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Breve autobiografia intelectual de um jovem de vinte anos.

Desde que era criança nas minhas leituras da Dialética do Esclarecimento e nas de revistas de divulgação cientifica sentia um dispare entre os dois. Quando mais tarde no colegial fui informado que teria durante minha carreira escolher entre as duas áreas, ciências humanas e naturais, aquele desconforto inocente inicial cresceu e tomou forma num desejo de unificar ambos, para não ter que escolher nenhuma das duas áreas, perdendo assim a outra. Ademais naquela época minhas leituras da Metafísica aristotélica já semeariam um desejo de universais que dêem conta de explicar vários particulares – também quanto não foram essas leituras um ponto marcante na genealogia do meu desapego ao mundo pratico. Alguns anos mais tarde, nas leituras de Hegel e eternas revisitações de Adorno percebi que um universal vazio e abstrato não se sustenta, coisa que o velho Aristóteles concordaria. Mas para alem de Aristóteles, para que este universal realmente abarque uma totalidade ele precisa estar se desenvolvendo numa negação constante que passa pelo particular, era a tensão dialética. Esta que em grande parte das ciências humanas parece ser útil para ser usada como método de analise do real. Um todo diferente se dá nas ciências exatas, um pensamento racional linear que segue uma lógica clássica e matemática, pensamento que se desvelava para mim nas leituras obcecadas e incessantes de um livro introdutório à Física Quântica.

 

Pelos pais que tive, que seguiram a carreira intelectual, quando chegou o momento da escolha do curso para a graduação havia uma certa expectativa, de minha parte principalmente, que aquilo iria afetar dramaticamente todo o resto da minha vida. Como a balança não pendia para nenhum lado em termos estritamente epistemológicos acabei escolhendo com base no grupo de pessoas que queria estar e com base em qual área recebia mais incentivo da sociedade (e de capital), talvez por essa ultima financiar mais as exatas – concedendo que capital atrai pessoas e que uma maior concorrência seleciona os melhores – as pessoas com as quais queria conviver estavam nas exatas. Disto resultou que fiz um ano do curso de Química para o meu total desapontamento com as pessoas que ali estavam, pois pareciam procurar mais o capital e a aceitação social do que o conhecimento e para piorar a própria estrutura do curso refletia isso em parte, com sua racionalidade técnica extremada que Adorno tanto critica por sua alienação extremada. Mudei para a Filosofia no outro ano.

É difícil dizer precisamente que caminhos teria percorrido na filosofia caso uma parte da minha vida não fosse dedicada ao estudo de ciências exatas. Confesso que minha habilidade natural com ciências exatas não é muito elevada, talvez sendo esse um dos motivos pelo qual mudei de rota, mas apesar disso guardo grande admiração pelo modo que essa área do conhecimento é construída. Lembro-me de um dia em que estávamos discutindo habito em David Hume, havia uma tendência a cair em discussões conceituais infindáveis quando o Diego resolveu soltar sua carta na manga e deu a explicação neurológica de porque temos hábitos. Incrível como toda aquela nevoa metafísica se desanuviou e – algo difícil no meio filosófico – se revelou algo claro, coerente e compatível com a experiência. Ao meu ver a discussão tinha se encerrado ali. De algum modo me senti numa situação análoga àquela de quando a ciência vem explicar o que os mitos tentavam dar um leve esboço tosco de explanação racional. Russell dizia que a religião trata daquilo que imaginamos, a filosofia do que não sabemos ao certo e a ciência do que sabemos com certeza. Essa visão parece diminuir a filosofia em certos aspectos, mas em outros creio que a coloca num local privilegiado de produção de conhecimento, ou seja, tornar aquilo que não sabemos em conhecimento certo. Só guardo certas ressalvas, pois a religião – aquilo que não sabemos e imaginamos – é justamente aquele tipo de conhecimento que sentimos como absolutamente certo, logo como bem lembra inúmeras vezes Adorno, é necessário o cuidado para que a ciência não recaia no mito.

