Uma pequena crise de valores minha.

Pedro e Diego

Pedro e Diego são irmãos, pedro tem 22 anos, Diego tem 12, seus pais se separaram quando Diego tinha apenas 4.

Parênteses são pensamentos. Aspas são ações.

Pedro: – Pessoal, tá na hora, bora ir para a festa? Já tou esperando a vinte minutos….

Diego: – Pedro! Fica aqui e joga videogame comigo?

Pedro: – Não posso Di, vou sair com meus amigos, a gente vai na casa do zé.

Diego: – Mas não vai ser mais legal que ficar aqui e jogar videogame, fica aqui, por favor… eu tou no castelo do chefe, e a gente pode jogar street fighter… Que que vocês vão fazer lá, ficar conversando? (que coisa chata que é ficar conversando…)

Pedro: – É, a gente gosta de conversar (O pessoal vai beber e talvez se pegar também, será que eu devo beber hoje?)

Diego: – Antigamente você dormia mais cedo e brincava comigo de carrinho, de cidade, fica aqui, por favor!

Pedro: – Di, eu tou ficando velho, eu quero sair com meus amigos (será que vai ter alguma mina gata lá? Putz, bem que eu gosto de videogame, e vai ter tanto cigarro….)

Diego: – Gente velha é muito chata, vocês saem, ficam bebendo e fumando, conversam as coisas mais chatas do mundo e falam que tão se divertindo. Amanhã vou com meus amigos no parque jogar frisbee.

Pedro: – (putz, deve ser muito legal jogar frisbee drogado, se pá um dia eu faço isso) Olha, eu sei que pra você parece chato, mas quando você tiver a minha idade, vai entender, a gente não gosta tanto assim de ficar em casa, porque tem o papai, e a gente não quer ficar perto (nem de criança pequena)… (ai ai, bem que eu gostava dessa época, eu assistia tevê e jogava magic comigo mesmo e me divertia muito)

Diego: – Não vou entender nada, você faz isso porque é burro, eu sei que você gosta bem mais de andar de bicicleta do que de ir pra esses bares porque odeia cigarro, você só faz isso porque todo mundo faz… Você vivia criticando as pessoas porque elas não eram criativas, eu consigo criar 5 jogos diferentes em uma hora, e você não quer brincar comigo e só sai com esses amigos.

Pedro: – (acho que vou sentar e atrasar um pouquinho e bater um papo com meu irmão) Olha Di, é o seguinte, antes, eu tinha mais paciência, e eu inventava os programas e chamava as pessoas, agora eu tou que nem o Rafa, cansado de as pessoas não terem respeito nem responsabilidade com os horários que elas falam, então eu aceito fazer o que elas forem fazer, pra não ficar tenso.

Diego: – É, mas fazendo isso você tá se divertindo bem menos, e também, seus amigos gostam de você justamente porque com você é diferente, porque seus programas são estranhos, e não têm drogas… Lembra do Alê te dizendo isso?

Pedro: – Tá, é verdade isso, mas também tem o fato de que agora meus amigos tão muito mais boêmios, não adianta eu tentar de novo criar os programas que eu criava antigamente e achar que as pessoas vão, e além do que, hoje em dia as pessoas só acham que um programa vale a pena se forem 8 pessoas, antigamente, elas se contentavam com 3…

Diego: – Os meus amigos, a Ju, a Lya, o Thi, o Lourenço, o Stevaux o Bruninho e o Florestan são no total 7, e eu me divirto bem mais jogando pique-esconde maluco e gol a gol maluco do que você nas suas festas com mil pessoas.

Pedro: – Isso é o que você acha! (Nossa, ele tá muito certo, que merda… quero entender melhor esse moleque) Porque você acha que eu fico até as 4 da manhã fora quando eu vou nesses lugares? Não é porque eu gosto?

Diego: – Você é bobo, fica indo em cafés e balada e bar e tal só porque você gosta das pessoas, mas nem precisaria, essas pessoas podiam muito bem ir com você no kart, no paintball, no parque, vim aqui em casa ver filme, jogar nonsense….

Pedro: – Olha, em parte você tá certo, eu as vezes fico com medo de não ir nesses lugares porque tenho medo de perder as pessoas, tipo, a Iara, o Feck, sabe, eles são muito legais, mas eles tão nessa vibe idiota de ficar saindo o tempo todo, e agora todo mundo tá assim, na verdade, todo mundo É assim.

