Amor e Probabilidade

Minha teoria de terceira pessoa sobre o amor, incorporada de muitos autores, é mais ou menos a seguinte: Amor é a emoção causada para possibilitar constante variação na probabilidade de uma pessoa deixar a outra. Variação o suficiente para que nunca “valha a pena” de fato deixar a outra pessoa e nem deixar-se ser deixado.

Não vou discutir as razões evolutivas para isso, ou porque o amor possa ser visto assim. Para isso, ler “Love as valuing a relashionship” na philosophical review ou o capítulo “Love” de How the mind works.

Como eu sei que o amor funciona assim, eu sei trabalhá-lo dessa perspectiva. Eu sei fazer conscientemente o que as pessoas as vezes só fazem inconscientemente. O assunto desse texto é a ética de fazê-lo.

Farei uma imensa digressão sobre como fazer isso, que pode ser pulada diretamente para a parte ética se bem parecer ou se se quiser conceder, por hipótese, que existam essas coisas que se deve fazer, e que elas são conhecíveis.

Por exemplo, seja um momento qualquer, é em geral verdadeiro e sabido que uma pessoa está mais apaixonada do que a outra. Em geral, o descaso sutil aumenta a paixão, e o descaso total aniquila. (usarei as palavras amor e paixão intercambiavelmente nesse texto, não gosta? Foda-se, é assim que eu uso).

Digamos por exemplo que o objetivo de alguém é ser mais e mais amado. Uma ótima maneira de fazê-lo é concedendo tempo levemente menor do que o que a pessoa está querendo passar com você a cada vez, criando um movimento de saudade exponencial que gera uma semi-obsessão pela possibilidade de se ver.

Isso obviamente não é tudo, é absolutamente fundante, para ser mais amado, criar briguinhas pequenas, sem muita razão MAS sem deixar um clima “pesado no ar”. Resolvê-las na hora ou não vai do caso. É importante que as vezes elas não sejam resolvidas, para criar um mínimo subliminar de tensão e portanto de necessidade de satisfazer o outro.

Presentes sem razão ajudam bastante, CONTANTO que a sua personalidade não seja do tipo obsessive gentleman, ou pessoa excessivamente bondosa que dá presentes a todos, ou babão submisso, ou banana. (não estou dizendo que essas categorias são a mesma, Não São).

Caso você seja um desses, aí o presente não pode ser físico, mas pode ser emocional, mais interessante ainda se for de uma ordem selvagem (uma conquista, desafiar alguém em nome da pessoa, uma viagem sem rumo do nada, um encontro em local desconhecido e misterioso, talvez levemente escuro até, um agarrão num beco). Não pode ser nem objeto físico nem declarativo.

É fundamental lembrar, principalmente para homens, que a pessoa está com você por causa de um milhão de fatores, e um deles é sua posição na hierarquia social metafísica da cabeça dela, então sempre demonstre que você está alto e subindo, como quer que isso se adeque na hierarquia social dela (por exemplo, se ela for emo, você pode sentar na sarjeta, beber muito e ficar penteando a franja para baixo com suas lágrimas silenciosas, isso claramente é apaixonante).

Se você é mulher, por razões evolutivas obvias, é importante variar a quantidade de exposição do corpo (tem um filme ótimo que a meu ver é sobre isso, o diretor com certeza discordaria. Um amor para recordar/A Walk to Remember). Além disso, é importante dar uma sensação de desatenção da sua parte para o homem, de que é mais difícil ter você por inteiro do que parece, e talvez até que você esconde um pequeno mistério. Poupe-o dos detalhes extremamente específicos do seu dia, mas conte mesmo assim o que considerar interessante de uma maneira que o faça pensar sobre a vida, assim você terá destaque sobre as concorrentes, que por vezes falam muito mais porque querem falar do que porque acham que podem construir uma nova idéia através dessas descrições do cotidiano, lembre-se, dentro da cabeça dele, as coisas tem que ter um ‘objetivo’, por isso ele gosta tanto de jogos, o objetivo não precisa ter nenhuma relevância, só precisa existir, vide Tênis, futebol, Bomberman e Sonic. Finalmente, não faça coisas que “dessacralizam” sua imagem, como demonstrar que você tem funções fisiológicas, um vocabulário escatológico ainda mais temível que o que ele usa entre amigos quando bêbado, etc… Isso demonstra (no cerebro primitivo e tosco dos machos de nossa querida espécie) que você andou em “círculos” de sujeira, que provavelmente já fez e ainda fará muito sexo por aí afora e portanto tem baixa probabilidade de garantir que a prole é dele.

A ordem do selvagem. Para ambos os lados, é importante desligar-se um pouco do mal estar da civilização e simplesmente ser selvagem as vezes, não consigo ver um limite claro no qual isso não seja bom para os homens. Não acho que haja um nível no qual uma intenção animalesca não seja positiva mesmo que várias em sequência. Obviamente não em momentos fofos, brigas, fofocas etc… mas nos tempos intermediários. Para a mulher existe um limite claro, mas isso depende completamente do homem, acho que alguns homens não devem ter limite para conversas sem palavras, sexo sem pudores, e ataques de vontade aleatória em momentos aleatórios. Outros homens são diferentes com um ponto ideal de selvageria desejável.

Digamos agora que o objetivo da pessoa seja se manter estável. Aí começa a ter variações mais complexas, e o tempo lógico do namoro/relação passa a interferir. Como o tempo lógico varia entre relações é difícil precisar quando se deve fazer cada coisa. Vou assumir mais ou menos o seguinte tempo histórico, e o leitor pode esticar ou comprimir os tempos conforme o tempo lógico que lhe interessa.

