Todos os posts de João Lourenço

We need you!

We need you!

No fim do ano passado me lembro de ter assistido a propaganda do Singularity Summit 2009 e ela ter me passado um sentimento de “Transhumanists of the World, rise!”. Claro que na verdade a conferencia foi sobre singularidade, que é apenas uma subtopico do transhumanismo. Visitando o site da associação mundial transhumanista (agora Humanity Plus) é possível constatar que não existem muitos transhumanistas por ai, pelo o que me lembro a contagem estava em torno de 5.000. Que de fato praticam e escrevem a respeito, com certeza existem talvez menos que centenas. Mas esses poucos tem feito barulho recentemente! Surpreendentemente no Brasil também. Nos meses passados tem aparecido um crescente numero de reportagens de capa a respeito:

Capa da Superinteressante de Novembro de 2009: A pílula da inteligência

Capa da Scientific American edição 90, de Novembro de 2009: A pílula da inteligência

Capa da Superinteressante de Janeiro de 2010: Imortalidade

Capa da Filosofia edição 43, de Fevereiro de 2010:  Transhumanismo

Entrevista com Nick Bostrom, Revista Filosofia No. 48

Matéria sobre o Paradoxo de Fermi e o Futuro da Humanidade, Revista Filosofia No. 47

Nos paises desenvolvidos a exposição na mídia de temas tranhumanistas é ainda maior. Só o fundador da associação transhumanista, Nick Bostrom, já participou de quase 400 entrevistas para revistas como a Times e canais como a CNN. Se com tão poucos transhumanistas ativos já temos feito tanto barulho imagino quando aqueles outros milhares começarem também a se envolver.

O fato é que querendo ou não, você racionalista e amigo da tecnologia terá um papel fundamental no futuro próximo. Cada vez mais esses temas estão sendo divulgados e cada vez mais eles irão parar na discussão da mesa de jantar da pequena elite intelectual que controla a opinião das massas. Por isso não se sinta surpreso de se encontrar cada vez mais freqüentemente na posição de defensor das “loucuras” tecnológicas e acima de tudo nunca tema se colocar ativamente nesse papel. São aqueles que se dispuserem a energicamente causar uma mudança de opinião que serão os primeiros e principais responsáveis pela implementação dos avanços tecnológicos.

Alem dessas situações domesticas também não se acanhe em participar nos meios públicos de divulgação da informação como blogs, sites, revistas, emissoras de TV e rádio. Você tem uma responsabilidade e um papel fundamental no futuro das pessoas com quem você se importa e no futuro da humanidade como um todo, exerça essa responsabilidade.

Dois bias que podem acabar com a humanidade

Um bias cognitivo é uma tendência inerente que temos, ao pensarmos ou analisarmos certas situações,  de cometer desvios sistematicos da racionalidade. Existem dois bias não listados em nenhum livro sobre bias cognitivos que considero como os principais no que concerne a avaliação de potencias riscos catastroficos à raça humana.

Bias Observacional

Tratei de modo mais axiomático deste bias em outro post. Aqui tentarei expor ele de maneira mais concreta. Imagine um jogo de computador baseado na evolução com pequenas entidades auto replicadoras que geram algoritmos comportamentais nessas peculiares entidades e um ambiente virtual. A simulação reinicia periodicamente a cada T segundos e as populações são extintas sem deixar rastros. O evento só ocorre caso as entidades não tenham desenvolvido um conjunto muito especifico de algoritmos. O leitor poderia imaginar que essas nossas entidades teriam uma tendência a evoluir este certo algoritmo, pois de outro modo seriam extintas. Mas esta impressão está errada pois durante toda a historia de uma dessas populações de entidades virtuais muito provavelmente não há qualquer razão especifica para que esta população tenha desenvovido este algoritmo e caso, sem aviso, o programa se reinicie a população vive caso possua o algoritmo e é completamente devastada caso contrario: não há a chance de que as entidades que sofreram o holocausto passem as gerações futuras a informação de quem um cataclismo acontecerá e que só aquelas populações com o algoritmo sobreviverão; não há a chance de nossas pobres entidades aprenderem evolutivamente deste horrendo acontecimento pois cada vez que ele acontece o jogo é reiniciado do zero. Apesar de estar sob o risco de extinção essas ingênuas populações nunca ficam sabendo deste fato simplesmente porque as que sabem morrem e as que não são extintas por possuírem o algoritmo não estão sob este risco para se informarem dele. Se há uma pressão evolutiva agindo seria uma seleção por ignorância. Alem disso se assumirmos um crescimento populacional maior que zero, se você é uma dessas entidades, a maior probabilidade é que esteja mais próximo do tempo T de extinção do que mais longe. Isto é uma conclusão facilmente obtida a partir da SSA, se você um uma entidade aleatória que não sabe quando será extinta, mas sabe que a maioria das entidades esta mais próxima do fim do que do começo então você deve assumir que está mais próxima de ser extinta do que não. Uma população de entidades rudimentares, em seus começos, pode ter um futuro vasto a sua frente. Enquanto que uma população já extremamente evoluída e adaptada ao ambiente provavelmente esta no seu fim. É fácil constatar que nós partilhamos da mesma ignorância destas ingênuas e ledas entidades. Nós só estamos vivos, pois não fomos extintos, logo não podemos usar esse dado para calcular nossa probabilidade de extinção. O dado de ha quanto tempo não fomos extintos muito menos, pois o que se da é o inverso, quanto mais tempo permanecemos vivos maior a probabilidade de sermos extintos no instante seguinte. Temos, portanto de usar outros meios indiretos.

Bias da Intencionalidade

Durante a imensa maioria da historia da humanidade os eventos naturais eram em sua maior parte inevitáveis e matavam muitas menos pessoas do que os eventos humanos evitáveis. Naturalmente que aqueles que sabiam evitar a sua própria morte através de outro ser humano sobreviviam em oposição aos que não conseguiam e aqueles que desnecessariamente despreendiam energia em evitar eventos inevitáveis – mantendo o resto constante – tenderiam a não sobreviver frente a grande escassez energética. Esta situação criou um bias – até pouco tempo vantajoso – de se preocupar muito mais com perigos intencionais do que não intencionais. Esse é talvez o principal bias a desviar a atenção da humanidade para os principais eventos catastróficos. Só muito recentemente tem-se dado conta de um destes muitos perigos: o aquecimento global, – talvez as custas de identificar paises ou industrias como as culpadas – enquanto os outros inúmeros males permanecem na penumbra.