Diego: – Nem todo mundo é assim, o Splin, o Davi e o Lucas não são assim, e a maioria se você chamar para vim pra cá ou para fazer algum programa vêm, a Gi e a Iara sempre saem com você.

Pedro: – É, mas como é que eu vou ver o Feck, o Rodrigo Godoy e o Thor se eu não fizer essas coisas?

Diego: – Mas se você não se diverte então você não devia ver eles…

Pedro: – Não é assim que funciona, eu gosto deles, eles são legais, é que tá todo mundo numa fase muito boêmia, eu preferia a fase saúde com a Let, ou jogar tênis com o Bruninho…

Diego: – Tá, então já que os seus amigos tão sendo bobos você tá sendo bobo igual, prometo pra mim mesmo que nunca vou fazer isso. E também não vou fumar nem beber.

Pedro: – Eu dizia a mesma coisa, beber é ruim, mas é engraçado as vezes, o chato é ter que conviver com as pessoas bêbadas, eu tenho que aceitar isso se não não tenho mais ninguém pra sair, hoje em dia todo mundo bebe, todo mundo fuma e fuma maconha.

Diego: – Isso é mentira e você sabe, você até outro dia só andava com gente que não fuma, e quem fumava nunca fumava perto de você, você que tá querendo conhecer pessoas que fumam e indo em lugares que você não gosta. A gente pode desenhar bandeiras!

Pedro: – Tá, hoje eu vou ficar pra conversar com você, quero ver se você entende porque eu faço essas coisas… Ó, seguinte, eu não quero inventar programas, porque dá muito trabalho, demora umas 6 horas para bolar um programa e ligar para todo mundo…

Diego: – Quem é todo mundo? Quantas pessoas?

Pedro: – Umas 35 40…. tá, eu sei, não precisa chamar tanta gente, mas é que todo mundo pergunta, quem vai? E se eu não responder umas 6 pessoas, as pessoas não querem ir, acho que eu não sou mais tão divertido quanto eu era antes, e acho que as pessoas não querem mais se encontrar em pequenos grupos, o que é burrice porque nivela a conversa por baixo, aí como ia ser ruim mesmo as pessoas bebem para que fique menos ruim, e obviamente, só piora. Ou sei lá, se pá eu tou exagerando…..

Diego: – Olha, você sai sim com poucas pessoas, anda de bike com o Renex, conversa com o João, passa dias e dias com a Gi, você não tá só exagerando, tá mentindo pra você mesmo. Eu gosto bem mais de jogar simcity do que de falar com meninas, então eu não fico falando com elas, você não gosta de ir no vanilla mas vai mesmo assim, você é é burro.

Pedro: – Olha tem outra coisa também, se eu não vou nesses lugares, eu sinto que estou perdendo o programa do dia, é como se o dia tivesse passado em branco entende. Não é uma boa idéia perder o programa do dia, porque se eu fico em casa eu me sinto mal, pensando que eu podia ter ido.

Diego: – blábláblá…. vou assistir meus amigos não conseguirem ter uma vida feliz sem ficar bêbados porque isso é bem mais legal que ver o corcunda de notre dame…

Pedro: – Tá, eu não sei direito o que fazer, eu acho mesmo que estou sendo meio idiota

Diego: – Só meio?

Pedro: – Eu entendi… Mas tem outras coisas também, como eu vou conseguir eventualmente conhecer meninas se eu não for nesses lugares?

Diego: – Pensa nas pessoas que você gostou na vida, quantas delas fumavam? Quantas delas gostavam de sair a noite? Quantas você conheceu num programa desses? Você não gosta desse tipo de gente, não para conviver o tempo todo, só as vezes, não é culpa sua que seus amigos viraram isso, mas você não é isso, não interessa o quanto gosta deles, se a ju e a lya começarem a fumar um dia, ou se o florestan ficar indo na balada, eu não vou mais sair tanto com eles, eu vou continuar saindo com o bruninho e o stevaux e pronto.