Suposição: 3 Meses iniciais: A paixão começa a surgir como um objeto confuso e vai tomando força. É uma potência difusa e prazeirosa que ainda não está fixa como uma coisa única. 3 a 6 Mês: A paixão está em seu nível alto, estável e conhecido, é sempre um prazer encontrar-se com a pessoa, e fazer nada nunca é um problema, a razão para ver o outro nunca inclui uma desculpa (vamos no cinema?) mas pode ser claramente explicitada como ver o outro em si. 6 a 8 Mês, o corpo começa a dar ordens de estabilização, começam os mecanismos naturais e insconcientes de manter o outro por perto (briguinhas, um pouco de paranóia, leve medo de perder, e vontade de causar medo de perder) 8mês até X (entre 1 e 3 anos) estabilidade a 70% aqui ondula sempre a probabilidade de deixar o outro, regulada por brigas, choros, sexos, presentes, momentos e outras pessoas. X (Xis): A crise. As brigas se tornam mais intensas e mais sem sentido, o medo de perder vira semi-obsessivo ou o descaso começa a bater, o tesão em outras pessoas aumenta, a vida parece confusa, e por vezes nem se sabe o que há de errado. A tensão aumenta ao ponto de quebrantar.

Não vou falar sobre os namoros/relações que resistem à crise.

Para se manter estável nos 3 meses iniciais é necessário mostrar um descaso grande e não ser interessante, porque a tendência natural é de subida, talvez pegar pesado nos preconceitos da pessoa ajude. 3 ao 6 mês: A tendência natural é a estabilidade em alto nível, continuar surpreendendo talvez prolongue a estabilidade no final. No começo, nada é necessário para ficar na mesma. 6 ao 8 mês: O corpo começa a ordenar coisas que fazemos inconscientemente e que atrapalham a vida, a tendência é de queda, a pessoa não é mais tão impressionante, e nem nós conseguimos ser, realizando a profecia de que a relação não vai mais tão perfeita quanto antes. Ainda é muito bom, mas não é mais fantástico. Nessa época estabilidade é muito difícil, os mecanismos por trás da queda tem a ver com a passagem do tempo e a reconfiguração dos hormônios, que são forças muito violentas. Evitar ao máximo as tendências interiores as críticas, com e sem sentido, e tentar dizer para o outro fazer o mesmo (e porque) talvez sejam o melhor approach, mas não tenho certeza de que isso seja claramente possível. 8Mês a X: Faça mais ou menos o que parece instintivo e natural, encontre quando for o caso, brigue quando sinta necessidade, chore quando sentir vontade, fuja quando bem lhe parecer, a maré está a seu favor. X A crise: Talvez esse seja o ponto mais importante para as pessoas (afinal, quem ainda não está na crise está na época de desejar estabilidade do amor e portanto, erroneamente em pelo menos 50% dos casos por uma obviedade matemática, antevê que a crise será totalmente contra sua vontade). Me parece bastante difícil sobreviver a crise, uma teoria sobre ela é que ela existe porque é o momento em que o primeiro filho já estaria grande para caminhar sozinho, e pela lógica é hora de mudar os genes com os quais interagir, outra teoria é que a ausência de filho configura possível infertilidade, o que é absolutamente inaceitável e tem que ser resolvido com uma mudança de parceiro. Ou seja, claramente o lado biológico não ajuda e além disso não pode ser resolvido. É preciso lutar em outros âmbitos, na minha opinião a melhor maneira é com mudanças radicais, exaptando (utilizando para uma função diferente da original) uma idéia da psicanálise que é a transferência. A transferência em psicanálise diz respeito a ver o analista (ou outra pessoa) como alguém que é parte da sua vida (pai, mãe, namorada, tio, amigo do primário etc…). Dizem os psicanalistas que isso é essencial para o sucesso de algumas terapias (é importante sempre tomar cuidado em dobro com o que eles dizem). Nossa exaptação é a seguinte: E fazer o contrário? É possível? Eu defendo que sim, talvez a melhor maneira para se manter durante a crise é gerar uma singularidade ou epifania na qual você se torna, na representação do outro uma outra pessoa. E melhor ainda se ambos fizerem o mesmo. Uma revolução radical, tudo mudou, nada será como antes, porque isso possibilita a ilusão cognitiva de que não é mais a mesma pessoa que está alí. Obviamente isso não elimina as brigas homéricas, as tensões inelimináveis, talvez até só possa acontecer durante elas. O fato é que talvez isso possibilite uma “estabilidade” tanto quanto possível durante a crise. A outra coisa que com certeza ajuda é o sexo pós briga, de preferência com overlap com o final da briga, num espaço psicológico confuso em que uma coisa se funde em outra sem nem se perceber.

