Leituras para uma boa formação filosófica

Desde a ultima vez que fiz uma lista de livros importantes aqui no blog minhas concepções mudaram bastante, por isso resolvi fazer uma nova lista. Ai vai:

On the Plurality of Worlds, David Lewis

Livro em que o autor defende o realismo modal: todos os mundos possíveis logicamente existem. Simplesmente brilhante, um exemplo máximo do que é pensar analiticamente. Deixando o mérito da tese de lado, esse livro serve primordialmente para ensinar a pensar. Claro, complexo, engraçado, central, genial!

Antropic Bias, Nick Bostrom

Dissertação a cerca de como raciocinar quando o objeto de estudo sofre efeitos de seleção dependentes do observador. Aplicação de uma reformulação mais exata do principio antropico – a Self Sample Assumption – a temas como: interpretações dos muitos mundos, teoria das decisões, termodinâmica e cosmologia. Inteligente, complexo e divertido.

Axiomatic Set Theory, Patrick Supes

Exposição detalhada e axiomática da teoria dos conjuntos.

Inexhaustibility: A Non-Exhaustive Treatment, Torkel Franzen

Introdução, a partir do zero, ao teorema de Godel bem como a resultados mais recentes a respeito. Aborda lógica de primeira ordem (sintaxe, semântica e metateoremas) recursividade e ordinais para ao final introduzir o teorema de Godel e fechar o livro com teoremas recentes de Feferman.

Física Quântica, Eisberg

Física quântica básica qualitativa. Ótima primeira introdução ao tema.

Naming and Necessity, Saul Kripke

O autor propõe a existência de enunciados a priori contingentes e a posteriori necessários. Traça uma analise da linguagem e de como se constrói a referencia, fazendo uso do instrumental de mundos possíveis.

Alguns artigos:

Infinite Ethics, Nick Bostrom

Relevante e profunda analise sobre os problemas que a ética enfrenta do fato do universo ser infinito: a ação finita de qualquer individuo não altera o computo infinito total. Hiper reais, aritmética ordinal, cosmologia moderna e uma lição de como usar todo o instrumental cientifico- matemático a nosso dispor para resolver questões filosóficas.

Existencial Risks, Nick Bostrom

Discute os riscos existenciais que a humanidade sofre. Estamos especialmente despreparados para eles, uma vez que nunca fomos extintos. Tem como ser mais importante e essencial do que refletir sobre como evitar o fim da humanidade?

Cognitive Bias, Elizier Yudkowsky

Apresenta os bias cognitivos que afetam nossos julgamentos dos riscos existenciais.

Beyond Belief, Daniel Dennett

Content and Epistemology of Phenomenal Beliefs, David Chalmers

É apresentada a tese de que a consciencia não é redutivel ao fisico, bem como sua justificação. Argumentação direta, bem construida e brilhante.

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Inteligência e Responsabilidade Moral

por Jonatas

O livre-arbítrio existe (como decisão auto-determinada), podendo ser contingencialmente mais ou menos restringido qualitativamente, seja por pressões ou sugestões externas ou por condições internas, como o uso de substâncias psicoativas, desordens mentais ou a presença de emoções fortes. No entanto, ele independe da inteligência, contanto que exista um mínimo dela para poder constituir uma decisão. Pode acontecer de a inteligência ser inibida e diminuída, causando decisões menos inteligentes ou menos informadas, mas não deixando necessariamente de serem livres por isso. A inteligência determina a qualidade das decisões, e a qualidade, a partir de um nível mínimo, deixa de ser requisito à liberdade.

A moral instintiva foi condicionada pela evolução humana, cumprindo a função de um substituto improvisado e de qualidade inferior à inteligência, sendo também afetável consideravelmente pelos julgamentos e pelos costumes culturais. Não corresponde a um valor moral real, senão de forma acidental.

Regras morais são variadas, podendo ser jurídicas, religiosas ou filosóficas, e servem como paliativo às insuficiências de julgamento moral individual. Costumam ser inflexíveis, generalizando um raciocínio moral primordial a um determinado conjunto de situações hipotéticas ― daí sua inferioridade, em termos ideais, aos julgamentos morais consequencialistas ― e, no caso de regras morais em vigor em uma sociedade, costumam ter a sua adoção obrigatória imposta por ameaça de punição. Regras morais também são úteis a morais consequencialistas caso se conformem pragmaticamente a seus objetivos.

O melhor comportamento ético não é alcançável pela moral instintiva, nem pelo seguimento das regras morais; consiste na racionalidade de uma ética consequencialista. A maior bondade é altamente dependente de julgamento e de conhecimento, e costuma sempre sofrer de alguma carência nesses dois fatores.

Entre maldade e bondade há uma delimitação absoluta ― dependente da ação que é seu objeto ter um resultado positivo ou negativo em relação à sua ausência ― no entanto, ambos fazem parte de uma mesma escala contínua e admitem variação de intensidade. O resultado ser positivo ou negativo é algo dependente do seguinte julgamento moral utilitário: positivo é aquilo que gera em média uma melhora qualitativa subjetiva dos sentimentos para o total dos observadores relevantes de forma indiscriminada, sendo tanto mais positivo quanto maior for a melhora; negativo, o mesmo, quanto a uma piora. A taxa de câmbio entre sentimentos subjetivos absolutamente positivos e negativos é flutuante e imprecisa devido à sua subjetividade, possivelmente só podendo ser determinada com alguma precisão dentro de um sujeito, para si mesmo. Por isso, pode ser abandonada a distinção entre utilitarismo positivo e negativo.

