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Nietzsche’s Amor Fatti, on love, the future, and trusting philosophical authorities

It has been proposed by one of the most important persons of the 21st century, the philosopher David Pearce, that people reflect on Nietzsche’s Amor Fatti:

from Wikipedia:

Amor fati is a Latin phrase coined by Nietzsche loosely translating to “love of fate” or “love of one’s fate”. It is used to describe an attitude in which one sees everything that happens in one’s life, including suffering and loss, as good. Moreover, it is characterized by an acceptance of the events or situations that occur in one’s life.

The phrase is used repeatedly in Nietzsche’s writings and is representative of the general outlook on life he articulates in section 276 of The Gay Science, which reads,

I want to learn more and more to see as beautiful what is necessary in things; then I shall be one of those who make things beautiful. Amor fati: let that be my love henceforth! I do not want to wage war against what is ugly. I do not want to accuse; I do not even want to accuse those who accuse. Looking away shall be my only negation. And all in all and on the whole: some day I wish to be only a Yes-sayer.

Quote from “Why I Am So Clever” in Ecce Homo, section 10[1]:

My formula for greatness in a human being is amor fati: that one wants nothing to be different, not forward, not backward, not in all eternity. Not merely bear what is necessary, still less conceal it—all idealism is mendaciousness in the face of what is necessary—but love it.¨

Here is the respose I choose to give:

Being, according to a large N research questionnaire among the 0,5% Happiest people in the world, I must say three things:

The first is that I can understand and feel my relative well-being, and for this, I am very glad. I wish there was something to thank, and since there isn’t, I help future people by being and working as a transhumanist.

The second is that if it is true that 99,5% of people suffer more than I do, and achieve fewer moments of ecstasy and bliss, the universe, and evolution, are morally wicked indeed, and it is my only hope that we continue to combat nature’s lack of caress.

The third is that people, like Nietzsche, who think ¨death is good, aging is good, uglyness is good, non-intelligence is good¨ and think as well that other design ethical malfunctionings of the human condition are good must be faced with compassion and a smile for their defeatism. These people should be instructed without prejudice. They ought to be impowered with the right ethical tools, and if this is done well, their acceptance of defeat will dilute, and a new strength will be born, a strength able to colossally increase our chances of escaping the wickedness of our current nature, and plunging into a paradise only rarely sought in any prophecy hitherto declared possible by any society, or by any authority.

To respect authority is a mistake. This has been pointed out before, in concise and brilliant manner, by Bertrand Russell in his Liberal Decalogue:


Do not think it worth while to proceed by concealing evidence, for the evidence is sure to come to light.
Never try to discourage thinking for you are sure to succeed.

When you meet with opposition, even if it should be from your husband or your children, endeavour to overcome it by argument and not by authority, for a victory dependent upon authority is unreal and illusory.

Have no respect for the authority of others, for there are always contrary authorities to be found.

Do not use power to suppress opinions you think pernicious, for if you do the opinions will suppress you.

Do not fear to be eccentric in opinion, for every opinion now accepted was once eccentric.¨

A less concise yet brilliant way in which to think of the excessive respect we have for some people is by showing how their positions can be reached, and only seem to be at the worlds summit due to some presentation constraints imposed by our misleading though essential desire to know the final product, but not the complete build-up:

¨Were it possible to trace the succession of ideas in the mind of Sir Isaac Newton, during the time that he made his greatest discoveries, I make no doubt but our amazement at the extent of his genius would a little subside. But if, when a man publishes his discoveries, he either through a design, or through habit, omit the intermediary steps by which he himself arrived at them, it is no wonder that his speculations confound them, and that the generality of mankind stand amazed at his reach of thought. If a man ascend to the top of a building by the help of a common ladder, but cut away most of the steps after he has done with them, leaving only every ninth of tenth step, the view of the ladder, in the condition which he has pleased to exhibit it, gives us a prodigious, but unjust view of the man who could have made use of it. But if he had intended that any body should follow him, he should have left the ladder as he constructed it, or perhaps as he found it, for it might have been a mere accident that threw it in his way… I think that the interests of science have suffered by the excessive admiration and wonder with which several first rate philosophers are considered, and that an opinion of the greater equality of mankind, in point of genius, and power of understanding, would be of real service in the present age.” – Joseph Priestly, The History and present State of Electricity

To one who starts to ponder, at this point, if Amor Fatti or Amor Autoritti are reasonable ways it is about time to read this texts continuation

We need you!

We need you!

No fim do ano passado me lembro de ter assistido a propaganda do Singularity Summit 2009 e ela ter me passado um sentimento de “Transhumanists of the World, rise!”. Claro que na verdade a conferencia foi sobre singularidade, que é apenas uma subtopico do transhumanismo. Visitando o site da associação mundial transhumanista (agora Humanity Plus) é possível constatar que não existem muitos transhumanistas por ai, pelo o que me lembro a contagem estava em torno de 5.000. Que de fato praticam e escrevem a respeito, com certeza existem talvez menos que centenas. Mas esses poucos tem feito barulho recentemente! Surpreendentemente no Brasil também. Nos meses passados tem aparecido um crescente numero de reportagens de capa a respeito:

Capa da Superinteressante de Novembro de 2009: A pílula da inteligência

Capa da Scientific American edição 90, de Novembro de 2009: A pílula da inteligência

Capa da Superinteressante de Janeiro de 2010: Imortalidade

Capa da Filosofia edição 43, de Fevereiro de 2010:  Transhumanismo

Entrevista com Nick Bostrom, Revista Filosofia No. 48

Matéria sobre o Paradoxo de Fermi e o Futuro da Humanidade, Revista Filosofia No. 47

Nos paises desenvolvidos a exposição na mídia de temas tranhumanistas é ainda maior. Só o fundador da associação transhumanista, Nick Bostrom, já participou de quase 400 entrevistas para revistas como a Times e canais como a CNN. Se com tão poucos transhumanistas ativos já temos feito tanto barulho imagino quando aqueles outros milhares começarem também a se envolver.

O fato é que querendo ou não, você racionalista e amigo da tecnologia terá um papel fundamental no futuro próximo. Cada vez mais esses temas estão sendo divulgados e cada vez mais eles irão parar na discussão da mesa de jantar da pequena elite intelectual que controla a opinião das massas. Por isso não se sinta surpreso de se encontrar cada vez mais freqüentemente na posição de defensor das “loucuras” tecnológicas e acima de tudo nunca tema se colocar ativamente nesse papel. São aqueles que se dispuserem a energicamente causar uma mudança de opinião que serão os primeiros e principais responsáveis pela implementação dos avanços tecnológicos.

Alem dessas situações domesticas também não se acanhe em participar nos meios públicos de divulgação da informação como blogs, sites, revistas, emissoras de TV e rádio. Você tem uma responsabilidade e um papel fundamental no futuro das pessoas com quem você se importa e no futuro da humanidade como um todo, exerça essa responsabilidade.

Dois bias que podem acabar com a humanidade

Um bias cognitivo é uma tendência inerente que temos, ao pensarmos ou analisarmos certas situações,  de cometer desvios sistematicos da racionalidade. Existem dois bias não listados em nenhum livro sobre bias cognitivos que considero como os principais no que concerne a avaliação de potencias riscos catastroficos à raça humana.

Bias Observacional

Tratei de modo mais axiomático deste bias em outro post. Aqui tentarei expor ele de maneira mais concreta. Imagine um jogo de computador baseado na evolução com pequenas entidades auto replicadoras que geram algoritmos comportamentais nessas peculiares entidades e um ambiente virtual. A simulação reinicia periodicamente a cada T segundos e as populações são extintas sem deixar rastros. O evento só ocorre caso as entidades não tenham desenvolvido um conjunto muito especifico de algoritmos. O leitor poderia imaginar que essas nossas entidades teriam uma tendência a evoluir este certo algoritmo, pois de outro modo seriam extintas. Mas esta impressão está errada pois durante toda a historia de uma dessas populações de entidades virtuais muito provavelmente não há qualquer razão especifica para que esta população tenha desenvovido este algoritmo e caso, sem aviso, o programa se reinicie a população vive caso possua o algoritmo e é completamente devastada caso contrario: não há a chance de que as entidades que sofreram o holocausto passem as gerações futuras a informação de quem um cataclismo acontecerá e que só aquelas populações com o algoritmo sobreviverão; não há a chance de nossas pobres entidades aprenderem evolutivamente deste horrendo acontecimento pois cada vez que ele acontece o jogo é reiniciado do zero. Apesar de estar sob o risco de extinção essas ingênuas populações nunca ficam sabendo deste fato simplesmente porque as que sabem morrem e as que não são extintas por possuírem o algoritmo não estão sob este risco para se informarem dele. Se há uma pressão evolutiva agindo seria uma seleção por ignorância. Alem disso se assumirmos um crescimento populacional maior que zero, se você é uma dessas entidades, a maior probabilidade é que esteja mais próximo do tempo T de extinção do que mais longe. Isto é uma conclusão facilmente obtida a partir da SSA, se você um uma entidade aleatória que não sabe quando será extinta, mas sabe que a maioria das entidades esta mais próxima do fim do que do começo então você deve assumir que está mais próxima de ser extinta do que não. Uma população de entidades rudimentares, em seus começos, pode ter um futuro vasto a sua frente. Enquanto que uma população já extremamente evoluída e adaptada ao ambiente provavelmente esta no seu fim. É fácil constatar que nós partilhamos da mesma ignorância destas ingênuas e ledas entidades. Nós só estamos vivos, pois não fomos extintos, logo não podemos usar esse dado para calcular nossa probabilidade de extinção. O dado de ha quanto tempo não fomos extintos muito menos, pois o que se da é o inverso, quanto mais tempo permanecemos vivos maior a probabilidade de sermos extintos no instante seguinte. Temos, portanto de usar outros meios indiretos.

Bias da Intencionalidade

Durante a imensa maioria da historia da humanidade os eventos naturais eram em sua maior parte inevitáveis e matavam muitas menos pessoas do que os eventos humanos evitáveis. Naturalmente que aqueles que sabiam evitar a sua própria morte através de outro ser humano sobreviviam em oposição aos que não conseguiam e aqueles que desnecessariamente despreendiam energia em evitar eventos inevitáveis – mantendo o resto constante – tenderiam a não sobreviver frente a grande escassez energética. Esta situação criou um bias – até pouco tempo vantajoso – de se preocupar muito mais com perigos intencionais do que não intencionais. Esse é talvez o principal bias a desviar a atenção da humanidade para os principais eventos catastróficos. Só muito recentemente tem-se dado conta de um destes muitos perigos: o aquecimento global, – talvez as custas de identificar paises ou industrias como as culpadas – enquanto os outros inúmeros males permanecem na penumbra.

The most important problems and what to do

by Jonatas

The most important problems of the universe: (1) suffering; (2) lack of intelligence; (3) new imperfect life being created unintentionally in unreachable (due to the speed of light) places; (4) the end of the universe (by heat death or something else). Other relatively minor problems can be fixed with time by fixing problem 2. Problems 3 and 4 seem to be impossible to completely fix, although maybe problem 3 could be diminished by a type of class action by all intelligent beings in the universe to replace imperfect life in their nearby planets, and problem 4 could be delayed by slowing the subjective passage of time in conscious beings (by accelerating their rate of functioning, this could be done to extreme levels in artificial beings, effectively multiplying by many times the remaining time in the universe). Mortality is not really a major problem (see Daniel Kolak’s open identity theory, and

What we should focus the most on doing now: (A) making the population sympathetic to and willing to work for transhumanism (this includes trying to diminish opponent forces, such as religion, and in general trying to propagate the whole mindset that leads one to accept transhumanism), which has the potential to solve problems 1 and 2 for us – and fixing problem 2 will fix many other minor issues with time (such as lack of knowledge; mortality; creation of virtual paradises; etc.); (B) preventing global catastrophic risks (the most important of which seems to be bio- or nanotechnological terrorism, which is not something that exists now), something that we have little to do about now, except trying to convince legislators and politicians of the risk, without making them averse to goal A.

About the relationship between goals A and B: avoiding goal A will do little to help B. In fact, putting too many security restrictions on goal A has the potential to make less ethics-conscious individuals advance the technology first. Instead, the technology should be advanced as fast as possible, with some restrictions, and there should be created a global power with strict international surveillance for bio- or nanotechnological terrorism.