The most important problems and what to do

by Jonatas

The most important problems of the universe: (1) suffering; (2) lack of intelligence; (3) new imperfect life being created unintentionally in unreachable (due to the speed of light) places; (4) the end of the universe (by heat death or something else). Other relatively minor problems can be fixed with time by fixing problem 2. Problems 3 and 4 seem to be impossible to completely fix, although maybe problem 3 could be diminished by a type of class action by all intelligent beings in the universe to replace imperfect life in their nearby planets, and problem 4 could be delayed by slowing the subjective passage of time in conscious beings (by accelerating their rate of functioning, this could be done to extreme levels in artificial beings, effectively multiplying by many times the remaining time in the universe). Mortality is not really a major problem (see Daniel Kolak’s open identity theory, and http://en.wikipedia.org/wiki/Daniel_Kolak).

What we should focus the most on doing now: (A) making the population sympathetic to and willing to work for transhumanism (this includes trying to diminish opponent forces, such as religion, and in general trying to propagate the whole mindset that leads one to accept transhumanism), which has the potential to solve problems 1 and 2 for us – and fixing problem 2 will fix many other minor issues with time (such as lack of knowledge; mortality; creation of virtual paradises; etc.); (B) preventing global catastrophic risks (the most important of which seems to be bio- or nanotechnological terrorism, which is not something that exists now), something that we have little to do about now, except trying to convince legislators and politicians of the risk, without making them averse to goal A.

About the relationship between goals A and B: avoiding goal A will do little to help B. In fact, putting too many security restrictions on goal A has the potential to make less ethics-conscious individuals advance the technology first. Instead, the technology should be advanced as fast as possible, with some restrictions, and there should be created a global power with strict international surveillance for bio- or nanotechnological terrorism.

About artificial intelligence: it is not per se going to solve problems 1 and 2 for us, unless it acquires consciousness and replaces us completely (but I don’t see that happening in the near future). As long as there is still lack of intelligence in people, bad political decisions and all stupidity related problems would continue to exist, and the same with suffering. Artificial intelligence, if properly planned, should not be considered a relevant global catastrophic risk, because it can be easily contained (inside reality simulations, or through many limitations, such as physical, in terms of knowledge, of accessibility, etc.) and because if it is very intelligent it should not have unproductive behavior.

Once we can fix problems 1 and 2 for us with transhumanism, we can explore all planets nearby, and if we find forms of life that still have problems 1 and 2, we can either solve these problems for them (giving additionally knowledge, immortality, virtual paradises, etc.) or replace them. Advanced aliens should be expected to do the same.

What impedes people to solve these problems or to see the need to solve them? (Z) Thinking that education will solve problem 2; (Y) Thinking that problem 2 doesn’t need to be solved because we are so intelligent already; (X) Thinking that suffering is somehow necessary and shouldn’t be avoided; (W) Thinking that it is against their God’s rules to fix these problems. The absurdity of these (Z, Y, X, W) should be already evident to who is reading this, so there’s no need to explain it.

A filosofia de Nick Bostrom, Parte 1

Esse Post é o primeiro membro de uma serie de varios posts sobre a filosofia de Nick Bostrom. O objetivo dessa serie de posts é introduzir o leitor ao pensamento de Bostrom e a tópicos importantes do transhumanismo. Neste primeiro momento irei introduzir as motivações subjetivas bem como os princípios teóricos básicos sob os quais se fundam a filosofia deste pensador. Ele esta assim organizado:

1. O Bostrom
1.1 Formação
1.2 Preocupações
2. A Filosofia de Nick Bostrom
2.1 Bases
2.1.1 Tentando saber mais que deus, conhecimento indexical e a SSA
2.1.2 Efeitos de Seleção Observacionais e Riscos Existenciais

1. O Bostrom

1.1 Formação

Graduação em Filosofia, Matemática e Ciências da Computação na Suécia, onde estabeleceu um novo record de desempenho. Trabalhou como stand-up comedian por algum tempo para depois fazer um mestrado em Economia, outro em Neurociência e outro em Filosofia. Em seguida realizou seu doutorado em Filosofia, tese que entrou para o Hall de melhores dissertações do ano cujo tema era uma formalização do principio antrópico: A Self Sample Assumption. Tem atualmente, 37 anos e é diretor do Instituto Para o Futuro da Humanidade desde os 33 anos. Já arrecadou mais de 13 milhões de dólares em verba através de bolsas para pesquisa, prêmios e doações.