Pós Fim: Se a relação acabou, para se manter estável, é necessário que durante a crise não se tenha ido até o fim na tortura dos pontos fracos do outro e nem trapaceado (traição por exemplo, escárnio público etc…) provided that, me parece que o esquema é fugir da tradicional perseguição obsessiva e principalmente da absurda, mas igualmente tradicional “Olha como eu estou bem sem você” ou “Olha esses meus 33 namorados novos bem melhores que você”. Essa atitude, além de burra e ridícula, não ajuda nada a manter estável o nível de amor pós-relação. Acho que onde ela aparecer no outro ela deva ser criticada abertamente, inclusive com explicitação do tipo “Não faz o menor sentido você ficar falando isso para mim, eu não estou fazendo isso com você, e reconheço a importância do que aconteceu sem querer eliminá-la, não fazer isso é infantil” Essa acusação é suficiente para que a razão pela qual a pessoa faz isso, ou seja, a tentativa de te mostrar que ela é superior a você na hierarquia social, fique mostrada como patentemente burra, por operar como uma guerra fria (esse na verdade deve ser um mecanismo inconsciente que nos faz desejar A(mor) para obter o oposto de A(mor), algo muito comum já que nossos genes estão cagando e andando para nós, e vice versa). Uma vez que essa não seja uma estratégia que pareça boa, o interesse do ser humano percebe a sacanagem dos genes e a possibilidade de estabilização aumenta bastante. Para mulheres acho que é bem mais possível isso, e também é razoável usar uma estratagema levemente sexy para manter uma estável distância ao invés de afastamento. Para homens sou mais cético. Em primeiro lugar, mulheres são mais sensíveis, em segundo lugar, o estratagema que os genes delas prepararam é muito sólido, na medida em que é muito frequênte que elas cortem relações completamente (alguns homens também o fazem) e isso faz com que seja muito difícil manter uma aliança estável. Se não houver nenhum caminho de insistência que não gera raiva infinita na mulher, talvez o melhor a fazer seja desistir e esperar o tempo.

Por fim digamos que o objetivo seja diminuir o amor: Tudo que vou dizer não se aplica aos três primeiros meses, nos quais provavelmente o melhor jeito seja ver a pessoa muito pouco e demonstrar claríssimamente que você está baixo na hierarquia social e não quer ter nada “sério” jamais. No restante do tempo uma boa maneira é demonstrar interesse infinito, obsessão bananesca, bananismo genérico, cair em rotina metódica metódica metódica, esquecer datas imporantes, dar presentes claramente não específicos à personalidade do outro, pedir desculpas por tudo, ser excessivamente civilizado e mundano, falar apenas sobre os assuntos do jornal. É óbvio, mas importante, lembrar que é necessário manter o estoque alto de coisas para estabilizar depois, porque afinal, estamos, literalmente, falando de ser um chato, e não se quer eliminar a coisa toda. Uma só dentre essas várias opções deve ser o suficiente. Um erro muito comum nesse âmbito é achar que um tanto de descaso vai resolver o problema, pelo contrário, descaso prova que você está acima da pessoa, que você é foda, mais foda que ela, seu genes estão top de linha e você é a nova geração do que há de bom nesse mundo, afinal, você tem coisas mais importantes do que ele para se importar. Ou seja, esse é um péssimo approach para diminuir o amor. Descaso grande pode funcionar, mas cuidado, a faixa na qual isso funciona é pequena, e o risco de paixão obsessiva (falha pra -) ou mágoa (falha pra +) é muito grande para valer o risco.

Essa é a parte teórica pura (vide a forma SE X ENTÃO Y em oposição a DEVE-SE FAZER Z). Minha questão é Ética:

Seja todo esse conhecimento, é de bom grado usá-lo?

Vejamos algumas respostas:

Resposta intuitiva: Só uma mente perversa e doente pensaria nisso, é escabroso falar sobre isso, e se utilizar disso poderia ser considerado crime sem maiores ressalvas.

Contra-argumento: Essa é a mesma resposta que a Resposta Intuitiva daria para a questão “Será que não há um Deus?” “Podemos usar camisinha?” ou “Devemos gastar mais tempo amando do que trabalhando?”.

Contra-argumento 2: Se está descrevendo alí justamente a razão pela qual a intuição diverge do que é bom para as pessoas, ou seja, se a tese for verdadeira, segue logicamente que a intuição não é um bom guia para o bem viver.

Romântico: Essa descrição destrói a possibilidade de viver a coisa de dentro, de sentir toda a intensidade da vida, e portanto ela deve ser evitada, e não deve ser usada para agir.

Contra-argumento 1: Isso é simplesmente falso, a coisa é vivida com total intensidade mesmo quando ela é conhecida, técnicos de computador não tem menos prazer em usar o computador, e bons jogadores de tênis não tem menos prazer ao jogar tênis. Além disso a mesma crítica é feita contra a crítica de arte constantemente, e não é consenso que saber arte piora a arte, muitos acham que melhora.

Contra-argumento 2: Pode ser verdade que não se está vivendo a coisa de dentro, mas a vida não é a respeito de intensidades, mas sim de intensidades BOAS. Ninguém deseja a intensidade de descobrir que seu irmão de 15 anos está com cancer inoperável no cérebro, ninguém quer a emoção ultra-intensa de estar dirigindo num acidente de carro que mata um amigo seu. Como na média proceder de acordo com esse conhecimento maximiza muito as emoções boas, perder um pouquinho das pontas de intensidade é um preço bem pago por muito mais felicidade e momentos com a pessoa amada (ou longe dela, dependendo do objetivo).

Sociólogo-francês: Isso é uma redução absurda, o amor é muito mais do que isso, e não pode ser operado com esses conceitos e nem nesse nível.

Resposta: Blá Blá Blá Wiskas-sachê Blá blá blá Wiskas-Sachê. O amor é ÓBVIAMENTE infinitamente mais do que isso, até porque isso é uma descrição em terceira pessoa, e o amor é um sentimento em primeira pessoa, quando você tiver algo interessante a dizer, voltamos a conversar.

Feminista: Blergh

Resposta: Blargh.

Igualitarianista: Utilizar esses conceitos é injusto na medida em que nem todas as pessoas os possuem e quase ninguém consegue operar sobre eles além das próprias emoções. Isso conferiria uma vantagem sua em relação as outras pessoas e portanto é moralmente inadequado como qualquer exerção de poder sobre o outro.