Pedro: – Você não entende, todo mundo é assim, quando você for grande, até você vai ser assim, exige muuuita energia fazer o que eu fazia de criar programas alternativos o tempo todo. E a outra opção é ser que nem o Davi, o Lucas ou a Sofia, e ficar em casa a maior parte do tempo, eu gosto de sair, eu queria que todos eles não fossem assim. (droga, como eu queria que eles não fossem assim) “lacrimeja e põe as mãos na cabeça” (mas não tem o que fazer, nem é culpa deles, nem minha nem nada, é natural que seja assim, odeio ser o último dos moicanos)

Diego: – Você está sendo duplamente burro, burro de ir nesses programas, e burro de achar que eles não vão mais te ver se você não for, é só fazer outras coisas e chamar eles.

Pedro: – É, mas eu sou inseguro, a Greyce sempre me zoa por isso (saudade da Greyce), eu não sei se eles vão continuar gostando de mim se eu participar só dos programas que não envolvem esse movimento tribal chato (quando eu convivia com a Érica, a Fabi, o Rô o Cid o Luis e o Davi não era assim, mas hoje em dia eles são assim também, fora o Davi, então não tem volta)

Diego: – Desenhei a do Nepal, é a mais legal!

Pedro: – É nada, a da Líbia é bem mais legal…. Passa o vermelho que eu quero desenhar a da Argélia agora, ainda tem argila?

Diego: – Não, eu usei tudo ontem…. Eu e o Florestan ficamos brincando e vendo The Critic, é muito engraçado!

Pedro: – hehe, é, faz mó cara que eu não vejo The Critic, eu só estudo e saio… (nem é verdade, eu faço um monte de coisas boas aqui em casa e tal, eu reclamo de mais. É que nem o Feck disse aquela vez, a gente finge que as coisas tem a importância 10 vezes mais mas nem é verdade, as coisas nem têm tanta importância, a gente acha que tem grandes questões, mas isso é meio delírio.)

Diego: – Tá vendo! Amanha eu vou ficar jogando Mario Party o dia todo, o que você vai fazer.

Pedro: – Ah, acho que vou num piquenique na praça do pôr-do-sol, depois tenho uma festa, aí vou vim pra casa jogar magic…

Diego: – Ó, viu, esse é um dia legal, você deveria ficar mais tranquilo, você fica muito preocupado de combinar as coisas.

Pedro: – (putz, como eu sou burro, ao invés de perder horas inventando programas e ligando para as pessoas, eu acabo perdendo horas descobrindo o programa do dia, eu deveria realmente voltar a planejar as coisas direito, com antecedência e tal. Tou decidido, vou voltar a fazer isso)

Diego: – Tá errado aquí ó, o amarelo é no meio.

Pedro: – Droga… Ei, mais tarde quer meditar comigo, parece chato, mas você vai se sentir bem tranquilo, é divertido

Diego: – Só se depois a gente brincar de lutinha.

Pedro: – Fechado! E o que você vai fazer essa semana?

Diego: – Bom, agora começou as férias né, vou ver Jurassic park 2 que tá no cinema, e vou na casa do Gaba, que eu conheci esses dias, tem mesa de ping pong e red alert ĺá.

Pedro: – E amanhã de dia?

Diego: – Ah, acho que vou ver tevê, vai passar um programa sobre a estação espacial, e vou com a mamãe no shopping, blergh! (se bem que talvez ela me leve no playland)

Pedro: – Acho que eu deveria as vezes ter um pouco mais de rotina, não sei… enfim você tá certo quanto a algumas coisas, e eu estou exagerando. Quando eu tinha a sua idade, eu costumava dar ordens para mim mesmo, dizendo por exemplo: Nunca vou deixar de nadar quando tiver uma oportunidade, nunca vou ficar em casa com preguiça quando puder sair, imagina, tou enfrentando o problema ao contrário agora, não quero sair tanto e fiquei aqui falando com você para perceber isso. Enfim, eu sempre tomava decisões e considerava que as decisões do passado deveriam valer no futuro. Várias vezes eu me desobedeci, agora, sinceramente, recapitulando, eu não vejo que na maioria dessas vezes foi para melhor. Se eu tivesse continuado todas as minhas regras (mesmo sendo obsessivas e tal) eu acho que eu teria me divertido mais.

Diego: – Eu sei que vocês acham conversar legal, mas as coisas mais legais da vida são montanha russa, piscina e jogos e tal. Essas coisas de ficar saindo só por sair é bobagem.

