Todos os posts de Leo Arruda

Sou formado em ciências moleculares e tenho um mestrado em neurociências. Me interesso muito por ética, psicologia, neurociências, racionalidade, filosofia, ciências, otimização pessoal e espiritualidade. Sou codiretor do IERFH.org - Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade

Observações sobre o comportamento sexual das pessoas

Por conta de estar solteiro, tenho feito muitas observações sobre o comportamento de seleção sexual e corte das pessoas a minha volta. E tenho de dizer que os acho na sua maioria muito estranhos, e o modo como são irracionais e ineficientes em produzir resultados satisfatórios me angustia.

Acho que muitas pessoas tem uma visão muito distorcida destes processos, baseada em concepções idealizadas de como as coisas deveriam ocorrer (a pessoa certa, o príncipe encantado, “beleza é relativo”, casamentos perfeitos, etc). Vou expor então como acho que as coisas de fato ocorrem. Estou deliberadamente misturando conhecimentos mais científicos com constatações mais pessoais.

As bases do comportamento sexual são instintivas, como é o caso da maioria das espécies vivas, os machos humanos, por terem gametas pequenos e móveis, tem mais sucesso reprodutivo fecundando a maior quantidade possível de fêmeas viáveis reprodutivamente, enquanto estas, por terem o gameta grande e nutritivo e nos mamíferos uma gestação longa e custosa, ficam naturalmente com o fardo de garantir a sobrevivência da cria, e tem a necessidade de buscar tanto um macho com boa qualidade reprodutiva e de sobrevivência, como um bom provedor para fornecer os recursos para criar seus filhos (que pode ou não ser o mesmo indivíduo).

Curiosamente o comportamento sexual parece se dividir entre o comportamento de interação sexual casual e o comportamento de busca de relacionamentos estáveis. A interação sexual casual é dominada por sentimentos de atração, que são provocados pela ativação de certos gatilhos emocionais em resposta a sinais específicos; as mulheres parecem ser estimuladas principalmente por sinais de dominância e competência sexual e social, enquanto os homens são mais por características físicas e sensoriais. A busca de relacionamento é dominada por critérios um pouco menos superficiais, como segurança, estabilidade, comprometimento afetivo e posse de recursos.

Acho que na grande maioria dos meios sociais os homens tem o papel ativo de escolher entre as mulheres aquela que lhe parece mais atraente e abordá-la e conquistá-la, enquanto as mulheres tem o papel passivo de selecionar entre os homens que as abordam e controlar o que querem com cada um.

Quero chamar atenção para o fato de que o mercado sexual (este contexto de busca e oferta de parceiros, interações e relacionamentos) é injusto, ineficiente e tem incentivos perversos.

* É injusto: A maior parte dos principais caracteres valorizados na seleção sexual não tem muito mérito pessoal e são em grande parte de origem genética (o que faz sentido pensando na sua razão de ser): altura, porte físico, extroversão, agressividade, inteligência, forma e tamanho de partes do corpo, propensão a acúmulo de gordura, características sexuais masculinas e femininas são caracteres com grande componente genético, e distribuídos de forma bastante desigual na população. Claramente há pessoas muito mais valorizadas sexualmente do que outras, a distribuição é desigual como qualquer outra característica. Há diversidade e variação de gostos, mas há tendências claras favorecendo alguns padrões.

* É ineficiente: As estratégias de seleção frequentemente levam a parceirias insatisfatórias para uma ou ambas as partes, muitas pessoas sistematicamente procuram e se atraem por parceiros que são incompatíveis com suas personalidades, ambições ou estilos de vida e tem relacionamentos conturbados e infelizes.

* Tem incentivos perversos: As estratégias e sinais de seleção de parceiros incentivam práticas indesejáveis, como desonestidade (esconder atributos indesejáveis e mentir ou dissimular sobre os atraentes, fingir interesse ou escondê-lo, dar falsas perspectivas de um relacionamento, de exclusividade e de fidelidade), superficialidade (ênfase em disputas de status baseadas em sinais de valor de baixa confiabilidade ou curta duração, como modas, aparências e especulações), agressividade (pela seleção de parceiros mais dominantes), objetificação sexual feminina (pela supervalorização de atributos físicos), promiscuidade e traição (pela seleção dos parceiros mais sexualmente competitivos).

É possível se definir a atratividade sexual de uma pessoa pela sua atratividade média na população em questão, assim, uma pessoa ou uma característica que é atraente para muitas pessoas pode ser dita mais atraente. Pessoas tendem a se relacionar com pessoas de atratividade semelhante, isso se deve ao processo de seleção sexual, e a instabilidade maior de relacionamentos com diferença grande de atratividade.

Além disso, a atratividade sexual de uma pessoa tem diversas implicações sobre seu sucesso social, opções e estilo de vida. Pessoas sexualmente atraentes tendem a ascender socialmente, pois são puxadas para cima pelas pessoas que as desejam, as querem por perto ou se relacionam com elas compartilhando seus recursos. Pessoas sexualmente atraentes tem mais opções de emprego, mais parceiros sexuais, e creio eu mais poder e acesso a recursos em geral. Esta percepção de status as leva a optarem por ambições, valores, meios sociais e opções profissionais específicas. Curiosamente, as pessoas menos atraentes tem de vencer na vida por outros meios, a acabam sendo incentivadas a desenvolver outras habilidades. Então, embora as pessoas mais atraentes tenham mais acesso a recursos que permitem seu desenvolvimento, também podem ter um contraincentivo a se desenvolver em outros aspectos por ter uma vida facilitada.

Os papéis sexuais e as diferenças de atratividade também criam injustiça e desigualdades sociais na medida que favorecem discriminação social a favor das pessoas mais atraentes em muitas situações nas quais não deveriam ser relevantes, favorecem a dominância masculina (pelo incentivo que os homens tem em estabelecer dominância social e sexual e em competições arbitrárias) e a objetificação da mulher e seu favorecimento em receber recursos (o que atua como um desincentivo a sua autonomia).

Devido à grande vantagem que a atratividade sexual proporciona, ela é um bem posicional que é disputado em muitos meios sociais; é comum ver competição de dominância sexual entre mulheres (principalmente com beleza e roupas), e entre homens (varia bastante, mas frequentemente por porte físico, riqueza, agressividade, inteligência, …); estas disputas às vezes tomam formas bastante específicas e exdrúxulas (mais do que cantos de passarinhos e lutas de chifres) como esportes, política, artes e competição intelectual.