1.2 Preocupações

Talvez o melhor modo de entender a sua filosofia seja começando por entender que tipo de preocupações parecem habitar a mente deste pensador. Como todos nós Bostrom é um macaco das savanas num mundo moderno que não é o dele. Mas para ele a sua savana é o universo e a sua tribo a humanidade, sem duvida é um macaco um tanto quanto estranho. No entanto, para a esmagadora maioria da humanidade a savana é algo menor que um bairro e a humanidade algo entre 20-1000 pessoas. Este ultimo fato é talvez a maior fonte de preocupações para o Bostrom. Porque estamos fora do ambiente no qual evoluímos não sabemos lidar com nosso novo ambiente. Claro que existem inúmeras coisas que se mantiveram constantes como as leis da física, fatos sociais básicos e nossas emoções em geral. No entanto a pequena parcela que mudou pode ser crucial para determinar nosso sucesso futuro como espécie. Inicialmente temos novos desafios no campo do conhecimento que são extremamente difíceis de superar dado a nossa maquina cognitiva, tais como entender mecânica quântica, neuroquímica ou o problema da consciência. Para alem disso temos desafios no mundo exterior que podem se tornar importantes pressões evolutivas, tais como entender os riscos e potenciais da tecnologia – o que inclui desde inteligência artificial até farmacologia – ou entender e lidar com os novos riscos naturais eminentes tais como choque com grandes asteróides e aquecimento global. Passamos 90% do nosso passado evolutivo tendo que fugir de leões na savana, caçar mamutes, achar parceiros e formar alianças em grupos de até 100 pessoas. Nada disso exigia pensamento preditivo que extrapolasse uma ou duas décadas, menos ainda algo que extrapole a duração vida media de um homem primitivo – 40 anos. Nada disso exigia que entendêssemos o comportamento de possíveis futuras inteligências artificiais ou que lutássemos inutilmente contra catástrofes naturais transvertidas de poderosas divindades. Não nos era exigido que tivéssemos uma memória de trabalho muito maior que três ou quatro espaços para que processássemos informações a respeito do ambiente e de quem fez o quem com quem em pequenas tribos. Nossa navegação espacial foi moldada para conseguir acertar uma lança na caça que foge em velocidade e, no entanto, audasiosamente a usamos para enviar naves tripuladas ao espaço. Surpreendentemente não temos saído muito mal desse empreendimento pretensioso chamado civilização moderna, no entanto modificamos nosso ambiente cada vez mais rápido e como resultado ele se distancia velozmente das antigas savanas. Nosso cérebro talvez esteja próximo de não ser mais adaptado o suficiente para o ambiente que ele próprio criou. Para que a sobrevivência da humanidade e do que ela valoriza ser possível é necessário transcender o invólucro que era só a semente, é necessário o transhumanismo. O primeiro fato inelutável sobre essas modificações é a sua ineroxabilidade: a tecnologia veio e vem crescendo exponencialmente e estimativas conservadoras calculam que por 2050 nosso modo de vida terá mudado tão radicalmente a ponto de se tornar irreconhecível. Se fizermos essas modificações da maneira certa aquilo que valorizamos não será destruído e seremos de fato transhumanos – mais humanos – e a vida se tornará mais próxima da perfeição. Se fizermos a coisa errada e nada do que consideramos humano esteja lá daqui a 40 anos, então a humanidade terá se extinguido. Se, além disso, não restar mais vida inteligente então a galáxia sofrera uma grande perda, uma vez que somos a única vida inteligente de que temos noticia. Pense em duas historias para nossa galáxia, e talvez para o universo: a matéria começa a se condensar pela força da grávidade, estrelas surgem, aglomerados cada vez maiores, estrelas morrem e nascem e surgem os planetas, em algum deles surge a vida e através de milhões e milhões de anos ela evolui até que surge uma espécie que se espalha pela galáxia, a enchendo de vida e significado, bilhões e bilhões de seres conscientes com os mais diversos e complexos estados mentais. Na outra historia essa espécie é destruída e a galáxia permanece para sempre fria, gélida, silenciosa e inabitada. A colonização da galáxia, entes super inteligentes, uma consciência e um entendimento muito mais profundos do universo e um bem estar e uma felicidade muito maior podem estar nos aguardando nos próximos séculos, bem como pode estar nos aguardado a total destruição, e qual porta nós iremos abrir depende das nossas ações agora. Ou a raça humana vai transcender a sua insignificância cósmica e a sua chama vai brilhar pelo universo e a galáxia será adornada com os ramos, as flores e os frutos do que agora é somente semente ou nós seremos completamente eliminados da face da terra e toda a nossa existência será vã. Existem diversos jeitos de nos modificarmos para enfrentar melhor esses desafios e fazer a coisa certa. Inicialmente podemos memeticamente tentar modificar nosso aparelho cognitivo, aprendendo sobre nossos bias cognitivos – tendência a sistematicamente desviar do pensamento racional  – e de como evitá-los. Alem disso podemos quimicamente aumentar nossa capacidade cognitiva com o uso de nootrópicos tais como modafinil e aricept. O mais importante, no entanto, é dar atenção aos nossos futuros desafios e pensar seriamente as questões que podem fazer o diferencial entre uma galáxia pulsante de vida e uma inabitada. Para abordar essas difíceis e relevantes questões Bostrom fundou o movimento conhecido como transhumanismo: um movimento intelectual e cultural que se funda da crença de que devemos usar a ciência e a tecnologia para alterar a vida humana para melhor. Nessa seção tentei dar uma visão do que subjetivamente move esse filosofo a pensar o que pensa. A seguir analisaremos os aspectos teóricos que são as pedras fundamentais sob a qual ele constrói sua filosofia.