Pedro: – Você vai entender um pouco quando entender o que é gostar de meninas..

Diego: – Os seus amigos gays não gostam de meninas e saem muito mais que você

Pedro: – É mas isso é porque eles também gostam de sexo, foi o que eu quis dizer, você entendeu!

Diego: – Não não tinha entendido, eu achei que só meninas gostassem de conversar…

Pedro: – É mais ou menos….. Sei lá, mas tem algo de estranho acontecendo, e acho que você devia me ensinar a fazer um pouco essas coisas que você faz, voltar a gostar disso! Acho que você só pinta bandeiras até hoje porque você ainda acha que consegue fazer isso bem, eu não faço mais essas coisas que não acho que faço bem entende? Ó tá errado a lua da argélia é pro outro lado.

Diego: – Claro que sabe, o seu desenho tá bem melhor que o meu….

Pedro: – Mas tá pior do que o do arthur e o do alê.

Diego: – E melhor que o do Florestan, que o do Stevaux, que o do thi….

Pedro: – É, eu até que não desenho tããão mal.

Diego: – Que vídeo é esse que você estava vendo.

Pedro: – É de um professor nerd de computação da Carnegie Mellon, é um vídeo que ficou muito famoso porque é a aula final dele, sobre sonhos de infância, e ele estava com câncer e sabia que iria morrer. O nome dele é Randy Pausch, tá no youtube, demora uma hora e pouco.

Diego: – Aposto que ele não sai mais com amigos para programas que ele não quer….

Pedro: – É sem dúvida não….

Diego: – Você viu o filme Antes de Partir, é a mesma coisa…

Pedro: – É, mais ou menos a mesma coisa, chorei muito nesse filme

Diego: – Porque a gente não brinca de escrever os nossos Bucket List, as coisas que a gente quer fazer antes de morrer?

Pedro: – Não sei, acho que talvez fosse mais interessante eu escrever algo tipo um diálogo de mim comigo mesmo criança, para ver como os meus pontos de vista mudaram com o tempo… parece mais complexo e interessante

Diego: – Ah, por favor, agora fiquei com vontade, Ué, escreve o Bucket list e depois amanhã o texto, por favor vai, eu vou pegar as canetas!

Pedro: – mmmm tá bom vai, vamo lá…

Diego: –

1 Subir na escultura que tem entre aqui e a casa da vovó de bicicleta

2 Dar um grito da torre Eiffell < {< significa feito}

3 Ver o museu de dinossauros de nova york <

4 Zerar todos os Marios > {parcialmente}

5 Ir de novo pra a disney <

6 Acabar as provas mais rápido que todo mundo <

7 Ter o melhor deck de magic e ganhar do lucas e do stevaux <

8 Ser um grande cientista ou escritor

9 Beijar a Ju > {vale selinho, conta outros amores?}

10 Ser criança para sempre

Pedro: –

1 Publicar um artigo bom de filosofia ou ciência em um periódico americano

2 Não ter que trabalhar em nada chato

3 Entender o máximo sobre como o mundo funciona e sobre felicidade

4 Continuar perto dos meus amigos de verdade {nota, eu não saberia definí-los}

5 Fazer alguma coisa que eu possa olhar e falar, tá, agora é certeza, eu deixei um bom legado no mundo.

6 Zerar todos os Marios

7 Ir de novo para a Disney

8 Ser criança para sempre

9 Explorar todo tipo de universo ou experiência consciente possível, no mundo todo, na mente toda, e ao longo do máximo da história, passada e futura.

10 Fazer com que as pessoas ao meu redor vejam a vida de uma forma mais criança, e aproveitem toda sua magnitude, de uma maneira similar a minha {não sei em que sentido}

Diego: – Terminei!

Pedro: – Eu também, olha como somos metódicos, os dois deram 10 hahahah……

Diego: – Pois é…. Obrigado por ter ficado aqui comigo hoje, você as vezes não dá importância pra mim e eu fico aqui sozinho em casa.

Pedro: – Oh, vem cá, dá um abraço campeão. Tá na hora de dormir, vamo tomar um toddy que amanha vai passar o que mesmo no Discovery? (tá, se pá eu quero ter filhos)

Quando eu ia nascer, meus pais passaram uma semana decidindo entre Pedro e Diego, se as escolhas fosse entre essas duas etapas, entre esses dois Pedro e Diego, acho que eu prefiro tentar ser um pouco mais Diego. Talvez um Diego que incorpore os sonhos do Pedro, que afinal, são meus sonhos atuais, são as coisas que quero fazer, que gosto.

