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Desprovando Hume, num e-mail para Bolzani

Como não sei se articulei as idéias corretamente, nem se entendi direito o que você disse. Resolvi formalizar o que estava pensando. Para deixar claro o meu ponto e evitar mal-entendidos.

Na quinta sessão Hume diz que não há razão para se supor a partir de uma conjunção que algo seja causa e algo seja efeito.
” He would not, at first, by any reasoning, be able to reach the idea of cause and effect; since the particular powers, by which all natural operations are perfomed, never appear to the senses; nor is it reasonable to conclude, merely because of one event, in one instance, precedes another, that therefore the one is the cause the other the effect. Their conjunction may be arbitrary and casual. There may be no reason to infer the existence of one from the appearance of the other.”

Além disso, ele diz que o poder explicativo de dizer que se faz isso pelo hábito se deve ao fato de que fazemos esse tipo de inferência causal quando algo ocorre muitas vezes, mas não fazemos quando ocorrem poucas instâncias de um evento.
” This hypothesis seems even the only one, which explains the difficulty, why we draw, from a thousand instances, an inference, which we are not able to draw form one instance, that is, in no respect, different from them.”

Ou seja, o que ele está dizendo aí é que sua explicação é boa porque ela é capaz de explicar um fenômeno particular. Isso é uma teoria que pode ser testada. Basicamente, ele propõe que fazemos a associação sempre que ocorrem muitas instâncias de um caso, e que essa é a única teoria capaz de dar conta disso.

Essa teoria pode ser desprovada de algumas maneiras. Se por exemplo não fosse o caso que existissem eventos contíguos no tempo. Ela estaria desprovada. Se surgisse outra teoria que abarcasse o mesmo fenômeno e também explicasse uma série de outras coisas, ela seria substituída etc…
Então examinemos o que aconteceria no caso que eu citei em sala de aula.

Suponhamos que alguém fugiu da vela após tão somente uma vez ter se aproximado dela.

O que eu disse foi ” Isso retira o poder explicativo que Hume pretende atribuir ao costume.”

O que você disse foi ” Se não fosse a existência de um princípio do hábito, ou do costume, seria impossível que essa pessoa criasse o hábito de fugir da vela. ”

O que estou defendendo é completamente compatível com o que você está defendendo, mas não consegui me explicar na hora. E faço agora.

Vejamos que o que você estava defendendo é basicamente que existe uma condição necessária para que alguém crie o hábito de desviar de uma vela em chamas. Essa condição necessária é a existência da possibilidade de se ter um hábito. Ou costume.

Isso é um fato, e não há razão para contestá-lo. Mas isso tem algum poder explicativo? Isso demonstra porque o hábito ou o costume são aquilo que nos guia a desviar de uma vela? Não necessariamente. Isso é apenas (para plagiar o franklin e o kant) uma condição de possibilidade para o costume. Não é uma descrição de porque o costume é a perspectiva certa para se pensar o assunto. E não outro princípio da naturezal.
Ou seja, é condição necessária que exista a possibilidade de se ter costumes (por exemplo uma tendência natural). Mas não é condição suficiente para se explicar nada.

O que seria condição suficiente, segundo Hume é o que ele diz, e repito aqui. ” This hypothesis seems even the only one, which explains the difficulty, why we draw, from a thousand instances, an inference, which we are not able to draw form one instance, that is, in no respect, different from them.”

Ou seja. Ele está evocando que a razão pela qual devemos acreditar num princípio do costume, a razão pela qual existe o hábito é exatamente a de que não há outra explicação que seja capaz de diferenciar nosso comportamento em relação a contiguidades particulares e contiguidades repetidas. Suponhamos então que ele esteja certo. Isso implicaria necessariamente que fazemos inferências causais de contiguidades que sempre se repetem. E implicaria necessariamente que não fazemos inferências causais para casos particulares; mas esse parece não ser o caso.

O exemplo da vela extensamente discutido demonstra que não é necessário, em certos casos, mais do que uma experiência para criar o hábito. Outros exemplos também poderiam ser citados (quase-afogamento, envenenamento alimentar). Ora, se existem casos que desviam da hipótese de Hume, ou, mais do que isso, se existem casos que desviam daquilo que Hume usa como sustentáculo de sua hipótese, sua teoria tem de ser considerada uma má generalização. Ou seja, ou ela só é válida para algum subgrupo particular de casos. Ou ela simplesmente está errada e deve ser abandonada.