Além das inúmeras coisas infelizes que já expus, o processo de corte e relacionamento tem numerosos conflitos de interesses que criam jogos e disputas; o processo de aproximação sexual tem uma tensão de exposição em que cada um vai mostrando pouco a pouco suas cartas a fim de mostrar que tem qualidade tão boa quanto o outro, ao mesmo tempo que tentam ocultar seus pontos negativos (quando podem); há também um problema de sinalização de interesse, sinalizar mais interesse e necessidade do outro traz desvantagem pois tira seu poder de negociação sobre os termos da relação, cria subordinação, o que sinaliza baixo status. Investir no outro e se comprometer cria um conflito interno pois aumenta a chance de se machucar ao ser rejeitado, ou de perder muito ao se decepcionar, ou de se perder oportunidades com outras pessoas que possam aparecer. As mulheres tem um conflito a mais principalmente em relação a relacionamentos casuais que é o de se expor socialmente como promíscua, que é altamente desvalorizado em boa parte dos meios, o que faz com que sejam mais inibidas sexualmente. Após o estabelecimento do relacionamento frequentemente há disputas por dominância entre quem toma decisões, disputas por atenção, comprometimento emocional e outros recursos, disputas de insegurança e dominação para estabelecer fidelidade e compromisso, entre outras. Isso para não falar de quando há filhos e dinheiro envolvido. Estas disputas podem ser intensificadas ou não dependendo do modo como o casal lida com elas e com a diferença de status envolvido, quanto maior a diferença mais fácil é de um predominar naquela disputa.

Devido a estes conflitos e jogos, as pessoas criam estratégias de investimento, ataque e defesas, que demandam estratégias de resposta da outra parte e criam uma corrida armamentista do mal. Como vivemos numa sociedade competitiva e com algumas pessoas hostis e aproveitadoras, as pessoas geralmente tem muitas defesas. Então elas bebem para diminuir suas defesas, o que também prejudica seu senso de avaliação e as deixa mais impulsivas e propensas a tomar decisões ruins. Quantas pessoas procuram e começam seus relacionamentos por intermédio de álcool? (calma, não estou dizendo que seu relacionamento é ruim, apenas que é triste que a sociedade precise disso)

Minha conclusão é de que no aspecto sexual as pessoas são muito irracionais, e pela minha experiência adverti-las é pouco eficaz, abordagens mais racionais não costumam funcionar devido ao forte aspecto emocional e muitas vezes pouco consciente das questões envolvidas, incluindo a atração. De maneira que é um aspecto que temos de nos conformar em algum grau, e tentar lidar da maneira mais prática e menos danosa possível, o que é bem complicado. =(

Why haven’t intelligent people taken over the world?

(Publiquei este post em português no meu blog)

Let’s suppose a few hypothesis:

1) There are people who are very, very, VERY intelligent in the world.

2) The human civilization doesn’t look so let’s say…  very well organized, it seems like there are important human beings doing stupid things.

3) A fraction of the very intelligent people are also ambitious AND have strong opinions about how the world should be AND care enough to do something about it.

Hence my question is: Why is the world not regularly dominated by very intelligent people???

Ok, I admit that it is a somewhat bizarre question, but I really mean it, and I will try to justify myself.

First, what do I mean by dominating the world?
Domination means that you are able to make your will prevail over others. It doesn’t have to happen by force, far from it, it is enough that one can handle the situation to his side. Dominating the world assumes that someone (or some group) can achieve such a degree of superiority of power that is able to subvert the whole political established hierarchy. This seems to be VERY difficult, as I suppose that the closer you get to dominating the world, the more competent are your competitors aiming for the same purpose (or any other purpose which is incompatible with yours). That is, to take over and keep the power you have to find a way to win, eliminate, or avoid the elite of the political power in the world.

Why would anyone want to dominate the world?
To impose your will. And why would anyone want this? Well, this is a psychological matter. I suppose that it could be to satisfy an insatiable ego, a huge will to power, magnify one’s own image or by a very strong feeling of revenge, which is nonetheless also an imposition of one’s self on others. These motivations would be psychopathic. A more rational motivation could be for an ethical duty, well, it is true that the notion of duty is not rational, but I mean it would be a more objective conduct, to dominate in order to actualize goodness (whatever one understands by goodness…).


Why would anyone need to dominate the world?
Because the traditional social means may not be enough for what you want; for the most common political organizations requires that in order to gain power someone should gather admirers and trust in those who are in control of stabilishing your rank (whether the population or a political aristocracy). This route has many disadvantages, it commits the applicant to the interests of his political supporters (actually sharing his power with them), requires him to maintain a demagogic persona (social image) that somehow motivate or justify his position, and blatantly exposes him to all who might be interested in taking his rank or who oppose his policies to act against him, to overthrow him or simply kill. That is why someone would want to dominate the world through alternative means – which need not be by force (violence), I believe there probably are other ways.

Why someone would have to be intelligent to dominate the world?
Well, it is important to emphasize that I am not talking about a merely academic intelligence, I’m talking about a person with high cognitive ability in many areas, one who is able to face difficult problems of pratically any nature, from metaphysical questions, to social manipulation, to juggling gelatin.
Therefore, I think this would be the most important capacity in order to try to dominate the world because someone in this condition could try to understand and solve any problems that could appear, no matter if he/she was not particularly good at it.

How it would be like if intelligent people dominated the world?
It’s hard to answer, but we would live in noocracy, a government of the wise, or initially a geniocracy, since I am considering that on or a few geniuses would take over the power.  I suppose intelligent people would be better able to solve the major problems of society and to create efficient policies, they would have a more realistic, deep and complete understanding of the social functioning, have ethical concerns and a well-developed ethical system, and would be able to separate their personal interests of those of humanity.
Unfortunately some of these assumptions would probably not materialize.
There is still a complicated issue of how to represent the ethical and political values of the population, which is one of the greatest values of democracy. This would be an additional problem to be solved.


Isn’t the desire to dominate the world a childish, narcisistic and megalomaniac attitude based on a simplistic conception of society?
Hmmm… maybe. But would that really prevent people from dominating the world?

Assuming then that the main questions have been clarified:
Why is that the world is not regularly dominated by very intelligent people???

The answer doesn’t seems obvious. I will consider several possibilities:

1) The world has already been dominated by intelligent people and I was the only one who did not notice.
Well, this answer is either a denial of my second premise (that the world does not work very well), or the defense that even though intelligent people have dominated the world, these beings are not able to make it work in a way that seems adequate or worse, they are not interested in that.
This argument is quite similar to the Epicurean argument against the existence of God: if God wants to be good and is not able he is impotent, if he can but does not want he is malevolent, if he cannot and doesn’t want he shouldn’t be called God.
I shall divide this possibility in two:

1.1) The world has been dominated by intelligent people, but they can’t do the trick.
This is possible, but unlikely. However, given my lack of information about the occurrence of exceptional intelligence in ranks of high power, I will assume they probably are in positions of lower public exposition ( “illuminati”? O_O). If it is that so, why is that they cannot do deal with the problem? Is the dynamics of society, politics and the economy so uncontrollable? After all, remember that we are talking about people who were able to dominate the world! Why is it that they could not manage it efficiently? They don’t have enough critical mass? There would exist too much disagreement between them? It seems more likely to just reduce this position to a more usual view that whoever is controlling the powerful society are not as intelligent or competent as we are talking about. In other words, this position denies the first postulate.