About artificial intelligence: it is not per se going to solve problems 1 and 2 for us, unless it acquires consciousness and replaces us completely (but I don’t see that happening in the near future). As long as there is still lack of intelligence in people, bad political decisions and all stupidity related problems would continue to exist, and the same with suffering. Artificial intelligence, if properly planned, should not be considered a relevant global catastrophic risk, because it can be easily contained (inside reality simulations, or through many limitations, such as physical, in terms of knowledge, of accessibility, etc.) and because if it is very intelligent it should not have unproductive behavior.

Once we can fix problems 1 and 2 for us with transhumanism, we can explore all planets nearby, and if we find forms of life that still have problems 1 and 2, we can either solve these problems for them (giving additionally knowledge, immortality, virtual paradises, etc.) or replace them. Advanced aliens should be expected to do the same.

What impedes people to solve these problems or to see the need to solve them? (Z) Thinking that education will solve problem 2; (Y) Thinking that problem 2 doesn’t need to be solved because we are so intelligent already; (X) Thinking that suffering is somehow necessary and shouldn’t be avoided; (W) Thinking that it is against their God’s rules to fix these problems. The absurdity of these (Z, Y, X, W) should be already evident to who is reading this, so there’s no need to explain it.

Two Cognitive Cases

Two Cognitive Cases

This is the first draft of an article I’m developing, I appreciate any commentaries and corrections, which can be sent as reponses.

The study of cognition can be benefited in a number of ways, and people from areas as separate as mechanical engineering, artificial systems and psychology show us that. In fact, from Gödel’s theorem to dynamic systems to molecular genetics, there is some kind of contribution that has been made to the understanding of mind. I want to present two new challengers here, to join the group of things which are useful to understand cognition. In fact to understand in general. They are Recently-Biased Information Selectivity and Happiness.

First I want to talk about selectivity. If one wants to understand more and be able to acomplish more, it is highly likely that he will have to learn (the other option being invent, or discover). We learn more than we invent because it is cheaper, in economic terms. Our cognitive capacity to learn is paralleled in the south asian countries, whose development is funded into copying technologies developed in high-tech countries. Knowledge is not a rival good, that is, the fact that I have it doesn’t imply you can have it too. Knowledge, Newton aside, has nothing to do with apples.

So suppose our objective was to learn the most in the least time, and to be able to produce new knowledge in the least time. There is nothing more cognitive than increasing our descriptive and procedural knowledge in reasonable timing. The first thing one ought to do is to twist the idea of learning upon itself, and start learning about learning. There are many ways to improve learning that can themselves be learned. One can achieve higher efficiency by learning reading techniques. Also she could learn how to use different mental gadgets to learn about the same topic (i.e. Thinking of numbers as sounds, if she usually thinks of them as written, and vice-versa). She also could simply change her material tools, using a laptop instead of writing with pen, writing in a different language to allow for different visual analogies, using her fingers to count. The borders are of course not clear between different cognitive tools. Writing in chinese implies thinking through another grammatical scheme, as well as looking at different symbols, one of this is more mental, the other more material, both provide interesting cognitive connections to other concepts and thus improve thinking and learning. Another blurry technique, without clear frontiers is to use some cognitive enhancer. Coffee, the most widely used one, is a great enhancer. Except that it isn’t. Working as a brain’s false alarm that everything is okaywhn is isn’t, leading to disrythmia, anxiety exaustion etc. Modafinil is much better, healthier, less prone to causing tension. But are these mental or material gadgets? One thing is certain, they are part of the proof that the mind-body dichotomy has no bearing on reality. These are all interesting techniques for better learning, but I suggest they are not as powerful as selectivity.

Recent-Biased Information Selectivity is a pattern towards seeking knowledge, what is informally called an “approach” to knowledge. A Recent-Biased Information Selector is a person who has a pattern of behavior. This pattern is, as the name denunciates, to look for the solution for her problems mostly in the most recent publications she can find. That is, amongst all of her criteria for deciding to read or not to read something, to watch or not to watch a video, to join or not a dance group, being new is very close to the peak. There are many reasons for which this is a powerful technique, given our objectives. The first is the Law of Accelerated Returns, as proposed by Kurzweil(2005). According to it, the development of information technology is speeding up, we have an exponential increase in the amount of knowledge being produced, as well as in the amount of information being processed. This is Moore’s law extended, and it can be extended to all levels of technological improvement, from the invention of the multicellular organism to genomic sequencing, from the invention of a writing system to powerful computing etc… Stephen Hawking (2001) points out that if one wanted to read all that was being published in 2001, he’d have to run 145 kilometers per second, this speed has probably doubled by now (2010). So Information technology in general and Knowledge in particular are increasingly speeding up. That means that if you cut two adjacent periods of equal sizes from now to the past, odds are high there is more than twice the knowledge of the older period in the newer one. If one were to distribute fairly his readings among all there is to be read, he would already be exponentially shifted towards the present. So a fair distribution in order to obtain knowledge is one that decreases exponentially towards the past. Let us say one reads 1000 pages, more or less three books, per month. So if we divide time in 4 equal periods, let’s say, of 20 years, one would have these pages divided according to the following proportions: 1 : 2 : 4 : 8. Now, 1x+2x+4x+8x = 15x = 1000. x=66 We get the distribution of pages:

66 to 1930 – 1950

122 to 1950 – 1970

244 to 1970 – 1990

488 to 1990 – 2010

In general: Let S be the number of subspaces into which one’s division will be made. Let T be the total number of pages to be read. The fair amount of reading to be dedicated to the Nth subspace is given by the formula:

2n-1 · (T / (21+22… 2S-1))

Now, this is not how we usually reason, since our minds are in general linear predictors, we suppose that fairness in terms of learning knowledge would be to read the same amount for equal amounts of time. This is of course a mistake, a cognitive bias, meaning something that is engendered in our way of thinking in such a way that it leads us systematically to mistakes. My first purpose is to make clear that the wisdom in the strategy of dividing cognitive pursuit equally though time is a myth. A first objection to my approach is that it is too abstact, highly mathematical, there are deep assymetries between older stuff and newer stuff that has not been considered, so one should not distribute her reading accordingly. Exactly! Let us examine those asymmetries.

First asymmetry: Information inter-exchange: It is generally taken for granted by most people that the future has no influence on the past, whereas the past has influence on the future. More generally, an event X2 at time T2 will not influence another event X1 at time T1, but might influence X3 at time T3. This of course is false. But we are allowed to make Newtonian approximations when dealing with the scale in which knowledge is represented, that is paper scale, brain scale (Tegmark 2000), sound-wave scale. So it is true for our purposes. From information flow asymmetry it follows that what is contained in older knowledge could have influenced newer knowledge, but not otherwise. This is reason to take the fair distribution, and squeeze it even more towards the present.

Second, asymmetry: Having survived for long enough. This is the main objection I saw against biasing towards the present, it consists of saying that the newest stuff has not passed through the filter of time (this could also be called the “it’s not a classic” asymmetry) and therefore is more likely to be problematic. I have argued elsewhere that truthful memes are more likely to survive (Caleiro Forthcoming) and indeed that is a fair objection to the view I am proposing here. This asymmetry would make us stretch our reading back again. But in fact there is a limit to this filter. One has strong reasons not to read what came just hot out of press (unless there are other factors for it) but few reasons not to read what has been for 2 years in the meme-pool, for instance. The argument is strong, and should be considered.

Third, Conceptual-Scheme Complexity: Recent stuff is embedded in a far more complex world, and in general into a very complex scheme of things, that is, the concepts deployed are part of a complex web, highly sofisticated, deeptly interacting. This web makes the concepts clearer since they are more strongly interwoven with other concepts, theories, experiments etc… The same concept usually will have a much more refined conception today than the one it had two hundred years ago. Take the electron for instance, we have learned enormous amounts about it, the same word means much more today than it did. Even more amazing is the refinement of fuzzy concepts like “mind”, “cognition”, “knowledge”, “necessity”, “a priori” and so on.

Fourth, Levels of Meta-knowledge available: Finally we get to an interesting asymmetry, that is related to how many layers of scrutiny has an area passed through. In the early days we had “2+3·5+(9-3)” kind of maths, then someone notices we’d be well with a meta-symbol for a given unknown number so we had “ X+3 = 2” kind of mathematics…. and someone else eventually figured a symbol could denote a constant, and we had “Ax+By+C = 0” kind of mathematics, there are more layers, but the point is clear. Knowledge2, That is Meta-Knowledge depends on the availability of Knowledge1, same for Meta-meta-knowledge or Knowledge3. In psychology we had first some data regarding a few experiments with rats, then some meta-studies, with many clusters of experiments with rats, then some experiments with humans, then meta-inter-species knowledge that allowed us to compare species, then some theories of how to achieve knowledge in the area, that is epistemology of psychology etc… Now, it is usually impossible to create knowledge about something we have no data about. So there is no meta-knowledge without there being knowledge first. The number of layers is always increasing, for it is always possible to seek patterns in the highest level (though not always to find them!). More publications give us access to more layers of knowledge, and the more layers we have, better is our understanding.

These asymmetries give us the following picture, if we had a fair distribution, we should squeeze it a lot towards the recent past (some 2 years before present) but resist the temptation to go all the way and start reading longterm-useless nonfiltered stuff like newspapers. A simple way to do that is to change the 2 in the general equation for a 3. Some interesting ideas on this topic of selective ignorance deserve mention:

There are many things of which a wise man might wish to be ignorant.”

Ralph Waldo Emerson

Learning to ignore things is one of the great paths to inner peace”

Robert J Sawyer – 2000

What information comsumes is rather obvious: it consumes the attention of its recipients. Hence, a wealth of information creates a poverty of attention and a need to allocate that attention efficiently among the overabundance of information sources that might consume it.”

Herbert Simon, Turin Award winner, Nobel Prize winner

Just as modern man consumes both too many calories and calories of no nutritional value, information workers eat data both in excess and from the wrong sources”

If you are reading an article that sucks, put it down and don’t pick it back up. If you go to a movie and it’s worse than The Matrix Revolutions, get the hell out of there before more neurons die. If you’re full after half a plate of ribs, put the damn fork down and don’t order dessert.”

Timothy Ferris – 2007

I’ve shown the names of those I’m quoting, for this gives one tip on exceptions for the no hot-out-of-press rule. That is the argument from authority. The argument from authority is fallacious in its usual form:

Source A says that p.
Source A is authoritative.
Therefore, p is true.

But is reasonable in its bayesian form (“~” is the symbol for “not”) :

Source A says that p. Source B says that ~p.
Source A is authoritative. Source B isn’t.
Therefore, it is rational to consider that p is more likely to be true until further analysis.

The other exception in which we should read what is hot-out-of-press (given our cognitive objective, as always in this article) is when it is related to one’s specific line of work at the moment. Suppose I’m studying Happiness to write a review of current knowledge in the area, this gives me good grounding to read an article published this month, since I must be as up to date as possible to perform my work. Exceptions aside, it is a good strategy to let others filter the ultra-recent information for you and remain in the upper levels of analysis. The same is true of old information, what is relevant is highly likely to have been either preserved, as I mentioned before, or rediscovered, as all the cultural evolutionary convergences show (Diamond 1999,Caleiro Forthcoming ).

First Case Conclusion:

Our natural conception of how to distribute our time in obtaining knowledge is biased in the wrong way, suggesting equal amounts of effort to equal amounts of time. To achieve greater and deeper knowledge, one should distribute her effort with exponentially more reading of more recent periods than older ones. In addition, she should counter this bias with another bias, shifting it even more towards the present but stoping short of it, with an allowance for some basic knowledge filters to operate before choosing what to read. We end up with an exponential looking curve that peaks in the recent past and falls abruptly before reaching the present.

Second case, Happiness

All other things equal, most people would not choose to have every single day of their lifes, from tommorrow onwards, being completely miserable. It is a truism that people do not want to suffer unless it is necessary, and most times not even in that case. Neutrality is good, but not good enough, so, all things equal, it is also true that most people would choose to have countless episodes of deep fulfilling happiness for the rest of their lifes, as oposed to being merely “Not so bad”. Some people have noticed that this is not so unanimous, for instance, Betrand Russell (1930) wrote: “Men who are unhappy, like men who sleep badly, are always proud of the fact.”