Minha defesa é de que ela é válida apenas para associações que não dizem respeito a fatores que são extremamente evolutivamente importantes no curto prazo. Pois o princípio de fazer inferências ou associações existe em nós proporcionalmente a razão evolutiva que haja para crer que algo vai interagir causalmente. Ou seja, temos uma tendência maior para acreditar em causa e efeito tanto mais quanto essas causas e efeitos afetarem nossa evolução biológica.

É possível evidenciar claramente o porque a teoria dele há de estar errada com um exemplo mais complexo.

Tomemos os 4 eventos contiguos.

1 Vela acesa
2 Lampada acesa
3 Emissão de um som desconhecido
4 Dor na mão.

Suponhamos que esses quatro eventos se dessem ao mesmo tempo com uma pessoa.

Ela vai até um local, no qual uma vela acence, uma lampada acende ao mesmo tempo, emite-se um som desconhecido, e ela sente dor.
Ela retira sua mão de perto da vela. E o som para e a luz apaga.

No dia seguinte, em um certo horário, uma lampada acende numa sala em que ela está. Ela não prevê dor. (ou seja, Hume está certo. Apenas uma instância, logo nenhum hábito)
Da mesma maneira, a mesma música começa a tocar duas horas mais tarde, noutra ocasião (Mais uma vez, apenas uma instância, nenhum hábito. )
Meia hora mais tarde, ela está passando por um estreito corredor com uma vela, e sua mão, se deixada a esmo, passaria diretamente na chama. A pessoa levanta o braço, incluna o corpo e desvia da vela.

O que temos nesse caso? A prova inelutável de que a tese de Hume está errada, não é válida universalmente. Apenas uma instância, e mesmo assim a criação de hábito.
Mais do que isso, apenas uma instância de uma série de eventos que não são associáveis de nenhuma maneira na razão, no intelecto, e no entanto a criação de um hábito com relação a apenas um deles, e particularmente justo aquele que de fato resguarda uma realação de causa e efeito. Peculiar.

Evidente que se não tivessemos um princípio de hábito, como você disse, isso seria impossível em absoluto. Mas a questão é que a tese que Hume defende não é essa. O que ele defende é que evocar o hábito é a forma correta de se explicar o fenômeno . E isso, considerando os exemplos que pensamos em sala de aula, não é fato. É um equívoco.

Top 10

1. Metafísica, Aristóteles.

2. Critica da Razão Pura, Kant.

3. Fenomenologia do Espírito, Hegel.

4. Teoria Estética, Adorno.

Esses quatro dispensam apresentações. Bem óbvios por sinal, talvez menos a Teoria Estética.

5. Mecânica Quântica, Edusp.
Sinopse da livraria cultura: ‘Mecânica Quântica’ destina-se a estudantes universitários, professores e pesquisadores envolvidos com a física. Os primeiros seis capítulos desenvolvem as principais idéias e a estrutura geral da mecânica quântica. Os capítulos seguintes apresentam tópicos mais específicos, de uso corrente em diversas áreas da física atual. O final de cada capítulo traz uma lista de exercícios e referências bibliográficas.

6. Introdução a Cosmologia, Edusp.
Sinopse da livraria cultura: Baseado no curso de Introdução à Cosmologia, oferecido pelo IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) da USP, este livro utiliza conceitos da física moderna no estudo da cosmologia. ‘Introdução à Cosmologia’ aborda assuntos como – as relações do pensamento científico/filosófico com a cosmologia atual, a expansão e a evolução dinâmica do Universo, a Teoria da Relatividade como instrumento para o entendimento da geometria do Universo, a radiação cósmica, a teoria da Inflação e teorias sobre a formação das galáxias.

7. Feynman lectutes on Physics
Wikipedia: The Feynman Lectures on Physics, by Richard Feynman, Robert Leighton, and Matthew Sands is perhaps Feynman’s most accessible technical work, and is considered a classic introduction to modern physics, including lectures on mathematics, electromagnetism, Newtonian physics, quantum physics, and even the relation of physics to other sciences.