1.2) The world has been dominated by intelligent people, but they are not concerned with organizing it, they are worried about other things.
This seems somewhat more likely. But why? In my view, a very intelligent person who has been able to dominate the world should have serious concerns about which direction to take. After all, has he dominated for what? Is it that ethics really does not necessarily lead to a social administration other than that we see today? Does intelligence not necessarily lead to ethical concerns? What are the motivations of these people then? Is it a fact that power corrupts people and that as soon as someone gets in a high position, this person gets overwhelmed by their instinctive and selfish desires?


Certainly in human history very intelligent great leaders have made to the high power and we can analyze the diversity of their behavior in order to see their profile, their motivations and what was their end, i.e. why they were unable to keep the power under the same ideals. So this question remains unanswered: What were the motivations of the great intelligent powerful men of the past?


Possibly the paths that lead someone to power do not usually lead people to deeper ethical concerns. Perhaps these men have been primarily busy with more immediate concerns, as their next conquests and maintaining their own power, without thinking much on a larger scale. After all, ruling empires sounds like an awful lot of work.

2) The world has not been dominated by intelligent people.
Well, this is my main proposal. And why is that the world has not been dominated?

2.1) Intelligent people are not able to dominate the world.
I think this is the best answer. And the main evidence is the lack of competence of the resistance movements throughout the world, even under the most ideologically hostile and absurd conditions.
We could remember the case of the Soviet Union under Stalin, or Nazi Germany. The number of attempted attacks, organized resistance movements and counter-revolutions in history seems to be modestly small in addition to being little effective. Taking into account that a revolution is a great opportunity to change the order of things, for a group to take the power and establish their political ideals, it seems that in fact, what is lacking is the competence (hypothesis 1 must be false in this sense).

And why this lack of competence?
I think it’s because the intelligent people usually have some characteristics that prevent them from being politically effective: they are either insecure, or undisciplined, or impractical, or unrealistic, or not politically skilled, or intransigent, or competitive, or disorganized in excess. Just look at most of the student movements and intellectual groups. This goes a little in the line of thought of a quote from Russell:

“The fundamental cause of the trouble is that in the modern world the stupid are cocksure while the intelligent are full of doubt.”
Bertrand Russell, Education and the Social Order (1932) Bertrand Russell, Education and the Social Order (1932)

Possibly the life paths of growing up and the personality of intelligent people does not help them to develop so many skills and intellectual and political motivations at the same time.

On the other hand, there were in the history of mankind, some situations in which one or more very intelligent people took over the power. Why were they unable to keep the power in the hands of other intelligent people? Why is the power of intelligent people not stable? Is it that they haven’t had this concern? Is it that their motivations did not favor them to pass the power to other intelligent people? Or they simply could not find successors up to their height? After all, finding suitable successors is not an easy problem.

Perhaps the problem is too difficult for one or even a few humans, to take over the world and still administrate humanity is a too hard job. This also seems quite reasonable. After all, for this purpose humanity is divided into hundreds of thousands of government functions and ranks. I certainly would not expect that they could control everything, just give the main guidelines. But anyway it is a reasonable possibility. Perhaps the problem is a mixture of lack of intelligence, number of people and organization. Interestingly this seems to be feasible. Hum….


Then there is also the possibility that our society is somehow protected against the domination of the intelligent. As if our society was constituted so that whenever someone very clever has this idea and decides to do something about it, it is quickly detected and eliminated (or perhaps distracted by an intellectual problem which will occupy his entire productive life and will not cause anything useful). This strikes me as too conspiratorial for my tastes.

2.2) Intelligent people do not want to take over the world.
Finally, perhaps the intelligent people are not so interested or motivated to take over the world.
After all, these people are supposedly perfectly capable of making themselves a very good life in today’s world, so it is just not worth trying to dominate the world. This is consistent with the view that rational people do whatever is advantageous for them, which usually does not involve caring so much with others.
In addition, dominating the world takes a lot of work, is very dangerous, and probably requires the rest of your life, if you eventually succeed.
It neither seems to be psychologically advantageous:
Unless you have a tremendous disturbance of an obsession with your ego or ethics, I think intelligent people get sufficient reward in activities far more feasible, in particular, most intellectuals are very happy discussing ideas, reading and writing and have no megalomaniac intentions.

Conclusions:
1.2) Intelligent people who achieves power do not usually worry too much about great ethical issues.
2.1) Intelligent people often have personality traits that prevent coming to power.
2.2) And the intelligent people who could come to power are probably not very interested.
And 2.1 again) If by chance there are people interested, they are in insufficient quantities to manage it, because the problem is so very hard …
Anyway, c’est la vie.

But a question remains, why isn’t the permanence of intelligent people in the power stable? Once a government of intelligent people is established, why can’t it keep its quality? Doesn’t these people usually have a strategic vision for this issue? Or is it that difficult to get suitable successors?

The problem with psychoanalysis

(Publiquei este post em português no meu blog)

Psychoanalysis has always intrigued me, since my first contact with it at high school until now that I feel able to contextualize it and compare it among the other mind sciences. There is no doubt that it is a controversial issue, both in terms of theory, methodology and practice; people seem to have a reaction somewhat skeptical and mocking to the idea that we can have incestuous desires (unconscious) towards our parents, that a good model of psychotherapy consists basically saying “tell me more about this” or that someone is in need to face repressed feelings.

I must say however that I think that psychoanalysis should be taken seriously. The main reason for this is because I believe in the reality of its subject matter, I think we have strong evidence that the unconscious, the meaning of dreams, repression, hypnosis, defense mechanisms, personality disorders, neurotic symptoms are real phenomena, and they are not so satisfactorily explained by other theories. Psychoanalysis seems to be the only theory (along with its variants) that attempts to broadly explain how our emotional and symbolic representations are made in the face of problems that life imposes us, how they shape our personality and influence our behavior, and their implications on the nature of our mental apparatus, our identity and culture and society in general.

However, one must have great caution when reading Freud and his followers, not because they were careless investigators (I think Freud had a fairly good level of scientific rigor), but because they lived at a time when our knowledge about the brain and human evolution were still very, very primary, so that there was no way to know clearly what kind of structures, mechanisms and functions (physiological and adaptive) were implemented the human brain, and all they could do was to guess. But even with all faith in the projects of neuroscience and evolutionary psychology, I still think that psychoanalysis maintains its explanatory niche, to describe, explain and analyze how do symbolic representations form, what is their dynamics and how they are related to the contents of consciousness. I also have serious doubts whether such phenomena could be studied in such depth in any way other than the analysis of individual discourse.

