Flights from Reality

Num artigo de mesmo título, escrito para o times dos anos trinta, Russell comenta sobre o habito da leitura, discutindo esses pequenos vôos da realidade, esses desvios possíveis ao quais nos damos o luxo de habitar durante uma leitura de uma boa ficção.

Gostaria de que colocássemos aqui diferentes reflexões sobre esse hábito, não o da leitura, ouçam-me bem. Mas o hábito de deixar-se levar para fora da dita realidade, do mundo de nossos afazeres pleonasmicamente mundanos.

Há diversas maneiras de se sair da realidade, e pelo que aprendi até hoje, cada um dos colaboradores do blog poderia levar-nos, por algum tempo, ao seu nicho particular de viagem, a sua pequena caverna na qual ele desfruta os sabores do poder sobre as forças incontroláveis. O poder sobre as forças incontroláveis caracteriza, em alto grau, a ficção, e acho que quando dizemos que alguém de fato está a avoar-se da realidade, ao menos parcialmente implicamos que esse alguém está desafiando alguma força da natureza.

Os vôos para fora da realidade podem-se interpor através da literatura (e aqui acho que teríamos um pouco de problemas entre os membros para relatar o assunto), da poesia (onde creio que o Thor e o Nagase possam dar boa conta), da arte gráfica (e aqui, pedirei, ainda outra vez, a colaboração do Alê, do Arthur também), dos alteradores químicos de consciência (vários podem contar experiências aqui), do delírio e da loucura (Davi, nosso psicólogo poderia nos auxiliar nesse campo), e também da imersão em pequenos nichos sub-sociais e sub-lunares, nos quais há uma transformação total dos conteúdos de nossas intenções, desejos e frases, em outras coisas (O João poderia falar um pouco da nerdisse, alguém de jogos de computador, eu de Magic, vou pedir a algumas meninas que falem de astrologia como evento social), se alguém aqui é bom de sonhos lúcidos, também poderia relatá-los. Por último, estados auto-induzidos psicologicamente de desafio da realidade, que eu me empenharia em relatar (Por exemplo induzir a si mesmo uma crença estranha, induzir os próprios desejos, induzir-se ao nada, como na meditação).

Peço exceção portanto nesse post para que os comments possam ser grandes (até os convoco a serem!) e sugiro algumas formas canônicas de comentários, para evitar que se comece com “Eu acho que meditar é pior que ser nerd porque … e eu sou nerd porque bla bla bla”. Ou seja, para evitar defesas de pontos de vista e possibilitar apenas intercâmbio de mundos conhecidos:

1 Descrever a experiência como um todo, ex: “Ler histórias de detetive nos leva para …. e a sensação… com as consequências ….”

2 Descrever experiências particulares  “Numa viagem de ácido que tive as cores …. e ouvi as pedras….”

3 Uma abordagem genérica ” O homem busca o imaginário pois….  e a condição humana …. o amor então é … ”

Esse post não tem como objetivo ver quem é melhor ou pior nos seus vôos para fora da realidade (então críticas a nerdisse, astrologia, ou drogas, não são bem vindas) seu objetivo é discutir a experiência humana desse desvio do mundo real, e conhecer alguns dos mundos possíveis de se acessar, de diversas maneiras, por favor, não discutam coisas pentelhas, sejamos, a la Alberto Caeiro, “Simples e calmos, como os regatos e as árvores”.

Para garantir, COM CERTEZA que não haverá comentários que não sejam dos tipos canônicos acima nesse post (tipo “A descrição do Thor é interessante porque revela que …”) eu vou postar um outro post que chama COMENTÁRIOS SOBRE OS FLIGHTS FROM REALITY.  E alí devem residir quaisquer meta comentários ou outros que não se encaixem no pré-estabelecido.

Abraços, e não levem minhas obsessões organizadoras à mal.

Um último pedido:  Se você for escrever um coment, faça-o ANTES de ler os que já escreveram, isso evita que sua cabeça fique com uma forma prévia de quanto, como e o que escrever, e diminui a chance de vc não escrever porque já cansou de ler os dos outros.