8. Calculus, Apostol
Calculo é a base essencial para grande parte das ciências exatas. Esse é um bom livro de calculo que conheço, acessível e com algumas demonstrações (na verdade perto dos outros livros de calculo que conheço é o que mais demonstra)..

9. Édipo Rei, Sófocles.
Uma das maiores e sem duvida mais clássica tragédia da Grécia antiga.

10. Os Buddenbrooks, Thomas Mann
Narração irônica e detalhista da decadência burguesa na virada do século.

Aproveitando (não queria criar um post só para isso) vou colocar algumas partes interessantes de alguns desse livros e de outros. Talvez elas não fiquem tão boas fora de contexto, mas quem sabe não instiguem a leitura:

“Se não existisse nada de eterno também não poderia existir o devir” Aristóteles, Metafísica Livro terceiro

“E em geral, se só existe o que é perceptível pelos sentidos, caso não existissem seres animados nada poderia existir: de fato, nesse caso, não poderia haver sensações (…), mas é impossível que os objetos que produzem as sensações não existam também independentemente da sensação”.Aristóteles, Metafísica Livro quarto

“Em contrapartida, a forma pura da intuição no tempo, simplesmente como intuição geral, que contém um diverso dado, esta submetido à unidade original da consciência, apenas através da relação necessária do diverso da intuição a um: eu penso; ou seja, pela síntese pura do entendimento, que serve a priori de fundamento à síntese empírica.” Kant, Critica da Razão Pura

“Pois o contentamento com toda a sua existência não é obra de uma posse originária (…), mas um problema imposto a ele por sua própria natureza finita porque ele è carente esta carência concerne à matéria de sua faculdade de apetição…” Kant Critica da Razão Pratica

“O objeto é, antes, sob o mesmo e único ponto de vista, o oposto de si mesmo: para si, enquanto é para Outro; e para outro, enquanto é para si.” GWF Hegel Fenomenologia do Espirito

“O verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, que o tem como princípio, e que só é efetivo mediante sua atualização e seu fim.” GWF Hegel. Fenomenologia do Espírito

“A exterioridade em sua imediatez não tem valor para nós, mas admitimos que por trás dela haja algo de interior, um significado, por meio do qual a aparição exterior é espiritualizada. A exterioridade aponta para o que é sua alma. E isso porque um fenômeno que significa algo não se representa a si mesmo e o que é na sua exterioridade, mas representa outra coisa.” Hegel. Cursos de Estética

“Quase tudo que chamamos de ‘cultura superior’ é baseado na espiritualização e no aprofundamento da crueldade – eis minha tese; esse ‘animal selvagem’ não foi abatido absolutamente, ele vive e prospera, ele apenas – se divinizou” Nietzsche, Além do bem e do mal

“A filosofia, que outrora se tornara obsoleta, permanece atual, pois perdeu o momento de sua realização” Theodor W. Adorno Dialética Negativa

“As obras de arte são copias do vivente empírico, na medida em que a este fornecem o que lhes é recusado no exterior e assim libertam daquilo para que as orienta a experiência externa coisificante” Adorno, Teoria Estética

“Toda burrice parcial de uma pessoa designa um lugar em que o jogo dos músculos foi, em vez de favorecido, inibido no momento do despertar.” Adorno, Dialética do Esclarecimento

“O homem é fundamentalmente desejo de ser e a existência deste desejo não deve ser estabelecida por uma indução empírica; ela resulta de uma descrição a priori do ser do para-si, já que o desejo é falta e que o para-si é o ser que é para si mesmo sua própria falta de ser” Sartre, O Ser e o Nada

Germe da negação do sujeito em Kant

Não é necessário recorrer a Adorno e Horkheimer para observar a importância que a experiência tem na formação do sujeito na medida em que ela o nega e o reconstitui. A necessidade destes autores está na crítica dessa experiência na atualidade. Ela é falsa ou verdadeira? Cabe sem duvida recuperar este conceito de experiência para entender o que se quer dizer em Kant e Hegel para entender a experiência. O conceito de dialética fica ai inerente.