I intend to discuss happiness from another perspective, the perspective of cognition. Is happiness good or bad for thinking? Supposing our cognitive objective, as we did before, let us examine happiness. Suppose we don’t care about happiness, we just want to be cognitively good. Contrary to popular legend that thinking equals suffering, and Lennon’s remark that “Ignorance is bliss”, current evidence suggests that happiness is positively correlated with (Gilbert 2007, Lyubuomisrky 2007, Seligman 2002):




Stronger immune system


Physical health


Being Liked

Amount of friends

Social support



Ingenuity in thinking

Productivity in job

Leadership skills

Negotiation skills

Resilience in face of hardship

It is hard not to notice how many characteristics there are on the list, and easy to see how many of them are related to being a better learner, a better teacher, and a better cognitive agent in general. This is true independently of what one studies, if the knowledge is descriptive such as calculus, or procedural such as dancing. There is also the evident fact that depressed people tend to loose productivity dramatically during their bad periods. This gives us good scientific grounding to believe that happiness is important for cognition, to learn better, to achieve more, and to be cognitively more apt in general. So we ought to be happier.

But should we be happier? How much happier? The reason why I started this article is that I was reading in the park, listening to some music, watching people going and coming, families, foreigners, kids etc… It was a beautiful sunny day and I had just exercized, I was reading something interesting and challenging, the music was exciting, I took a look around me and saw the shinning sun reflecting on the trees, a breeze passed amidst the giggle of kids nearby and I thought “This is great!” In fact I thought more than that, I thought “This is great! Still it could be better”. There is some background knowledge needed to qualify the power of this phrase. Once I saw a study that said a joke had been selected among thousands by internet users, therefore it was a scientifically proven funny joke. Now, I’m a happy person. In fact I’m a very happy person. It took me a while to accept that. It is hard to accept that one is the upper third of happiness, because that tells a lot about the human condition, and how happy people are. So I was pondering about this fact that people told me, and that I subjectively felt, and finally science came to my aid. The University of Pennsilvania holds an online-test called authentic happiness invetory. The website has 700,000 members. I did the test twice, with some 14 months in-between. The website provides comparisons among those who took the test, we can take these to be some dozens of thousands of people at least. The first time I did it, it showed “You scored as high or higher than 100% of web users, 100% of your gender, 100% of your age group 100% of your occupational group, 100% of your educational level and 100% of your Zip code”. One year later, the first five bars were still showing 99% and the last one 98%. Thinking I might have been in an exceptionally happy day that time, I took the test again, and to my surprise I was back to 100% in all categories. I knew I am happy, but that was taking the thing to a whole other level. So I was as scientifically comproved to be happy as that joke, I was in the very end of the tail of the curve.

Now think again about that phrase in that scene in the park. “This is great! Still, it could be better.” I was not talking about myself (as I’ve been for one paragraph now) I was talking about Man. If you found yourself in the edge of the curve you’d know what I mean. If this is the best we can do, we are not there yet. I’m not saying that being happy is not great, it is awesome, but it could be much better. I suggest that anyone who had the experience of reading all those “100%” there in the website thought the same, this cannot be the very best, there must be more. This is what brings me to the Humanity+ motto:

Better than well.

The human condition is not happiness-driven. Evolutionarily speaking, we do what we can to have more grandchildren than our neighbors, whereas this includes happines or whether it doesn’t. A mind that was satisficed all the time would not feel tempted to change his condition, so mother nature invented feelings such as anxiety, boredom, tiredness of the same activity, pain etc… Happiness, as designed by evolution, is fleeting, ephemerous (Morris 2004). How could we change that? There are several ways, the most obvious one being chemical intervention. Also technologies of direct stimulation of pleasure centers could be enhanced to accepted levels of safety. Artifacts such as MP3 players also have an effect on happiness since listening to music causes happiness (Lyubomirsky 2007), many artifacts have positive effects on happiness and in the long term may help in improving the human condition. Art, philosophy, spirituality and science have also had long term effects on human happiness. So in order to improve the human condition in the long term, we ought to work in all those bases. This would in turn provide us means to achieve our proposed cognitive goal, through greater cognitively enhancing happiness. Before moving on, I’d like to make an effort of showing a mistake that most people are likely to make, due to some cognitive biases, I’ll first list the biases:

Status quo bias: people tend not to change an established behavior unless the incentive to change is compelling. (Kahneman et al 1991)

Bandwagon effect: the observation that people often do and believe things because many other people do and believe the same things. The effect is often called herd instinct. People tend to follow the crowd without examining the merits of a particular thing. The bandwagon effect is the reason for the bandwagon fallacy’s success.

From Yudkowsky (2009):

Confirmation bias:In 1960, Peter Wason conducted a now-classic experiment that became known as the ‘2-4-6’ task. (Wason 1960.) Subjects had to discover a rule, known to the experimenter but not to the subject – analogous to scientific research. Subjects wrote three numbers, such as ‘2-4-6′ or ’10-12-14’, on cards, and the experimenter said whether the triplet fit the rule or did not fit the rule. Initially subjects were given the triplet 2-4-6, and told that this triplet fit the rule. Subjects could continue testing triplets until they felt sure they knew the experimenter’s rule, at which point the subject announced the rule.

Although subjects typically expressed high confidence in their guesses, only 21% of Wason’s subjects guessed the experimenter’s rule, and replications of Wason’s experiment usually report success rates of around 20%. Contrary to the advice of Karl Popper, subjects in Wason’s task try to confirm their hypotheses rather than falsifying them. Thus, someone who forms the hypothesis “Numbers increasing by two” will test the triplets 8-10-12 or 20-22-24, hear that they fit, and confidently announce the rule. Someone who forms the hypothesis X-2X-3X will test the triplet 3-6-9, discover that it fits, and then announce that rule. In every case the actual rule is the same: the three numbers must be in ascending order. In some cases subjects devise, “test”, and announce rules far more complicated than the actual answer.” […]

“Hot” refers to cases where the belief is emotionally charged, such as political argument. Unsurprisingly, “hot” confirmation biases are stronger – larger in effect and more resistant to change.”

Let me restate a case of the status quo bias in another form: When people make a decision, they should take only the benefits and costs of what they intend to do, and carefully analyse them. This is fairly obvious. Also, it is complete nonsense. What one ought to do when she is trying to find out about doing or not doing something is to compare that that thing with what she would do in case she didn’t do that thing. Suppose I’m a father who gets his daughter everyday in school. Then some friends invite me to go play cards, I reason the following: “Well, playing cards is better than doing nothing” and I go play cards, leaving my poor child alone in school.


Another important topic is how can someone be happier than he usually is, right now? What is already available? What has been proven to increase satisfaction? The rest of the article is dedicated to this topic. Gilbert (2007) has many interesting words on that, they are worth quoting:

“My friends tell me that I have a tendency to point out problems without offering soutions, but they never tell me what I should do about it.”[…]”… you’ll be heartened to learn that there is a simple method by which anyone can make strikingly accurate predictions about how they will feel in the future. But you may be disheartened to learn that, by and large, no one wants to use it.

Why do we rely on our imaginations in the first place? Imagination is the poor man’s wormhole. We can’t do what we’d really like to do – namely, travel trough time , pay a visit to our future selves, and see how happy those selves are – and so we imagine the future instead of actually going there. But if we cannot travel in the dimension of time, we can travel in the dimensions of space, and the chances are pretty good that somewhere in those other three dimensions there is another human being who is actually experiencing the future event that we are merely thinking about.” […] “it is also true that when people tell us about their current experiences […] , they are providing us with the kind of report about their subjective state that is considered the gold standard of happiness measures. […] one way to make a prediction about our own emotional future is to find someone who is having the experience we are contemplating and ask them how they feel.[…] Perhaps we should give up on rememberin and imagining entirely and use other people as surrogates for our future selves.

This idea sounds all too simple, and I suspect you have an objection to it that goes something like this… “

This fine writer’s message is simple, stop imagining, start asking someone who is there. This is the main advice for those who are willing to predict how happy will they be in the future if they make a particular choice.

Now, Lyubomirsky offers many other happiness increasing strategies. First, she proposed the 40% solution to happiness. Happiness is determined according to the following graph:

50% genes 10% circumstances and 40% intentional Activities
50% genes 10% circumstances and 40% intentional Activities

That is, Happiness is 50% genetically determined (that is, if you had to predict Natalie Portman’s happiness, and she had monozygotic twin separated at birth, it would be more useful to know how happy the twin is than to know every single fact you may figure out about Natalie’s way of life, past and present conditions and reactions to life events) , 10% due to life circumstances (This includes wealth, health, beauty, marriage etc…), and 40% due to intentional activities. So, all things considered, if one is willing to become happier right now, the best strategy is to change these last 40%, how can we do it. Here I will list some comproved ways of increasing general subjective happiness. I will not provide a detailed description of the experiments, but those can be found in Lyubomirsky’s book references. My aim here is to give my reader a cognitive tool for increasing her happiness, since I have defended that achieving greater happiness is a good cognitive strategy.

Bostrom, N. 2004 The Future of Human Evolution. Death and Anti-Death: Two Hundred Years After Kant, Fifty Years After Turing, ed. Charles Tandy. Ria University Press. pp. 339-371. Available online:

Diamond, J.1999. Guns Germs and Steel:The Fates of Human Societies. W.W. Norton & Co

Kahneman, D., Knetsch, J. L. & Thaler, R. H. (1991). Anomalies: The Endowment Effect, Loss Aversion, and Status Quo Bias. Journal of Economic Perspectives, 5, 1, pp. 193-206

Russell, B. 1930. Conquest of Happiness

Available online:

Tegmark, M. 2000. The importance of quantum decoherence in brain processes IN Physics Review E61:4194-4206

Available online:

Yudkowsky, E. 2009. Cognitive biases potentially affecting judgment of global risks IN Global Catastrophic Risks, eds. Nick Bostrom and Milan Cirkovic. Oxford

Available online:

A filosofia de Nick Bostrom, Parte 1

Esse Post é o primeiro membro de uma serie de varios posts sobre a filosofia de Nick Bostrom. O objetivo dessa serie de posts é introduzir o leitor ao pensamento de Bostrom e a tópicos importantes do transhumanismo. Neste primeiro momento irei introduzir as motivações subjetivas bem como os princípios teóricos básicos sob os quais se fundam a filosofia deste pensador. Ele esta assim organizado:

1. O Bostrom
1.1 Formação
1.2 Preocupações
2. A Filosofia de Nick Bostrom
2.1 Bases
2.1.1 Tentando saber mais que deus, conhecimento indexical e a SSA
2.1.2 Efeitos de Seleção Observacionais e Riscos Existenciais

1. O Bostrom

1.1 Formação

Graduação em Filosofia, Matemática e Ciências da Computação na Suécia, onde estabeleceu um novo record de desempenho. Trabalhou como stand-up comedian por algum tempo para depois fazer um mestrado em Economia, outro em Neurociência e outro em Filosofia. Em seguida realizou seu doutorado em Filosofia, tese que entrou para o Hall de melhores dissertações do ano cujo tema era uma formalização do principio antrópico: A Self Sample Assumption. Tem atualmente, 37 anos e é diretor do Instituto Para o Futuro da Humanidade desde os 33 anos. Já arrecadou mais de 13 milhões de dólares em verba através de bolsas para pesquisa, prêmios e doações.