I

Que as nações tenham de passar por algum tipo de conflito para se formarem como tal não é nem um tributo aos freqüentes banhos de sangue que antecedem proclamações de “países” nem a tentativa de criação de uma “lei histórica”. Será uma lei só se vista através do conceito preciso de nação moderna, quer dizer, para se juntar ao grupo de nações modernas um território precisa passar por um conflito profundo, uma “tragédia sísmica” que o insula e recorta, ao menos nos corações e mentes.

Que as nações tenham se formado em períodos tão diferentes prova que não falamos de uma exigência natural da dinâmica política que se formem estados modernos. Na verdade a tendência é contrária e as forças internas e conservadoras de um território tendem a protelar ao máximo esse processo. O processo também não surge por uma demanda popular ou algum tipo de necessidade interna, mas é o resultado da subserviência de um território atrasado e a reação que se segue. Afinal se Brasil ou Índia se formaram como nações não foi por um ato real de unificação ou por algum resultado de suas dinâmicas internas consideradas por si mesmas, mas se deram em reação a poderes exteriores imperialistas; reação contra a espoliação. É nessa tendência mais ou menos universal que podemos achar uma justificação da tendência mais ou menos universal da exigência de um conflito profundo, de uma revolução, guerra civil para que se constitua uma nação.

A evidência empírica é enorme. Espanha, França, Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália. Américas inteiras – Brasil, América Espanhola e Estados Unidos. Japão, China, Vietnã, Índia. Como exceções notáveis temos por exemplo Austrália e Nova Zelândia, talvez Canadá. Não falamos portanto de nenhum tipo de Lei histórica necessária. Mas é inegável que na grande maioria dos casos um país só é um país após um ou vários tremores em seu âmago.

II

Nota-se rapidamente que fica difícil falar na invenção de um país através de um só ato – tanto um ato “cênico” quanto um ato efetivo. Não é uma batalha ou a assinatura de uma constituição que vão moldar uma nação. O caso dos Estados Unidos salta a vista. Se falamos desse abalo sísmico, onde encontramos em sua história? Seria na guerra de independência, que uniu diversos territórios, etnias, religiões em torno de alguns valores comuns; ou a guerra civil, um espasmo da diferença de territórios antes unidos só por um inimigo comum? Aqui o terreno é mais nebuloso, e teremos de nos expressar beirando a sofística. De certa maneira uma guerra foi a conseqüência latente da outra; uma certa consumação tardia. Mas também foi resultado de um processo de adaptação e homogeneização que não durou somente durante o período oficial de guerra, mas se manifestou nessas como massas de terras sub-oceânicas que aqui e ali, em suas maiores elevações formam montanhas, ou vistas de cima, ilhas.

Portanto em primeiro lugar, reserva e sofisticação no uso desse conceito de “conflito formador”, atenção para seus limites e a atenção da relação de seus elementos com as particularidades próprias de seus territórios. E as conseqüências particulares também…

III

Essa discussão no entanto não é importante pela precisão histórica que ela pode dar ou então pelas simplificações colegiais em que pode incorrer, mas pelas conseqüências políticas e sociais que ela nos ajuda a entender.

O caso do Brasil é emblemático. O país se inventou diversas vezes: Descoberta e formação de instituições coloniais, vinda da família real e transferência da corte, independência formal, inúmeras supressões de revoltas com convulsões internas e guerra do Paraguai, e finalmente o nacional desenvolvimentismo de Getúlio. Cada uma dessas etapas deixou marcas profundas no tecido social, incluindo o fato curioso de o Brasil, país de etnias, religiões e regiões muito diversas ter pouquíssimos conflitos regionais ou separatistas (e não por um pacto federativo bem acabado, pelo contrário,há e houve um centralismo grande de fato). Mas o mais marcante de cada etapa é o fato de que nenhuma delas é uma mudança que vai além do necessário para manter a maior parte da estrutura anterior. A independência só tirou Portugal da posição de intermediário no comercio com a Inglaterra, o Brasil continuou na mesma posição de antes no contexto do comércio mundial e estrutura produtiva. O Getúlio das leis trabalhistas era o mesmo que dizia ser o melhor amigo da Burguesia brasileira, e não seu inimigo. A famosa frase de Leopardi, “tudo tem de mudar para que tudo continue igual”, essa sim tem na terrinha o privilégio de lei histórica. Poderíamos traçar as origens dessa tendência à acomodação em diversos fatores culturais, vindos da tradição ibérica, da ausência de movimento de independência por motivos contingentes, do patriarcalismo das relações sociais , e alguns outros elementos. Mas esse trabalho escapa a nosso escopo aqui. Queremos agora ver as conseqüências desse “comodismo” brasileiro e a estranha unidade aparente do Brasil apesar de seu âmago restar intocado.