Os mais perigosos em potencial são aqueles que têm inteligência suficiente para superar as regras morais, e talvez a sua moral instintiva, mas não chegam a criar um substituto racional a elas. Normalmente têm inteligência moderadamente alta, mas isso é variável, pois o desempenho mental nesse âmbito depende de outros fatores como a disposição filosófica e o conhecimento. Para descobrir verdades filosóficas, é preciso inteligência, disposição filosófica e conhecimento, nessa ordem de importância. Pobrezas parciais em uns podem ser compensadas pelos outros, mas só até certo ponto.

A punição tem o único propósito real de ser um controle comportamental psicológico paliativo à burrice. A maldade é sempre redutível a burrice, pois a maldade é sempre ultimamente uma decisão burra. Como a burrice ultimamente não é proposital, entre outras razões, a punição não tem sentido como motivada pela vingança, e serve unicamente para o propósito de prevenção do mal. A sua base no sentimento de vingança deve ser descartada, assim como todas as decisões morais devem ser separadas da moral instintiva. Consonantemente, o sofrimento do ser maléfico equivale em valor moral real ao sofrimento do ser benéfico, devendo ser igualmente evitado se todos os outros fatores forem iguais.

Física Quântica e Determinismo

Acredito que é mais que estabelecido que num sentido não absoluto a teoria quântica é deterministica, uma vez que ela fornece uma descrição quase completa dos estados finais dada uma descrição quase completa dos estados iniciais. Isto é, ela nos da os estados finais com uma precisão em torno de 98%, logo os eventos futuros estariam 98% deles determinados pelos passados, me parece determinismo suficiente para que o senso comum chame isso de determinismo.

No entanto os eventos futuros não ficam absolutamente determinados, ou seja, não há um determinismo estrito. Fica ainda em aberta a questão de se é possível à teoria quântica ser compatível ou não com um determinismo estrito, ou seja, se tudo o que a quântica diz é valido, ainda é possível que o mundo seja determinado absolutamente? É possível uma teoria que seja uma extensão da teoria quântica, diga tudo o que ela diz sobre o mundo e ainda mais, e que seja plenamente deterministica? Que na física quântica não exista determinismo estrito não é disputável, mas disto não se deve apressadamente concluir que ela não pode ser estendida a uma teoria deterministica. Por exemplo, na teoria dos conjuntos ZFC não há nenhuma prova da hipótese do continuo, mas isso não significa necessariamente que aquela teoria nega esta hipótese. Na ausência de provas de uma sentença em uma teoria ela pode ser tanto falsa sob a teoria quanto ser somente indecidível. No caso da hipótese do continuo se mostrou que ela era indecidível, pois tanto ela quanto a sua negação eram consistentes com ZFC.

Uma teoria é determinista estritamente, se e somente se uma vez que se saiba por completo os estados iniciais de um sistema ela fornece também uma descrição completa dos estados finais. As teorias clássicas da física alegavam estar de posse das equações que determinavam os eventos no tempo e de um acesso de precisão absoluta aos dados, com isso implicavam o determinismo. Com as revoluções cientificas da física moderna se mostrou que esse acesso absoluto aos dados era impossível e com isso o determinismo foi posto em cheque. De fato a derrocada da visão clássica do mundo abalou os alicerces do determinismo, no entanto, ao contrario do que comumente se acredita, o modelo quântico do mundo de modo algum nega o determinismo. O modelo quântico, ao contrario do clássico, não implica o determinismo, por isso ele é um choque ao determinismo e alguns vêem isso como uma impossibilidade de que o mundo seja determinado. Mas de modo algum, o determinismo é um enunciado condicional: se a teoria possui as condições iniciais completas tem de fornecer as condições finais completas. O principio da incerteza garante ser impossível possuir a descrição completa dos estados iniciais, logo se não possuirmos a descrição completa dos estados finais não é por a teoria ser antideterminista, mas sim por ela mostrar que a primeira parte do se …. então…. é impossível. Isso se torna claro se nos voltarmos para enunciados puramente lógicos: a sentença se P então Q só é falseada se tivermos P e não tivermos Q, na física clássica tínhamos P e Q(estados iniciais e finais), na quântica não temos nem P e nem Q, mas isso não refuta a sentença. O que de fato ocorre é que a clássica implicava o determinismo pois se P e Q são verdadeiros P -> Q é sempre verdadeiro, no entanto se P é falso, P -> Q é vacuamente verdadeiro e sómente com P verdadeiro podemos checar se a setença pode ser falsa ou verdadeira. Isso significa que enquanto a teoria clássica era consistente somente com o determinismo e não com a sua negação (e, portanto implicava o determinismo) a teoria quântica é consistente com o determinismo e com a negação dele, o determinismo é indecidível sob a teoria quântica, assim como a hipótese do continuo é indecidível sob ZFC.

Uma prova da consistência da quântica com o determinismo é que as expressões matemáticas da força na teoria quântica tomadas isoladamente podem receber diferentes interpretações e varias delas são deterministicas, tal como a interpretação dos muitos mundos e a de Bohm. A desigualdade de Bell é muitas vezes usada como argumento contra o determinismo na quântica, no entanto a conseqüência deste teorema é que qualquer teoria que queira chegar aos mesmos resultados que a quântica deve abandonar ao menos um desses dois elementos: localidade ou determinismo. A interpretação de Compenhagem abandona os dois, interpretações como a de Bohm abandonam só a localidade.

Um dos modos pelo qual se mostra que um enunciado é indecidível em um dado sistema axiomático é construindo um modelo, uma estrutura matemática, que atenda aos axiomas do sistema, mas em que aquele enunciado é falso e outro modelo em que o enunciado é verdadeiro. Do formalismo matemático da mecânica quântica existem interpretações (modelos) tanto deterministas quanto não deterministas, logo ele não se pronuncia a respeito.

PS: Esse post em parte é uma resposta a alguns discussões sucitadas no post sobre Determisnimo e previsibilidade