2. A Filosofia de Nick Bostrom

2.1 Bases

2.1.1 Tentando saber mais que Deus, conhecimento indexical e a SSA.

O instrumental teórico de Bostrom gravita em torno de um único conceito: A Self-Sample Assumption (SSA). Em termos precisos a SSA consiste em assumir que você é uma amostra aleatória da sua classe de referencia, sendo a classe de referencia o grupo de entidades que se assemelham a você em aspectos relevantes. Por exemplo, imaginemos o seguinte experimento mental: o mundo consiste de 100 calabouços habitados, cada um deles, por um único ser humano. 10 são pintados de branco e 90 de vermelho. Você acorda num calabouço escuro, qual probabilidade você irá atribuir para que o seu calabouço seja branco? Naturalmente será 10%. Esse raciocínio intuitivo pode ser formalizado se você considerar que sua classe de referencia for a dos humanos e que ela tem tamanho 100 e que destes 100, 10 estão numa sala branca e 90 em uma vermelha, assim segue naturalmente que se você é um humano e não sabe a cor da sua sala, a probabilidade de que a sua sala seja branca é de 10 em 100, ou seja, 10%. A SSA tem a forma do condicional bayesiano P(Eu sou tal que … | O Mundo é tal que…) – no exemplo anterior: P(Eu estou na sala branca | Existem 100 salas habitadas no mundo, 10 brancas e 90 vermelhas). Este resumo simplista revela algo de fundamental ao pensamento bostroniano. Aquele que já olhou uma noite estrelada num céu despoluído e divagou sobre o universo, as estrelas e a sua formação, planetas com vida e nosso papel no cosmos teve talvez um instante do estado de consciência que constantemente permeia os escritos deste filosofo sueco. A SSA parte de uma observação do estado do mundo (“O mundo é tal que…”) para uma reflexão sobre a nossa posição nele (“Eu sou tal que..”). Uma das pedras fundantes deste conceito foi colocada por David Lewis em 1979 em seu artigo “Attitudes De Dicto and De Se”, neste artigo Lewis abordava uma limitação dos dois tipos de ocorrências em enunciados que eram canônicos na época: as ocorrências de re e as de dicto. As ocorrências de re – da coisa – dizem respeito a coisa no mundo e fixam a referencia, ocorrências de dicto – do dito – dizem respeito ao que quer que seja que a intensão do nome pegue no mundo. Por exemplo, quando digo: ‘O Diego poderia ser o rei da Dinamarca”‘ , se tomo ‘Diego’ como de dicto então isso significa que seja lá ao que o nome Diego se refira caso o mundo pudesse ser diferente, essa coisa no mundo poderia ser o rei da Dinamarca. Se tomo ‘Diego’ como de re então me refiro a um Diego especifico no mundo, que não é o rei da Dinamarca. No primeiro caso a sentença é verdadeira e no segundo falsa. Na época se acreditava que qualquer fato poderia ser expresso apenas com esses dois tipos de modo de se referir a algo. No entanto, Lewis mostrou no artigo que existiam fatos que caiam fora do alcance deste tipo de referencia: os fatos indexicais. Por exemplo, seja a descrição completa do estado microfisico deste ambiente, existe um tipo de conhecimento que é sempre inalcançado por esse tipo de descrição: os famigerados conhecimentos indexicais. O conhecimento de que você é você, e eu sou eu. Chalmers afirma jocosamente que nem Deus tem conhecimento sobre os fatos indexicais e é esse tipo de conhecimento que o Bostrom tenta focar com a SSA. As ocorrências de se seriam, portanto, todas as ocorrências que fazem referencia a pessoa que tem o conhecimento ou enuncia a sentença. “Eu sou narigudo” é um conhecimento que algumas pessoas podem ter e outras não. Por mais que alguém não narigudo olhe para o Diego e saiba “O Diego é narigudo” isso não é o mesmo tipo de conhecimento que só o Diego (e as pessoas narigudas) podem ter: “Eu sou narigudo”.
Esse tipo de conhecimento de se não é mera especulação filosófica, em inúmeros ramos da ciência e do nosso pensamento intuitivo usamos freqüentemente conhecimentos indexicais. Um exemplo apontado por Bostrom desse uso é na cosmologia. Se, como diz o modelo cosmologico mais aceito, o universo é infinito e contem processos aleatórios como radiação emitida por buracos negros então qualquer observação de qualquer evento será feita com probabilidade um. Uma vez que existem infinitos processos aleatórios e existe uma probabilidade finita de gerar observadores nesses processos que sofrem uma alucinação, qualquer observação possível sempre será feita, mesmo que por um observador que é um cérebro que acaba de ser ejetado de um buraco negro. No entanto queremos usar o fato de que observamos o universo tal como ele como evidencia para uma teoria que prevê que ele é deste modo que o vemos. Para realizar isso temos que levar em consideração a informação indexical de que nós observamos o universo dessa maneira. Esse fato indexical, ao contrario do simples dado empírico observacional, tem o poder de alterar a probabilidade de que uma dada teoria seja verdadeira. Por exemplo, Bostrom fala de duas teorias cosmológicas: uma prevê que a radiação de fundo é 3K e a outra que é 7K. Observamos que a radiação de fundo é 3K e queremos usar isso como evidencia em favor da primeira teoria. O simples fato de que observamos uma radiação de fundo não falseia nenhuma das teorias, pois em ambas o universo é infinito e a observação de uma radiação de 3K é sempre feita em algum lugar com probabilidade 1, a diferença é que na primeira teoria ela é feita muito mais freqüentemente do que na segunda. Assim se considerarmos o fato de que nós fizermos essa observação isso diz algo é favor da primeira teoria, pois nela essa observação é muito mais provável que na segunda. Para realizar essa inferência temos que primeiro nos considerar como membros da uma classe de referencia de observadores do cosmos e em seguida estimar a probabilidade de que o cosmos seja de um jeito ou de outro analisando como o fato de observarmos ele de um jeito afeta a probabilidade de que essa observação seja feita com maior ou menor freqüência. Alem disso Bostrom expõe inúmeros outros experimentos mentais alem do já citado nos quais isso se faz necessário, dentre eles temos o seguinte:

O mundo consiste de Deus e uma moeda justa. Deus joga a moeda e se der cara ele irá criar duas salas: em uma colocara um homem de barba negra e em outra de barba branca; se der coroa ele irá criar apenas uma sala com um homem de barba negra. Quando um homem vem a existência e não sabe a cor da sua barba, qual a probabilidade ele deve atribuir para que ela seja negra se ele é informado por Deus que a moeda deu cara. Nesse caso a classe de referencia desse homem são os habitantes do mundo: um homem de barba negra e um de barba branca e ele deve atribuir uma probabilidade de 50% para que sua barba seja negra. Se, no entanto ele for informado que a moeda deu coroa, sua probabilidade vai para 100%. Mas e se Deus nada informa sobre o mundo para esse pobre barbudo? Quando ele vem a existência, se faz a luz e ele observa que sua barba é negra, que probabilidade ele deve atribuir da moeda ter dado cara? Se assumirmos que a classe de referencia no caso são os homens de barba negra, temos que a probabilidade de que um homem observe uma barba negra no mundo onde a moeda deu cara é de 50% e no que ela deu coroa é de 100%. Assim, a observação “A minha barba é negra” faz com que seja duas vezes mais provável que ele esteja no mundo onde a moeda deu coroa do que na que deu cara e conseqüentemente a probabilidade de ter dado cara é de 1/3 e a de que tenha dado coroa 2/3. No entanto, a maioria das pessoas – segundo a sua intuição – diria que é igualmente provável. Para lidar com casos igualmente ou mais complexos do que esse se faz necessário uma formalização axiomática da nossa intuição, faz-se necessário a Self-Sample Assumption, faz-se necessário raciocinar como um membro aleatório da sua classe de referencia.

Alem disso a SSA pretende modelar nossas intuições com respeito ao principio antrópico: o principio antrópico diz que o universo tem de ser tal que ele proporcione à nós observarmos ele da maneira que observamos. Isso implica, dentre outras coisas, que ele tem de permitir vida inteligente como a nossa. A SSA talvez possa ser vista como um caso geral desse principio, que vale universalmente para qualquer observador e qualquer observação. Alem disso ela tem a vantagem de ser mais precisa e facilmente matematizavel.

