126: Fractal de Sierpinski
Novamente, não me é claro de onde vem esta complexidade, não me parece estar especificada na definição.

O Fractal de Mandelbrot

Benoit Mandelbrot descobriu que se pegarmos um número complexo c=a+bi, elevarmos ao quadrado, somarmos c, elevarmos ao quadrado, somarmos c, e repetirmos isto infinitamente, alguns destes números c vão para infinito (em pelo menos uma de suas partes), e outros não. Se pintarmos de preto num plano de Argand-Gauss, os números que não vão para infinito, encontramos uma estrutura muito interessante, o conjunto de Mandelbrot:

O conjunto de Mandelbrot
Olhar esta estrutura mais de perto só a revela mais e mais complexa. Acho que este é um caso gritante da complexidade surpreendente que quero mostrar.

Enfim, minha intenção era mostrar que sistemas de definição formal simples podem expressar uma complexidade muito maior do que a intuitivamente esperada, e que não devemos ser céticos em relação a isto. Não é tão surpreendente que a mera dinâmica casual possa ter provocado o aparecimento de estruturas tão complexas quando as vistas na Terra, o surpreendente é que dinâmicas simples possam gerar estruturas tão complexas. Qual é a origem desta complexidade?