Essa é só uma entre tantas micro-crises que passam na nossa vida, como as que a Anita descreveu no blog e várias outras…. Seja como for, achei que eu devesse escrever isso para mim mesmo, e dar um olhada em o que afinal o pequeno eu pensa de mim, e quanto eu me importo com ele.

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O problema da imaterialidade dos valores

Estava refletindo sobre as implicações do meu último post e cheguei a um problema. Ele está relacionado a como se determinar se algo é bom ou ruim para alguém.

Se os valores são imateriais, isto é, não têm existência independente existindo somente enquanto houver quem os sustente, então todos os juízos se tornam também dependentes, e assim, parece razoável dizer que uma determinada ação só é boa ou má, benéfica ou prejudicial, se alguém assim a julgar. Uma implicação disto é que ações que destroem valores e juízos, ou que impedem que ocorram, deixam de ser julgadas. Por exemplo, suponha que eu mate alguém (instantaneamente, antes que a pessoa perceba que vai morrer) porque isto convém aos meus interesses; como a pessoa que morreu não é capaz de formular um juízo (supondo que juízos de mortos sejam irrelevantes), o único juízo a respeito do caso seria o meu, e que seria bom, portanto, matar a pessoa foi uma ação boa (quem pode dizer o contrário?). E existem inúmeras outras situações deste tipo, incluindo todo tipo de morte ou incapacitação mental intencional, roubar oportunidades e objetos de valor das pessoas sem que elas saibam (como o desvio de dinheiro público), impedir a divulgação de informação e a formação de senso crítico.

Isto me parece ser algo suficientemente contra-intuitivo para nos preocuparmos. Em suma, estou dizendo que não faz sentido dizer que algo é bom ou ruim ou que seria bom ou ruim para alguém se ninguém fez este juízo, esta proposição não tem nenhuma realidade, nunca ocorreu em nenhum lugar, é um crime sem vítima, um jogo sem jogador. Note que não estou falando de como as coisas devem ser, estou falando de como elas são; se não há ninguém para julgar algo como bom ou ruim não há tal juízo.

Isto é contra-intuitivo porque nossa moral não considera apenas juízos que ocorrem; nossa noção de certo e errado em geral é baseada numa opinião hipotética do outro, mesmo que o outro não exista realmente. Também avaliamos contrafactuais, isto é, situações possíveis, mas que de fato não ocorreram, ou ainda não ocorreram. É natural que a moral inclua julgamentos contrafactuais, afinal, ela serve para que convivamos bem em sociedade, o que exige que possamos prever e testar possibilidades condicionais. Assim, embora estas sejam noções importantes na moral, elas não parecem existir na ética. É interessante notar que as religiões não têm este problema, elas o resolvem por meio de um referencial moral privilegiado, isto é, uma moral absoluta (“material”) ou alguém onipresente julgando cada evento do universo.

Resumindo, estou tentando mostrar que embora consideremos moralmente erradas algumas ações envolvendo a destruição de valores (como assassinatos súbitos), elas não parecem ter relevância ética, uma vez que não há quem as julgue como prejudiciais. Mas não creio que isto signifique que nossa moral é inadequada, creio que isto indique que há mais a se considerar, que este raciocínio ignore alguma coisa. Não parece nada razoável que matar ou incapacitar as pessoas seja algo bom desde que seja feito de modo que não tenham como reagir (por exemplo, remover parte do cérebro de uma pessoa sob anestesia). Entretanto não se pode dizer que em algum momento ela tenha sido ruim para alguém. O mesmo vale para o roubo de oportunidades. Onde está a falha?

Não sei. Mas acho que há algumas pistas. Suponha que existam cientistas muito interessados em realizar um experimento científico cujo resultado seja potencialmente útil ao progresso da humanidade, porém tenha alguma chance de extingui-la instantaneamente (qualquer semelhança com certos experimentos reais é mera coincidência), uma espécie de roleta russa da humanidade. Se o experimento der certo, teremos um benefício, se der errado, teremos a eliminação de todos os valores, e portanto algo não avaliado. Como argumentei no meu post anterior, a existência de valores é o que sustenta nossa motivação de vida, e não há sentido da existência humana fora deles, de forma que a extinção de valores é a pior coisa que pode ocorrer, num certo sentido, mesmo não tendo um valor interno ao sistema, e portanto algo que deveríamos considerar como eticamente indesejável, algo muito prejudicial.