2.1.2 Efeitos de Seleção Observacionais e Riscos Existenciais

Uma conseqüência particularmente interessante da SSA é de que nunca observaremos eventos que são incompatíveis com a nossa existência. Como conseqüência existe uma vasta gama de fenômenos que são inobserváveis pela sua própria natureza, eles estão vedados pelo o que Bostrom chama de Efeito de Seleção Observacional. Por exemplo, se no nosso experimento mental Deus jogasse um dado de 3 lados de modo que as duas primeiras opções permanecem como a anterior e se desse três ele não criasse nada os homens criados nunca iriam podem estimar corretamente a probabilidade da terceira opção se realizar dado que nunca a observariam. Se dado que você existe em uma sala a probabilidade que o dado tenha dado 3 é 0, então dado que o dado deu 3 a probabilidade de que você observe isso é 0. Temos um fenômeno interessante em que a existência de algo o torna automaticamente inobservável. Se a freqüência de um evento não influencia a nossa probabilidade de observa-lo então isso significa que não podemos aprender com a experiência sobre eles. Estimar a sua probabilidade com base na experiência direta estará sempre fadada ao fracasso pois a probabilidade de experienciarmos tais eventos é constante e igual a zero independente de quão prováveis eles sejam. Um tipo particular desse evento são os eventos de extinção em massa. Existem certos eventos que poderiam aniquilar por completo a raça humana, tais como grandes asteróides, inteligência artificial dando errado, supervulcanismo, etc., tais eventos constituem Riscos Existenciais. Ao estimar a probabilidade de sermos extintos não podemos usar o fato de que nunca fomos extintos como critério. Existem outros métodos indiretos de realizar esse tipo de estimativa como, por exemplo, ver com que freqüência esses eventos ocorrem em outros planetas. Nas seções seguintes contextualizarei melhor os efeitos de seleção observacionais e darei alguns exemplos de Riscos Existenciais em potencial.

Em futuros posts dessa série, abordarei os seguintes tópicos:

2.2 Riscos Catastróficos Globais
2.2.1 Introdução
2.2.2 Dois principais bias
2.2.3 Outros bias
2.2.4 Principais Riscos
2.2.5 Conseqüências

2.3 Transhumanismo
2.3.1 Melhor impossível: A status quos bias
2.3.2 Imperativos Éticos
2.3.3 Human Enhancement
2.3.3.1 Cognitive Engancement
2.3.3.1.1 Antigos
2.3.3.1.2 Químicos
2.3.3.1.3 Outros
2.3.3.1.4 Uma heurística para modificar a evolução
2.3.3.2 Life-Span Enhancement

2.3.4 Transhuman Enhancement
2.3.4.1. Uploading de Mentes
2.3.4.1.1 Técnicas
2.3.4.1.2 Riscos: imediatos e de longo prazo
2.3.4.2. IA
2.3.4.2.1 Projeções
2.3.4.2.2 Riscos

Nootrópicos: rompendo o status quo bias

Nootrópicos: rompendo o status quo bias

Nootrópicos são definidos como substâncias que aumentam a nossa capacidade cognitiva, seja por um aumento na memória, motivação, atenção ou concentração. Eles são usados pela humanidade há milhares de anos, no entanto, recentemente inúmeros novos compostos mais eficientes têm sido descobertos. A pesquisa desta classe de substâncias tende a ser orientada aos indivíduos com deficiências mentais. Só muito recentemente têm surgido pesquisas em indivíduos saudáveis. É um campo com potencial ainda pouco explorado. A razão pela qual esse tema deve entrar no pool memético geral da sociedade é muito simples: os benefícios em potencial deste grupo de substancias são enormes. A idéia de aumentar nossa capacidade cognitiva vem do reconhecimento de uma antiga falácia: a do “melhor impossível”. Aquela que diz que a evolução fez o melhor serviço possível e não devemos interferir no seu trabalho. Essa falácia tem inúmeros aspectos e está ligada a um dos bias cognitivos que temos: o status quo bias. Verificou-se em vários experimentos que os indivíduos têm uma tendência a não modificar a situação atual, mesmo quando essa modificação é benéfica. Mas existem inúmeras razões para querer melhorar o trabalho da evolução: os interesses da evolução são diferentes dos nossos (i.e: para e evolução funcionar temos que morrer, mas não queremos morrer), o ambiente em que vivemos é diferente do da evolução (i.e.: nossa cognição foi moldada para viver em grupos de centenas de pessoas na savana africana e nossa capacidade de planejamento cai exponencialmente com o tempo, no entanto vivemos numa sociedade moderna e populosa em que temos que prever como o mundo será no longo prazo) e a evolução pode ficar presa num ótimo local (i.e.: o apêndice poderia não existir e então não inflamar, mas para isso teria de diminuir gradualmente e passar por um tamanho que inflama mais).

Alguns exemplos de nootrópicos antigos são: café, chocolate e cigarro. Entre os mais recentes temos: Ritalina, Anfetaminas, Modafinil, Piracetam, etc. A seguir listarei alguns nootrópicos conhecidos e falarei um pouco sobre o seu funcionamento. Eles estão separados em 3 seções: Concentração, Memória e Outros

Concentração

Modafinil/Stavigile

Está ligado à histamina (neurotransmissor que regula o sono) faz aumentar todos os outros neurotransmissores, em ordem decrescente de aumento: dopamina, noerpinefrina, acetilcolina e serotonina. Histamina é um dos neurotransmissores do sistema ativador reticular ascendente, que vai do tálamo e tem projeções difusas excitatórias para todo o córtex. Produz mais uma calm-wakefullness do que um sentimento de concentração tensa mais característica dos outros nootrópicos para concentração. Acredita-se que existem dois sistema diferentes de ativação no cérebro, um ligado ao estado de vigilância estimulada que é ativada quando temos de lidar com algum perigo externo ou lidar com alguma preocupação;  outro esta ligado a uma vigilância mais calma, um estado desperto que envolve o pensamento criativo e a capacidade de resolver problemas. O primeiro sistema está correlacionado as catecolaminas – dopamina e norepinefrina – enquanto que o segundo está ligado a histamina.

Vigilância EstimuladaVigilância Calma

Vigilância Calma
Vigilância Estimulada

Existem ao menos 4 estudos em indivíduos saudáveis. Um deles é um grande estudo com mais de 300 pessoas. Todos os estudos obtiveram resultados positivos com pouquíssimos efeitos colaterais como insônia numa incidência de 2% maior que no placebo. Todos os estudos obtiveram resultados positivos com pouquíssimos efeitos colaterais como um pequeno aumento da pressão arterial. Em todos os estudos se comprovou o aumento da memória de trabalho verbal e numérica. Houve um aumento do tempo de resposta nos testes, mas também um aumento significativo na taxa de acertos. Ele parece diminuir a impulsividade. Outros dois estudos do exército em pilotos que mostram um aumento considerável do desempenho em simulações de 40 e 36h com indivíduos sem dormir. Nesses estudos, após 24h sem dormir, foi ministrado 100mg de Modafinil a cada 4h para os pilotos. Atinge-se o pico de concentração plasmática em 2-3h e tem meia vida de 12h (mas o efeito diminui antes).