Unfortunately, psychoanalysis seems to have lagged a little in time. Freud and his followers were not as successful in creating a science as tthey were in creating a professional sect, as well as several other schools of psychology, and instead of focusing on checking, testing, grounding and confirming the originally proposed thesis, incorporating new findings from other sciences, dismissing unverifiable theories, psychoanalysts were happy to read the founders and follow them orthodoxically. So that instead of having progress, and becoming a robust body of theory, open and integrated with the rest of human knowledge, it degenerated, became more hermetic, obscure and obsolete.

I have the feeling that something went terribly wrong. Psychoanalysts do not seem to have inherited the investigative spirit of Freud, probing, feeling, experimenting and describing the form of the subjective structures; they seem to me much more in the position of mere observers, comfortable to seek confirmation of their beliefs; psychoanalysis seems to have become a mystical game like astrology or tarot and the psychoanalysts excited about their cultural status and distinctiveness are deliriously playing with metaphors and concepts of doubtful reality while forgetting that they are supposedly talking about a very concrete object: the human psychic apparatus, how does the psyche in every individual of our species in fact works.

I’m sad to see the contempt that the neuroscience community has towards psychoanalysis, which is increasingly taken as pseudosciencientific. I think there is much to be lost here, psychoanalysis loses by ignoring a paradigm that should ground it, and neurosciences loses by ignoring the fine symbolic structure that relates it to the representations of consciousness, feelings and language. The responsibility for this situation as I see it is from both, but primarily of the psychoanalysts who do not show interest to test their hypotheses, formulating them clearly and structuring their theories in a formal way.

One of the great difficulties of psychoanalysis in my opinion is its linguistic imprecision, and since it apparently is not derived from the inability of its authors, I interpret it to be some kind of defense mechanism that protects an insecure self-esteem with a pedantic obscurantism because it fears that clear and assertive claims may expose them to be refuted as any ordinary science. Of course, a true precise statement, on the other hand, is much useful and valuable.

Therefore, in defense of my thesis that psychoanalysis is valuable as a science of the psychic symbolic domain, I will propose some statements that I judge to be significant, reasonably falsifiable, and that as far as I know are in good agreement with the conventional psychoanalytic theory. In particular, I think many of them are susceptible to neuroimaging testing, behavioral experiments and simple practical tests, of course, accompanied by a good statistical analysis:

– The conscious mental life is regulated by a system that restricts or blocks access to certain representations of strong emotional or moral negative meaning.

– Representations “pushed out” of consciousness have a more difficult voluntary access (resistance) to consciousness. Note: There are similar documented cases in patients with anosognosia.

– Symbolic conflicts and blockages may have consequences on the voluntary motor mobility (hysteria).

– Episodic representations are often associated to emotional evaluations (liking, disliking, aversion, disgust, expectation, frustration, humiliation, exaltation, etc.) that influences their conscious accessibility.

– Representations associated with similar emotional evaluations often associate, the evocation of one spontaneously bringing or facilitating access to another. The free association method often reveals this kind of association.

– Unreachable representations (repressed) are often associated with others, transfering its emotional value to them when they usually don’t seem to have a specific reason for that value. The recall of the inaccessible representation should destroy this emotional displacement.

– Emotional intensity during recall is relevant to the relief of symptoms (catharsis).

– The content of dreams often express unconscious desires transfigured in metaphor and metonymy.

– Recent traumatic episodes often cause initial little transfigured dreams. This should increase as the individual re-signify their experience better integrating the memory of the episode with the rest of his/her life.

– The pattern of relationship with the mother, especially in childhood, shapes a model that strongly influences on later intimate relationships of individuals, which often repeat similar patterns (Oedipus complex). John Bowlby developed this idea in his theory of attachment. Perhaps neuroimaging studies would be interesting.

– Moral repression done by the parents is the basis for the individual’s own repression over the moral contents of consciousness (superego).

– There is a sexual energy (libido) that can be released in several ways, of which the sexual act is usually one of the most efficient, but could also be released by other pleasurable activities.

– There should be typical expected behaviors at each stage of psychosexual development according to the symbolic issues involved (Freud).

– Defense mechanisms (Anna Freud) and their triggers, and their ontogenetic determinants (repression, denial, rationalization, projection, idealization, fantasy, dissociation, etc. …).

– Prediction of neurotic symptoms based on personality characteristics of the patient.

– Prognosis of symptoms based on the type of issues addressed in therapy and personality type.

Algumas reflexões sobre o problema mente-corpo

O problema mente-corpo questiona como a mente, aparentemente imaterial, se relaciona com o corpo, isto é, como ela depende dele e quais as relações causais entre os dois. Falarei mais especificamente da relação da consciência fenomenal, que compreende as sensações, os qualia, enfim, aquilo que se sente. De que maneira e onde nosso corpo gera estas sensações imateriais? Elas são em algum sentido independentes dele? Poderíamos construir máquinas com estas sensações?

Vou assumir nesta reflexão que o que chamamos de consciência fenomenal não é uma ilusão, isto é, que ela tem algum tipo de realidade objetiva que corresponde ao que percebemos subjetivamente como consciência e que dá significado a frases como “ele é consciente” e “cachorros devem ser conscientes”.

Como mencionei anteriormente, acho que um fato potencialmente muito importante na questão da consciência fenomenal (qualia) é que cada um de nós reconhece tê-la e experenciá-la, e sabe portanto que tem qualia, mostrando que se não é fisicamente necessário, é pelo menos efetivo que em nós seres humanos os qualia estão associados a processos físicos no cérebro.

No meu entendimento isto torna o chamado argumento epifenomenalista pouco plausível. Ele diz que poderia ser que o cérebro de alguma forma gere consciência sem que esta tenha qualquer consequência causal sobre ele, ou seja, o cérebro provoca a consciência, mas a consciência nada faz sobre o cérebro. Ora, se a consciência não atua sobre o cérebro, é extremamente improvável, surpreendente e coincidental que nosso cérebro atue como se fosse capaz de “percebê-la”. Além disso, se nosso reconhecimento e relato de consciência é consequência isolada do cérebro e nada tem a ver de fato com ela, não temos nenhum motivo para crer que temos alguma consciência, e postular que ela exista se torna irrelevante. Assim, enquanto é possível que o cérebro gere consciência sem que isto tenha nenhuma consequência causal necessária sobre ele, esta proposta parece não ter nenhum suporte*.

Suponho então que o processo da consciência tal como ocorre no cérebro humano tem consequências físicas. Assim sendo, se supusermos que o sistema físico do cérebro pode ser simulado computacionalmente com uma razoável precisão, a simulação deverá ter exatamente o mesmo comportamento de um cérebro, inclusive o de reconhecer a própria consciência. Como supomos que este reconhecimento se dava originalmente em função do próprio fenômeno, temos de admitir que a simulação simula também pelo menos os processos físicos provocados pela consciência.