 

De algum modo me causa mal estar saber que no campo do conhecimento existem duas respostas diferentes a pergunta “Como proceder diante do real?”. As ciências humanas e parte da filosofia parecem responder de um modo e as ciências exatas de outro. Essa divergência se da, ao meu ver, pois nas ciências naturais sujeito e objeto são separados e nas ciências humanas não. Segundo Adorno, esse ultimo fato justificaria o método dialético nas ciências humanas. Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais. Recentemente elaborei um texto tratando desses e outros assuntos pertinentes a uma tentativa de unificação que logo digitarei e postarei aqui no blog.

 

Se no campo da teoria objetiva ainda não encontrei satisfatoriamente uma relação entre ambas essas áreas, na minha pratica subjetiva tenho claro que as ciências naturais me fornecem parâmetros formais e de conteúdo na filosofia. Formais, pois quando os pensamentos lógicos, racionais e empiristas são passíveis de serem aplicados temos a obrigação moral de o fazer e onde eu aprendi a pensar assim foi nas ciências exatas. De conteúdo, pois existem certas áreas do conhecimento que já são conhecidas ao certo e não podem mais serem debatidas como se fossem conhecidas com duvida, como certas partes da psicologia e a existência de princípios metafísicos ocultos (Deus entre eles),  assim a contribuição é de mostrar que conteúdos simplesmente não são mais território da filosofia. Nas palavras de Adorno: “A filosofia não se transformará em ciência, mas sob a pressão dos ataques empiristas banira todos os posicionamentos que, por serem especificamente científicos, são devidos às ciências particulares e obscurecem os posicionamentos filosóficos”

 

Desta experiência de vida penso que aprendi duas coisas: (1) dedicar toda a sua existência a unificar o conhecimento humano na adolescência te faz ter crises existenciais desnecessárias para essa idade e virgem ao final do colegial. (2) Ter namoradas, vida social (por comparação) e diversões banais te faz ligeiramente mais feliz, mas burro e com saudades do tempo que lia Kant o dia todo. Dessas duas considerações concluo uma terceira: (3) tenho que achar um meio termo.

 

Retornando ao meu dilema epistêmico: cada vez que cedia a um lado sentia que traia o outro, como se fosse para a Filosofia para nunca mais voltar a Álgebra Linear e a Física. O velho Aristóteles havia, no entanto, graciosamente plantado suas sementes em mim ao definir a filosofia como “a ciência das ciências”, “a arte da sapiência”, que lida com os universais e com a causa primeira. Mesmo o nosso dicionário aponta a filosofia em primeiro lugar como “O estudo do real.” (atenção para o ponto final). Por que então hoje em dia tão freqüentemente identificamos esta nobre ciência das ciências com as ciências humanas? Por que, na USP em grau máximo, nas universidades os departamentos de filosofia parecem mais agrupados com as ciências humanas do que com as naturais? Quanta inveja da Grécia Antiga em que a physis era também tarefa de obrigação de qualquer filosofo, conjuntamente com escrever textos sobre moral e poética.

 

Recentemente, talvez um pouco a margem dessa minha busca obsessiva por unificação, retornei Nietzsche após 11 anos. Devo dizer que minha plena concordância com esse pensador me faz pensar se lá nos começos de minha infância a leitura do Zaratustra não plantou profundas raízes em minha personalidade. Sempre acreditei como Aristóteles que: “De fato, o sábio não deve ser comandado, mas comandar, nem deve obedecer a outros, mas a ele deve obedecer quem é menos sábio” ou seja, que a filosofia é a tarefa dos senhores.

Da unidade a contradição

Escrevi esse texto tem algum tempo, depois de o ler recentemente achei algumas coisas obvias demais e outras de menos. Um problema básico para mim desde que comecei a pensar mais seriamente em filosofia é a necessidade de uma unificação entre ciências humanas e naturais, em algum momento do texto queria esboçar uma noção qualquer, que deve ter ficado bem vaga ao leitor, de que existe um mesmo movimento de aparição do sujeito e sua posterior problematização em todos os campos do conhecimento. Isto poderia ser o começo de um principio unificador.