1.2 Preocupações

Talvez o melhor modo de entender a sua filosofia seja começando por entender que tipo de preocupações parecem habitar a mente deste pensador. Como todos nós Bostrom é um macaco das savanas num mundo moderno que não é o dele. Mas para ele a sua savana é o universo e a sua tribo a humanidade, sem duvida é um macaco um tanto quanto estranho. No entanto, para a esmagadora maioria da humanidade a savana é algo menor que um bairro e a humanidade algo entre 20-1000 pessoas. Este ultimo fato é talvez a maior fonte de preocupações para o Bostrom. Porque estamos fora do ambiente no qual evoluímos não sabemos lidar com nosso novo ambiente. Claro que existem inúmeras coisas que se mantiveram constantes como as leis da física, fatos sociais básicos e nossas emoções em geral. No entanto a pequena parcela que mudou pode ser crucial para determinar nosso sucesso futuro como espécie. Inicialmente temos novos desafios no campo do conhecimento que são extremamente difíceis de superar dado a nossa maquina cognitiva, tais como entender mecânica quântica, neuroquímica ou o problema da consciência. Para alem disso temos desafios no mundo exterior que podem se tornar importantes pressões evolutivas, tais como entender os riscos e potenciais da tecnologia – o que inclui desde inteligência artificial até farmacologia – ou entender e lidar com os novos riscos naturais eminentes tais como choque com grandes asteróides e aquecimento global. Passamos 90% do nosso passado evolutivo tendo que fugir de leões na savana, caçar mamutes, achar parceiros e formar alianças em grupos de até 100 pessoas. Nada disso exigia pensamento preditivo que extrapolasse uma ou duas décadas, menos ainda algo que extrapole a duração vida media de um homem primitivo – 40 anos. Nada disso exigia que entendêssemos o comportamento de possíveis futuras inteligências artificiais ou que lutássemos inutilmente contra catástrofes naturais transvertidas de poderosas divindades. Não nos era exigido que tivéssemos uma memória de trabalho muito maior que três ou quatro espaços para que processássemos informações a respeito do ambiente e de quem fez o quem com quem em pequenas tribos. Nossa navegação espacial foi moldada para conseguir acertar uma lança na caça que foge em velocidade e, no entanto, audasiosamente a usamos para enviar naves tripuladas ao espaço. Surpreendentemente não temos saído muito mal desse empreendimento pretensioso chamado civilização moderna, no entanto modificamos nosso ambiente cada vez mais rápido e como resultado ele se distancia velozmente das antigas savanas. Nosso cérebro talvez esteja próximo de não ser mais adaptado o suficiente para o ambiente que ele próprio criou. Para que a sobrevivência da humanidade e do que ela valoriza ser possível é necessário transcender o invólucro que era só a semente, é necessário o transhumanismo. O primeiro fato inelutável sobre essas modificações é a sua ineroxabilidade: a tecnologia veio e vem crescendo exponencialmente e estimativas conservadoras calculam que por 2050 nosso modo de vida terá mudado tão radicalmente a ponto de se tornar irreconhecível. Se fizermos essas modificações da maneira certa aquilo que valorizamos não será destruído e seremos de fato transhumanos – mais humanos – e a vida se tornará mais próxima da perfeição. Se fizermos a coisa errada e nada do que consideramos humano esteja lá daqui a 40 anos, então a humanidade terá se extinguido. Se, além disso, não restar mais vida inteligente então a galáxia sofrera uma grande perda, uma vez que somos a única vida inteligente de que temos noticia. Pense em duas historias para nossa galáxia, e talvez para o universo: a matéria começa a se condensar pela força da grávidade, estrelas surgem, aglomerados cada vez maiores, estrelas morrem e nascem e surgem os planetas, em algum deles surge a vida e através de milhões e milhões de anos ela evolui até que surge uma espécie que se espalha pela galáxia, a enchendo de vida e significado, bilhões e bilhões de seres conscientes com os mais diversos e complexos estados mentais. Na outra historia essa espécie é destruída e a galáxia permanece para sempre fria, gélida, silenciosa e inabitada. A colonização da galáxia, entes super inteligentes, uma consciência e um entendimento muito mais profundos do universo e um bem estar e uma felicidade muito maior podem estar nos aguardando nos próximos séculos, bem como pode estar nos aguardado a total destruição, e qual porta nós iremos abrir depende das nossas ações agora. Ou a raça humana vai transcender a sua insignificância cósmica e a sua chama vai brilhar pelo universo e a galáxia será adornada com os ramos, as flores e os frutos do que agora é somente semente ou nós seremos completamente eliminados da face da terra e toda a nossa existência será vã. Existem diversos jeitos de nos modificarmos para enfrentar melhor esses desafios e fazer a coisa certa. Inicialmente podemos memeticamente tentar modificar nosso aparelho cognitivo, aprendendo sobre nossos bias cognitivos – tendência a sistematicamente desviar do pensamento racional  – e de como evitá-los. Alem disso podemos quimicamente aumentar nossa capacidade cognitiva com o uso de nootrópicos tais como modafinil e aricept. O mais importante, no entanto, é dar atenção aos nossos futuros desafios e pensar seriamente as questões que podem fazer o diferencial entre uma galáxia pulsante de vida e uma inabitada. Para abordar essas difíceis e relevantes questões Bostrom fundou o movimento conhecido como transhumanismo: um movimento intelectual e cultural que se funda da crença de que devemos usar a ciência e a tecnologia para alterar a vida humana para melhor. Nessa seção tentei dar uma visão do que subjetivamente move esse filosofo a pensar o que pensa. A seguir analisaremos os aspectos teóricos que são as pedras fundamentais sob a qual ele constrói sua filosofia.

2. A Filosofia de Nick Bostrom

2.1 Bases

2.1.1 Tentando saber mais que Deus, conhecimento indexical e a SSA.

O instrumental teórico de Bostrom gravita em torno de um único conceito: A Self-Sample Assumption (SSA). Em termos precisos a SSA consiste em assumir que você é uma amostra aleatória da sua classe de referencia, sendo a classe de referencia o grupo de entidades que se assemelham a você em aspectos relevantes. Por exemplo, imaginemos o seguinte experimento mental: o mundo consiste de 100 calabouços habitados, cada um deles, por um único ser humano. 10 são pintados de branco e 90 de vermelho. Você acorda num calabouço escuro, qual probabilidade você irá atribuir para que o seu calabouço seja branco? Naturalmente será 10%. Esse raciocínio intuitivo pode ser formalizado se você considerar que sua classe de referencia for a dos humanos e que ela tem tamanho 100 e que destes 100, 10 estão numa sala branca e 90 em uma vermelha, assim segue naturalmente que se você é um humano e não sabe a cor da sua sala, a probabilidade de que a sua sala seja branca é de 10 em 100, ou seja, 10%. A SSA tem a forma do condicional bayesiano P(Eu sou tal que … | O Mundo é tal que…) – no exemplo anterior: P(Eu estou na sala branca | Existem 100 salas habitadas no mundo, 10 brancas e 90 vermelhas). Este resumo simplista revela algo de fundamental ao pensamento bostroniano. Aquele que já olhou uma noite estrelada num céu despoluído e divagou sobre o universo, as estrelas e a sua formação, planetas com vida e nosso papel no cosmos teve talvez um instante do estado de consciência que constantemente permeia os escritos deste filosofo sueco. A SSA parte de uma observação do estado do mundo (“O mundo é tal que…”) para uma reflexão sobre a nossa posição nele (“Eu sou tal que..”). Uma das pedras fundantes deste conceito foi colocada por David Lewis em 1979 em seu artigo “Attitudes De Dicto and De Se”, neste artigo Lewis abordava uma limitação dos dois tipos de ocorrências em enunciados que eram canônicos na época: as ocorrências de re e as de dicto. As ocorrências de re – da coisa – dizem respeito a coisa no mundo e fixam a referencia, ocorrências de dicto – do dito – dizem respeito ao que quer que seja que a intensão do nome pegue no mundo. Por exemplo, quando digo: ‘O Diego poderia ser o rei da Dinamarca”‘ , se tomo ‘Diego’ como de dicto então isso significa que seja lá ao que o nome Diego se refira caso o mundo pudesse ser diferente, essa coisa no mundo poderia ser o rei da Dinamarca. Se tomo ‘Diego’ como de re então me refiro a um Diego especifico no mundo, que não é o rei da Dinamarca. No primeiro caso a sentença é verdadeira e no segundo falsa. Na época se acreditava que qualquer fato poderia ser expresso apenas com esses dois tipos de modo de se referir a algo. No entanto, Lewis mostrou no artigo que existiam fatos que caiam fora do alcance deste tipo de referencia: os fatos indexicais. Por exemplo, seja a descrição completa do estado microfisico deste ambiente, existe um tipo de conhecimento que é sempre inalcançado por esse tipo de descrição: os famigerados conhecimentos indexicais. O conhecimento de que você é você, e eu sou eu. Chalmers afirma jocosamente que nem Deus tem conhecimento sobre os fatos indexicais e é esse tipo de conhecimento que o Bostrom tenta focar com a SSA. As ocorrências de se seriam, portanto, todas as ocorrências que fazem referencia a pessoa que tem o conhecimento ou enuncia a sentença. “Eu sou narigudo” é um conhecimento que algumas pessoas podem ter e outras não. Por mais que alguém não narigudo olhe para o Diego e saiba “O Diego é narigudo” isso não é o mesmo tipo de conhecimento que só o Diego (e as pessoas narigudas) podem ter: “Eu sou narigudo”.
Esse tipo de conhecimento de se não é mera especulação filosófica, em inúmeros ramos da ciência e do nosso pensamento intuitivo usamos freqüentemente conhecimentos indexicais. Um exemplo apontado por Bostrom desse uso é na cosmologia. Se, como diz o modelo cosmologico mais aceito, o universo é infinito e contem processos aleatórios como radiação emitida por buracos negros então qualquer observação de qualquer evento será feita com probabilidade um. Uma vez que existem infinitos processos aleatórios e existe uma probabilidade finita de gerar observadores nesses processos que sofrem uma alucinação, qualquer observação possível sempre será feita, mesmo que por um observador que é um cérebro que acaba de ser ejetado de um buraco negro. No entanto queremos usar o fato de que observamos o universo tal como ele como evidencia para uma teoria que prevê que ele é deste modo que o vemos. Para realizar isso temos que levar em consideração a informação indexical de que nós observamos o universo dessa maneira. Esse fato indexical, ao contrario do simples dado empírico observacional, tem o poder de alterar a probabilidade de que uma dada teoria seja verdadeira. Por exemplo, Bostrom fala de duas teorias cosmológicas: uma prevê que a radiação de fundo é 3K e a outra que é 7K. Observamos que a radiação de fundo é 3K e queremos usar isso como evidencia em favor da primeira teoria. O simples fato de que observamos uma radiação de fundo não falseia nenhuma das teorias, pois em ambas o universo é infinito e a observação de uma radiação de 3K é sempre feita em algum lugar com probabilidade 1, a diferença é que na primeira teoria ela é feita muito mais freqüentemente do que na segunda. Assim se considerarmos o fato de que nós fizermos essa observação isso diz algo é favor da primeira teoria, pois nela essa observação é muito mais provável que na segunda. Para realizar essa inferência temos que primeiro nos considerar como membros da uma classe de referencia de observadores do cosmos e em seguida estimar a probabilidade de que o cosmos seja de um jeito ou de outro analisando como o fato de observarmos ele de um jeito afeta a probabilidade de que essa observação seja feita com maior ou menor freqüência. Alem disso Bostrom expõe inúmeros outros experimentos mentais alem do já citado nos quais isso se faz necessário, dentre eles temos o seguinte:

O mundo consiste de Deus e uma moeda justa. Deus joga a moeda e se der cara ele irá criar duas salas: em uma colocara um homem de barba negra e em outra de barba branca; se der coroa ele irá criar apenas uma sala com um homem de barba negra. Quando um homem vem a existência e não sabe a cor da sua barba, qual a probabilidade ele deve atribuir para que ela seja negra se ele é informado por Deus que a moeda deu cara. Nesse caso a classe de referencia desse homem são os habitantes do mundo: um homem de barba negra e um de barba branca e ele deve atribuir uma probabilidade de 50% para que sua barba seja negra. Se, no entanto ele for informado que a moeda deu coroa, sua probabilidade vai para 100%. Mas e se Deus nada informa sobre o mundo para esse pobre barbudo? Quando ele vem a existência, se faz a luz e ele observa que sua barba é negra, que probabilidade ele deve atribuir da moeda ter dado cara? Se assumirmos que a classe de referencia no caso são os homens de barba negra, temos que a probabilidade de que um homem observe uma barba negra no mundo onde a moeda deu cara é de 50% e no que ela deu coroa é de 100%. Assim, a observação “A minha barba é negra” faz com que seja duas vezes mais provável que ele esteja no mundo onde a moeda deu coroa do que na que deu cara e conseqüentemente a probabilidade de ter dado cara é de 1/3 e a de que tenha dado coroa 2/3. No entanto, a maioria das pessoas – segundo a sua intuição – diria que é igualmente provável. Para lidar com casos igualmente ou mais complexos do que esse se faz necessário uma formalização axiomática da nossa intuição, faz-se necessário a Self-Sample Assumption, faz-se necessário raciocinar como um membro aleatório da sua classe de referencia.

Alem disso a SSA pretende modelar nossas intuições com respeito ao principio antrópico: o principio antrópico diz que o universo tem de ser tal que ele proporcione à nós observarmos ele da maneira que observamos. Isso implica, dentre outras coisas, que ele tem de permitir vida inteligente como a nossa. A SSA talvez possa ser vista como um caso geral desse principio, que vale universalmente para qualquer observador e qualquer observação. Alem disso ela tem a vantagem de ser mais precisa e facilmente matematizavel.