IV

O Brasil é um país desprovido daquele espaço ideal do público: res publica. Não há disposição de se sacrificar o pessoal pelo público. Os EUA, país do capitalismo e individualismo por excelência tem sim o seu espaço público, uma convenção de valores e um ideal de nação que permeia toda consciência da nação. Ali não é incomum que se doe dinheiro a universidade que se estudou, que milionários se dediquem a filantropia e criem verdadeiras instituições de pesquisa, artes, desenvolvimento ou cultura. Como em todo lugar há uma boa dose de hipocrisia e a falência desses valores por ali é um processo mais recente, mas ainda assim é um lugar de onde uma figura marginal como Noam Chomsky pode falar de seu país como “greatest country in the world”- O melhor do mundo! Uma coesão social curiosa dadas as diferenças gritantes nas opiniões de Chomsky e a da América média.

Sobre a Europa em geral então a expressão desse ideal é mais gritante e menos necessária. Representações físicas desse ideal, parques, escolas e sistemas em geral, de transporte, educação e todo o mais mostram o grau de sacrifício que o individuo está disposto a se sujeitar pelo público (através de impostos bastante altos as vezes. Imagine dedicar 70% do seu salário ao governo – escandaloso e sueco).

V

Essa inexistência de espaço público é efeito direto da falta de uma força unificadora, um princípio harmonizador que é raramente encontrado em tempos de paz, fora de forças armadas ou guerreiras ou subversivas. São nos camisas negras, nos portadores do livro vermelho ou nos puritanos calvinistas; em toda sorte de iludido idealista (que oxímoro) que se encontra a força e impulso que constituem uma nação. O apagamento temporário das individualidades, das diferenças em vista de algo maior é o que dá origem a uma verdadeira nação, e não uma coleção de indivíduos que acha coletivamente proveitoso subsumir-se legalmente a uma categoria arbitrária de país para ganhar reconhecimento internacional. Os poucos intelectuais que ousavam demandar uma Europa unida eram uma minoria antes que duas grande guerras fizessem ocorrer ao Europeu médio que talvez a etnia e religião do seu vizinho fosse menos importante do que ter um governo central e democrático (enquanto o tal vizinho for um europeu também. Nenhum respeito ao marroquino sujo…).

Nem à direita nem à esquerda o Brasil teve algo ligeiramente apelidável de revolução. Acomodações e cessões esterilizavam qualquer processo e esvaziavam seu significado. O general Golbery entendeu bem as regras do jogo e foi um dos principais catalisadores da criação do Partido dos Trabalhadores, em plena ditadura. Comandou a transição pacífica, conseguiu trancar segredos e fazer com que a transição se desse calmamente, com interesses aqui e ali assegurados. À hora da constituinte, mesmo com o dorso moral que certos deputados lhe conferiam, seu alcance não poderia ser mais do que limitado.

VI

Felizmente as linhas de tensão da história não são uniformes, não há leis históricas ou etapas determinadas. Enquanto o Brasil em muitos sentidos ainda é uma ficção romântica, ele tem forças descomunais e particulares que poderiam no futuro servir de tijolos à construção de um ideal verdadeiro (ou seja, com conseqüências efetivas). Seu apreço pela diversidade (e não uma simples tolerância como na tradição protestante), sua capacidade de juntar sem prejudicar as partes é especial por si, e mais ainda considerando o déficit global desse tipo de atitude. E parece ser o absoluto melhor material para se constituir uma nação, não só mais um entre outros. Arriscaríamos mesmo a dizer que até agora o Brasil se deu ao luxo de se formar tão pouco como nação pela sua potência exagerada pra tal, por um gasto mínimo energia, onde tão pouco impulso constituinte produz uma coesão tão surpreendente? Por enquanto ainda um gigante adormecido, um urso em hibernação. Mas só ursos, não ratos, podem hibernar, e seu despertar é sempre poderoso,