O germe da dialética do sujeito, que se consolidou em Hegel: “… tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro [do objeto] não como substancia, mas também, precisamente, como sujeito”, já estava instaurado em Kant. O “eu penso” de Kant deve em sua trajetória da apercepção do objeto ir de passivo de volta a ativo à consolidação como eu penso. Trajetória descrita na seguinte citação: “A unidade sintética da consciência, (…) tem de estar submetida toda a intuição, para se tornar objeto para mim, porque de outra maneira e sem esta síntese o diverso não se uniria numa consciência”. A síntese do diverso, no entanto pressupõe, na constituição do eu penso, um sujeito objeto (passivo): “… me conheço a mim próprio como objeto pensado…”. Este sujeito passivo quando fez a percepção da realidade e se torna objeto, na verdade percebe a si próprio, como posteriormente discorre mais demoradamente Kant, e, portanto se constitui[i]. De fato a citação próxima é um dos poucos momentos em que se fala desse sujeito-objeto até o final do Livro Primeiro da primeira divisão da Lógica Transcendental. Em Hegel esta negação do sujeito será constituinte essencial do esquema do processo dialético. Posteriormente esta negação se torna a própria essência da Dialética Negativa.

O conceito, resultado do abandono da vaidade libertaria do pensamento abstrato frente a materialidade na qual está imersa e é custoso para ela se elevar, só pode ser efetivado no processo dialético sincronicamente a reversão do sujeito enquanto sujeito, que se toma objeto e do retomo deste objeto a si mesmo como sujeito. Processo descrito por Hegel na seguinte passagem: “No seu comportamento negativo, que acabamos de ver, o próprio pensar raciocinante é o Si ao qual o conteúdo retorna; porém, no seu conhecer positivo, o Si é um sujeito representado, com o qual o conteúdo se relaciona como acidente e predicado. Esse sujeito constitui a base à qual o predicado está preso, e sobre a qual o movimento vai e vem. No pensamento conceituai o sujeito comporta-se de outra maneira. Enquanto o conceito é o próprio Si do objeto, que se apresenta como o seu vir-a-ser, não é um sujeito inerte que sustenha imóvel os acidentes; mas é o conceito que se move, e que retoma em si suas determinações.” Neste desenvolver ocorre também o processo em que: “… o sujeito passou para o predicado, e por isso foi suprassumido; e enquanto o que parece ser predicado se tornou um massa inteira e independente, o pensamento já não pode vaguear livremente por ai, mas fica retido por esse lastro.” A experiência foi resumida na conhecida passagem: “Experiência é justamente o nome desse movimento em que o imediato, o não-experimentado, ou seja, o abstrato – quer do ser sensível, quer Simples apenas pensado – se aliena e depois retoma a si mesmo.”

O tema Dialética do Esclarecimento e Dialética Negativa já não são mais o objetivo desse texto. É conhecida a frase “Verdadeiro é o todo” em Hegel e sua reformulação por Adorno “O todo é o não verdadeiro”. A segunda é desenvolvimento da primeira. No próprio pensamento hegeliano da Fenomenologia do Espírito; em que o todo deve ser negado constantemente – pois só no fim é que verdade, fim este igual ao fim do circulo, – negação esta contígua ao cume da totalidade do Saber Absoluto onde o saber a verdade coincidem; há quase uma ambivalência entre o Saber Absoluto e o processo que o constitui: a dialética semovente.


[i] “Ora, como para o conhecimento de nós próprios, além do acto do pensamento que leva à unidade da apercepção o diverso de toda a intuição possível, se requer uma espécie determinada de intuição, pela qual é dado esse diverso, a minha própria existência não é, sem duvida, um fenómeno (e muito menos simples aparência), mas a determinação da minha existência [omitiu-se um asterisco com correspondente nota de rodapé] só pode fázer-se, de acordo com a forma do sentido interno, pela maneira peculiar em que me é dado, na intuição interna, o diverso que eu ligo; sendo assim, não tenho conhecimento de mim tal como sou, mas apenas tal como apareço a mim mesmo. A consciência própria está, pois, ainda bem longe de ser um conhecimento de si próprio, não obstante todas as categorias que constituem o pensamento de um objeto em geral pela ligação do diverso numa apercepção”

PS1: Há uma ligação muito mais obvia e usual entre a dialética hegeliana e as categorias kantianas que é expressa no Prefacio da Fenomenologia: “O conceito da ciência surgiu depois que se elevou à sua significação absoluta aquela forma triádica que em Kant era ainda carente de conceito, morta, e descoberta por instinto” (p. 55). Penso que Hegel faz ai uma referencia a como as categorias kantianas já revelam um processo dialético na medida em que em sua organização a categoria terceira sempre parece dar conta da primeira e da segunda ao mesmo tempo, e.g.: as três categorias de modalidade: (1) possibilidade – condição formal -, (2) realidade – concordância das condições formais com o conteúdo – e (3) necessidade – interconexão entre as condições formais e de conteúdo -; ou seja, ai tem-se que a necessidade é quase um momento de síntese dialética entre a universalidade abstrata da possibilidade e a materialidade da concordância com o conteúdo da realidade.