Vamos analisar então estas suposições, cenários possíveis e quais suas consequências sobre o entendimento da natureza da consciência (1=sim 0=não):

É possível simular o cérebro num computador convencional qualquer com exatidão suficiente para reconhecer a própria consciência?
0. É possível simular o cérebro em algum outro sistema físico artificial (por exemplo, num computador quântico ad hoc)?
0.0. Então o funcionamento do cérebro deve depender de alguma propriedade muito especial do cérebro estranhamente irreprodutível em sistemas artificiais (possivelmente fora da física convencional).
0.1. Então o funcionamento do cérebro depende de propridades físicas muito especiais que não talvez não possam ser reproduzidas em sistemas computacionais quaisquer. Porém, são reprodutíveis em alguns sistemas físicos.
Neste caso, a consciência pode ser um processo material (por exemplo algum tipo de reação, partícula ou campo), possivelmente revelando novos princípios físicos, ou hipercomputacional (requer capacidade computacional superior a de uma máquina de Turing). Em qualquer dos casos, poderemos dentro dos seus limites descobrir as relações entre este tal processo ou computação e os estados conscientes no nosso cérebro e contruir máquinas conscientes, embora possa ser bastante difícil e trabalhoso.
1. Os processos físicos relevantes às consequências da consciência são suficientemente simuláveis, mas… estamos simulando juntamente também a própria consciência, além de seus efeitos físicos?
1.0. Epifenomenalismo: Sistemas podem apresentar todas as consequências de se ser consciente porém sem tê-la. De maneira que não temos nenhuma evidência de que exista nenhuma outra consciência além da nossa (se é que podemos confiar na existência da nossa)*.
1.1. O computador da simulação é plenamente consciente e a consciência é portanto uma propriedade funcional dos sistemas físicos. Podemos construir seres conscientes à vontade, bastando que descubramos qual é esta propriedade e como ela se associa ao sistema de reconhecimento de estados conscientes no nosso cérebro.

* Vou admitir uma possibilidade um pouquinho plausível para a consciência que ainda tornaria uma forma de (pseudo)epifenomenalismo plausível: a consciência poderia ser um processo que enquanto no nosso cérebro ela certamente tem consequências causais, elas são muito sutis e dependentes de propriedades muito específicas e delicadas da arquitetura do nosso cérebro (porém ainda presentes na maioria de nós). De maneira que um sistema físico que reproduzisse o cérebro pudesse reproduzir a arquitetura grossa suficiente para o comportamento de reconhecimento da consciência, mas insuficiente para que ela provocasse consequências causais sobre ele. Mas acho que se trata de uma hipótese quase tão implausível quanto a primeira.

Como argumentei, acho o epifenomenalismo implausível, mas creio que infelizmente não temos maneiras de refutá-lo; a pergunta 1 não me parece ser empiricamente testável. A possibilidade de o funcionamento do cérebro depender de alguma propriedade muito especial possivelmente fora do nosso conhecimento físico convencional (por exemplo, a necessidade de uma alma encarnada) também parece possível, embora dificilmente confirmável (mesmo que descobríssemos o fenômeno bizarro, seria necessário um princípio mais fundamental para garantir que ele é necessário para a consciência em todos os sistemas físicos).

Portanto, se não cometi nenhum erro, vemos que se admitirmos que a consciência fenomenal de fato existe, e que não haja uma razão muito misteriosa para não sermos capazes de simular o cérebro, provavelmente seremos capazes de decifrar os princípios que vinculam a consciência fenomenal com seus substratos, e construir máquinas conscientes, provavelmente também possibilitando que futuramente as consciências humanas vivam eternamente na forma de máquinas, como prevê Kurzweil, entre vários outros.

Obs: Meu palpite é que somos completamente simuláveis por computadores convencionais (1.1).

Sobre o sentido da vida

Há algum tempo que tenho pensado sobre este assunto e acho que já tenho algo a dizer, embora não tenha deixado de ser uma angústia existencial minha. Antes de mais nada, acho importante notar que há 3 diferentes (embora relacionados) “sentidos da vida”; o sentido da vida individual (“Por que e para que estou aqui?”), o sentido da existência humana ou dos seres vivos em geral (“Por que e para que estamos todos aqui?”) e o sentido da existência do universo em geral (“Por que e para que as coisas todas estão aqui?”). São questões diferentes e com tipos de resposta um tanto diferentes, na minha opinião.

Primeiramente, quero esclarecer o que entendo por “sentido”. Dizemos que algo faz sentido quando forma um todo coeso, significativo e coerente, com propósito. Assim, o sentido da vida seria algo que daria a ela um propósito ou pelo menos explicaria sua forma e razão de ser.

Pode parecer estranha a proposta de que as coisas tenham um sentido, afinal, por que teriam? Sentido parece ser uma construção tipicamente humana, uma abstração que criamos para entendermos e racionalizarmos as coisas, então por que as coisas não-humanas haveriam de ter algum sentido? É bem possível que não tenham. Mas é igualmente estranha a mera existência e forma das coisas, isto é, por que existem coisas, existem estas coisas e existem desta particular maneira? De forma que não há saída, ou nos contentamos com uma realidade dada sem explicação, ou inventamos uma. Esta é minha proposta.

É bastante difícil saber se a existência do universo e das coisas em geral faz algum sentido, principalmente diante do nosso enorme desconhecimento e insignificância nele. Acho que só podemos especular, nos contentando com o pouco que sabemos. E o que sabemos é bastante desanimador, o universo que vemos é espacialmente imenso (quiçá infinito), um vazio enorme com umas nuvenzinhas de matéria aqui e ali e parece ter surgido muito rapidamente há alguns bilhões de anos atrás de um estado quente e concentrado e desde então tem se espalhado e expandido, cada vez mais rápido, até que eventualmente tudo se encontre muito separado e frio (se nada de inusitado aparecer no caminho). E nós somos uma porção de sistemas organizados auto-replicantes que surgiu por acaso num planetinha e, até onde sabemos, intrigantemente só neste. Me parece uma visão muito parcial para tirarmos grandes conclusões, mas eu chutaria que qualquer que seja o sentido da existência do universo, ele não tem um papel importante para nós. Não vou especular mais sobre isto agora, mas me parece muito intrigante este sistema todo, e acho que cada elemento de estranhamento é um indício de algo que não conhecemos bem.

O sentido da existência humana parece algo um pouco mais paupável. Embora observando nossos hábitos e atividades não seja óbvio que estejamos manifestando ou seguindo uma tendência mais geral (recomendo este vídeo ótimo – Dance monkeys dance – para uma breve visão geral, e o filme “O sentido da Vida” do Monty Python). De fato, acho que esta é uma questão em aberto. Podemos dizer que há muito progresso na nossa civilização, à medida que experimentamos e acumulamos conhecimento as coisas vão ficando mais complexas; nosso entendimento da natureza, nosso entendimento de nós mesmos, nossos valores e crenças, nossos relacionamentos, nossas atividades, nossa tecnologia, nossa organização social, mas não é transparente a que fim nos direcionamos, a complexificação não é um fim em si. Poderia se sugerir que procuramos qualidade de vida, mas parece claro que enquanto possa haver um aumento paulatino neste sentido, não há uma preocupação geral direcionada a isto. Talvez tenhamos de pensar de que de fato não haja uma motivação maior, um objetivo implícito, um plano mestre; que a nossa civilização simplesmente segue uma dinâmica interna própria, e que seu rumo é determinado pela turbulenta sucessão de poderes, valores e idéias que nela emergem. Embora uma visão assim tão pouco estruturada da sociedade possa ser um pouco simplista, acho que ela mostra um aspecto importante, o da competição e propagação memética.