Potencia e vontade de potencia

Conatus: o principio ontologico proposto na Etica de Espinosa de que cada ser visa preservar-se. E aqui o lugar comum aristotelico de que os seres “sublunares“ sao todos corruptiveis é reformulado, ja que todos os modos sao por definiçao insubstanciais, logo causados, e portanto com começo e fim. Importante ressaltar o carater ontologico e nao somente biologico do conceito. Aplica-se a todos os corpos e ideias e outros modos de outros atributos inacessiveis a nos, pobres humanos com acesso a somente esses dois aspectos do real.

Ja vontade de potencia é um bocado mais dificil de definir. Pelas proprias metodologias antipodas de Nietzsche e Espinosa, uma certa ambiguidade proposital, uma evoluçao do proprio conceito na obra e suas diferentes apropriaçoes por diferentes autores de peso. Heidegger dira que ela é uma ontologia escamoteada mesmo no mais critico dos autores, e que a vontade de assenhorear-se das forças e elementos do mundo é uma lei incrustrada no real, no proprio ser, a estrutura mesma do mundo (como pensariamos vulgarmente ser as leis da fisica, ou os designios de Deus retrocedendo alguns séculos). Scarlet Marton diz ser a retomada de uma cosmologia a la pré-socraticos, como Tales, Anaximandro, Heraclito, etc, que construiam seus cosmos (do original grego ordem ou sistema arranjado; oposto ao caos) postulando uma physis, como a agua, o ar e o fogo foram pra aqueles. Ja Carlos Alberto Ribeiro de Moura dira que o conceito escapa a qualquer pretensao ontologica e que Nietzche é sim a ”ultrapassagem” do dogmatismo classico essencialista, como promete, e é somente (mais) uma interpretaçao privilegiada, submetendo esse conceito ao perspectivisimo nietzcheano.
O conceito ainda traz problemas quanto ao seu conteudo. Aqui ha mais consenso sobre se ler a vontade de potencia como uma vontade de assenhorear-se. E esse é um prisma interpretativo que percorre toda a obra nietzcheana madura: em suas analises de Estado e politica, por exemplo quando considera que um poder muito absoluto nao pode senao ter suas partes constituintes se voltando contra si e competindo, mas que a situaçao oposta, de a oposiçao a um poder muito grande gerar profunda uniao; e suas analises dos afetos, das relaçoes pessoais, dos livros e ideias muitas vezes passa por esse mesmo prisma.

Pois bem. A comparaçao dos dois conceitos nao é novidade. Parte do proprio Nietzche, que tem uma imagem shoppenhaueriana do Espinosa (obra mas principalmente vida). A saber, que Espinosa tinha sido um ”tipo” comum do séc. XVII, o ateu virtuoso. Criou-se uma imagem de um contemplador honesto e placido mas que para a confusao dos teologos era ateu (para se ver até onde ja se chegou a vontade de verdade e o refinamento e boa fé do pensamento: como se um daqueles fanaticos americanos a la jesus camp pudesse admitir tal possibilidade ao inves de pensar em absolutos toscos. But I digress…). Nietzche fara uma analise fisiologica e dira que a filosofia espinosana resulta numa etica ascética, como comprovada em sua doentia vida inerte, de um simples amante da verdade imune ao devir do mundo por uma conexao com um Deus ”desprovido de carne”, o mais longe possivel daquele Deus vivente, de Abraao e Jaco, de que falava Pascal em oposiçao ao arquiteto perfecionista e constante de Descartes (a discussao aqui gira em torno dos milagres e de Deus como uma figura antropomorfica). Dira que o conatus ja esta implicito na vontade de potencia, portanto nao o nega, o afirma, mas diz que é uma constataçao obvia e sem valor que algo que quer assenhorear-se e dominar precisa se manter ao menos no patamar onde esta: entra-se em campo pra ganhar, mas na impossibilidade disso, que ao menos se empate!