Resposta: Talvez eu não tenha nenhuma resposta boa para esse argumento, o melhor que consigo pensar é dizer que isso não significa que isso não deva ser usado em casos em que seja melhor para ambas as pessoas. Ou seja, nos 70% dos casos em que os dois ganhariam mais felicidade se deva pensar assim. Os outros 30% não posso contra-argumentar sem apelar a uma ética individual à qual não me submeto.

Ingênuo: A vontade explícita das pessoas sempre coincide com a vontade dos corpos (meaning genes) delas, e o certo é permitir que essa comunhão se dê perante a Deus como Ele o quer, até que a morte os separe.

Resposta: Há duas maneiras de se resolver essa questão, uma é você abrir os olhos e olhar para o mundo ao redor, a outra é comprar uns livros, quaisquer livros fora da sessão Religião/auto-ajuda, sim, pode ser na ala infantil, sim, também pode ser em direito penal, quaisquer livros, acredite.

Primitivista/naturalista: A natureza deve seguir seu curso, e é interessante deixá-la operar como deve, e viver cada momento de tudo isso.

Resposta: Isso é um objetivo, pode ser o seu, não é o de algumas outras pessoas, considero respeitável, mas não considero que deva ser uma moral generalizada.

Minha posição pessoal fica em geral junto com a do igualitarianista, até porque eu sou um luckegalitarian, que é uma posição bastante parecida (a diferença é que luckegalitarian acham que deveria existir uma compensação ativa e não somente igualitária para as diferenças de sorte entre as pessoas. Mas apenas para cima. Por exemplo, se alguém nasceu lindo, genial e talentoso não se deve reprimí-lo ou queimar sua cara, mas se alguém nasceu feio e burro se deve fazer mais esforço para ajudar essa pessoa do que o que se faz para todos e ele deve ter direitos especiais de acesso a beleza (por exemplo salões de beleza), igualmente para renda. Uma pessoa não deve poder nascer mais rica do que o tanto máximo que é inevitável para que exista progresso tecnológico, ou seja os recursos deveriam ser igualmente distribuidos tanto quanto possível sem eliminar a vontade de mérito de todos. Uma pessoa mais burra deveria ter mais e não menos acesso a educação etc… ) O igualitarianista acha que a sorte é um dado que deve ser levado em conta, mas que a justiça é independente disso. O luckegalitarian acha que a sorte é um dado que deve ser ativamente compensado sempre que possível, e que uma justiça ideal só seria plena quando todos tivessem a mesma sorte ou azar, contanto que ninguém tenha que ser jogado para baixo.

Imagino que haja muitas outras respostas, e gostaria de receber algumas, para pensar mais profundamente a questão,e mudar de opinião se for o caso.

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Sujeito e Poderes da Palavra Falada e Escrita: Uma Ficção Gravitando Derrida, Dennett e Pinker

Esse texto foi escrito como um trabalho para uma disciplina de filosofia na usp. Ele é enorme (11pgs) mas acho que é interessante. Meu único medo ao publicá-lo aqui é passar a idéia de que eu acho que Derrida deva ser lido. Então quero destacar o seguinte: Não acho absolutamente que nenhum ser humano, jamais, deva ter que ler Derrida. Considero que ler Derrida talvez esteja entre os 15% piores de coisas para fazer com o próprio tempo, e que no máximo o artigo da stanford encyclopedia deva ser lido, caso alguém queira muito ter uma idéia. Dito isso, espero que seja de proveito aos diletantes do blog.

“And working with Derrida has always meant working more or less
closely with the frontier, or the frontiers, of philosophy and literature.”
Geoffrey Bennington

“ If all awareness is a linguistic affair, then we are never going to be
aware of a word on the one hand and a thing-denuded-of-words
on the other and see that the first is adequate to the second.
But the very notions of ‘sign’ and ‘representation’ and ‘language’
convey the notion that we can do something like that”
Richand Rorty

Sentados de frente ao pôr do sol num vale espanhol encontram-se três figuras1 de peculiar semblante capilar. O primeiro, de cabelos excessivamente brancos e nariz que não nega as origens francesas, o segundo, com a barba e cabelos que tranquilamente seriam confundidos com papai-noel por uma criança desatenta, e o terceiro porta cabelos encaracolados até os ombros, tipicamente adolescentes se não fossem grisalhos. Ao som de Vivaldi discutem algumas questões sobre a linguagem.

Derrida: A escritura opera de maneira diferente da palavra falada, cria uma espécie de sujeito intersubjetivo, possibilita o surgimento de uma consciência pura, cuja voz fala de maneira transcultural, e maximalizada na figura do cientista. “ [L]e sens n’y est pas assujetti à la successivité, à l’ordre du temps logique ou à la temporalité irréversible du son.” (Grammatologie p127).

Pinker: Essa noção de consciência pura me parece demasiado vaga. Por exemplo, sabemos que somos conscientes visualmente em geral dos níveis intermediários entre as categorias abstratas (“mesa”,”cão”, “mamãe”) e dos níveis sensoriais de percepção (os riscos e linhas projetados em nossa retina). Estamos conscientes em geral, visualmente, desse nível intermediário no processamento. Já no caso da linguagem, quando falamos estamos em geral conscientes do nível silábico, em oposição aos sons brutos ou as estruturas de significação das palavras.

Derrida: Por “pura” entendo essencialmente aquilo que transpassa culturas e indivíduos, a escritura permite uma comunicação na qual não se pode mais recorrer a intencionalidade do falante para verificar o que de fato se “quis dizer”. Ela cria um novo paradigma de simbolização. Esse novo tipo de sujeito, um sujeito puro, na medida em que não infectado das particularidades de ninguém, ou das indexalidades individuais de um contexto de elocução é uma consequência da escrita, e ele representa, em certa medida, um novo caminho para a metafísica.