Imagem PET-SCAN mostrando o uso do sistema dopaminergico.
Imagem PET-SCAN mostrando o uso do sistema dopaminergico no Striatum. Com Modafinil a esquerda e sem a direita.

Ritalina

Inibibe fortemente a recaptação de dopamina e levemente a de noerpinefrina. Age principalmente no dorso-ventro lateral, região ligada primordialmente à memória de trabalho e à recuperação de memória de longo prazo.

A dopamina é o neurotransmissor ligado a concentração e as funções executivas do cérebro a age primordialmente no cortex prefrontal. Aqui temos uma imagem das projeções dos neurônios dopaminergicos:

Projeções dopaminergicas
Projeções dopaminergicas

Esses neurônios parte das regiões mais profundas do cerebro como striatum – região ligada ao controle mortor – e se projetam para o córtex prefrontal.

Quando um neurônio transmite um impulso nervoso para outro ele não pode transmitir a despolarização elétrica diretamente, pois existe um espaço entre os neurônios chamados sinapse. Para que a transmissão ocorra o neurônio pré-snaptico secreta na fenda sináptica os neurotransmissores que ficam guardados em vesículas que são expelidas na membrana celular. Uma vez lançada na sinapse pelo neuronio pré-sinaptico o neurotransmissor entre em contato com os receptores dos neurônios pós sinapsticos e influencia diretamente (no caso de receptores inotropicos – ou indiretamente – no caso de GPCR – o fluxo de cátions para o interior do neurônio o que inicia a condução do impulso nervoso no neurônio pós-sinaptico. Para que o impulso não seja transmitido ad infinitum  existem inúmeros modos para que o neurotransmissor seja retirado da sinapse como difusão e a recaptação do neurotransmissor, que consistente no seu retorno ao neurônio pré-sinaptico para uso futuro.

Transmissão do impulso na sinapse e recapação.
Transmissão do impulso na sinapse e recapação.

A ritalina inibe essa receptação e mantem a dopamina na fenda sináptica por mais tempo, proporcionando uma ativação do sistema executivo do cérebro:

Bloqueio da recaptação da dopamina pea Ritalina - ignorar anfetaminas
Bloqueio da recaptação da dopamina pea Ritalina - ignorar anfetaminas

Existem diversos estudos, alguns apontando um ganho de até 6 pontos de QI em indivíduos com DDA. Em indivíduos saudáveis há um aumento das memórias de trabalho numérica, verbal e espacial. Pico de concentração plasmática em 1h e meia vida de 3h.

É um dos nootrópicos mais conhecidos e utilizados. Estima-se que 10% da população americana com menos de 20 anos faz uso da droga. O uso continuado por mais de 10 anos pode acarretar problemas cardíacos em pessoas com predisposição. Tem potencial de abuso.

PET-SCAN mostrando a ocupancia dos recaptadores de dopamina. Azul indica ocupado e vermelho livre.
PET-SCAN mostrando a ocupancia dos recaptadores de dopamina. Azul indica ocupado e vermelho livre.

Selegiline

Inibe irreversivelmente um catalisador da oxidação de dopamina e norepinefrina (MAO-B), o que significa que o corpo tem que fabricar de novo o catalisador para que o efeito da droga passe.  Age sinergicamente com drogas que aumentam o nível de dopamina (como a maioria das drogas ativadoras) e pode dar overdose. A MAO-B não está presente na fenda sináptica, é intracelular e ligada ao lado externo das mitocôndrias.

Não existe nenhum estudo com indivíduos saudáveis comprovando a eficácia. Apesar disso têm-se mostrado inúmeras propriedades neuroprotetoras desta substancia, pois diminui a concentração de inúmeros compostos neurotoxicos encontrados naturalmente no cérebro. Alem disso a queda de produção de uma enzima responsável por degradar a MAO-B após o 40 anos é responsável por uma diminuição da concentração de dopamina na Substantia Nigra o que leva a uma redução da massa cerebral nessa área e a uma queda da saúde do individuo. A Selegiline, ao inibir a MAO-B, pode diminuir essa taxa de redução.

MAOI - funcionamento
MAOI - funcionamento

Aderall

Coctel de anfetaminas. Aumenta a produção e inibe a degradação de: dopamina, norepinefrina e um pouco serotonina. Aumenta concentração de dopamina, noradrenalina e serotonina na fenda sináptica, inibindo a recaptação e causando o efluxo desses neurotransmissores revertendo os transportadores dos mesmos.

São sais de anfetamina, cada um dos quatro sais com uma liberação em tempo diferente do outro, pra manter níveis sanguíneos constantes ao longo do dia. Tem potencial de abuso.

Cafeína

Um dos mais antigos, mais usados e piores nootrópicos. Mimetisa o neutransmissor adenosina e se liga ao seu receptor o inabilitando. A adenosina tem um papel inibitório no cérebro, ela é um dos metabólitos da quebra do ATP e sinaliza uma baixa disponibilidade deste no cérebro. Alem disso a cafeína e seus metabólitos aumentam as concentrações plasmáticas de adrenalina, com isso aumentando os batimentos cardíacos, pressão sanguínea e stress. Como resultado, a longo prazo ela aumenta a incidência de infartos. Após longo período de uso se desenvolve tolerância e a interrupção causa depressão, irritabilidade e sonolência.

L-Tirosina

Aminoácido, precursor de dopamina. Aumenta as concentrações de dopamina levemente. Estudos revelam desempenho semelhante a anfetaminas em pessoas sem dormir.

Complexo B

As vitaminas B1, B6, B2 e o acido pantenóico são cofatores na produção de dopamina, mas o fator limitante é a tirosina. Vitamina B6 em doses altas pode causar neuropatia das raízes dorsais da medula. O máximo indicado é 100mg de B6 por dia.

Memória

Aricept/Donepezil

Inibe reversivelmente um catalisador da hidrolise da acetilcolina. Tem pelo menos 3 estudos em individuados saudáveis, todos mostrando efeitos positivos na memória e aprendizado.  Tem um estudo com pilotos que demonstrou uma maior habilidade de reter o aprendizado de procedimentos complexos do que o grupo controle após 1 mês de uso. Outro estudo com indivíduos saudáveis demonstrou um aumento da memória episódica visual e verbal, um dos indivíduos reportou fortes dores de cabeça. Há um aumento da incidência de sonhos lúcidos.

