Sobre o sentido da vida

Há algum tempo que tenho pensado sobre este assunto e acho que já tenho algo a dizer, embora não tenha deixado de ser uma angústia existencial minha. Antes de mais nada, acho importante notar que há 3 diferentes (embora relacionados) “sentidos da vida”; o sentido da vida individual (“Por que e para que estou aqui?”), o sentido da existência humana ou dos seres vivos em geral (“Por que e para que estamos todos aqui?”) e o sentido da existência do universo em geral (“Por que e para que as coisas todas estão aqui?”). São questões diferentes e com tipos de resposta um tanto diferentes, na minha opinião.

Primeiramente, quero esclarecer o que entendo por “sentido”. Dizemos que algo faz sentido quando forma um todo coeso, significativo e coerente, com propósito. Assim, o sentido da vida seria algo que daria a ela um propósito ou pelo menos explicaria sua forma e razão de ser.

Pode parecer estranha a proposta de que as coisas tenham um sentido, afinal, por que teriam? Sentido parece ser uma construção tipicamente humana, uma abstração que criamos para entendermos e racionalizarmos as coisas, então por que as coisas não-humanas haveriam de ter algum sentido? É bem possível que não tenham. Mas é igualmente estranha a mera existência e forma das coisas, isto é, por que existem coisas, existem estas coisas e existem desta particular maneira? De forma que não há saída, ou nos contentamos com uma realidade dada sem explicação, ou inventamos uma. Esta é minha proposta.

É bastante difícil saber se a existência do universo e das coisas em geral faz algum sentido, principalmente diante do nosso enorme desconhecimento e insignificância nele. Acho que só podemos especular, nos contentando com o pouco que sabemos. E o que sabemos é bastante desanimador, o universo que vemos é espacialmente imenso (quiçá infinito), um vazio enorme com umas nuvenzinhas de matéria aqui e ali e parece ter surgido muito rapidamente há alguns bilhões de anos atrás de um estado quente e concentrado e desde então tem se espalhado e expandido, cada vez mais rápido, até que eventualmente tudo se encontre muito separado e frio (se nada de inusitado aparecer no caminho). E nós somos uma porção de sistemas organizados auto-replicantes que surgiu por acaso num planetinha e, até onde sabemos, intrigantemente só neste. Me parece uma visão muito parcial para tirarmos grandes conclusões, mas eu chutaria que qualquer que seja o sentido da existência do universo, ele não tem um papel importante para nós. Não vou especular mais sobre isto agora, mas me parece muito intrigante este sistema todo, e acho que cada elemento de estranhamento é um indício de algo que não conhecemos bem.

O sentido da existência humana parece algo um pouco mais paupável. Embora observando nossos hábitos e atividades não seja óbvio que estejamos manifestando ou seguindo uma tendência mais geral (recomendo este vídeo ótimo – Dance monkeys dance – para uma breve visão geral, e o filme “O sentido da Vida” do Monty Python). De fato, acho que esta é uma questão em aberto. Podemos dizer que há muito progresso na nossa civilização, à medida que experimentamos e acumulamos conhecimento as coisas vão ficando mais complexas; nosso entendimento da natureza, nosso entendimento de nós mesmos, nossos valores e crenças, nossos relacionamentos, nossas atividades, nossa tecnologia, nossa organização social, mas não é transparente a que fim nos direcionamos, a complexificação não é um fim em si. Poderia se sugerir que procuramos qualidade de vida, mas parece claro que enquanto possa haver um aumento paulatino neste sentido, não há uma preocupação geral direcionada a isto. Talvez tenhamos de pensar de que de fato não haja uma motivação maior, um objetivo implícito, um plano mestre; que a nossa civilização simplesmente segue uma dinâmica interna própria, e que seu rumo é determinado pela turbulenta sucessão de poderes, valores e idéias que nela emergem. Embora uma visão assim tão pouco estruturada da sociedade possa ser um pouco simplista, acho que ela mostra um aspecto importante, o da competição e propagação memética.

Podemos ver a sociedade em vez de como uma coleção de indivíduos, como uma coleção de idéias competindo para se propagar pelo maior número de mentes. Cada um de nós se identifica com um conjunto de valores, idéias, crenças, hábitos e sentimentos (memes) e, querendo ou não, nós os representamos ao exercermos nossas atividades e ao interagirmos com outros indivíduos, cada uma de nossas tentativas e sucessos é direta ou indiretamente feita em favor deles. E nossos memes não estão sozinhos, cada um deles tem parentes próximos em outros indivíduos. Nós não sobreviveremos, mas alguns de nossos memes sim. De maneira que embora muitas vezes de forma pouco consciente e socialmente organizada, nós propagamos parte daquilo que somos e representamos, e o fazemos coletivamente, sem nos apercebermos.

A existência humana não é a mera existência de seres humanos, é principalmente a existência de nossos memes, sem eles somos literalmente só um bando de primatas fazendo coisas sem significado. Nossos memes dão sentido a nossas ações, fazem com que procuremos e tentemos conseguir coisas. Assim, acho que o sentido da existência humana é dado por nossos memes, e o destino dela será determinado pelos memes que forem mais bem sucedidos. Se o destino da humanidade não estiver pré-determinado por nossa natureza ou condições, ele está aberto ao que fizermos dele, e assim aos memes que se fizerem mais realizados. Talvez seja difícil ver um sentido na nossa existência porque ele está sendo feito, ainda está em formação.