O conatus espinosano se complica muito mais que a vontade de potencia quando lembramos que para ele o fluxo do mundo é um dado e muito mais complicado que em autores anteriores. Assim, embora as ideias e coisas tenham uma existencia/essencia garantida por serem os produtos inimpossibilitaveis de um Deus que cria absolutamente tudo que pode (ou seja, tudo que pode ser criado por um Deus que pode criar tudo de infinitas maneiras), as coisas ainda tem duraçoes, e nao sao como na tradiçao platonica crista frutos de ideias atualizadas em corpos/almas que tem uma duraçao independente da sua propria ideia, essa sim imortal pois parte de Deus. A Idéia é a coisa e a coisa é a idéia. Mas aqui precisamos entender como algo que morre (nosso corpo e alma) tem no universo uma existencia permanente. A chave aqui é lembrar que a duraçao so existe do ponto de vista da criatura, nao tem valor ontologico, e que o universo visto por deus é um grande solido estatico de quatro dimensoes. Assim dizer que algo existe agora mas nao em 1900 é algo que so faz sentido para uma criatura que ve o mundo como uma secessao de estados graças ao poder imaginativo de seu corpo (em oposiçao a faculdade de pensar que contempla as coisas desde o ponto de vista da eternidade).
Mas voltando ao conatus, nesse fluxo complexo que é o cosmo, nenhum modo (criatura) pode aspirar a uma verdadeira substancialidade, ou seja, a realizaçao desse conatus, que dependeria da impossibilidade de ser influenciado por algo outro que nao si mesmo. o conatus é um principio dirigente, nao um fim, muito menos um fim realizavel. Assim chega-se a imagem estranha de um ser que para preservar-se e si mesmo precisa…modificar-se! Essa imagem cessa de ser tao estranha quando pensamos no ser humano, que precisa realizar multiplos comércios com o ambiente, como a alimentaçao, para manter um (aproximado) mesmo ser. Uma repetiçao e diferença, se quiserem.

Assim a idéia de ligaçao, que parecia separar a vontade de potencia do conatus nao mais o faz. Ela os aproxima.
E nao conseguimos deixar de sentir reminiscencias nietzschenas quando lemos no tratado da emenda do intelecto que a causa da infelicidade dos homens é unir-se(amor-eros) com coisas pereciveis como dinheiro, causas e mesmo amigos, embora ele dedique a esses uma bela homenagem. E podemos facilmente ler que essa uniao é justamente uma junçao de potencias, contida num mundo de forças determinadas em seu conjunto infindaveis (como a reuniao de todos os corpos, que cegamente se chocam, unem, desunem, ou de todas as idéias-mundo cultural- que igualmente se ”chocam”, ”modificam”, etc). E uma concepçao de mundo muito parecida com a Nietzscheana exceto por um detalhe: a opçao que Espinosa da pela busca de uma suprema beatitude, a uniao com algo de imperecivel que permitisse ao homem olhar com descaso para as partes individuais e pereciveis e se consolar com uma visao de totalidade e eternidade do mundo no seu nucleo mais profundo. Se um deus tao sem carne tem algum poder consolador é algo que nos parece improvavel.
Mas e se tirassemos esse Deus, quer pela refutaçao da prova ontologica, quer pela morte mais bem cultural de Deus, quer por uma evoluçao violenta da vontade de verdade que contivesse os dois elementos anteriores. Merleau-Ponty diz que a marca do racionalismo do XVII, aquilo que une desde pascal até espinosa é a crença num infinito positivo (ao contrario do infinito como mera negaçao, como sera considerado depois inclusive pelo proprio MP.
Assim poderiamos dizer que as concepçoes de mundo sao muito parecidas, se ao menos retirarmos a crença num infinito positivo. O que sobra sao forças cegas em choque constante, sem qualquer barreira entre fisico e psiquico e social (o que permite as interpretaçoes verticais em Nietzsche), que se ligam e se separam sem nenhuma totalidade possivel, nenhuma finalidade no todo, ou mesmo nas partes se excluirmos o poder interpretativo de uns macaquinhos arvorados numa pedra no meio da via lactea. é claro que as consequencias éticas aqui sao tremendas. Nao existe tal suprema beatitude, nao existe nada que possa ser designado supremo, o infinito é somente uma virtualidade e sempre se pode ir além. Nenhuma resignaçao nem ascética nem ascética a maneira espinosana ( que nao tem a ver com renuncia ou pureza e portanto nao mereceria esse nome-consultem a ultima proposiçao da Etica pra mais esclarecimentos).