2.1.2 Efeitos de Seleção Observacionais e Riscos Existenciais

Uma conseqüência particularmente interessante da SSA é de que nunca observaremos eventos que são incompatíveis com a nossa existência. Como conseqüência existe uma vasta gama de fenômenos que são inobserváveis pela sua própria natureza, eles estão vedados pelo o que Bostrom chama de Efeito de Seleção Observacional. Por exemplo, se no nosso experimento mental Deus jogasse um dado de 3 lados de modo que as duas primeiras opções permanecem como a anterior e se desse três ele não criasse nada os homens criados nunca iriam podem estimar corretamente a probabilidade da terceira opção se realizar dado que nunca a observariam. Se dado que você existe em uma sala a probabilidade que o dado tenha dado 3 é 0, então dado que o dado deu 3 a probabilidade de que você observe isso é 0. Temos um fenômeno interessante em que a existência de algo o torna automaticamente inobservável. Se a freqüência de um evento não influencia a nossa probabilidade de observa-lo então isso significa que não podemos aprender com a experiência sobre eles. Estimar a sua probabilidade com base na experiência direta estará sempre fadada ao fracasso pois a probabilidade de experienciarmos tais eventos é constante e igual a zero independente de quão prováveis eles sejam. Um tipo particular desse evento são os eventos de extinção em massa. Existem certos eventos que poderiam aniquilar por completo a raça humana, tais como grandes asteróides, inteligência artificial dando errado, supervulcanismo, etc., tais eventos constituem Riscos Existenciais. Ao estimar a probabilidade de sermos extintos não podemos usar o fato de que nunca fomos extintos como critério. Existem outros métodos indiretos de realizar esse tipo de estimativa como, por exemplo, ver com que freqüência esses eventos ocorrem em outros planetas. Nas seções seguintes contextualizarei melhor os efeitos de seleção observacionais e darei alguns exemplos de Riscos Existenciais em potencial.

Em futuros posts dessa série, abordarei os seguintes tópicos:

2.2 Riscos Catastróficos Globais
2.2.1 Introdução
2.2.2 Dois principais bias
2.2.3 Outros bias
2.2.4 Principais Riscos
2.2.5 Conseqüências

2.3 Transhumanismo
2.3.1 Melhor impossível: A status quos bias
2.3.2 Imperativos Éticos
2.3.3 Human Enhancement Cognitive Engancement Antigos Químicos Outros Uma heurística para modificar a evolução Life-Span Enhancement

2.3.4 Transhuman Enhancement Uploading de Mentes Técnicas Riscos: imediatos e de longo prazo IA Projeções Riscos

Sujeito e Poderes da Palavra Falada e Escrita: Uma Ficção Gravitando Derrida, Dennett e Pinker

Esse texto foi escrito como um trabalho para uma disciplina de filosofia na usp. Ele é enorme (11pgs) mas acho que é interessante. Meu único medo ao publicá-lo aqui é passar a idéia de que eu acho que Derrida deva ser lido. Então quero destacar o seguinte: Não acho absolutamente que nenhum ser humano, jamais, deva ter que ler Derrida. Considero que ler Derrida talvez esteja entre os 15% piores de coisas para fazer com o próprio tempo, e que no máximo o artigo da stanford encyclopedia deva ser lido, caso alguém queira muito ter uma idéia. Dito isso, espero que seja de proveito aos diletantes do blog.

“And working with Derrida has always meant working more or less
closely with the frontier, or the frontiers, of philosophy and literature.”
Geoffrey Bennington

“ If all awareness is a linguistic affair, then we are never going to be
aware of a word on the one hand and a thing-denuded-of-words
on the other and see that the first is adequate to the second.
But the very notions of ‘sign’ and ‘representation’ and ‘language’
convey the notion that we can do something like that”
Richand Rorty

Sentados de frente ao pôr do sol num vale espanhol encontram-se três figuras1 de peculiar semblante capilar. O primeiro, de cabelos excessivamente brancos e nariz que não nega as origens francesas, o segundo, com a barba e cabelos que tranquilamente seriam confundidos com papai-noel por uma criança desatenta, e o terceiro porta cabelos encaracolados até os ombros, tipicamente adolescentes se não fossem grisalhos. Ao som de Vivaldi discutem algumas questões sobre a linguagem.

Derrida: A escritura opera de maneira diferente da palavra falada, cria uma espécie de sujeito intersubjetivo, possibilita o surgimento de uma consciência pura, cuja voz fala de maneira transcultural, e maximalizada na figura do cientista. “ [L]e sens n’y est pas assujetti à la successivité, à l’ordre du temps logique ou à la temporalité irréversible du son.” (Grammatologie p127).

Pinker: Essa noção de consciência pura me parece demasiado vaga. Por exemplo, sabemos que somos conscientes visualmente em geral dos níveis intermediários entre as categorias abstratas (“mesa”,”cão”, “mamãe”) e dos níveis sensoriais de percepção (os riscos e linhas projetados em nossa retina). Estamos conscientes em geral, visualmente, desse nível intermediário no processamento. Já no caso da linguagem, quando falamos estamos em geral conscientes do nível silábico, em oposição aos sons brutos ou as estruturas de significação das palavras.

Derrida: Por “pura” entendo essencialmente aquilo que transpassa culturas e indivíduos, a escritura permite uma comunicação na qual não se pode mais recorrer a intencionalidade do falante para verificar o que de fato se “quis dizer”. Ela cria um novo paradigma de simbolização. Esse novo tipo de sujeito, um sujeito puro, na medida em que não infectado das particularidades de ninguém, ou das indexalidades individuais de um contexto de elocução é uma consequência da escrita, e ele representa, em certa medida, um novo caminho para a metafísica.

Dennett: Posso entender com isso que você está sugerindo que existe uma intencionalidade na escrita pura, desconsiderada de seu escritor.

Derrida: Não uma intencionalidade, existe significação e linguisticidade. Uma pletora de significados se entremeia nessa linguagem, criando um novo espaço onde poderia surgir algo como uma nova episteme, independente de sujeitos particulares, e portanto algo que pode nos auxiliar a minar a metafísica da presença. Alternativamente poderia fazer surgir uma nova metafísica.

Dennett: Em meu The Intentional Stance argumento a favor da idéia de considerarmos quaisquer entidades processadoras de informação suficientemente complexas como agentes intencionais, lembro-me de pelo menos duas coisas em seus textos que eu classificaria assim. O status da escritura e da máquina de escrita que você supõe operar no insconsciente freudiano. Ambas estão reconhecendo padrões e se dirigindo para um ou outro lado, seja através da interminável sequência de signos que constitui a escritura, seja através da constante reelaboração de traços mnésicos (ou o que eu chamaria de alterações médias de reforço sináptico) que opera a linguisticidade do insconsciente.

Derrida: De fato eu entendo que haja ao menos três tipos de linguisticidade habitando o mundo. A linguisticidade que opera na voz, na consciência individual e que está sempre impregnada de differànce, que só pode ver a si mesma através de um espacement. Além disso a linguisticidade do insconsciente que regimenta operações conscientes através de quase-regras que não têm valor semântico ou sintático bem determinado, mas ainda assim operam e modificam as condições de possibilidade daquilo que é de fato falado e vivido pelo falante. Por último a linguisticidade da escritura, que, como antecipei, não vê na intencionalidade do falante seu fundamento, e portanto talvez esteja numa melhor posição para descarregar a metafísica da presença, da consciência, da autonomia…
Não me disporia a dizer que essas duas últimas linguisticidades têm uma intencionalidade, uma maneira última de fixar a referência, então não posso concordar.

Dennett: Como um Quiniano, estaria longe de mim querer fixar regras de determinação da referência ou de tradução ipsis literis entre quaisquer linguagens que sejam, ainda mais de tipos tão distintos. Minha defesa é apenas que não existe nenhuma intencionalidade legitima, ou originária, contra a qual devem ser contrastadas as intencionalidades derivadas. Ou seja, a referência de um termo, seja ele “gavagai” ou “differànce” sempre admitirá enormes quantidades de referências, e não há maneira de distinguir entre elas.

Derrida: Na escritura, você diz.

Dennett: Não, tanto na escritura, quanto no insconsciente, quanto na consciência, quanto num programa de computador. Evidente que existem níveis de imprecisão diferentes em cada um desses sistemas, e que nós somos um sistema muito eficiente de captura de erros de referência. É fácil enganar uma máquina de refrigerante com uma moeda falsa, ou um sapo com uma mosca falsa, é bastante difícil enganar um humano com uma mulher falsa, mas exemplos como o gavagai de Quine e a Twin Earth2 de Putnam demonstram que não é impossível.

Derrida: Então você está sugerindo uma espécie de caminho de desconstrução da noção metafísica de sujeito a partir de uma concepção mais vaga de intencionalidade, negando, assim como eu, que haja intencionalidade determinada na escritura ou no insconciente, mas indo além e declarando que o que quer que a história da filosofia queira dizer com intencionalidades determinadas na consciencia do sujeito, isso também não existe na mesma medida?

Dennett: Exatamente. O meu projeto filosófico, apesar de por caminhos muito diferentes tem também por objetivo desconstruir a noção de sujeito, de consciência, de autonomia, e de autenticidade. Para isso sirvo-me principalmente não de noções abstrusas como differànce, espacement, e etc mas de evolução darwiniana e inteligência artificial.

Pinker: Há algo que não me soa bem naquilo que os parece fazer concordar a respeito do grau de determinação da linguagem falada. Ambos parecem estar falando como se a linguagem fosse somente determinada pelo uso, e que o limite de precisão da referência fosse justamente o limite da capacidade de utilizar um termo e agir de acordo com ele. Mas há razões para crermos que a linguagem é mais fixa do que apenas uma série ordenada de convenções. Essa hipótese de determinação por uso, chamada de radical pragmatics, e sustentada na filosofia famosamente por Wittgenstein, pode ser refutada empiricamente. Como eu pontuo em meu The Stuff of Thought (2007pg115):
“…[T]he more frequent a word is, the more polysemous it is, and vice versa. For example, the comon verb set (which occurs 372 times in every million words) has more than eighty dictionary definitions; the less common verb sever (9 per million) has four, and the rare verb senesce (less than 1 in a million) has just one. This is just what you would expect if words by default are precise in meaning, and accumulate additional senses through separate exposures, but the opposite of what you would expect if words by default are diffuse in meaning, and are sharpened with additional exposures through discrimination training.”

Derrida: Você traz uma questão que é muito cara a mim, a questão da polissemia, ou como eu costumo falar, da disseminação. Uma das perguntas que eu reforço a importância é, porque não a disseminação ao infinito? Porque temos que readmitir sempre na linguagem e na vida a determinação, a especificidade. Isso pode ser apenas mais um reflexo do desejo de divinização da filosofia tradicional. A tentativa de compatibilização entre identidade, autenticidade e a liberdade necessita de uma especificidade para que o eu se veja como idêntico a si mesmo. Mas não existe tal coisa. Mesmo ao olhar para si próprio é necessário um espacement, uma abertura, um ver-se enquanto o outro. E nisso se perde o valor da falsa identidade. A polissemia talvez soe ao filosofo tradicional ou ao estruturalista como um politeísmo, e a cristandade do ocidente não permitiria tal pecado. A disseminação é criminosa em todos os âmbitos nos quais se envolve a filosofia ocidental, do politeísmo a poligamia. Mas a mim parece claro que a disseminação é o próprio fator que determina a possibilidade da linguisticidade. A comunicação que supõe uma tradução sempre possível é um atentado, todo ato de fala já traz consigo o espectro da convenção as regras que regem a linguisticidade do falante à qual se deve submeter o ouvinte. A não compreensão é, nesse sentido, compreensão maior do que a compreensão, já que esta depende de uma violência.

Dennett: Mas o propósito de uma linguagem, como já foi pontuado por Quine, Davidson e eu é justamente o de transmitir informação verdadeira com precisão. Uma linguagem que fosse 55% mentira por exemplo não poderia evoluir, pois seria adaptativo para um indivíduo não entendê-la, e logo todo o grupo, ou espécie, deixaria de ter a capacidade de compreensão de linguagem. É uma propriedade essencial e estrutural de qualquer língua que ela sirva ao menos em maioria para descrever o mundo.

Pinker: Isso desconsidera atos performativos, que são justamente aqueles nos quais me parece que Derrida pontua que ocorre uma violência de tradução.

Dennett: Pelo contrário, um ato performativo depende de um modelo cognitivo (por exemplo virtual) do mundo ao redor bastante específico para que o agente ouvinte possa interpretar corretamente o que deve ou não fazer. A noção de liberdade promulgada por você, senhor Derrida, me parece aí simplesmente uma abstenção de ação. Não impor a traducibilidade entre duas linguagens faladas não é libertar o Homem, mas privá-lo da conquista da comunicação, submetendo-o, ainda mais, as forças da natureza contra as quais a linguagem evoluiu.