Talvez este seja um indício de que não podemos definir o valor ético apenas em função dos valores morais dos sujeitos de um dado instante, e que a ética como normalmente a concebemos requer necessariamente algum outro tipo de fundamento, como alguma forma de valoração dos próprios valores, alguma dependência de instantes anteriores, probabilidades, trajetória, relações causais ou alguma outra coisa. Para mim a questão está em aberto.

Minha crise de valores II

Postei este post no meu blog pessoal, enquanto lá ele expressa uma angústia da minha existência, creio que aqui ele soa mais como um desabafo pessoal da minha dificuldade em enfrentar um fato já bem aceito por vários de vcs.

Esta não é verdadeiramente uma segunda crise, é muito mais o desenvolvimento natural da primeira, agora que compreendo um pouco melhor o problema que propus.

Meu problema agora não é ter percebido que nossos valores são, como havia dito, “racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos”, na verdade, resquícios evolutivos não são uma expressão adequada, como vou argumentar, pois na verdade são o que sustentam tudo o que somos. Tampouco é, como no primeiro, uma questão prática em relação a como me conduzir. Acho que este problema já está se resolvendo. Meu problema é aceitar as implicações do que tentarei explicar.

Valores são coisas às quais atribuímos um valor, bom ou ruim, certo ou errado, válido ou inválido, agradável ou desagradável, sejam elas o que forem: prazer, sexo, conversar, comer, dormir, dinheiro, chocolate, comprar roupas, ficar famoso, ajudar as outras pessoas, matar, violentar, sofrer, morrer. Enfim, são coisas que representam algo bom ou ruim para nós numa dada circunstância. Não precisam ser declarados, nem mesmo conscientes, basta que influenciem julgamentos e decisões.

Valores são o que dão sentido a nossa conduta, são o que nos motivam. Sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, seríamos apenas máquinas sem um uso próprio, sem um propósito. Valores são o que fazem com que procuremos comida, queiramos descansar, procuremos pessoas, compremos coisas, persigamos sonhos. São o que dirigem nossas decisões, o que faz o mundo rodar. Nem tudo o que fazemos, no entanto, está prontamente associado a valores; muito de nosso comportamento ocorre de forma impensada, inconsciente, automática ou involuntária, que não necessariamente se faz por meio valores.

No entanto, estes valores tem de vir de algum lugar, e ao meu ver, todos eles começam no nosso hardware, valores são, em última instância, usos sofisticados de um aparelho biológico feito para motivar comportamentos de sobrevivência. Nós nascemos já dotados de uma porção deles; já sentimos fome, sede, sono, dor, prazer, medo e muitos outros impulsos e necessidades. E o repertório vai se estendendo a cada dia, associamos a satisfação dessas necessidades com alguns objetos, passamos a ter respostas emocionais mais estruturadas, desenvolver sentimentos, aprendemos o que é permitido e não permitido, o que é desejado e repudiado pelos outros, o que é considerado bom e ruim pelas diversas pessoas ao nosso redor. Até que por estes processos de organização, incentivo, reforço, imitação e posteriormente reflexão, acabamos formando um grande e complexo sistema de valores, que leva ao complexo e diversificado comportamento que vemos nas pessoas por aí.

Valores têm características curiosas, por exemplo, têm uma natureza relativa, dependente do contexto e do valor das demais coisas. Afinal, o julgamento de valor é bastante comparativo, analógico. Também são dependentes de relevância, acontecimentos distantes tem um valor menor do que acontecimentos próximos. São bastante sensíveis a crenças (basta ver a bolsa de valores) e a emoções. Há muitas outras características peculiares, mas só quero mostrar que valores não são objetos platônicos, não são contruções racionais bem fundamentadas. Valores são contruções mentais, psicológicas, cognitivas, com o fim de favorecer tomadas de decisões eficientes. E é claro, sujeitas ao modo de operar da evolução natural; é um sistema com uma porção de falhas, mas bom o suficiente para a maioria dos problemas de sobrevivência na história evolutiva humana.