Podemos ver a sociedade em vez de como uma coleção de indivíduos, como uma coleção de idéias competindo para se propagar pelo maior número de mentes. Cada um de nós se identifica com um conjunto de valores, idéias, crenças, hábitos e sentimentos (memes) e, querendo ou não, nós os representamos ao exercermos nossas atividades e ao interagirmos com outros indivíduos, cada uma de nossas tentativas e sucessos é direta ou indiretamente feita em favor deles. E nossos memes não estão sozinhos, cada um deles tem parentes próximos em outros indivíduos. Nós não sobreviveremos, mas alguns de nossos memes sim. De maneira que embora muitas vezes de forma pouco consciente e socialmente organizada, nós propagamos parte daquilo que somos e representamos, e o fazemos coletivamente, sem nos apercebermos.

A existência humana não é a mera existência de seres humanos, é principalmente a existência de nossos memes, sem eles somos literalmente só um bando de primatas fazendo coisas sem significado. Nossos memes dão sentido a nossas ações, fazem com que procuremos e tentemos conseguir coisas. Assim, acho que o sentido da existência humana é dado por nossos memes, e o destino dela será determinado pelos memes que forem mais bem sucedidos. Se o destino da humanidade não estiver pré-determinado por nossa natureza ou condições, ele está aberto ao que fizermos dele, e assim aos memes que se fizerem mais realizados. Talvez seja difícil ver um sentido na nossa existência porque ele está sendo feito, ainda está em formação.

O sentido da vida individual me parece o problema mais interessante dos três. Todos nós que estamos vivos temos um problema a resolver: diante da nossa situação e perspectivas, o que fazer com nossas vidas? O sentido da vida individual é aquilo que faz com que fazer algumas coisas pareça ser melhor do que fazer outras. De uma perspectiva subjetiva, acho que a resposta não é tão difícil, temos uma oportunidade de tempo que podemos preencher da maneira que quisermos (e conseguirmos), e assim, devemos procurar viver da melhor maneira possível, fazer aquilo que mais pareça valer a pena, que torne a vida interessante e atraente; viver intensamente, o que quer que se entenda por isto. É uma concepção pessoal que pode ou não incluir fazer sexo, ouvir música, comer, usar drogas, apreciar coisas, crer em coisas, sentir, amar, interagir e se relacionar, fantasiar, jogar, meditar, refletir, viajar, conhecer coisas novas e qualquer outro tipo de sensações, concepções, sentimentos e estados mentais que tornem a experiência subjetiva mais agradável, diversa, intensa e/ou complexa. A vida subjetiva é aquela que de fato nós vivemos, e parece um tremendo desperdício viver uma vida que não é boa para você.

O problema da perspectiva subjetiva é que ela não precisa ter qualquer relação com o mundo, ela só depende de como o sujeito se sente, não importa se causado por um estilo de vida maravilhoso, por uma overdose de drogas ou por um eletrodo implantado no seu cérebro. Por esta insuficiência da subjetividade, acho que a vida individual deve ter também um sentido objetivo, deve-se querer fazer diferença no mundo, e com isto quero dizer propagar nossos memes. Acho que o sentido objetivo da vida individual é social, enquanto nosso corpo é mortal, nossos memes (e genes se você tiver filhos ou parentes) persistirão. Como somos aquilo com que nos identificamos, a maneira de se fazer existir no mundo é expressar seus memes, isto é, as coisas que nos fazem sermos o que somos, o que cremos, pensamos, sentimos, achamos. Expressamos nossos memes vivendo, atuando sobre o mundo, propagando-os sobre outros indivíduos. Assim, acho que o sentido objetivo da vida individual é este, atuar sobre o mundo de acordo com quem você é, modificar o mundo da maneira como acha que ele deve ser modificado, participar, contribuir. Há algumas coisas para se observar neste sentido; acho que para sermos eficazes em mudar o mundo devemos procurar certos tipos de atuação, em especial aquelas que a nós se apresentarem como de maior interesse e nas quais temos maior aptidão, as com melhores expectativas e menor risco, as de realização mais próxima e concreta, as menos exploradas, e de maior impacto e com efeitos mais duradouros. Se estamos querendo fazer diferenças, precisamos pensar em termos de consequências. É claro,o juízo do que é melhor a ser feito é pessoal.

Em poucas palavras, acho que as coisas tem um sentido e razão de ser. O universo ainda é um grande mistério, a humanidade é uma pergunta em aberto e nós fazemos nossa razão de ser enquanto tentamos ser felizes e melhorar o mundo, cada um a sua maneira.

[the End Of The Film]
Lady Presenter: Well, that’s the end of the film. Now, here’s the meaning of life.
[Receives an envelope]
Lady Presenter: Thank you, Brigitte.
[Opens envelope, reads what’s inside]
Lady Presenter: M-hmm. Well, it’s nothing very special. Uh, try and be nice to people, avoid eating fat, read a good book every now and then, get some walking in, and try and live together in peace and harmony with people of all creeds and nations.

de Monty Python, The Meaning of Life

Adendo (8 de abril de 2009):

Convém mencionar que há pelo menos 3 usos diferentes de “sentido”:
– Atribuições normativas do tipo “você deve fazer X”, sejam elas determinadas por um sistema ético ou por um metafísico.
– Propensões materiais do tipo “você, em virtude do que é, acabará por fazer X”, mais ou menos como a noção de função em fisiologia, algo como “o sentido da existência das asas é propocionar o vôo”.
– Resultados históricos do tipo “você serviu para que X ocorresse”, assim como a extinção dos dinossauros serviu para a diversificação dos mamíferos e o consequente surgimento do homem.
Na ausência de evidências materiais claras da existência de sentidos do primeiro tipo, minha intenção foi falar do segundo, com alguma base no terceiro. Isto é, em função do que são o universo, a coletividade humana e o indivíduo, para onde eles tendem a ir? O que eles tendem a favorecer e realizar? A que propósitos parecem servir?

Acho que um dos “sentidos” deste texto foi dizer que para mim o sentido da vida não é algo externo a ela, o sentido faz parte dela, é integrado a ela, embora exercê-lo eficientemente possa demandar alguma atenção especial.