PS2: acho que fica faltando uma continuação sobre esse tema na Dialética Negativa. Quando estiver animado prometo uma continuação.

Da unidade a contradição

Escrevi esse texto tem algum tempo, depois de o ler recentemente achei algumas coisas obvias demais e outras de menos. Um problema básico para mim desde que comecei a pensar mais seriamente em filosofia é a necessidade de uma unificação entre ciências humanas e naturais, em algum momento do texto queria esboçar uma noção qualquer, que deve ter ficado bem vaga ao leitor, de que existe um mesmo movimento de aparição do sujeito e sua posterior problematização em todos os campos do conhecimento. Isto poderia ser o começo de um principio unificador.

Não conheço quase nada de Hegel nem de Aristóteles, apenas li a Metafisica e a Fenomenologia do Espirito varias vezes.

Da unidade a contradição

Num resumo pobre pode-se dizer que a dialética hegeliana apreende o ser em afirmação, negação e síntese, ou ainda mais precisamente, quando o ser imediato (consciência ou objeto) “… se aliena e depois retoma dessa alienação… ” (Fenomenologia do Espírito, p. 46)Criam-se assim três momentos: ser, não-ser e vir-a-ser (síntese). È necessário dividir-se o ser em 3 partes contraditórias para compreendê-lo. Há a presença do falso e do verdadeiro ambos afirmando-se e negando-se na constituição do ser.

Aristóteles por seu turno afirma que “… [falsa] é a noção das coisas que não são, por isso toda noção è falsa quando referida a coisa diversa daquela acerca da qual é verdadeira” (Metafísica, p. 261). Falso e verdadeiro são necessariamente excludentes em Aristóteles, não é possível existir ao mesmo tempo, nem em processo, o ser e o não-ser, somente um tem de ser verdadeiro. Sua exposição contra o termo médio também deixa clara essa posição. (na p. 179) No caminho inverso afirma Hegel que a distinção entre falso e verdadeiro não é estaticamente binária:

“O verdadeiro e o falso pertencem aos pensamentos determinados que, carentes-de-movimento, valem como essências próprias, as quais, sem ter nada em comum, permanecem isoladas, uma em cima, outra em baixo. Contra tal posição deve-se afirmar que a verdade não é uma moeda cunhada… “(Hegel, p. 48).

Também ao falar sobre o contraditório Hegel diverge de Aristóteles:

“Com a mesma rigidez com que a opinião comum se prende à entre o verdadeiro e o falso, costuma também cobrar, ante um sistema filosófico dado, uma atitude de aprovação ou rejeição. Acha que qualquer esclarecimento a respeito do sistema só pode ser uma ou outra. Não concebe a diversidade dos sistemas filosóficos como desenvolvimento progressivo da verdade, mas só vê na diversidade a contradição” (Hegel p. 26)

O dualismo entre os primeiros termos sendo contraditório basta para por a tríade dialética hegeliana em cheque se levarmos em conta a afirmação aristotélica. Como um sistema se diz ele todo verdadeiro se na relação de seus termos existe a contradição? A argumentação de que tudo em Hegel é processo que se atualiza mediante a sua tendência à verdade universal absoluta, que é por si só coerente, perde o sentido, pois o próprio processo de mediação em Hegel é contraditório:

“Com efeito, a mediação não é outra coisa senão a igualdade-consigo-mesmo semovente, ou a reflexão sobre si mesmo, o momento do Eu para-si-essente, a negatividade pura ou reduzida à sua pura abstração, o simples vir-a-ser” (Hegel, p. 36)

Se a verdade absoluta é una e não contraditória, mas, no entanto nunca se chega a ela sendo, ela própria, um processo de atualização negativa, o absoluto é o contraditório.