Dennett: Posso entender com isso que você está sugerindo que existe uma intencionalidade na escrita pura, desconsiderada de seu escritor.

Derrida: Não uma intencionalidade, existe significação e linguisticidade. Uma pletora de significados se entremeia nessa linguagem, criando um novo espaço onde poderia surgir algo como uma nova episteme, independente de sujeitos particulares, e portanto algo que pode nos auxiliar a minar a metafísica da presença. Alternativamente poderia fazer surgir uma nova metafísica.

Dennett: Em meu The Intentional Stance argumento a favor da idéia de considerarmos quaisquer entidades processadoras de informação suficientemente complexas como agentes intencionais, lembro-me de pelo menos duas coisas em seus textos que eu classificaria assim. O status da escritura e da máquina de escrita que você supõe operar no insconsciente freudiano. Ambas estão reconhecendo padrões e se dirigindo para um ou outro lado, seja através da interminável sequência de signos que constitui a escritura, seja através da constante reelaboração de traços mnésicos (ou o que eu chamaria de alterações médias de reforço sináptico) que opera a linguisticidade do insconsciente.

Derrida: De fato eu entendo que haja ao menos três tipos de linguisticidade habitando o mundo. A linguisticidade que opera na voz, na consciência individual e que está sempre impregnada de differànce, que só pode ver a si mesma através de um espacement. Além disso a linguisticidade do insconsciente que regimenta operações conscientes através de quase-regras que não têm valor semântico ou sintático bem determinado, mas ainda assim operam e modificam as condições de possibilidade daquilo que é de fato falado e vivido pelo falante. Por último a linguisticidade da escritura, que, como antecipei, não vê na intencionalidade do falante seu fundamento, e portanto talvez esteja numa melhor posição para descarregar a metafísica da presença, da consciência, da autonomia…
Não me disporia a dizer que essas duas últimas linguisticidades têm uma intencionalidade, uma maneira última de fixar a referência, então não posso concordar.

Dennett: Como um Quiniano, estaria longe de mim querer fixar regras de determinação da referência ou de tradução ipsis literis entre quaisquer linguagens que sejam, ainda mais de tipos tão distintos. Minha defesa é apenas que não existe nenhuma intencionalidade legitima, ou originária, contra a qual devem ser contrastadas as intencionalidades derivadas. Ou seja, a referência de um termo, seja ele “gavagai” ou “differànce” sempre admitirá enormes quantidades de referências, e não há maneira de distinguir entre elas.

Derrida: Na escritura, você diz.

Dennett: Não, tanto na escritura, quanto no insconsciente, quanto na consciência, quanto num programa de computador. Evidente que existem níveis de imprecisão diferentes em cada um desses sistemas, e que nós somos um sistema muito eficiente de captura de erros de referência. É fácil enganar uma máquina de refrigerante com uma moeda falsa, ou um sapo com uma mosca falsa, é bastante difícil enganar um humano com uma mulher falsa, mas exemplos como o gavagai de Quine e a Twin Earth2 de Putnam demonstram que não é impossível.

Derrida: Então você está sugerindo uma espécie de caminho de desconstrução da noção metafísica de sujeito a partir de uma concepção mais vaga de intencionalidade, negando, assim como eu, que haja intencionalidade determinada na escritura ou no insconciente, mas indo além e declarando que o que quer que a história da filosofia queira dizer com intencionalidades determinadas na consciencia do sujeito, isso também não existe na mesma medida?

Dennett: Exatamente. O meu projeto filosófico, apesar de por caminhos muito diferentes tem também por objetivo desconstruir a noção de sujeito, de consciência, de autonomia, e de autenticidade. Para isso sirvo-me principalmente não de noções abstrusas como differànce, espacement, e etc mas de evolução darwiniana e inteligência artificial.

Pinker: Há algo que não me soa bem naquilo que os parece fazer concordar a respeito do grau de determinação da linguagem falada. Ambos parecem estar falando como se a linguagem fosse somente determinada pelo uso, e que o limite de precisão da referência fosse justamente o limite da capacidade de utilizar um termo e agir de acordo com ele. Mas há razões para crermos que a linguagem é mais fixa do que apenas uma série ordenada de convenções. Essa hipótese de determinação por uso, chamada de radical pragmatics, e sustentada na filosofia famosamente por Wittgenstein, pode ser refutada empiricamente. Como eu pontuo em meu The Stuff of Thought (2007pg115):
“…[T]he more frequent a word is, the more polysemous it is, and vice versa. For example, the comon verb set (which occurs 372 times in every million words) has more than eighty dictionary definitions; the less common verb sever (9 per million) has four, and the rare verb senesce (less than 1 in a million) has just one. This is just what you would expect if words by default are precise in meaning, and accumulate additional senses through separate exposures, but the opposite of what you would expect if words by default are diffuse in meaning, and are sharpened with additional exposures through discrimination training.”

Derrida: Você traz uma questão que é muito cara a mim, a questão da polissemia, ou como eu costumo falar, da disseminação. Uma das perguntas que eu reforço a importância é, porque não a disseminação ao infinito? Porque temos que readmitir sempre na linguagem e na vida a determinação, a especificidade. Isso pode ser apenas mais um reflexo do desejo de divinização da filosofia tradicional. A tentativa de compatibilização entre identidade, autenticidade e a liberdade necessita de uma especificidade para que o eu se veja como idêntico a si mesmo. Mas não existe tal coisa. Mesmo ao olhar para si próprio é necessário um espacement, uma abertura, um ver-se enquanto o outro. E nisso se perde o valor da falsa identidade. A polissemia talvez soe ao filosofo tradicional ou ao estruturalista como um politeísmo, e a cristandade do ocidente não permitiria tal pecado. A disseminação é criminosa em todos os âmbitos nos quais se envolve a filosofia ocidental, do politeísmo a poligamia. Mas a mim parece claro que a disseminação é o próprio fator que determina a possibilidade da linguisticidade. A comunicação que supõe uma tradução sempre possível é um atentado, todo ato de fala já traz consigo o espectro da convenção as regras que regem a linguisticidade do falante à qual se deve submeter o ouvinte. A não compreensão é, nesse sentido, compreensão maior do que a compreensão, já que esta depende de uma violência.