Não falei sobre o sentido dos seres vivos em geral. Talvez isto mereça uma discussão maior, mas acho que podemos dizer que a maioria dos seres vivos “serve ao propósito” de propagar seus genes, e ocasionalmente algum outro tipo de organização, como memes, o que cai na idéia de se propagar um pouco do que são e representam.

Acho que a idéia de tomar a propagação memética como uma competição casual possa ser pouco realista, tanto nossas mentes como nossa sociedade são bastante estruturadas, e claramente há memes mais eficazes em se reproduzir do que outros, muitas vezes aproveitando certas particularidades do nossos sistema cognitivo ou ambiente social. Além disso, temos uma autonomia considerável em escolher que memes adotamos, e esta escolha não é aleatória, escolhemos nossas idéias, crenças, etc, porque fazem mais sentido, são mais agradáveis ou frequentes e descartamos outras que não satisfazem a nossos critérios, de maneira que há uma forte interação entre as entidades físicas, biológicas, sociais e meméticas.

Talvez possamos tentar identificar algum sentido na existência humana observando o resultado líquido da atividade produtiva de nossa sociedade, isto é, desprezando-se toda a atividade humana voltada a manutenção do status quo, o que sobra? A que direção nossa atividade diferencial caminha, nos vários aspectos que possamos considerar? Alguma tendência é consistente? Estaríamos caminhando à mera exploração ou diversificação do espaço de possibilidades humanas? A seleção natural também não parece ter tendências muito claras, os seres vivos parecem ocupar todo nicho que pode ser explorado, estaríamos nós também fazendo um caminho aleatório?

O problema do sentido da existência humana parece ter uma natureza intrinsecamente motivacional, parece estar intimamente relacionado ao que nos move, ao que nos interessa, aos tipos de coisas que atendem ao sentido subjetivo da vida individual. Porém, é algo também bastante difícil de responder, uma vez que exceto pelas coisas mais inerentes a nossa natureza (por exemplo, o bem-estar) nossas motivações são também bastante dinâmicas e mudam a si mesmas recursivamente, um interesse levando a um outro, de maneira às vezes bastante não-linear, tornando sua previsão bastante difícil. O problema se agrava ainda mais conforme nos tornamos mais capazes de mudarmos nossa própria natureza. Seria possível conservar algum sentido ao sermos capazes de escolher livremente nosso próprio sentido? Seria desejável podermos escolher qualquer sentido? Todos os sentidos são igualmente arbitrários? Isto faz alguma diferença? Deveríamos nos preocupar com isto?

Evolução e complexidade

Este é um tema antigo e que mantém uma certa controvérsia desde que surgiu. A questão é:

O processo de evolução tende a produzir organismos cada vez mais complexos?

Já vi pessoas defendendo que sim e que não, eu particularmente defendo que sim. Acho que esta questão costuma ser prontamente desconsiderada por se achar que ela necessariamente envolve alguma forma de “direção pré-designada” no processo evolutivo; eu acho que devemos vê-la como uma consequência emergente.

Primeiramente é necessário se caracterizar o que se entende por complexidade. Como é um conceito difícil de se definir, vou dar uma noção intuitiva. Uma noção de complexidade que acho útil é a de tamanho de descrição, isto é, a complexidade de um objeto ou sistema é o comprimento da sua menor descrição numa determinada linguagem (esta noção é formalizada na forma da complexidade de Kolmogorov). A idéia é que, ainda que a linguagem possa favorecer arbitrariamente alguns objetos a outros, esta arbitrariedade se torna menos relevante conforme a complexidade cresce. Esta noção concorda com algumas propriedades intuitivas de complexidade como a de que quanto mais partes e mais tipos de partes diferentes e mais tipos de interações entre as partes houver, maior a complexidade, uma vez que estas demandariam descrições maiores. Acho que isto captura bem a noção intuitiva, embora eu ache que uma noção mais geral de complexidade deva ser baseada em quão improvável é uma dada configuração.

Em segundo lugar, é necessário se especificar o que se quer dizer com complexidade biológica. Isto me parece ser mais difícil, pois há vários níveis possíveis de análise. Podemos pensar em complexidade de vias metabólicas, em complexidade morfológica, complexidade de interação com o ambiente, entre outras. Para meu propósito, creio que a mais interessante seja a complexidade de interação com o ambiente, no sentido de que estou interessado em quão rica é a interação do organismo com seu ambiente para fins de aptidão biológica (fitness). Ou seja, estou falando de uma complexidade funcional e adaptativa, organizada.

Assim, eis meus argumentos de porque acho que o processo de evolução tende probabilisticamente a produzir e a tornar espécies de organismos mais complexas ao longo do tempo:

Só há uma direção, a de complexidade positiva.
“Os organismos tem uma complexidade mínima para serem viáveis, de modo que toda vida está acima deste limiar. À medida que a vida evolui ela só pode explorar uma direção.”
Isto é verdade, porém a vida poderia muito bem se estabilizar em alguma faixa ótima. Isto ocorre com tamanho, por exemplo. Mas acho que isto de fato é válido, pelo menos em épocas de aumento do número de espécies como a ocupação de novos nichos ecológicos, deve haver um aumento de variância, aumentando pelo menos o máximo de complexidade, senão a média.

Mutações adaptativas complexas.
O aparecimento de novas funções adaptativas costuma envolver mutações raras, às vezes associadas a eventos de duplicação, seja para proporcionar a nova função, seja para regulá-la. Por ser raro, este tipo de função pode aparecer mesmo em espécies já bem adaptadas, gerando um pequeno aumento de complexidade vegetativo. Aparentemente isto pode ocorrer indefinidamente num ambiente complexo.

Interações complexas trazem complexidade ambiental, complexidade ambiental favorece interações complexas.
Novas formas de interagir com o ambiente o transformam em algo diferente, favorecendo o aparecimento de novas formas para interagir com ele. Em particular, a co-evolução predador-presa ilustra bem isto. Novos truques numa espécie criam uma pressão seletiva para novos truques nas espécies ecologicamente relacionadas.

Acúmulo de funções adaptativas pouco dependentes do ambiente.
A seleção natural desfavorece a perda de funções adaptativas, de modo que elas tendem a se acumular. Alguns caracteres tem valor adaptativo em quase qualquer ambiente; sistemas sensoriais, sistema imune, metabolismo de energia, recombinação e reparação de DNA, adaptatividade ao ambiente. Creio que sejam principalmente os sistemas de manipulação eficiente de recursos, energia, informação e reprodução.

Acúmulo de sequências genéticas funcionais
Cada gene funcional é um gene que pode ser duplicado, mutado, cortado (com alternative splicing), transposto e expressado em diferentes condições. O genoma acumula sequências de genes pré-existentes, até mesmo de proteínas virais que acabam sendo integradas (transferência horizontal) e que estão relativamente prontas favorecendo mutações funcionais.