São inúmeras as citações que tornam evidente esse contraponto, no que se refere a contradição, entre as filosofias hegelianas e aristotélica. Não se quer aqui apenas evidenciar a distinção, pois é fato conhecido que sistemas filosóficos se distinguem. A questão a se fazer, no entanto é: Por que a contradição, a negação, a proposição de pares diversos (mesmo que dentro de uma tríade genuína) dentro da própria natureza do ser faz-se importante em Hegel e mal vista em Aristóteles? O que no desenvolvimento do pensamento fez necessária essa contradição?

Hegel, ele mesmo, pode vir a esclarecer está questão: “A significação de tudo que existe estava no fio de luz que o unia ao céu [..,] o olhar deslizava além, rumo à essência divina, uma presença no além – se assim se pode dizer. […] Muito tempo se passou [ . .] para tomar o presente, como tal, digno do interesse e da atenção que levara o nome de experiência” (Hegel, p. 24) Este excerto de Hegel, em que ele comenta sobre filosofia antiga, aponta uma resposta ao dilema que se toma obvio à qualquer passadela de olhar sobre o título das obras centrais em questão, de cada um dos autores: Metafísica e Fenomenologia do Espírito.

Na Metafísica se discute a filosofia enquanto saber, é a sapiência a ciência divina que “… tem por seu objeto as coisas divinas” (Aristóteles, p. 13) Em Aristóteles não é discutido se a coisa-em-si é a coisa mesma, de fato a coisa-em-sí não entra em questão, somente o ser, a substância, o princípio, a causa, o um, o necessário… – vide Metafísica Livro A, quinto – pois, não há a separação sujeito e objeto no entendimento do real. A experiência em Aristóteles é o que leva a sapiência, mas uma vez galgado o monte e se assentado sobre as causas primeiras a experiência raramente desempenha seu papel no ulterior desenvolvimento filosófico de seu sistema metafísico. O saber para Hegel num primeiro momento pertence ao ser (seja ele o homem ou não) e deve percorrer o caminho de “… demorar-se e esquecer a si mesmo […] estar na coisa e abandonar-se a ela”.(Hegel, p, 27). O sujeito se faz importante: “… tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas também, precisamente, como sujeito”.(Hegel, p.34)

A resposta à pergunta formulada é a mesma dada A Esfinge por Édipo: é o homem

Talvez como confirmação da tese da existência de um espirito universal hegeliano uma citação de Jung, por mais atópica, mostra que esse processo ocorreu tanto no desenvolvimento filosófico como no psicológico-religioso: “Por esta razão o uno precisa ser substituído por um outro. O mundo do Pai é, pois, mudado, em principio, e sucedido pelo mundo do filho” (Jung. Analise Psicologica do dogma da trindade) Uma mera explicação psicológica reduzida a si mesma ou filosófica dela (filosofia) reduzida a si mesma não pode dar conta de entender a semelhança que é evidente aos olhos, pois qualquer uma delas reduziria a outra a objeto. A bem verdade discussões deste tipo costumam recair em problemas metodológicos que a tudo se assemelham com a querela do farmacêutico Homais com o padre Boumisien de Madame Bovary que citavam Voltaire e Nicolau na noite da morte de Ema Bovary para saber se ela havia morrido com graça ou sem graça – entre outras picuinhas – e que no entanto não fizeram de fato nada por ela enquanto viva. (Madame Bovary de Flaubert Capitulo 9).

Na física o processo não se fez diferente. A rígida separação sujeito e objeto exigida pelo positivismo é o desenvolvimento deste processo. O que o positivismo reivindica é a separação entre o homem que pensa e a realidade, mas a separação entre duas coisas que antes eram uma nada mais é que a criação de ambas. Como já se falava em natureza, na verdade se criou o sujeito. O homem já existia dentro do pensamento desde os primórdios, mas nunca foi considerado como categoria primordial ao próprio pensamento que pretende entender o real. No entanto, tal separação não é tão bem firmada, resultado esperado de um processo dialético. Como se pode observar pelo fato dos filósofos da ciência, como K. Popper, preferirem o termo intersubjetivo para definir o objetivo: “Ora, eu sustento que as teorias cientificas nunca são inteiramente justificáveis ou verificáveis, mas que, não obstante, são suscetíveis de se verem submetidas à prova. Direi, conseqüentemente, que a objetividade dos enunciados científicos reside na circunstancia de eles poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste ” (Lógica da Pesquisa Científica, p. ?)