Dennett: Mas o propósito de uma linguagem, como já foi pontuado por Quine, Davidson e eu é justamente o de transmitir informação verdadeira com precisão. Uma linguagem que fosse 55% mentira por exemplo não poderia evoluir, pois seria adaptativo para um indivíduo não entendê-la, e logo todo o grupo, ou espécie, deixaria de ter a capacidade de compreensão de linguagem. É uma propriedade essencial e estrutural de qualquer língua que ela sirva ao menos em maioria para descrever o mundo.

Pinker: Isso desconsidera atos performativos, que são justamente aqueles nos quais me parece que Derrida pontua que ocorre uma violência de tradução.

Dennett: Pelo contrário, um ato performativo depende de um modelo cognitivo (por exemplo virtual) do mundo ao redor bastante específico para que o agente ouvinte possa interpretar corretamente o que deve ou não fazer. A noção de liberdade promulgada por você, senhor Derrida, me parece aí simplesmente uma abstenção de ação. Não impor a traducibilidade entre duas linguagens faladas não é libertar o Homem, mas privá-lo da conquista da comunicação, submetendo-o, ainda mais, as forças da natureza contra as quais a linguagem evoluiu.

O sol se põe no horizonte, e é servida uma garrafa de vinho para amenizar o frio, após um brinde, a conversa é retomada:

Derrida: Falavamos sobre atos performativos, perlocucionários. A mim parece que a distinção entre atos performativos e demais sentenças de uma linguagem falada é uma má distinção. Não há uma clareza de preto no branco aqui, mas uma espécie de degradê, e em última instância a ação de uma sentença se confunde com seu significado. Ao menos em parte é isso que amplia o grau de determinação da palavra falada em comparação a escritura, o grau de disseminação de uma sentença diminui se ela se conecta em contexto a as ações dos indivíduos. Num monólogo interno, não há sentido pois o significante se torna índice e se traduz em ato, não há possibilidade de signo. Em casos menos extremos de elocução, ainda assim a expressão guarda muito da determinação na forma de índice, de refração imediata do significante no mundo. O ato elocucionário está sempre colocado como expressão, e é na expressão que podemos precisar aquilo que a escritura opera de maneira distinta, trans-individual, transcendental.

O garçom se manifesta:

Diego Caleiro: O que me parece mais razoável dizer é que a linguagem nos permite falar sobre objetos do mundo (e fora dele) com um grau de precisão que o sujeito epistemológico não pode fazê-lo. A linguagem é capaz de falar sobre metafísica por exemplo, mesmo que eu não seja capaz de conceber metafísica de maneira coerente. De Merleau Ponty ao linguista Lakoff em seu Philosophy in the Flesh fica claro que nossa mente está incorporada, que somos seres cognoscentes no mundo, e que pensamos principalmente sobre ele. Entretanto, como pontua David Lewis, estamos o tempo todo utilizando sentenças modais como “A Rússia poderia não ter sido o maior país do mundo”, que dependem de toda uma operação metafísica de se supor mundos possíveis, designar a Rússia rigidamente, e deixar a referência de ‘o maior país do mundo’ aberta. Esse tipo de operação é a linguagem que nos permite fazer, e portanto podemos falar de metafísica, sobre isso Lewis pontua (Lewis 1983 p136):
“I can. Some say they can’t. They say their understanding is limited to what can be expressed by modalities and world-restricted quantifiers. I have no help to offer these unfortunates, since it is known that the expressive power of a language that quantifies across worlds outruns that of the sort of language they understand. See, for instance, Allen Hazen, “Expressive Completeness in Modal Language,” Journal of Philosophical Logic 5 (1976): 25-46. His examples of theses inexpressible by modalities and world-restricted quantifiers alone are notable for their seeming intelligibility.”

Entendo o caminho de Derrida mais ou menos dessa maneira, não pensando a escritura como algo nela mesma transcendental, mas como algo que é capaz de representar o transcendental, falar sobre ele, enunciar questões a respeito etc… Existe um sentido no qual se poderia dizer que a escritura é transcendental, o mesmo sentido no qual os estruturalistas diriam que há uma transcendentalidade regendo os mitos. Isto é, algo que determina toda a classe dos mitos sem pertencer a nenhum deles, e que não perpassa a consciência de nenhum indivíduo que crê nos mitos.

Pinker: Mas essa transcendentalidade, essa propriedade de estar num nível mais profundo que o da consciência é justamente aquilo que Chomsky descobriu, que gerou as árvores semânticas, e a respeito do que eu defendo a tese de que seja um instinto em meu livro The Language Instinct. Numa visão de mundo que me parece que todos compartilhamos, que é a da eliminação do sujeito transcendental e de suas propriedades divinas, não é nada mais do que razoável e necessário encontrar um princípio de explicação do porquê a estrutura da linguagem perpassa indivíduos e culturas, e a explicação mais adequada e simples para isso é a existência de um instinto (determinado por uma parte do código genético comum a todos) que orienta essas regras. Não é nada misterioso, espiritual. Essa transcendentalidade só transcende nossa capacidade epistêmica imediata enquanto seres conscientes, mas está muito bem engendrada no mundo físico.