O sol se põe no horizonte, e é servida uma garrafa de vinho para amenizar o frio, após um brinde, a conversa é retomada:

Derrida: Falavamos sobre atos performativos, perlocucionários. A mim parece que a distinção entre atos performativos e demais sentenças de uma linguagem falada é uma má distinção. Não há uma clareza de preto no branco aqui, mas uma espécie de degradê, e em última instância a ação de uma sentença se confunde com seu significado. Ao menos em parte é isso que amplia o grau de determinação da palavra falada em comparação a escritura, o grau de disseminação de uma sentença diminui se ela se conecta em contexto a as ações dos indivíduos. Num monólogo interno, não há sentido pois o significante se torna índice e se traduz em ato, não há possibilidade de signo. Em casos menos extremos de elocução, ainda assim a expressão guarda muito da determinação na forma de índice, de refração imediata do significante no mundo. O ato elocucionário está sempre colocado como expressão, e é na expressão que podemos precisar aquilo que a escritura opera de maneira distinta, trans-individual, transcendental.

O garçom se manifesta:

Diego Caleiro: O que me parece mais razoável dizer é que a linguagem nos permite falar sobre objetos do mundo (e fora dele) com um grau de precisão que o sujeito epistemológico não pode fazê-lo. A linguagem é capaz de falar sobre metafísica por exemplo, mesmo que eu não seja capaz de conceber metafísica de maneira coerente. De Merleau Ponty ao linguista Lakoff em seu Philosophy in the Flesh fica claro que nossa mente está incorporada, que somos seres cognoscentes no mundo, e que pensamos principalmente sobre ele. Entretanto, como pontua David Lewis, estamos o tempo todo utilizando sentenças modais como “A Rússia poderia não ter sido o maior país do mundo”, que dependem de toda uma operação metafísica de se supor mundos possíveis, designar a Rússia rigidamente, e deixar a referência de ‘o maior país do mundo’ aberta. Esse tipo de operação é a linguagem que nos permite fazer, e portanto podemos falar de metafísica, sobre isso Lewis pontua (Lewis 1983 p136):
“I can. Some say they can’t. They say their understanding is limited to what can be expressed by modalities and world-restricted quantifiers. I have no help to offer these unfortunates, since it is known that the expressive power of a language that quantifies across worlds outruns that of the sort of language they understand. See, for instance, Allen Hazen, “Expressive Completeness in Modal Language,” Journal of Philosophical Logic 5 (1976): 25-46. His examples of theses inexpressible by modalities and world-restricted quantifiers alone are notable for their seeming intelligibility.”

Entendo o caminho de Derrida mais ou menos dessa maneira, não pensando a escritura como algo nela mesma transcendental, mas como algo que é capaz de representar o transcendental, falar sobre ele, enunciar questões a respeito etc… Existe um sentido no qual se poderia dizer que a escritura é transcendental, o mesmo sentido no qual os estruturalistas diriam que há uma transcendentalidade regendo os mitos. Isto é, algo que determina toda a classe dos mitos sem pertencer a nenhum deles, e que não perpassa a consciência de nenhum indivíduo que crê nos mitos.

Pinker: Mas essa transcendentalidade, essa propriedade de estar num nível mais profundo que o da consciência é justamente aquilo que Chomsky descobriu, que gerou as árvores semânticas, e a respeito do que eu defendo a tese de que seja um instinto em meu livro The Language Instinct. Numa visão de mundo que me parece que todos compartilhamos, que é a da eliminação do sujeito transcendental e de suas propriedades divinas, não é nada mais do que razoável e necessário encontrar um princípio de explicação do porquê a estrutura da linguagem perpassa indivíduos e culturas, e a explicação mais adequada e simples para isso é a existência de um instinto (determinado por uma parte do código genético comum a todos) que orienta essas regras. Não é nada misterioso, espiritual. Essa transcendentalidade só transcende nossa capacidade epistêmica imediata enquanto seres conscientes, mas está muito bem engendrada no mundo físico.

Diego Caleiro: Exatamente por isso não acredito que seja interessante uma interpretação da transcendentalidade da escritura como esse tipo de transcendentalidade, isso não traria nada de novo, conquanto a outra interpretação, de que o elemento diferencial da escritura ao ser intersubjetiva é que ela funciona de maneira epistemicamente diferente e pode falar a respeito de coisas que não temos acesso é muito mais frutífera.

Derrida: Nesse sentido, já coloquei por vezes a questão: Aquilo que me garante a possibilidade do sentido é ao mesmo tempo aquilo que me gera a possibilidade de perdê-lo. Isso porque o sentido transcendental só se pode dar fora do sujeito, no locus trancendental habitado pela escritura (que é intersubjetiva). Por outro lado, se o sentido está lá, na escritura, como posso ter acesso a ele?

Dennett: Isso é simples, você não pode, por problemas como a impossibilidade de interpretação radical, inescrutabilidade da referência e o próprio problema da polissemia (ou disseminação, se quiser) você nunca estará plenamente qualificado para acessar ou interpretar essa informação. O que se faz na escritura fica na escritura.

Diego Caleiro: Ora, mas se assim for, que garantia posso ter eu que esse poder da linguagem que eu não posso acessar está de fato lá? Não é só uma questão de não saber o conteúdo do objeto que estamos discutindo, isto é, o poder transcendental da linguagem escrita, é também uma questão de saber se existe de fato esse poder. Roubando uma metáfora de Russell, não se trata só de saber o sabor do chá que está orbitando marte, mas também, e principalmente de saber se há de fato um chá orbitando marte.

Derrida: O exemplo do bloco mágico de Freud talvez nos seja de serviço aqui. Assim como no bloco mágico, num determinado ângulo e com a correta iluminação eu consigo obter parte da informação acerca daquilo que me é inacessível (e portanto, no nosso discurso atual, transcendental) é possível que simplesmente ao deparar-me com a escritura eu tenha acesso parcial que me dê a garantia da existência desses poderes trancendentais.

Dennett: Alternativamente, podemos simplesmente admitir ignorância e evitar minar a filosofia com noções que dependam desse tipo de trancendentalidade. No exemplo dado, podemos simplesmente admitir que não fazemos idéia de se a Rússia poderia ou não ter sido o maior país do mundo, mesmo que a linguagem pareça indicar que sim. Nós, neo-quinianos, em geral tomamos essa perspectiva de análise.

Diego Caleiro: Uma terceira possibilidade é admitirmos um novo sujeito epistêmico, localizado na própria escritura, e tomarmos ele, e não a nós, como o ponto de partida. A idéia de Derrida sobre o cientísta e a ciência como encarnações dessa intersubjetividade representa bem isso. Podemos conceder que o criador de conhecimento não é um eu cartesiano, um sujeito fenomênico ou qualquer coisa assim, mas sim justamente a própria estrutura regente da linguagem escrita. Quem sabe em outras palavras, deixo de ser apenas eu e passa a ser o meu texto.

Dennett: O problema de fazer isso é mais uma vez o de que senteças como “Prota engelska” podem ser traduzida de infindáveis maneiras caso não saibamos sua origem. Por outro lado como pontuei antes, quanto maior o conjunto de símbolos sintáticos (por exemplo letras) em sequência, maior a quantidade de constrições naquilo que um texto pode representar, um livro não pode ser a respeito de qualquer coisa, mas o nome dos personagens pode ser trocado por exemplo, então a referência de um livro num idioma desconhecido ainda é bem aberta. Quanto maior o texto, mais determinada a referência e mais clara a intencionalidade (no meu sentido fraco) das palavras nele contidas. Uma frase simples no entanto admite infindáveis traduções, possibilidades representacionais, porque estruturas simples mapeiam coisas demais.

Derrida: Me incomoda o que parece ser uma noção de telos na visão de mundo de vocês, como se o texto fosse tão determinado quanto um sujeito, e na medida em que ele se constrói e reconstrói, apenas torna mais perfeita sua capacidade de significar. Como se, no limite o texto fosse se tornar Homem, ou Deus, único e determinado. Essa visão teleo-lógica não é boa como filosofia do sujeito, e eu digo que não é boa como filosofia da linguagem.

Diego Caleiro: E se encararmos o texto apenas como um construendo constante que se determina conforme se amplia, satisfazendo as necessidades computacionais de Dennett, e ao mesmo tempo o texto por conta de mudanças de uso contingencias e contextos também cria polissemias, disseminações conforme se inscreve no mundo. Isso nos orientaria em direção a uma filosofia da linguagem ondulatória, que ao mesmo tempo vê um grau médio de teleologia na linguagem (o suficiente para manter a evolução funcionando) mas permite oscilações de sentido, em particular naqueles aspectos que mais se distanciam da vida cotidiana, como por exemplo a metafísica. O programa de Derrida assim se justifica na medida em que seu objeto é quase sempre um conjunto de construtos metafísicos pertinentes a episteme de uma época, e é justamente nesses terrenos sombrios da linguagem, que não tem valor evolutivo, que mais se pode errar, e onde mais se justifica aplicar a desconstrução. Se a linguagem ondula de uma maneira que parece direcionada a um telos, certamente mesmo em seus momentos de mais precisão e acurácia ela ainda se encontra muito longe. A destruição de noções metafísicas, o jogar um texto contra ele próprio, a procura da differànce são uma metodologia que nos mostra, continuamente, que o território da filosofia é o terrítório onde as ondas não mais estão se aproximando da realidade. Betrand Russell dizia que a ciência é o que sabemos, a filosofia o que não sabemos, e a religião o que inventamos, e via a função do filósofo como transformar filosofia em ciência. É irrelevante para nossos própósitos discutir a diretiva de Russell, mas sua premissa se encaixa de maneira interessante nessa discussão. Se a premissa for verdadeira, a filosofia de Derrida é uma metologia de verificar se algo ainda é filosofia, e não escapou para o domínio da ciência. Onde se desconstrói, se filosofa. Onde não se desconstrói, se “cientiza”.

Derrida: Diego, você diz que não traria algo de novo pensar a transcendentalidade da escritura como a inacessibilidade da consciência as idealidades da linguagem. A consciência pura acessa essas idealidades, e não o sujeito. Ainda que isso tenha sido dito pelos estruturalistas, minha noção é mais fluida, na medida em que encompassa todas as possiveis modificações e significações da linguagem ao mesmo tempo, com sua poesia, disseminação, literatura, filosofia etc… se reconstruindo continuamente sem uma origem. Sem um centro. Nessa medida, ela é diferente da noção proposta pelos estruturalistas. É algo de novo.

Diego Caleiro: Sem dúvida mas ela não está sozinha nisso….

Dennett: Meu amigo Hofstadter por exemplo propõe uma visão muito parecida do Homem em “I Am a Strange Loop”, a noção de um strange loop é justamente uma estrutura fluida, aberta, repleta de auto-referências que não se orienta numa únidade individual e que amplia e reduz aspectos de sí própria. O funcionamento de um Strange Loop me parece muito similar ao que Derrida chama de Linguagem, e também de sua visão anti-metafísica do sujeito…
–Derrida interrompe…

Derrida: “A supposer que la théorie de la cybernétique puisse déloger en elle tous les concepts métaphysiques — et jusqu’à ceux d’âme, de vie, de valeur, de choix, de mémoire — qui servaient naguère à opposer la machine à l’homme, elle devra conserver, jusqu’à ce que son appartenance historico-métaphysique se dénonce aussi, la notion d’écriture, de trace, de gramme ou de graphème.” (Grammatologie p19)

Dennett continua: Eu mesmo escrevi um texto: “The Self as the Center of Narrative Gravity” em que proponho que o Self é uma noção abstrata, como um centro de massa, ao redor do qual se constroem nossas “Intencionalidades” ações, comportamentos, sentenças etc… Um centro de massa não é algo físico, mas existe en tant que entidade abstrata, defendo que um Self seja o mesmo tipo de coisa.

O vinho começa a subir a cabeça….
Derrida: Essas idéias podem ter atravessado o atlântico, mas surgiram aqui, na boa e velha europa, já que escrevi muito antes de vocês.

Dennett: E nos sobrou o trabalho de traduzir, transduzir, e tranformar o seu obscurantismo terrorista em algo que pode ser compreendido, que se adequa a ciência contemporânea, que é compatível com a evolução e a computação, e que por isso mesmo justifica a utilização desse tipo de idéia.