A derrocada da ciência puramente objetiva não ficou restrita a discussões dos filósofos da ciência, os próprios escritos de físicos da teoria quântica observam o fato:

“The probably function combines objective and subjective elements. It contains statements about possibilities or better tendencies (‘potentia’ in Aristoteíian philosophy), and these statements are completely objective, they do not depend on any observer; and it contains statements about our knowledge of the system, which ofcourse are subjective in so far as they may be different for different observers.”

“…the probability function contains the objective element of tendency and the subjective element of incomplete knowledge.”

(Heisenberg, Physics and Philosophy)

Adorno e Popper

T. W. Adorno observa este anuviamento entre sujeito e objeto nas ciências sociais. Na teoria quântica, quanto mais o sistema se toma microscópico mais este anuviamento aumenta, e na mesma proporção o conhecimento subjetivo – assim o problema do particular também o faz. No entanto “…não há acréscimo, mas desfigurações das ciências, quando se confundem os seus limites” (Kant, prefacio a CRP). Nas ciências sociais o método é reflexo da própria situação do objeto e por isso ele também deve ser posto em questão. “Ela é ao mesmo tempo também crítica do objeto, da qual dependem todos os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência do objeto, do qual afinal dependem todos os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência organizada” (Adorno, em um debate sobre sociologia com o Popper, acho que isso ta naquele volume Adorno da coleção Sociologia)

A alusão a Kant ganha força na mesma medida em que o olhar se volta sobre o texto adorniano. Não são possíveis tais analogias simplistas. O objeto parece conter mais do que contem. É o problema de sua apreensão. O que se depreende da citação feita é que esta analise leva a considerar não somente o aumento da porção subjetiva nas ciências sociais, mas”… os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência organizada”. Esta subordinação toma corpo em ‘O conceito de Esclarecimento’ assim como o seu reverso. Pela própria situação no caso em que foi escrito o primeiro texto, o seu conteúdo não faz jus a analise feita por Adorno destas conseqüências.

“O conceito de esclarecimento” não se furtaria a dizer que tal tipo de analise fatalista acaba por desfavorecer todo o projeto que se tinha. A Dialética do Esclarecimento não é a contemplação da situação do objeto da situação do objeto, ela è o próprio método aplicado a si mesmo. Ela não é um dos “… inúmeros projetos simplesmente desenvolvidos para a carreira acadêmica nos quais a irrelevância do objeto combina perfeitamente com a obtusidade das técnicas de pesquisa” (Adorno). Também não é mera figura da filosofia especulativa que paira sobre a realidade, esta imbuída também de um empirismo, sem o qual nunca daria conta da tensão, que é não somente um substituto da verdade, mas o processo de se obter a verdade e mesmo como processo, não se define, é, pois, o conflito mesmo manifesto, a critica imanente.

Existem ainda certas semelhanças, identificadas por Adorno, entre seu método e o de Popper: “A partir do instante em que ele identifica a objetividade da ciência com a do método critico, ele eleva este a condição de órgão da verdade. Nenhum dialético poderia exigir mais atualmente” ou ainda “Parece-me digno de menção que um estudioso para o qual a dialética é anátema veja-se compelido a formulações próprias do raciocínio dialético” O distanciamento de Popper em relação ao positivismo, no entanto, é prova do distanciamento entre este ultimo e a crítica imanente. Mas a reflexão positivista pode ser considerada ou seu contexto próprio das ciências naturais também como falso, pois o puro determinismo não mais da conta de entender a realidade como tal.

Entre Popper e Adorno, vemo-nos em torno do estado das coisas que se instala na discussão entre o padre e o farmacêutico de Madame Bovary. Meramente acompanhar o pensamento de autores acaba por tomar a leitura totalitária, deve-se por mais incipiente a analise, tentar por a cara a tapa. Um pensamento que contenha em si a possibilidade da libertação como meta, é o mais totalitário de todos, se refere à possibilidade, trata justamente daquela categoria kantiana que “è o principio supremo de todo o conhecimento humano”; “O principio da unidade sintética da apercepção de todo o uso do entendimento”. É necessário o cuidado que o esforço tenso, a critica imanente, não se converta num sistema.