O sentido da vida individual me parece o problema mais interessante dos três. Todos nós que estamos vivos temos um problema a resolver: diante da nossa situação e perspectivas, o que fazer com nossas vidas? O sentido da vida individual é aquilo que faz com que fazer algumas coisas pareça ser melhor do que fazer outras. De uma perspectiva subjetiva, acho que a resposta não é tão difícil, temos uma oportunidade de tempo que podemos preencher da maneira que quisermos (e conseguirmos), e assim, devemos procurar viver da melhor maneira possível, fazer aquilo que mais pareça valer a pena, que torne a vida interessante e atraente; viver intensamente, o que quer que se entenda por isto. É uma concepção pessoal que pode ou não incluir fazer sexo, ouvir música, comer, usar drogas, apreciar coisas, crer em coisas, sentir, amar, interagir e se relacionar, fantasiar, jogar, meditar, refletir, viajar, conhecer coisas novas e qualquer outro tipo de sensações, concepções, sentimentos e estados mentais que tornem a experiência subjetiva mais agradável, diversa, intensa e/ou complexa. A vida subjetiva é aquela que de fato nós vivemos, e parece um tremendo desperdício viver uma vida que não é boa para você.

O problema da perspectiva subjetiva é que ela não precisa ter qualquer relação com o mundo, ela só depende de como o sujeito se sente, não importa se causado por um estilo de vida maravilhoso, por uma overdose de drogas ou por um eletrodo implantado no seu cérebro. Por esta insuficiência da subjetividade, acho que a vida individual deve ter também um sentido objetivo, deve-se querer fazer diferença no mundo, e com isto quero dizer propagar nossos memes. Acho que o sentido objetivo da vida individual é social, enquanto nosso corpo é mortal, nossos memes (e genes se você tiver filhos ou parentes) persistirão. Como somos aquilo com que nos identificamos, a maneira de se fazer existir no mundo é expressar seus memes, isto é, as coisas que nos fazem sermos o que somos, o que cremos, pensamos, sentimos, achamos. Expressamos nossos memes vivendo, atuando sobre o mundo, propagando-os sobre outros indivíduos. Assim, acho que o sentido objetivo da vida individual é este, atuar sobre o mundo de acordo com quem você é, modificar o mundo da maneira como acha que ele deve ser modificado, participar, contribuir. Há algumas coisas para se observar neste sentido; acho que para sermos eficazes em mudar o mundo devemos procurar certos tipos de atuação, em especial aquelas que a nós se apresentarem como de maior interesse e nas quais temos maior aptidão, as com melhores expectativas e menor risco, as de realização mais próxima e concreta, as menos exploradas, e de maior impacto e com efeitos mais duradouros. Se estamos querendo fazer diferenças, precisamos pensar em termos de consequências. É claro,o juízo do que é melhor a ser feito é pessoal.

Em poucas palavras, acho que as coisas tem um sentido e razão de ser. O universo ainda é um grande mistério, a humanidade é uma pergunta em aberto e nós fazemos nossa razão de ser enquanto tentamos ser felizes e melhorar o mundo, cada um a sua maneira.

[the End Of The Film]
Lady Presenter: Well, that’s the end of the film. Now, here’s the meaning of life.
[Receives an envelope]
Lady Presenter: Thank you, Brigitte.
[Opens envelope, reads what’s inside]
Lady Presenter: M-hmm. Well, it’s nothing very special. Uh, try and be nice to people, avoid eating fat, read a good book every now and then, get some walking in, and try and live together in peace and harmony with people of all creeds and nations.

de Monty Python, The Meaning of Life

Adendo (8 de abril de 2009):

Convém mencionar que há pelo menos 3 usos diferentes de “sentido”:
– Atribuições normativas do tipo “você deve fazer X”, sejam elas determinadas por um sistema ético ou por um metafísico.
– Propensões materiais do tipo “você, em virtude do que é, acabará por fazer X”, mais ou menos como a noção de função em fisiologia, algo como “o sentido da existência das asas é propocionar o vôo”.
– Resultados históricos do tipo “você serviu para que X ocorresse”, assim como a extinção dos dinossauros serviu para a diversificação dos mamíferos e o consequente surgimento do homem.
Na ausência de evidências materiais claras da existência de sentidos do primeiro tipo, minha intenção foi falar do segundo, com alguma base no terceiro. Isto é, em função do que são o universo, a coletividade humana e o indivíduo, para onde eles tendem a ir? O que eles tendem a favorecer e realizar? A que propósitos parecem servir?

Acho que um dos “sentidos” deste texto foi dizer que para mim o sentido da vida não é algo externo a ela, o sentido faz parte dela, é integrado a ela, embora exercê-lo eficientemente possa demandar alguma atenção especial.