Não conheço quase nada de Hegel nem de Aristóteles, apenas li a Metafisica e a Fenomenologia do Espirito varias vezes.

Da unidade a contradição

Num resumo pobre pode-se dizer que a dialética hegeliana apreende o ser em afirmação, negação e síntese, ou ainda mais precisamente, quando o ser imediato (consciência ou objeto) “… se aliena e depois retoma dessa alienação… ” (Fenomenologia do Espírito, p. 46)Criam-se assim três momentos: ser, não-ser e vir-a-ser (síntese). È necessário dividir-se o ser em 3 partes contraditórias para compreendê-lo. Há a presença do falso e do verdadeiro ambos afirmando-se e negando-se na constituição do ser.

Aristóteles por seu turno afirma que “… [falsa] é a noção das coisas que não são, por isso toda noção è falsa quando referida a coisa diversa daquela acerca da qual é verdadeira” (Metafísica, p. 261). Falso e verdadeiro são necessariamente excludentes em Aristóteles, não é possível existir ao mesmo tempo, nem em processo, o ser e o não-ser, somente um tem de ser verdadeiro. Sua exposição contra o termo médio também deixa clara essa posição. (na p. 179) No caminho inverso afirma Hegel que a distinção entre falso e verdadeiro não é estaticamente binária:

“O verdadeiro e o falso pertencem aos pensamentos determinados que, carentes-de-movimento, valem como essências próprias, as quais, sem ter nada em comum, permanecem isoladas, uma em cima, outra em baixo. Contra tal posição deve-se afirmar que a verdade não é uma moeda cunhada… “(Hegel, p. 48).

Também ao falar sobre o contraditório Hegel diverge de Aristóteles:

“Com a mesma rigidez com que a opinião comum se prende à entre o verdadeiro e o falso, costuma também cobrar, ante um sistema filosófico dado, uma atitude de aprovação ou rejeição. Acha que qualquer esclarecimento a respeito do sistema só pode ser uma ou outra. Não concebe a diversidade dos sistemas filosóficos como desenvolvimento progressivo da verdade, mas só vê na diversidade a contradição” (Hegel p. 26)

O dualismo entre os primeiros termos sendo contraditório basta para por a tríade dialética hegeliana em cheque se levarmos em conta a afirmação aristotélica. Como um sistema se diz ele todo verdadeiro se na relação de seus termos existe a contradição? A argumentação de que tudo em Hegel é processo que se atualiza mediante a sua tendência à verdade universal absoluta, que é por si só coerente, perde o sentido, pois o próprio processo de mediação em Hegel é contraditório:

“Com efeito, a mediação não é outra coisa senão a igualdade-consigo-mesmo semovente, ou a reflexão sobre si mesmo, o momento do Eu para-si-essente, a negatividade pura ou reduzida à sua pura abstração, o simples vir-a-ser” (Hegel, p. 36)

Se a verdade absoluta é una e não contraditória, mas, no entanto nunca se chega a ela sendo, ela própria, um processo de atualização negativa, o absoluto é o contraditório.

São inúmeras as citações que tornam evidente esse contraponto, no que se refere a contradição, entre as filosofias hegelianas e aristotélica. Não se quer aqui apenas evidenciar a distinção, pois é fato conhecido que sistemas filosóficos se distinguem. A questão a se fazer, no entanto é: Por que a contradição, a negação, a proposição de pares diversos (mesmo que dentro de uma tríade genuína) dentro da própria natureza do ser faz-se importante em Hegel e mal vista em Aristóteles? O que no desenvolvimento do pensamento fez necessária essa contradição?