Assim, digo que os valores têm uma natureza pragmática. Alguns valores existem e persistem porque são fortemente ligados a nossa constituição biológica, como sono, fome e sede, e dificilmente sofrerão mudanças, porém outros ocorrem porque os aprendemos durante nossa vida, seja por tentativa e erro, seja por imitação, seja porque alguém nos ensinou, e de alguma forma mostraram alguma utilidade prática, ainda que ilusória (a utilidade de um valor é julgada em relação aos valores previamente adotados e ao seu sucesso em auxiliar na resolução de problemas). Valores que se mostram completamente ineficazes são rapidamente desvalorizados.

Como já deve estar evidente, estou sendo bem geral, falando de um aspecto muito amplo de nossas vidas. Valores morais, materiais, sentimentais, estéticos, sexuais, todos eles entram no pacote (ainda estou um pouco em dúvida se crenças são valores ordinários, ou se são de alguma forma diferentes ou mais fundamentais que os outros tipos). E isto tem implicações dramáticas.

Isto significa que o valor é, em última análise, determinado pelo seu valor prático na vida pessoal. Desta maneira, todo o complexo de valores morais sustentados em nossa sociedade, refletem de alguma forma, crenças sobre o seu valor prático (observe, por exemplo, que não pecar para alcançar o reino dos céus é algo de utilidade extremamente prática, se o indivíduo acreditar). Além disso, são coisas que não tem nenhuma existência independente; a existência de um valor é a existência de pessoas que os adotem. Cometer certa ação é errada, se houver pessoas segundo as quais aquela ação tenha um valor negativo. Caso contrário, a ação é completamente desprovida de qualquer valor e é meramente mais um fato do mundo. Isto relativiza brutalmente todos os valores humanos. Todas as coisas que consideramos certas, verdadeiras, bonitas, valiosas, o são desde que nós acreditemos que sejam, o que, por sua vez, depende de nosso julgamento de sua utilidade prática, ou de instintos biológicos que forcem seu valor. Em resumo, nossos valores são os que são porque nós temos esta determinada constituição biológica e porque, na história de nossa sociedade, estes valores tiveram utilidade prática na vida dos seus indivíduos.

Voltando a questão prática de como se conduzir, acho que esta idéia por si já determina mais ou menos uma conduta, o valor de nossas ações é o valor que as pessoas (nós incluídos) emprestam a elas, nem mais nem menos. Como a decisão da ação é tomada numa perspectiva individual, a consideração do valor que as demais pessoas atribuem, fica a critério do sujeito, de acordo com a utilidade prática que ele veja nisso (o que naturalmente depende de seus outros valores, suas metas, etc).

O problema desta vez vem porque, se o desenvolvimento do homem e da sociedade humana foi impulsionado por valores histórico-biológicos, a existência humana se torna basicamente este amontoado de valores. Nós vivemos para satisfazer valores, e criamos valores para viver. Se por algum motivo perdêssemos a capacidade de dar valor as coisas, tudo perderia seu significado, e a existência do mundo humano deixaria de existir. Assim, são os próprios valores que sustentam nossa existência, nosso significado, o sentido do desenvolvimento das sociedades. E por esta razão, são a coisa que garante nossa própria existência, são uma coisa muito importante, por mais que esta importância exista por ela mesma.

O que eu não entendo é, se a nossa existência depende da existência dos valores, que valores deveríamos escolher? O nosso progresso em satisfazê-los eficientemente (creio que isto seja o que ocorre com o uso intensivo de certas drogas, por exemplo), e em mudar nossa constituição biológica não provocará a destruição da nossa existência? Como fazer para que o nosso progresso em suprir nossas necessidades e desejos não destrua nossa própria existência?
Parece-me muito paradoxal e circular que o sentido de nossas vidas seja dado por valores e que por isto nós devamos preservá-los. Existe algum sentido em querermos preservar nossa existência, a não ser por ela mesma? É isso tudo que somos? Somos máquinas cujo sentido é lutar para continuarmos fazendo este sentido?
Isto me faz sentir meio desiludido com a existência, somos apenas isso? O próximo passo na história do universo na criação de entidades que vivem para si mesmas?
Acho que esta é a questão que tenho de amadurecer até minha próxima crise.