Não falei sobre o sentido dos seres vivos em geral. Talvez isto mereça uma discussão maior, mas acho que podemos dizer que a maioria dos seres vivos “serve ao propósito” de propagar seus genes, e ocasionalmente algum outro tipo de organização, como memes, o que cai na idéia de se propagar um pouco do que são e representam.

Acho que a idéia de tomar a propagação memética como uma competição casual possa ser pouco realista, tanto nossas mentes como nossa sociedade são bastante estruturadas, e claramente há memes mais eficazes em se reproduzir do que outros, muitas vezes aproveitando certas particularidades do nossos sistema cognitivo ou ambiente social. Além disso, temos uma autonomia considerável em escolher que memes adotamos, e esta escolha não é aleatória, escolhemos nossas idéias, crenças, etc, porque fazem mais sentido, são mais agradáveis ou frequentes e descartamos outras que não satisfazem a nossos critérios, de maneira que há uma forte interação entre as entidades físicas, biológicas, sociais e meméticas.

Talvez possamos tentar identificar algum sentido na existência humana observando o resultado líquido da atividade produtiva de nossa sociedade, isto é, desprezando-se toda a atividade humana voltada a manutenção do status quo, o que sobra? A que direção nossa atividade diferencial caminha, nos vários aspectos que possamos considerar? Alguma tendência é consistente? Estaríamos caminhando à mera exploração ou diversificação do espaço de possibilidades humanas? A seleção natural também não parece ter tendências muito claras, os seres vivos parecem ocupar todo nicho que pode ser explorado, estaríamos nós também fazendo um caminho aleatório?

O problema do sentido da existência humana parece ter uma natureza intrinsecamente motivacional, parece estar intimamente relacionado ao que nos move, ao que nos interessa, aos tipos de coisas que atendem ao sentido subjetivo da vida individual. Porém, é algo também bastante difícil de responder, uma vez que exceto pelas coisas mais inerentes a nossa natureza (por exemplo, o bem-estar) nossas motivações são também bastante dinâmicas e mudam a si mesmas recursivamente, um interesse levando a um outro, de maneira às vezes bastante não-linear, tornando sua previsão bastante difícil. O problema se agrava ainda mais conforme nos tornamos mais capazes de mudarmos nossa própria natureza. Seria possível conservar algum sentido ao sermos capazes de escolher livremente nosso próprio sentido? Seria desejável podermos escolher qualquer sentido? Todos os sentidos são igualmente arbitrários? Isto faz alguma diferença? Deveríamos nos preocupar com isto?

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Ilusões de Ótica e consciência

No topo esquerdo superior está uma barra “next/prev” que pode ser utilizada para ver também outras ilusões, depois que você se cansar de estar fascinado com esta.

http://www.michaelbach.de/ot/mot_mib/index.html

Além da ilusão sugerida, fixe o olho num ponto amarelo, e você verá o ponto verde amarelo, o que é sem dúvida algo que nos leva a crer que o filling in, o preenchimento que o cérebro faz de informação de cor no campo visual periférico inicia bem perto do centro.

Olhando no centro o ponto amarelo, o ponto verde está bem perto, e mesmo assim aparece amarelo, provavelmente o cérebro está usando recursos históricos, de saber existirem 3 pontos amarelos e recursos imediatos (estar no momento com a fóvea direcionada a um ponto amarelo) e computando portanto a informação mais provável, e não a real.

Outra sugestão interessante, agora a respeito da ilusão sugerida mesmo, é que não vemos objetos estáticos no campo de visão porque estamos especializados em não confundir sujeiras na córnea ou problemas na retina (fixos e estáveis no campo visual) com objetos em movimento (potenciais predadores, alimentos, ou fêmeas com corpo sexy)

Fenômenos como esse jogam luz também sobre a consciência, e demonstram um ponto, bastante enfatizado por alguns, de que somos conscientes de muito menos coisas do mundo do que achamos ser.

Primeiro Grupo de discussão de filosofia analítica da USP São Paulo

Senhores, visitantes, interessados em filosofia analítica.

Criamos o primeiro grupo de discussão de filosofia analítica a se encontrar dentro da USP, Universidade de São Paulo

Mudança em 2010:

O grupo se reunirá às segundas feiras durante o primeiro semestre de 2010, das 18 as 19:30 horas no prédio da filosofia.

Exemplos de autores analíticos.

Russell, Dennett, Hofstadter, Quine, Davidson, Kripke, Ned Block, Lewis, Chalmers, Bostrom.

Não é necessário ter Background em filosofia analítica (ou em filosofia). Inteligência é um pré-requisito, conhecimento de ciências é bem-vindo (Biologia evolutiva, computação, física quântica, relatividade geral, neurociências, lógica matemática, etologia, psicologia evolucionária, ciência cognitiva, semiótica, linguística etc….. )

Nas reuniões o grupo sempre terá lido um texto e discutiremos (refutaremos, contestaremos, adoraremos) as idéias do autor.

Aqueles com interesse em participar desses encontros favor

Enviar um e-mail para   uspfiloanalitica+subscribe@googlegroups.com

Sinceramente

Diego Caleiro.

Um dos donos do Blog.