Hegel, ele mesmo, pode vir a esclarecer está questão: “A significação de tudo que existe estava no fio de luz que o unia ao céu [..,] o olhar deslizava além, rumo à essência divina, uma presença no além – se assim se pode dizer. […] Muito tempo se passou [ . .] para tomar o presente, como tal, digno do interesse e da atenção que levara o nome de experiência” (Hegel, p. 24) Este excerto de Hegel, em que ele comenta sobre filosofia antiga, aponta uma resposta ao dilema que se toma obvio à qualquer passadela de olhar sobre o título das obras centrais em questão, de cada um dos autores: Metafísica e Fenomenologia do Espírito.

Na Metafísica se discute a filosofia enquanto saber, é a sapiência a ciência divina que “… tem por seu objeto as coisas divinas” (Aristóteles, p. 13) Em Aristóteles não é discutido se a coisa-em-si é a coisa mesma, de fato a coisa-em-sí não entra em questão, somente o ser, a substância, o princípio, a causa, o um, o necessário… – vide Metafísica Livro A, quinto – pois, não há a separação sujeito e objeto no entendimento do real. A experiência em Aristóteles é o que leva a sapiência, mas uma vez galgado o monte e se assentado sobre as causas primeiras a experiência raramente desempenha seu papel no ulterior desenvolvimento filosófico de seu sistema metafísico. O saber para Hegel num primeiro momento pertence ao ser (seja ele o homem ou não) e deve percorrer o caminho de “… demorar-se e esquecer a si mesmo […] estar na coisa e abandonar-se a ela”.(Hegel, p, 27). O sujeito se faz importante: “… tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro não como substância, mas também, precisamente, como sujeito”.(Hegel, p.34)

A resposta à pergunta formulada é a mesma dada A Esfinge por Édipo: é o homem

Talvez como confirmação da tese da existência de um espirito universal hegeliano uma citação de Jung, por mais atópica, mostra que esse processo ocorreu tanto no desenvolvimento filosófico como no psicológico-religioso: “Por esta razão o uno precisa ser substituído por um outro. O mundo do Pai é, pois, mudado, em principio, e sucedido pelo mundo do filho” (Jung. Analise Psicologica do dogma da trindade) Uma mera explicação psicológica reduzida a si mesma ou filosófica dela (filosofia) reduzida a si mesma não pode dar conta de entender a semelhança que é evidente aos olhos, pois qualquer uma delas reduziria a outra a objeto. A bem verdade discussões deste tipo costumam recair em problemas metodológicos que a tudo se assemelham com a querela do farmacêutico Homais com o padre Boumisien de Madame Bovary que citavam Voltaire e Nicolau na noite da morte de Ema Bovary para saber se ela havia morrido com graça ou sem graça – entre outras picuinhas – e que no entanto não fizeram de fato nada por ela enquanto viva. (Madame Bovary de Flaubert Capitulo 9).

Na física o processo não se fez diferente. A rígida separação sujeito e objeto exigida pelo positivismo é o desenvolvimento deste processo. O que o positivismo reivindica é a separação entre o homem que pensa e a realidade, mas a separação entre duas coisas que antes eram uma nada mais é que a criação de ambas. Como já se falava em natureza, na verdade se criou o sujeito. O homem já existia dentro do pensamento desde os primórdios, mas nunca foi considerado como categoria primordial ao próprio pensamento que pretende entender o real. No entanto, tal separação não é tão bem firmada, resultado esperado de um processo dialético. Como se pode observar pelo fato dos filósofos da ciência, como K. Popper, preferirem o termo intersubjetivo para definir o objetivo: “Ora, eu sustento que as teorias cientificas nunca são inteiramente justificáveis ou verificáveis, mas que, não obstante, são suscetíveis de se verem submetidas à prova. Direi, conseqüentemente, que a objetividade dos enunciados científicos reside na circunstancia de eles poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste ” (Lógica da Pesquisa Científica, p. ?)

A derrocada da ciência puramente objetiva não ficou restrita a discussões dos filósofos da ciência, os próprios escritos de físicos da teoria quântica observam o fato:

“The probably function combines objective and subjective elements. It contains statements about possibilities or better tendencies (‘potentia’ in Aristoteíian philosophy), and these statements are completely objective, they do not depend on any observer; and it contains statements about our knowledge of the system, which ofcourse are subjective in so far as they may be different for different observers.”