A acetilcolina é o neurotransmissor ligado a memória de longo prazo. Ela age primordialmente no striatum e no hipocampo. Aqui podemos observar as projeções dos neurônios colinergicos:

Projeções Colinergicas
Projeções Colinergicas

As teorias mais recentes sobre o seu funcionamentos dizem que ela tem um papel ativador na codificação e armazenamento da informação recebida e um papel inibitório no processamento de fundo:

Funcionamento da Acetilcolina (ACh)
Funcionamento da Acetilcolina (ACh)

A acetilcolinesterase é a enzima que quebra a aceilcolina a inabilitando, o aricept inibe a ação desta enzima:

Acetilcolinesterase - Enzima Inibida pela Aricept
Acetilcolinesterase - Enzima Inibida pela Aricept

Racetans

Os Racetans são uma classe de compostos que têm efeito sob a memória de longo prazo e a atenção. Seu membro mais conhecido é o Piracetam, que foi um dos primeiros nootrópicos a ser sintetizado na década de 60 e deu origem ao termo.

Piracetam: Não se sabe direito o mecanismo de funcionamento, possivelmente ele estabiliza a membrana celular e faz as bombas Na/K funcionar melhor, aumenta níveis de acetilcolina e aumenta a circulação de sangue para cérebro. É neuroprotetor e protege contra derrame, pois é um anticoagulante que atravessa a membrana hematocefalica. Tem 1 estudo antigo com 10 indivíduos saudáveis que mostrou aumento da memória verbal de longo prazo após 2 semanas de uso.

Oxiracetam: Semelhante ao piracetam, mas 4 vezes mais potente. O efeito dura cerca de 4-6h.

Pramiracetam: Até 30 vezes mais potente.

Outros exemplos: Phenylpiracetam, Etiracetam, Levetiracetam, Nefiracetam, Nicoracetam, Rolziracetam, Nebracetam, Fasoracetam, Imuracetam, Coluracetam, Dimiracetam e Rolipram.

n2og0y (1)

Anirecetam: Aumenta atividade do AMPA, receptor de glutamato. O efeito dura cerca de 2h. Cerca de 8 vezes mais potente que o piracetam. O glutamato está ligado a plasticidade cerebral, ao aprendizado e a memória e determina a formação de sinapse do desenvolvimento do cérebro. Ele é um dos neutroasmissores mais ambundantes.

Projeções glutaminergicas
Projeções glutaminergicas

O aniracetam inaugurou a pesquisa de compostos conhecidos como AMPAkines, agonistas do receptor AMPA. São compostos ainda experimentais mas que demonstram ter pouquíssimos efeitos colaterais. Alguns exemplos: CX-546, CX-516, CX-614, LY-392,098, LY-404,187, LY-451,646 e LY-503,430

Outros

Arcalion: Esta envolvido no sistema ativador reticular. Aumenta a densidade de receptores de dopamina e a densidade de glutamato. Tem um efeito, ainda pouco comprovado, na memória e na atenção

Vasopressina: Hormônio que melhora a circulação de sangue no cérebro. Também conhecido como hormônio antidiurético.

Vinpocetina: Vasodilatador cerebral, aumenta a circulação dos vasos sanguíneos cerebrais e a memória de médio prazo.

Nicotina: Aumenta o funcionamento dos receptores de Acetilcolina e a concentração. A substância mais letal já conhecida pela humanidade.

Lecitina/Colina: Precursor de acetilcolina. Aumenta a concentração de acetilcolina levemente. A colina pura é muito mais eficaz, pois está em maior concentração.

Vitamina B5: Cofator de síntese de acetilcolina.

Creatina: Aumenta disponibilidade de energia no cérebro. É a principal fonte energética do mesmo.

Coenzima Q10: Aumenta disponibilidade de energia no cérebro, tem papel no ciclo de Krebs na mitocôndria (e faz bem pra um bando de outras coisas).

Aspectos Éticos

Cafeína, Nicotina e Ritalina desenvolvem dependência e aumentam o risco de infarto. Nicotina em especifico é o maior fator de risco de todas principais causas de morte conhecidas. Modafinil, Aricept, Piracetam e outros apresentam efeitos colaterais pouco graves com uma incidência baixa, não desenvolvem tolerância e não viciam. Piracetam em especifico é uma das substancias menos tóxicas conhecidas e é neuroprotetor. Apesar dessas informações serem largamente conhecidas no meio cientifico a população se recusa a uma mudança de habito por influencia do status quo bias e as drogas com maior incidência de efeitos colaterais e menos eficientes continuam a serem mais usadas em vez das com menos efeitos colaterais e mais eficientes. A população em geral tem uma grande dificuldade de comparar o custo/beneficio do que ja vem fazendo (uso de café e nicotina) comparados com o que poderia estar fazendo (modafinil, aricept, etc..).

Termino com uma citação do fundador do transhumanismo, Nick Bostrom (disponivel em audio):

“There are three ways to contribute to scientific progress. The direct way is to conduct a good scientific study and publish the results. The indirect way is to help others make a direct contribution. Journal editors, university administrators and philanthropists who fund research contribute to scientific progress in this second way. A third approach is to marry the first two and make a scientific advance that itself expedites scientific advances. The full significance of this third way is commonly overlooked.

It is, of course, widely appreciated that certain academic contributions lay the theoretical or empirical foundations for further work. One reason why a great scientist such as Einstein is celebrated is that his discoveries have enabled thousands of other scientists to tackle problems that they could not have solved without relativity theory. Yet even this deep and beautiful theory is, in one sense, very narrow. While relativity is of great help in cosmology and some other parts of physics, it is of little use to a geneticist, a palaeontologist, or a neuroscientist. General relativity theory is therefore a significant but not a vast contribution to the scientific enterprise as a whole.Some findings have wider applicability. The scientific method itself — the idea of creating hypotheses and subjecting them to stringent empirical tests — is one such.

Many of the basic results in statistics also have very wide applicability. And some scientific instruments, such as the thermometer, the microscope, and the computer, have proved enormously useful over a wide range of domains. Institutional innovations — such as the peer‐reviewed journal — should also be counted. Those who seek the advancement of human knowledge should focus more on these kinds of indirect contribution. A “superficial” contribution that facilitates work across a wide range of domains can be worth much more than a relatively “profound” contribution limited to one narrow field, just as a lake can contain a lot more water than a well, even if the well is deeper.