Derrida: Aí você se engana, e começa mais uma vez a cair em noções metafísicas presentes à ciência contemporânea, a próxima geração de desconstrutores se encarregará de chafurdar nisso. Como uma degustação, já antecipo que dentro das filosofias computacionais as noções de símbolo por exemplo estão repletas daquilo que chamo de “contamination”. Hofstadter tem publicado a respeito de o principal aspecto da cognição ser o funcionamento dela como analogia, e por vezes como metáfora, mas, como já disse antes (De la dissémination, Paris, Seuil, 1972, p. 172.)(Marges, Paris, Minuit, 1972, p. 303.): “La métaphoricité est la contamination de la logique, et la logique de la contamination.” “La philosophie, comme théorie de la métaphore, aura d’abord été une métaphore de la théorie.”

Pinker: Nessa batalha semântica intercontinental sintática intencional não haverá hoje vencedor, cantemos então, com Lewis Carroll, uma música que bem representa parte dos problemas que estivemos discutindo:

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

“Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!”
He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought —
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.
And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!
One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.
“And, has thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!’
He chortled in his joy.

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.”

Carroll, Lewis.Through the Looking-Glass and What Alice Found There. 1872
‘Jabberwocky” disponível em:


Acesso em: 06 jun. 2009, 08:46.

Dennett, Daniel. Darwin’s Dangerous Idea: Evolution and the Meanings of Life. Penguin Science 1996
—————. The Self as a Center of Narrative Gravity in F. Kessel, P. Cole and D. Johnson, eds, Self and Consciousness: Multiple Perspectives, Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1992.

Derrida, Jacques. La voix et le phénomène : Introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl (Broché) 3e édition 2003

—————–.L’écriture et la différence (Poche)1979

—————–. De La Grammatologie. Editions de Minuit 1967

Hofstadter, Douglas. 2001 Analogy as the Core of Cognition IN The Analogical Mind: Perspectives from Cognitive Science.
Online version:
———–. I Am a Strange Loop. Basic Books 2007

Kripke, S. Naming and Necessity. Harvard University 1980

Lewis, David Kellog. Attitudes De Dicto and De Se IN Philosophical Papers vol 1. Oxford University Press. 1983

Maniglier, Patrice. Surdétermination et duplicité des signes : de Saussure à Freud.
Online Version:

Pinker, Steven. The Stuff of Thought. Harvard University. 2007

———–. The Language Instinct: How the Mind Creates Language .Perennial Classics. 1994

Putnam, Hilary. The Meaning of Meaning IN Language, Mind, and Knowledge. University of Minnesota press. 1975

Quine. Word and Object. The MIT Press. 1964

Algumas reflexões sobre o problema mente-corpo

O problema mente-corpo questiona como a mente, aparentemente imaterial, se relaciona com o corpo, isto é, como ela depende dele e quais as relações causais entre os dois. Falarei mais especificamente da relação da consciência fenomenal, que compreende as sensações, os qualia, enfim, aquilo que se sente. De que maneira e onde nosso corpo gera estas sensações imateriais? Elas são em algum sentido independentes dele? Poderíamos construir máquinas com estas sensações?

Vou assumir nesta reflexão que o que chamamos de consciência fenomenal não é uma ilusão, isto é, que ela tem algum tipo de realidade objetiva que corresponde ao que percebemos subjetivamente como consciência e que dá significado a frases como “ele é consciente” e “cachorros devem ser conscientes”.

Como mencionei anteriormente, acho que um fato potencialmente muito importante na questão da consciência fenomenal (qualia) é que cada um de nós reconhece tê-la e experenciá-la, e sabe portanto que tem qualia, mostrando que se não é fisicamente necessário, é pelo menos efetivo que em nós seres humanos os qualia estão associados a processos físicos no cérebro.

No meu entendimento isto torna o chamado argumento epifenomenalista pouco plausível. Ele diz que poderia ser que o cérebro de alguma forma gere consciência sem que esta tenha qualquer consequência causal sobre ele, ou seja, o cérebro provoca a consciência, mas a consciência nada faz sobre o cérebro. Ora, se a consciência não atua sobre o cérebro, é extremamente improvável, surpreendente e coincidental que nosso cérebro atue como se fosse capaz de “percebê-la”. Além disso, se nosso reconhecimento e relato de consciência é consequência isolada do cérebro e nada tem a ver de fato com ela, não temos nenhum motivo para crer que temos alguma consciência, e postular que ela exista se torna irrelevante. Assim, enquanto é possível que o cérebro gere consciência sem que isto tenha nenhuma consequência causal necessária sobre ele, esta proposta parece não ter nenhum suporte*.

Suponho então que o processo da consciência tal como ocorre no cérebro humano tem consequências físicas. Assim sendo, se supusermos que o sistema físico do cérebro pode ser simulado computacionalmente com uma razoável precisão, a simulação deverá ter exatamente o mesmo comportamento de um cérebro, inclusive o de reconhecer a própria consciência. Como supomos que este reconhecimento se dava originalmente em função do próprio fenômeno, temos de admitir que a simulação simula também pelo menos os processos físicos provocados pela consciência.

Vamos analisar então estas suposições, cenários possíveis e quais suas consequências sobre o entendimento da natureza da consciência (1=sim 0=não):

É possível simular o cérebro num computador convencional qualquer com exatidão suficiente para reconhecer a própria consciência?
0. É possível simular o cérebro em algum outro sistema físico artificial (por exemplo, num computador quântico ad hoc)?
0.0. Então o funcionamento do cérebro deve depender de alguma propriedade muito especial do cérebro estranhamente irreprodutível em sistemas artificiais (possivelmente fora da física convencional).
0.1. Então o funcionamento do cérebro depende de propridades físicas muito especiais que não talvez não possam ser reproduzidas em sistemas computacionais quaisquer. Porém, são reprodutíveis em alguns sistemas físicos.
Neste caso, a consciência pode ser um processo material (por exemplo algum tipo de reação, partícula ou campo), possivelmente revelando novos princípios físicos, ou hipercomputacional (requer capacidade computacional superior a de uma máquina de Turing). Em qualquer dos casos, poderemos dentro dos seus limites descobrir as relações entre este tal processo ou computação e os estados conscientes no nosso cérebro e contruir máquinas conscientes, embora possa ser bastante difícil e trabalhoso.
1. Os processos físicos relevantes às consequências da consciência são suficientemente simuláveis, mas… estamos simulando juntamente também a própria consciência, além de seus efeitos físicos?
1.0. Epifenomenalismo: Sistemas podem apresentar todas as consequências de se ser consciente porém sem tê-la. De maneira que não temos nenhuma evidência de que exista nenhuma outra consciência além da nossa (se é que podemos confiar na existência da nossa)*.
1.1. O computador da simulação é plenamente consciente e a consciência é portanto uma propriedade funcional dos sistemas físicos. Podemos construir seres conscientes à vontade, bastando que descubramos qual é esta propriedade e como ela se associa ao sistema de reconhecimento de estados conscientes no nosso cérebro.

* Vou admitir uma possibilidade um pouquinho plausível para a consciência que ainda tornaria uma forma de (pseudo)epifenomenalismo plausível: a consciência poderia ser um processo que enquanto no nosso cérebro ela certamente tem consequências causais, elas são muito sutis e dependentes de propriedades muito específicas e delicadas da arquitetura do nosso cérebro (porém ainda presentes na maioria de nós). De maneira que um sistema físico que reproduzisse o cérebro pudesse reproduzir a arquitetura grossa suficiente para o comportamento de reconhecimento da consciência, mas insuficiente para que ela provocasse consequências causais sobre ele. Mas acho que se trata de uma hipótese quase tão implausível quanto a primeira.

Como argumentei, acho o epifenomenalismo implausível, mas creio que infelizmente não temos maneiras de refutá-lo; a pergunta 1 não me parece ser empiricamente testável. A possibilidade de o funcionamento do cérebro depender de alguma propriedade muito especial possivelmente fora do nosso conhecimento físico convencional (por exemplo, a necessidade de uma alma encarnada) também parece possível, embora dificilmente confirmável (mesmo que descobríssemos o fenômeno bizarro, seria necessário um princípio mais fundamental para garantir que ele é necessário para a consciência em todos os sistemas físicos).

Portanto, se não cometi nenhum erro, vemos que se admitirmos que a consciência fenomenal de fato existe, e que não haja uma razão muito misteriosa para não sermos capazes de simular o cérebro, provavelmente seremos capazes de decifrar os princípios que vinculam a consciência fenomenal com seus substratos, e construir máquinas conscientes, provavelmente também possibilitando que futuramente as consciências humanas vivam eternamente na forma de máquinas, como prevê Kurzweil, entre vários outros.

Obs: Meu palpite é que somos completamente simuláveis por computadores convencionais (1.1).

Três comentários sobre filosofia

Cada vez mais tenho percebido uma tendência de ter opiniões injustificáveis frente as atuais posições filosóficas mais correntes, penso que estou ficando cada vez mais excêntrico filosoficamente. Resolvi tratar de algumas posições minhas que considero um pouco polemicas, de uma forma sucinta apenas as descrevendo. Talvez algumas das polemicas necessitem de um contexto de explicação, mas como não queria fazer um texto longo e corrido preferi deixar esse contexto ausente e se necessário explicar qualquer duvida nos comentários.

A profissão filosófica – Em todas as outras áreas, exceto a filosofia, tem-se a opção de não se ser genial. Um medico tem como caminho aberto não fazer nenhuma descoberta de um método cirúrgico revolucionário e só cuidando bem de seus pacientes fazer bem ao mundo e ser útil. Na filosofia a distinção entre competente e genial não existe. Pior, a distinção entre ausência de genialidade e a ausência de préstimo também se esvanece. Não ser genial em filosofia é prejudicial. Por isso aqueles que fazem a opção por essa nobre profissão devem pensar bem antes dessa escolha, se o seu objetivo é fazer bem a humanidade. Hoje em dia o que se deve esperar de um filosofo é justamente que tenha idéias geniais ou é isso ou ele é um completo desperdício de recursos.

Da desrevolução kantiana – Iniciar-se pelas questões epistemológicas em detrimento das ontológicas, em outras palavras apreender a nadar sem nunca entrar na piscina, é uma idéia que, apesar de ridícula ainda podia ser sustentada pelos filósofos no tempo em que o dualismo cartesiano ainda era uma via em aberta. No entanto, um real compromisso com o monismo me leva a crer que não só a idéia é ridícula como é impossível, estamos fadados a chafurdar no lamaçal das questões ontológicas. O que as investidas filosóficas godelianas, denominadas por alguns de pré-kantianas, revelam não é, como querem os filósofos adeptos da filosofia da moda, o quanto é prejudicial quando um lógico se adentra em questões filosóficas. O que elas revelam é o quanto em filosofia, ao contrario da matemática, o zeitgeist demora a reconhecer que esta no caminho errado.

Uma estranha desproporção“Philosophy must be of some use and we must take it seriously. If the chief proposition of philosophy is that is nonsense then we must take this seriously and not pretend, as Wittgenstein does, that is important nonsense (..) What we can’t say we can’t say and we can’t whistle it either” (Ramsey) Entre o quanto boa parte do que era a outrora tarefa filosófica por excelência tem-se revelado impossível e o tanto de desapego que se tem devotado a essas tarefas existe uma radical e prejudicial desproporção. Caso fossem de fato responsáveis o que Wittgenstein e o Circulo de Viena deveriam ter feito frente as suas conclusões sobre a invalidade de boa parte dos problemas filosóficos era ter feito ciência. A filosofia, se existe, é uma reflexão sobre a ciência, talvez uma ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas, e nada mais que isso. Ela não deve ter de modo alguma pretensão de validar essa ciência ou tratar de outros temas, supostamente acessíveis somente a filosofia – esses temas provavelmente, se existem, são inacessíveis de qualquer modo satisfatório. O ar de soberba com o qual muitos filósofos ridicularizam as investidas filosóficas de cientistas e matemáticos deveria, antes de tudo, verificar se ele mesmo não é uma das coisas mais ridículas e injustificáveis dos nossos tempos.