Diego Caleiro: Exatamente por isso não acredito que seja interessante uma interpretação da transcendentalidade da escritura como esse tipo de transcendentalidade, isso não traria nada de novo, conquanto a outra interpretação, de que o elemento diferencial da escritura ao ser intersubjetiva é que ela funciona de maneira epistemicamente diferente e pode falar a respeito de coisas que não temos acesso é muito mais frutífera.

Derrida: Nesse sentido, já coloquei por vezes a questão: Aquilo que me garante a possibilidade do sentido é ao mesmo tempo aquilo que me gera a possibilidade de perdê-lo. Isso porque o sentido transcendental só se pode dar fora do sujeito, no locus trancendental habitado pela escritura (que é intersubjetiva). Por outro lado, se o sentido está lá, na escritura, como posso ter acesso a ele?

Dennett: Isso é simples, você não pode, por problemas como a impossibilidade de interpretação radical, inescrutabilidade da referência e o próprio problema da polissemia (ou disseminação, se quiser) você nunca estará plenamente qualificado para acessar ou interpretar essa informação. O que se faz na escritura fica na escritura.

Diego Caleiro: Ora, mas se assim for, que garantia posso ter eu que esse poder da linguagem que eu não posso acessar está de fato lá? Não é só uma questão de não saber o conteúdo do objeto que estamos discutindo, isto é, o poder transcendental da linguagem escrita, é também uma questão de saber se existe de fato esse poder. Roubando uma metáfora de Russell, não se trata só de saber o sabor do chá que está orbitando marte, mas também, e principalmente de saber se há de fato um chá orbitando marte.

Derrida: O exemplo do bloco mágico de Freud talvez nos seja de serviço aqui. Assim como no bloco mágico, num determinado ângulo e com a correta iluminação eu consigo obter parte da informação acerca daquilo que me é inacessível (e portanto, no nosso discurso atual, transcendental) é possível que simplesmente ao deparar-me com a escritura eu tenha acesso parcial que me dê a garantia da existência desses poderes trancendentais.

Dennett: Alternativamente, podemos simplesmente admitir ignorância e evitar minar a filosofia com noções que dependam desse tipo de trancendentalidade. No exemplo dado, podemos simplesmente admitir que não fazemos idéia de se a Rússia poderia ou não ter sido o maior país do mundo, mesmo que a linguagem pareça indicar que sim. Nós, neo-quinianos, em geral tomamos essa perspectiva de análise.

Diego Caleiro: Uma terceira possibilidade é admitirmos um novo sujeito epistêmico, localizado na própria escritura, e tomarmos ele, e não a nós, como o ponto de partida. A idéia de Derrida sobre o cientísta e a ciência como encarnações dessa intersubjetividade representa bem isso. Podemos conceder que o criador de conhecimento não é um eu cartesiano, um sujeito fenomênico ou qualquer coisa assim, mas sim justamente a própria estrutura regente da linguagem escrita. Quem sabe em outras palavras, deixo de ser apenas eu e passa a ser o meu texto.

Dennett: O problema de fazer isso é mais uma vez o de que senteças como “Prota engelska” podem ser traduzida de infindáveis maneiras caso não saibamos sua origem. Por outro lado como pontuei antes, quanto maior o conjunto de símbolos sintáticos (por exemplo letras) em sequência, maior a quantidade de constrições naquilo que um texto pode representar, um livro não pode ser a respeito de qualquer coisa, mas o nome dos personagens pode ser trocado por exemplo, então a referência de um livro num idioma desconhecido ainda é bem aberta. Quanto maior o texto, mais determinada a referência e mais clara a intencionalidade (no meu sentido fraco) das palavras nele contidas. Uma frase simples no entanto admite infindáveis traduções, possibilidades representacionais, porque estruturas simples mapeiam coisas demais.

Derrida: Me incomoda o que parece ser uma noção de telos na visão de mundo de vocês, como se o texto fosse tão determinado quanto um sujeito, e na medida em que ele se constrói e reconstrói, apenas torna mais perfeita sua capacidade de significar. Como se, no limite o texto fosse se tornar Homem, ou Deus, único e determinado. Essa visão teleo-lógica não é boa como filosofia do sujeito, e eu digo que não é boa como filosofia da linguagem.

Diego Caleiro: E se encararmos o texto apenas como um construendo constante que se determina conforme se amplia, satisfazendo as necessidades computacionais de Dennett, e ao mesmo tempo o texto por conta de mudanças de uso contingencias e contextos também cria polissemias, disseminações conforme se inscreve no mundo. Isso nos orientaria em direção a uma filosofia da linguagem ondulatória, que ao mesmo tempo vê um grau médio de teleologia na linguagem (o suficiente para manter a evolução funcionando) mas permite oscilações de sentido, em particular naqueles aspectos que mais se distanciam da vida cotidiana, como por exemplo a metafísica. O programa de Derrida assim se justifica na medida em que seu objeto é quase sempre um conjunto de construtos metafísicos pertinentes a episteme de uma época, e é justamente nesses terrenos sombrios da linguagem, que não tem valor evolutivo, que mais se pode errar, e onde mais se justifica aplicar a desconstrução. Se a linguagem ondula de uma maneira que parece direcionada a um telos, certamente mesmo em seus momentos de mais precisão e acurácia ela ainda se encontra muito longe. A destruição de noções metafísicas, o jogar um texto contra ele próprio, a procura da differànce são uma metodologia que nos mostra, continuamente, que o território da filosofia é o terrítório onde as ondas não mais estão se aproximando da realidade. Betrand Russell dizia que a ciência é o que sabemos, a filosofia o que não sabemos, e a religião o que inventamos, e via a função do filósofo como transformar filosofia em ciência. É irrelevante para nossos própósitos discutir a diretiva de Russell, mas sua premissa se encaixa de maneira interessante nessa discussão. Se a premissa for verdadeira, a filosofia de Derrida é uma metologia de verificar se algo ainda é filosofia, e não escapou para o domínio da ciência. Onde se desconstrói, se filosofa. Onde não se desconstrói, se “cientiza”.