Interlocking
Uma vez que um gene ou função aparece e se consolida numa população, serve de base para outros genes e funções, e passa a integrar um complexo que dificilmente poderá ser dissociado sem grandes perdas funcionais.

Quando a complexidade não deve ser adaptativa?

A complexidade tem um preço.
O aumento de complexidade costuma estar associado a um maior gasto material e energético, a um desenvolvimento mais difícil e a um maior custo reprodutivo para a fêmea, podendo resultar numa prole menor. A complexidade só vale a pena se o benefício superar o custo.

Baixa pressão seletiva: Ambientes monótonos.
Quando o ambiente é pouco dinâmico, ou muito favorável, as funções se tornam redundantes ou irrelevantes e tendem a ser perdidas por deriva. Como nos peixes cegos e nos parasitas.

Enfim, é isto, qual a opinião de vocês?

Enquanto escrevia achei dois artigos, um sobre a (não-)relação entre número de genes e complexidade http://genomicron.blogspot.com/2007/05/gene-number-and-complexity.html e outro dizendo que a seleção natural atua como um demônio de Maxwell, acumulando as mutações funcionais e evitando as disfuncionais. http://www.pnas.org/content/97/9/4463.full

p.S.: Outra circunstância na qual espero não haver aumento de complexidade (e talvez uma leve tendência à diminuição) é a de pressão seletiva muito alta. Nestas circunstâncias, caracteres complexos adaptativos dificilmente poderão surgir, uma vez que eles raramente surgem de forma completamente funcional, e mesmo caracteres um pouco adaptativos poderiam ser contra-selecionados, se não fossem suficientemente vantajosos e correlacionados com os caracteres mais fortemente selecionados, embora caracteres adaptativos complexos que já existam na população tendam a se propagar rapidamente. Alta pressão seletiva diminui a variabilidade genética e fixa os genótipos adaptativos ao tipo de pressão. Algumas exceções a isto seriam organismos que tem altas taxas de mutação ou de reprodução como bactérias e protozoários que podem controlar sua taxa de mutação (por exemplo o desenvolvimento de resistência a antibióticos). Alternar entre fases curtas de alta pressão e fases longas de baixa pressão talvez seja uma maneira de acelerar este aumento de complexidade.

A utilidade e a relevância na pesquisa universitária

Fico bastante intrigado pela quantidade de pesquisas e teses que me parecem não ter nenhuma preocupação em trazer algo relevante ou útil à sociedade ou mesmo ao conhecimento científico (eu daria alguns exemplos, mas não quero que ninguém se sinta ofendido, cada um sabe o que faz). Isto é ainda mais alarmante se considerarmos que são o produto de anos de dedicação, usando recursos públicos (normalmente financiado por bolsas) e no lugar de outros tipos de pesquisa.

Não acho que deva ser negado o direito de se pesquisar um assunto que se queira, mas acho que a situação chega a uma proporção irracional. Não vejo um incentivo e nem mesmo uma preocupação em pesquisar assuntos de importância social e pior, ocasionalmente encontro até pessoas relutantes em fazer qualquer pesquisa com aplicações práticas. Não vejo nenhum sentido nisso. Acho que nos preocuparmos em fazer pesquisa útil e relevante não é uma subordinação ao mercado, ou às pressões da sociedade, é uma opção ética: é escolher utilizar uma oportunidade em favor de fazer algo bom para alguém.

Principalmente na nossa sociedade, onde vemos tantos problemas e não sabemos como resolver. Acadêmicos não servem só para especular, criticar e “pensar positivo”, servem também para resolver problemas. Dedico este post principalmente às pessoas das áreas de ciências sociais: sociologia, política, economia, filosofia e afins, por acreditar que supostamente são as pessoas para as quais esta questão é mais urgente e importante. Mas acho que minha crítica se aplica a todas as áreas de pesquisa.

Pode ser uma perspectiva pessoal minha, mas acho que o conhecimento humano tem valor à medida de que é útil. O conhecimento não é um objeto meramente estético, não conhecemos por conhecer; conhecemos para entendermos melhor como funciona o mundo, para vivermos melhor nele, para resolvermos nossos problemas e conseguirmos criar coisas novas. O conhecimento não precisa ter uma utilidade prática imediata, mas deve ter alguma. E se a universidade é o lugar onde supostamente o conhecimento é feito e promovido, acho que é o lugar onde deveria ser feito de modo mais útil.

Não gosto muito de prescrever coisas, mas tenho para mim que as pesquisas universitárias deveriam atender a pelo menos um de três critérios, nesta ordem de prioridade:
1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico.
3. Investigar e explorar algo cujo potencial ainda não está bem demarcado.

Assim, acho que contextualizar e priorizar as pesquisas em termos destes 3 critérios é fundamental, e que todo pesquisador deveria se orientar por eles. Também não acho que isto seja restrito à pesquisa, os cursos de graduação também deveriam ter este viés, os alunos deveriam ser incentivados a propagar e utilizar seu conhecimento, deveriam saber como aplicá-lo. Creio que isto teria muitos frutos positivos, a curto, médio e longo prazo.

Num aspecto mais individual, acho que cada um deveria escolher dentro destes critérios, o tema de pesquisa em que se julgar mais competente e promissor, de acordo com as próprias capacidades, conhecimentos, interesses e valores. Ou seja, deve-se investir nas coisas que aparentam ser mais promissoras, favoráveis e interessantes.

Ainda estou na graduação, mas acho absurdo saber que a maioria das teses de pós-graduação nunca são relidas, e de ver a abismal ineficácia causal de boa parte do mundo universitário sobre a vida das pessoas, tanto material quanto ideologicamente. Parece-me que as pessoas competentes da universidade são insistentemente atraídas a nichos onde podem ter um profundo envolvimento de suas capacidades intelectuais com o menor impacto possível sobre a realidade.

Gostaria de saber o que pensam a respeito, principalmente os que discordam.

p.S.: Uma visão um pouco idealizada da ciência é a de que ela consiste em decompor grandes questões difíceis e complexas sobre a realidade em pequenas perguntas mais fáceis de serem respondidas pelos métodos de investigação científicos. Acredito que tanto as questões da ciência como os problemas humanos tem uma estrutura hierárquica deste tipo. Acho que é um exercício interessante tentar encontrar dentro de que grande pergunta e dentro de quais outras subperguntas se encontra sua pesquisa, para se saber quais delas poderão ser parcialmente respondidas com a resposta que obtiver.

p.p.S.: Adicionando contribuições posteriores (principalmente da Karynn), acho que poderia se estender ligeiramente os 3 critérios:

1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas e/ou da sua relação com o meio ambiente e outros seres vivos.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico ou filosófico.
3. Investigar e explorar assuntos cujo potencial e aplicabilidade ainda não estão bem definidos.

Convém também dar uma ênfase maior às questões e autores atuais os quais ainda podem ser influenciados pelos frutos da pesquisa.