Do problema da separação do conhecimento e da tentativa de unificação

Culpemos a filosofia do sujeito por parte de tal distanciamento que a filosofia sofreu das ciências naturais. Culpemos totalmente? Não sei dizer ao certo. Meu texto “Da unidade a contradição” pareceu indicar um caminho de unificação. No entanto, como disse antes[1], o que ele faz é tomar as ciências naturais enquanto produção humana e assim ao analisar a Física Quântica não foca no aspecto natural, em produzir leis a partir de dados empíricos da natureza, mas sim na produção da produção dessas leis, ou seja, o próprio desenvolvimento da ciência enquanto área do conhecimento. Logo, naquele texto fica fácil para mim tomar partido da dialética. Parece que caberia tomar as ciências humanas enquanto produção natural, afinal natureza é uma categoria mais geral que ser humano. Talvez deveria ser executada a tarefa ingrata de aplicar o princípio cosmológico de que a interpretação do universo deve ser a mesma para qualquer observador em qualquer região do cosmos as ciências humanas? Se tal aplicação fosse ostensivamente realizada implicaria em converter esta em área em ciências naturais, todas as ações humanas e frutos da consciência seriam explicados pela mesma lei que explica o movimento dos planetas e o comportamento das partículas subatômicas. Apesar das previsões de para quando computadores conseguirão executar tarefas de graus semelhantes a de um cérebro humano serem otimistas o que o atual estado do nosso conhecimento aponta sobre uma real e completa descrição detalhada do cérebro é que (1) (a) com base nas leis da física é computacionalmente impossível calcular as coordenadas espaço-temporais de todas as partículas do nosso cérebro usando mecânica quântica, ou mesmo a química se para efeitos práticos simplificarmos o sistema para meramente neuroquímico já que nenhuma das partículas e transformações que a química não abrange esta presente no cérebro. (b) Adicione-se a isso o fato do cérebro interagir com o meio e se não colocarmos limites de interação do meio, o igualando ao universo visível, o computador para calcular tudo teria no mínimo o tamanho do universo visível, o que é uma contradição. Infelizmente temos que constatar que o universo visível já computa a si mesmo de maneira mais eficiente possível. Logo temos que estabelecer um limite bem pequeno e o tamanho do computador para simular o pequeno universo que queremos sempre será maior que esse pequeno universo. Grandes interações sociais estão fora de questão do nosso computador. Um cérebro totalmente isolado em que se controla a entrada e a saída torna as coisas mais fáceis, no entanto (2) mesmo se um dia existir a capacidade computacional para tanto nós estamos longe de ter definida a estrutura cerebral num plano geral, quanto menos neurônio por neurônio, processo químico por processo químico quanto mais partícula por partícula. Isso nos leva a conclusão final de que (3) se o conhecimento humano que temos hoje evoluir muitíssimo a ponto de termos avançado estrondosamente em poder computacional e neste momento já termos compreendido perfeitamente o cérebro neuroquimicamente antes de desaparecer como espécie – sendo que a única esperança possível deste trágico evento é que surja outra espécie mais adaptada derivada da nossa e que, portanto eles possam usar nosso conhecimento sobre nossa neuroquimica – e antes de termos que começar a nos preocupar com o esfriamento do universo, resultante da sua expansão, e de como operar a possível solução de transferir nossas consciências para uma nebulosa[2], pode ser que um dia consigamos descrever algo como um cérebro isolado baseando-se na mesma lei e com a mesma certeza que descrevemos o movimento do elétron ao redor do átomo. Parece, portanto improvável que consigamos englobar as ciências humanas com uma ciência com o grau de certeza das ciências exatas numa escala de tempo e valha a pena pensar sobre o assunto. Assim sendo, consideraremos a seguir o entendimento do cérebro por uma ciência não tão exata, a biologia. O estudo biológico do cérebro é o conhecimento em atual atividade, mas ainda estamos longe de produzir um modelo que entenda o cérebro biologicamente como entendemos um paramécio biologicamente. Parece-me que entendemos satisfatoriamente um paramécio, de maneira que se o colocarmos em um meio isolado e inserir impulsos controlados consigamos prever como ele ira reagir, e.g.: ele irá se locomover com seus cílios em direção a outro protozoário, ele ira se reproduzir assexuadamente. Mesmo que tal descrição do cérebro e da consciência seja efetivada pela biologia não conseguirmos prever o que um paramécio faz num ambiente complexo, logo pode não ser possível prever o comportamento de um ser humano em grupo, especialmente em grandes grupos interligados como é a nossa sociedade atualmente. Assim concluímos que com grau de certeza desejável é impossível prever grandes sociedades, mas é possível talvez entender a consciência. Com o mesmo método cientifico das ciências naturais há tentativas com grau satisfatório de sucesso empírico tais como em Dennett. Se for separado o conhecimento como na visão de Russell, Dennett estaria na fronteira entre filosofia e ciências cognitivas, produzindo ele mesmo essas ciências. Entretanto ao criar o mind stuff ele não consegue escapar em certo sentido a filosofia do sujeito.

A partir das considerações feitas até agora acredito que cabe separar o conhecimento como se segue:

Não ficou claro no desenho, mas a aresta da Física está se aprofundando, “furando” a pagina, enquanto que a da Moral está no mesmo plano que a da pagina. Sejam as coordenadas cartesianas[3] pode-se dizer que esta figura se encontra no quadrante onde todos os eixos são positivos e: z: produção de conhecimento e universalidade, x: ausência de caráter humano e y: certeza. Nessa figura as áreas de conhecimento aplicado se encontram mais perto da base e distante da área de produção de conhecimento. Uma conseqüência de organizar o conhecimento dessa forma é que ocorre uma perda de certeza da física quando ela se encaminha para a universalidade. Existem vários exemplos em que a física perde simplicidade metodológica e certeza para ganhar universalidade e são justamente nesses exemplos que ela avança e produz conhecimento real.[4] Outra conseqüência é que a estética ganha certeza no seu caminho para a universalidade, isso pode ser expresso na redução da experiência estética a uma lógica interna da experiência artística, operada por Adorno[5]. A moral, por sua vez, no caminho para a universalidade perde o caráter exclusivamente humano e começa a ter um caráter sujeito as leis naturais e biológicas como ocorre na psicologia evolutiva e em Nietzsche. Acredito que outros aspectos dessa pirâmide são facilmente comprováveis, mas pretendo explorá-los mais tarde em outro texto. Outro aspecto da pirâmide é que ainda não podemos dizer que existe um vértice, pois não existe uma única categoria unificadora. Podemos afirmar, no entanto, que a filosofia se encontra na região onde deveria estar o vértice, pois apenas ela lida satisfatoriamente com as 3 áreas restantes. Dizer que a síntese é o vértice da pirâmide se assemelha em tudo a falha que Nietzsche aponta em Kant: responder a pergunta simplesmente dizendo esta de maneira afirmativa. Fujamos desse erro, mas para onde? As vezes penso em abandonar o projeto unificador e abrir mão da unicidade da verdade, mas rapidamente percebo que isso é uma alucinação conceitual, verdades são únicas por definição. Só que no processo dialético de busca da verdade elas se negam e vão sendo falseadas e substituídas por verdades com maior grau de falsiabilidade. Essa busca pode parecer inútil, mas me lembro de um momento em que Stephen Hawking se pergunta porque ir tão alem no entendimento da física teórica e responde que ir alem no entendimento é uma atividade que move a nós como espécie desde milhares de anos atrás e tem dado certo até hoje, logo parece útil. Mas será que como descreve Nietzsche no seu texto “O Pathos da verdade” somos esse povo que inventou o conhecimento e ira logo desaparecer?[6]. Seja U o universo e u a teoria que da conta desse universo[7]. Todas as teorias cientificas até hoje tratam de um subconjunto desse universo e elas crescem por expansão, e.g.: a mecânica newtoniana da conta de um pequeno subconjunto N que são os fenômenos macroscópicos e não relativísticos, a mecânica quântica abarca esse subconjunto e ainda da conta dos fenômenos microscópicos. A relatividade abarca N mais os fenômenos relativísticos. As direções em que esses subconjuntos se expandem não são aleatórias, mas sim determinadas pelos anseios e desejos dos cientistas e da humanidade na época da criação da teoria. Se definirmos a verdade como a teoria x que da conta do maior subconjunto X de U pode-se dizer que a verdade tem caráter histórico. No referido texto, e em outros, Nietzsche ridiculariza o conhecimento humano por ser apenas uma interpretação de um ponto de vista ínfimo do universo determinado pelas necessidades mais mesquinhas do homem. De fato assim talvez o seja, mas isso não invalidada, como quer o filosofo, o conhecimento ou a busca pela verdade, pois (1) seja a expansão do subconjunto determinada pelas necessidades mesquinhas do homem ou não ela será sempre uma expansão sobre U onde os enunciados têm sempre um grau de verdade, (2) proceder desta maneira em busca da verdade é um dos sucessos evolutivos da raça humana e logo devemos continuar a proceder assim e por fim (3) Nietzsche errou a quanto iríamos viver na Terra e a nossa importância, a importância do surgimento de novas unidades replicadoras e como isso ira afetar mesmo outras espécies que virão.

Aforismo final:

Da defesa da totalidade – Há ainda uma crença em parte da filosofia que tal unificação entre as ciências humanas e as naturais seria uma pretensão vã relegada a tendências do século XIX. Com quanto tom de bravata e chacota a filosofia continental do século XX bradou contra as tendências totalizadoras hegelianas. Mesmo Adorno, com todo seu respeito a Hegel e uma tentativa de desenvolvê-lo sob ele mesmo, tal qual um urubu não cessava de agourar “O particular! O particular!”. De outro galho gralhavam também parte da filosofia francesa, todos em coro. Claro que eventualmente alguns também davam seus vôos, uns fugindo da carcaça da quimera hegeliana e outros indo a sua direção para lhe petiscar a carne. Existem ainda os anglo-saxões, que estavam isolados na ilhota, longe da besta hegeliana, esses quando muito se contentavam de de vez em quando visitar o continente e dar uma boa cagada em cima da quimera! Cagada essa executada por Russell com maestria no seu Historia da Filosofia Ocidental só comparável em fanfarrice filosófica ao modo como Hegel pretende invalidar a matemática no prefacio de sua Fenomenologia. Mas afinal que tenho eu com essas fanfarrices de aves europeias? – eu, uma bela e esbelta ave tropical! O pensamento não vai se recuperar do seu trauma com a ruína das totalidades simplesmente abandonando a pretensão ao todo. Como já bem diria Hegel e bem sabia Adorno “O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento”. Hegel, como afirmava Adorno, não quis dar igualdade de direitos entre o particular e o universal, mas se não fosse meramente por esta questão moral, diria sem titubear “Toda totalidade é falsa”. No entanto a superação da totalidade deve ser empírica e não conceitual. Penso as vezes como toda a macaquice dialética adorniana não pode ser reduzida a um grande marabalismo hegeliano, Adorno de alguma forma esperava tirar ainda algo de engraçado dessa atividade de bobo da corte, atividade essa que deve ser respeitada afinal durante boa parte da historia da humanidade todos nós assistimos extasiados essa atividade artística de prima categoria e difícil de se apreender – muito esmero é necessário nessa arte, um esmero que talvez nós só esperaríamos de algum que é ingenuo o suficiente para propor um saudosismo do artesanato- , expedrando que de alguma forma uma dessas bolas nos cairia no colo com a marca ‘dado empirico’. Russell não passava de um marabalista desajeitado, ao qual poucos apreenderam a rir e por isso a filosofia continental pouco lhe deu respeito. Mas deixemos nós também de brincadeiras, afinal essa crença do abandono da totalidade é na verdade mais uma desculpa para que se oculte o grande erro fatal de quase toda filosofia continental do século passado: a total ignorância das ciências naturais – quando Deleuze ou Lacan tentaram se aproximar delas foram motivo de piada por Sokal. Eu, portanto, não compartilho dessa crença.

[1] “Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais.”

[5] “As obras de arte são copias do vivente empírico, na medida em que a este fornecem o que lhes é recusado no exterior e assim libertam daquilo para que as orienta a experiência externa coisificante” (Adorno, Teoria Estética) ou “A exterioridade em sua imediatez não tem valor para nós, mas admitimos que por trás dela haja algo de interior, um significado, por meio do qual a aparição exterior é espiritualizada. A exterioridade aponta para o que é sua alma. E isso porque um fenômeno que significa algo não se representa a si mesmo e o que é na sua exterioridade, mas representa outra coisa.” (Hegel, Cursos de Estética). Em termos mais simples pode-se dizer que para essa tradição a logica interna da obra é ser feita a partir da realidade empírica imediata, mas remeter para uma outra realidade fantasiada e por isso – acrescentaria Adorno – tem um caráter emancipatório pois abre as possibilidades do que pode vir a ser o real para o individuo

[6] “Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento.” (O Pathos da verdade In: Cinco Prefácios para livros não escritos)

[7] Sobre isso ver ultimo parágrafo de e discussão subseqüente.