No contribution would be more generally applicable than one that improves the performance of the human brain. Much more effort ought to be devoted to the development of techniques for cognitive enhancement, be they drugs to improve concentration, mental energy, and memory, or nutritional enrichments of infant formula to optimize brain development. Society invests vast resources in education in an attempt to improve students’ cognitive abilities. Why does it spend so little on studying the biology of maximizing the performance of the human nervous system?

Imagine a researcher invented an inexpensive drug which was completely safe and which improved all‐round cognitive performance by just 1%. The gain would hardly be noticeable in a single individual. But if the 10 million scientists in the world all benefited from the drug the inventor would increase the rate of scientific progress by roughly the same amount as adding 100,000 new scientists. Each year the invention would amount to an indirect contribution equal to 100,000 times what the average scientist contributes. Even an Einstein or a Darwin at the peak of their powers could not make such a great impact. Meanwhile others too could benefit from being able to think better, including engineers, school children, accountants, and politicians.

This example illustrates the enormous potential of improving human cognition by even a tiny amount. Those who are serious about seeking the advancement of human knowledge and understanding need to crunch the numbers. Better academic institutions, methodologies, instrumentation, and especially cognitive enhancement are the fast tracks to scientific progress.” (Nick Bostrom)

Referencias:

Artigos em farmacologia (maioria pós-2002):

Activation of the reticulothalamic cholinergic pathway by the major metabolites of aniracetam

Aniracetam enhances cortical dopamine and serotonin release via cholinergic and glutamatergic mechanisms in SHRSP

Aniracetam in the treatment of senile dementia of Alzheimer type (SDAT) results of a placebo controlled multicentre clinical study

Aniracetam Reversed Learning and Memory Deficits Following Prenatal Ethanol Exposure by Modulating Functions of Synaptic AMPA Receptors

Antidepressant-like effects of aniracetam in aged rats an tis mode of action

Cholinergic enhancement of episodic memory in healthy young adults

Cognitive enhancing effects of modafinil in healthy volunteers

Deprenyl (Selegiline), a Selective MAO-B Inhibitor with Active Metabolites; Effects on Locomotor Activity, Dopaminergic Neurotransmission and Firing Rate

Donepezil and flight simulator performance Effects on retention of complex skills

Donepezil and Related Cholinesterase Inhibitors as Mood and Behavioral Controlling Agents

Donepezil for dementia due to Alzheimer’s disease (Review)

Donepezil Improves Cognitive Performance in Healthy Pilots

EEG-tomographic studies with LORETA on vigilance differences between narcolepsy patients and controls and subsequent double-blind,placebocontrolled studies

Effect of repeated treatment with high doses of selegiline on behaviour, striatal dopaminergic transmission and tyrosine hydroxylase mRNA levels

Effect of selegiline on dopamine concentration in the striatum of a primate

Effects of aniracetamn term on delayed matching-to-sample performance of monkeys and pigeon

Effects of modafinil on cognitive and meta-cognitive performance

Effects of modafinil on vestibular function during 24 hour sleep deprivation

Effects of modafinil on working memory processes in humans

Effects of selegiline alone or with donepezil on memory impairment in rats

L-Methamphetamine and selective MAO inhibitors decrease morphinereinforced and non-reinforced behavior in rats; Insights towards selegiline’s mechanism of

Mania associated with donepezil

Modafinil improves rapid shifts of attention

Modafinil Improves Symptoms of Attention-DeficitHyperactivity Disorder across Subtypes in Children and Adolescents

Donepezil and related cholinesterase inhibitors as mood and behavioral controlling agents

Enantioselective determination of modafinil in pharmaceutical formulations by capillary electrophoresis, and computational calculation of their inclusion complexes

Pharmacokinetic study of aniracetam in elderly patients with cerebrovascular disease

Psychoactive Drugs and Pilot Performance A Comparison of Nicotine, Donepezil, and Alcohol Effects

Pyrrolidone derivatives

Reinforcing effects of modafinil influence of dose and behavioral demands following drug administration

Relevance of Donepezil in Enhancing Learning and Memory in Special Populations A Review of the Literature

Selegiline’s neuroprotective capacity revisited

Site-specific activation of dopamine and serotonin transmission by aniracetam in the mesocorticolimbic pathway of rats

Synergistic effects of selegiline and donepezil on cognitive impairment induced by amyloid beta (25-35)

The effects of Modafinil on Aviator Performance during 40 hours of continuous wakefulness A UH-60 helicopter simulator study

The efficacy of modafinil for sustaining alertness and simulator flight performance in F-117 pilots during 37 hours of continuous wakefulness

The Glutamate Receptors

Trophic effects of selegiline on cultured dopaminergic neurons

NCAM in Long-Term Potentiation and Learning (Hartz, forthcoming)

Reversal of cognitive deficits by an ampakine (CX516) and sertindole in two animal models of schizophrenia—sub-chronic and early postnatal PCP treatment in attentional set-shifting (Broberg, forthcoming)

Enantioselective determination of modafinil in pharmaceutical formulations by capillary electrophoresis, and computational calculation of their inclusion complexes (Azzam, forthcoming)

Livros de Neurociência:

Foundations in Evolutionary Cognitive Neuroscience (Platek, 2009)

From Molecules to Networks, Second Edition: An Introduction to Cellular and Molecular Neuroscience (Byrne, 2009)

Fundamental Neuroscience, Third Edition (Squire, 2008)

Neurotransmitters and Neuromodulators – Handbook of Receptors and Biological Effects (Wiley, 2006)

Acetylcholine in the Cerebral Cortex, Progress in brain research (Descarries, 2004)

Neurotransmitters, Drugs and Brain Function (Webster, 2001)

Artigos em Neuroética:

Cognitive Enhancement, Lifestyle Choice or Misuse of Prescription Drugs? (Racine, forthcoming)

Smart Policy: Cognitive Enhancement and the public interest (Bostrom, forthcoming)

Cognitive Enhancement: Methods, Ethics, Regulatory Challenges (Bostrom and Sandberg, 2009)

Human Enhancement Ethics: The State of the Debate (Bostrom and Savulescu, 2009)

The Wisdom of Nature: An Evolutionary Heuristic for Human Enhancement (Bostrom and Sandberg, 2009)

The Normativity of Memory Modification (Sandberg, 2008)

Converging Cognitive Enhancements (Bostrom and Sandbeg, 2006)

‘Smart Drugs’ do they work Are they ethical Will they be legal (Rose, 2002)