Bem apos esse exagerado e quase nao necessario panorama, preciso ainda assim dizer que conatus e vontade de potencia, apesar de coincidirem parcialmente, so seriam o mesmo principio do ponto de vista de um paranoico que acha que nunca esta suficientemente armado contra o devir,que acumula como proteçao e escravisa para nao ser escravisado. Ou seja, nao é bem assim.

Ha no entanto um principio espinosano que me agradaria mais aproximar da vontade de potencia que o conatus. é a potencia, ou produtividade. Ali onde Descartes trabalha com nada, finito(homem) e infinito(deus), espinosa fara o mesmo, mas dara uma marca a essas constataçoes que sao, no entanto, imediatas: a potencia, intercambiavel pela perfeiçao. Essa igualdade ressalta um lado muito importante de um pressuposto basico espinosano, baseado naquele ainda mais fundante da causalidade estrita e inquebravel entre todos os elementos do cosmos: a de que a perfeiçao nao é somente a capacidade de optar e ai fazer, nao é um direcionamento de forças mas uma eclosao cega de forças tomada em seu valor total. Deus nao seria melhor por evitar criar um mundo com sofrimento, ele seria menos perfeito, nao seria mesmo Deus por nao ter a potencia de criar absolutamente tudo. Perfeiçao é potencia de criar,e so. Caprichos e contingencias nao cabem a ontologia, assim como consideraçoes morais ou outras interferencias do ser enquanto alguma coisa no ser enquanto ser.

E de certa maneira criar é assenhoriar-se, ha uma hirierarquia dada entre o criado e a criatura. Potencia e Vontade de potencia. Potencias plasticas e moldantes. Claro que Espinosa nao prescrevia diretamente essa escalada que significa a vontade de potencia, mas isso porque ele tinha em maos o infinito absoluto, e com ele, o pacote completo do cristao, mas retrabalhado: Deus, beatitude, vida eterna. E nem seu comportamento era tao indiferente ao curso das coisas, como mostra suas preocupaçoes praticas e teoricas em relaçao a politica, seu apreço pela amizade (que no entanto é um amor a algo finito) entre outras cutchi-cutchices do nosso judeuzinho.
Assim, como provavelmente nem ele conseguia se enganar tanto a respeito desse espectro desencarnado que é seu Deus, ao menos no nivel do consolo(da mesma maneira que Nietzsche acusa Schoppenhauer de um descolamento pratica teoria ao denunciar o habito daquele de tocar sua flauta antes de dormir, seu odio pelas mulhers, etc), aplicou sua potencia gigantesca principalmente de pensar a se assenhoriar com uma logica dura e estrita e um medo descomunal das fogueiras inquisitorias das mentes e coraçoes, a ponto de se traçar a ele o começo do iluminismo, de Hegel e Shoppenhauer, o romantismo alemao, a filosofia analitica, kant, e etc o tomarem como um ponto basilar da filosofia, ou seja, Espinosa se assenhorou assustadoramente do pensamento politico e filosofico de eras inteiras. (Se me utilizo de um psicologismo, e quereis me condenar, é porque sois seguidores do metodo estrutural ao que retruco que aqui estou no ”real nietzcheano”, e que vos fodeis).

é isso. Vou salvar voces de continuar essa minha prosa aspera e tosca, errante e coroada com a falta de acentos do meu teclado defeituoso. é um esboço, ou melhor ainda um vomito em prosa, que ainda nao tive a chance de elaborar com um minimo de rigor e estrutura. Por isso redobro o pedido por correçoes e discussoes sobre o assunto, embora seja um bocado tecnico, é tambem bem interessante. E salvo voces agora da continuidade desse discurso ”oscar”

PS: notem que eu podia ter continuado o ciclo vicioso anterior ad nauseum(pensem literalmente, nao deixem o latim os separar do sentido original, e ai voces chegaram ate onde eu podia ter chateado voces). Mas agora, a suprema beatitude do silencio.