“…the probability function contains the objective element of tendency and the subjective element of incomplete knowledge.”

(Heisenberg, Physics and Philosophy)

Adorno e Popper

T. W. Adorno observa este anuviamento entre sujeito e objeto nas ciências sociais. Na teoria quântica, quanto mais o sistema se toma microscópico mais este anuviamento aumenta, e na mesma proporção o conhecimento subjetivo – assim o problema do particular também o faz. No entanto “…não há acréscimo, mas desfigurações das ciências, quando se confundem os seus limites” (Kant, prefacio a CRP). Nas ciências sociais o método é reflexo da própria situação do objeto e por isso ele também deve ser posto em questão. “Ela é ao mesmo tempo também crítica do objeto, da qual dependem todos os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência do objeto, do qual afinal dependem todos os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência organizada” (Adorno, em um debate sobre sociologia com o Popper, acho que isso ta naquele volume Adorno da coleção Sociologia)

A alusão a Kant ganha força na mesma medida em que o olhar se volta sobre o texto adorniano. Não são possíveis tais analogias simplistas. O objeto parece conter mais do que contem. É o problema de sua apreensão. O que se depreende da citação feita é que esta analise leva a considerar não somente o aumento da porção subjetiva nas ciências sociais, mas”… os momentos localizados no lado subjetivo, que é o dos sujeitos subordinados a uma ciência organizada”. Esta subordinação toma corpo em ‘O conceito de Esclarecimento’ assim como o seu reverso. Pela própria situação no caso em que foi escrito o primeiro texto, o seu conteúdo não faz jus a analise feita por Adorno destas conseqüências.

“O conceito de esclarecimento” não se furtaria a dizer que tal tipo de analise fatalista acaba por desfavorecer todo o projeto que se tinha. A Dialética do Esclarecimento não é a contemplação da situação do objeto da situação do objeto, ela è o próprio método aplicado a si mesmo. Ela não é um dos “… inúmeros projetos simplesmente desenvolvidos para a carreira acadêmica nos quais a irrelevância do objeto combina perfeitamente com a obtusidade das técnicas de pesquisa” (Adorno). Também não é mera figura da filosofia especulativa que paira sobre a realidade, esta imbuída também de um empirismo, sem o qual nunca daria conta da tensão, que é não somente um substituto da verdade, mas o processo de se obter a verdade e mesmo como processo, não se define, é, pois, o conflito mesmo manifesto, a critica imanente.

Existem ainda certas semelhanças, identificadas por Adorno, entre seu método e o de Popper: “A partir do instante em que ele identifica a objetividade da ciência com a do método critico, ele eleva este a condição de órgão da verdade. Nenhum dialético poderia exigir mais atualmente” ou ainda “Parece-me digno de menção que um estudioso para o qual a dialética é anátema veja-se compelido a formulações próprias do raciocínio dialético” O distanciamento de Popper em relação ao positivismo, no entanto, é prova do distanciamento entre este ultimo e a crítica imanente. Mas a reflexão positivista pode ser considerada ou seu contexto próprio das ciências naturais também como falso, pois o puro determinismo não mais da conta de entender a realidade como tal.

Entre Popper e Adorno, vemo-nos em torno do estado das coisas que se instala na discussão entre o padre e o farmacêutico de Madame Bovary. Meramente acompanhar o pensamento de autores acaba por tomar a leitura totalitária, deve-se por mais incipiente a analise, tentar por a cara a tapa. Um pensamento que contenha em si a possibilidade da libertação como meta, é o mais totalitário de todos, se refere à possibilidade, trata justamente daquela categoria kantiana que “è o principio supremo de todo o conhecimento humano”; “O principio da unidade sintética da apercepção de todo o uso do entendimento”. É necessário o cuidado que o esforço tenso, a critica imanente, não se converta num sistema.