Derrida: Diego, você diz que não traria algo de novo pensar a transcendentalidade da escritura como a inacessibilidade da consciência as idealidades da linguagem. A consciência pura acessa essas idealidades, e não o sujeito. Ainda que isso tenha sido dito pelos estruturalistas, minha noção é mais fluida, na medida em que encompassa todas as possiveis modificações e significações da linguagem ao mesmo tempo, com sua poesia, disseminação, literatura, filosofia etc… se reconstruindo continuamente sem uma origem. Sem um centro. Nessa medida, ela é diferente da noção proposta pelos estruturalistas. É algo de novo.

Diego Caleiro: Sem dúvida mas ela não está sozinha nisso….

Dennett: Meu amigo Hofstadter por exemplo propõe uma visão muito parecida do Homem em “I Am a Strange Loop”, a noção de um strange loop é justamente uma estrutura fluida, aberta, repleta de auto-referências que não se orienta numa únidade individual e que amplia e reduz aspectos de sí própria. O funcionamento de um Strange Loop me parece muito similar ao que Derrida chama de Linguagem, e também de sua visão anti-metafísica do sujeito…
–Derrida interrompe…

Derrida: “A supposer que la théorie de la cybernétique puisse déloger en elle tous les concepts métaphysiques — et jusqu’à ceux d’âme, de vie, de valeur, de choix, de mémoire — qui servaient naguère à opposer la machine à l’homme, elle devra conserver, jusqu’à ce que son appartenance historico-métaphysique se dénonce aussi, la notion d’écriture, de trace, de gramme ou de graphème.” (Grammatologie p19)

Dennett continua: Eu mesmo escrevi um texto: “The Self as the Center of Narrative Gravity” em que proponho que o Self é uma noção abstrata, como um centro de massa, ao redor do qual se constroem nossas “Intencionalidades” ações, comportamentos, sentenças etc… Um centro de massa não é algo físico, mas existe en tant que entidade abstrata, defendo que um Self seja o mesmo tipo de coisa.

O vinho começa a subir a cabeça….
Derrida: Essas idéias podem ter atravessado o atlântico, mas surgiram aqui, na boa e velha europa, já que escrevi muito antes de vocês.

Dennett: E nos sobrou o trabalho de traduzir, transduzir, e tranformar o seu obscurantismo terrorista em algo que pode ser compreendido, que se adequa a ciência contemporânea, que é compatível com a evolução e a computação, e que por isso mesmo justifica a utilização desse tipo de idéia.

Derrida: Aí você se engana, e começa mais uma vez a cair em noções metafísicas presentes à ciência contemporânea, a próxima geração de desconstrutores se encarregará de chafurdar nisso. Como uma degustação, já antecipo que dentro das filosofias computacionais as noções de símbolo por exemplo estão repletas daquilo que chamo de “contamination”. Hofstadter tem publicado a respeito de o principal aspecto da cognição ser o funcionamento dela como analogia, e por vezes como metáfora, mas, como já disse antes (De la dissémination, Paris, Seuil, 1972, p. 172.)(Marges, Paris, Minuit, 1972, p. 303.): “La métaphoricité est la contamination de la logique, et la logique de la contamination.” “La philosophie, comme théorie de la métaphore, aura d’abord été une métaphore de la théorie.”

Pinker: Nessa batalha semântica intercontinental sintática intencional não haverá hoje vencedor, cantemos então, com Lewis Carroll, uma música que bem representa parte dos problemas que estivemos discutindo:

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

“Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!”
He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought —
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.
And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!
One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.
“And, has thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!’
He chortled in his joy.

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.”

Referencias:
Carroll, Lewis.Through the Looking-Glass and What Alice Found There. 1872
‘Jabberwocky” disponível em:

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Acesso em: 06 jun. 2009, 08:46.

Dennett, Daniel. Darwin’s Dangerous Idea: Evolution and the Meanings of Life. Penguin Science 1996
—————. The Self as a Center of Narrative Gravity in F. Kessel, P. Cole and D. Johnson, eds, Self and Consciousness: Multiple Perspectives, Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1992.

Derrida, Jacques. La voix et le phénomène : Introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl (Broché) 3e édition 2003

—————–.L’écriture et la différence (Poche)1979

—————–. De La Grammatologie. Editions de Minuit 1967

Hofstadter, Douglas. 2001 Analogy as the Core of Cognition IN The Analogical Mind: Perspectives from Cognitive Science.
Online version: http://prelectur.stanford.edu/lecturers/hofstadter/analogy.html
———–. I Am a Strange Loop. Basic Books 2007

Kripke, S. Naming and Necessity. Harvard University 1980

Lewis, David Kellog. Attitudes De Dicto and De Se IN Philosophical Papers vol 1. Oxford University Press. 1983

Maniglier, Patrice. Surdétermination et duplicité des signes : de Saussure à Freud.
Online Version:

Pinker, Steven. The Stuff of Thought. Harvard University. 2007

———–. The Language Instinct: How the Mind Creates Language .Perennial Classics. 1994

Putnam, Hilary. The Meaning of Meaning IN Language, Mind, and Knowledge. University of Minnesota press. 1975

Quine. Word and Object. The MIT Press. 1964