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Ética, Herança, Propriedade, Há Alternativa?

Faz uns anos que a seguinte questão me intriga: O que seria bom em termos de herança e propriedade.

Uma questão para mim é bastante relacionada: Se tenho uma moeda, e digo que apenas se ela der cara vou usar meu dinheiro para comprar piscinas de plástico, e se der coroa não, deve haver um regulamento diferente para os impostos sobre as escolhas caso dê cara e caso dê coroa?

Em geral as pessoas estão dispostas a dizer que é absurdo condicionar impostos sobre se uma decisão financeira foi ou não feita porque uma moeda deu cara… Uma piscina custa 10000, seja porque deu cara ou porque deu coroa, o imposto sobre ela será 300, digamos….. Não parece fazer sentido nenhum pensar que devemos taxar apenas as caras.

Uma intuição contraditória a essa rege o seguinte princípio: Quando uma pessoa morre ela deve ter grande parte de sua herança adquirida pelo Estado, já que ela era parte da sociedade e isso funciona como distribuição de renda etc…

A razão da contraditoriedade: Digamos que eu tenha meu milhão de reais. Meu amigo Alfredo tem o dele. Eu decido condicionar meu uso de dinheiro segundo a moeda…. Ele decide escrever um testamento em favor de sua filha. Mal sabíamos nós, mas um terrorista maluco estava a distância, e nos moldes de um filme do irmão Cohen, decidira que a vida de Alfredo estava para ser decidida naquela moeda. A moeda dá cara, e após o funeral de meu pobre amigo, que recebera um tiro de sniper, eu compro minhas piscinas.

Ambos os eventos foram condicionados na mesma coisa, mas eu pago impostos normais, e o patrimônio dele é tomado pelo Estado, que diz que é justo e razoável que um dinheiro que não foi ganho pela filha fique com ela, pelo menos não tanto. Em geral é assim que ocorre, principalmente em países mais ricos.

Há uma grande diferença entre dizer que alguém não merece um patrimônio porque não ganhou ele, e dizer que uma pessoa pode gastar o próprio dinheiro com o que bem entender. É estranho que, de todas as coisas do mundo, é quando uma pessoa escolhe gastar seu dinheiro com aquele que criou, ama, compartilha genes e mais quer garantir, que surge uma lei dizendo: Não. Você pode gastar seu dinheiro com BMW, Diesel e Dolce Gabbana, mas jamais, ouça bem, jamais, deixaremos que você gaste (uma parte d)ele com sua querida e amada filha, que saiu de seu ventre, que você viu falar pela primeira vez, ensinou boa parte do que sabe, ama de paixão etc….

Vivemos em uma sociedade que é menos favorável ao gasto de dinheiro com nossos filhos do que, digamos, com prostitutas.

Isso soa doentio.

Por outro lado, não é doentio que não tenhamos um sistema de correção de todas as mazelas sofridas por aqueles que nascem pobres? O mínimo que se espera de uma sociedade não Nietzscheniana é que haja uma tentativa de igualdade de condições de criação. É absolutamente revoltante que alguém nasça com direito a fortuna de um califa árabe enquanto milhares de sauditas famintos não tem acesso a educação por falta de dinheiro.

As duas intuições são importantes, e é bem difícil decidir entre elas.

A questão que se coloca é em parte: Como decidir sobre o direito a patrimônio. Em favor dos seres que virão a existir, ou em de acordo com quem produziu o valor?

Ninguém tem culpa de existir. “Existirmos a que será que se destina?”

Os pais não tem culpa de preferirem seus filhos a roupas da Diesel.

Nesse ponto você já deve ter decidido de que lado está, isso se deve ao fato de que, como todos os humanos, você está sujeito aos bias cognitivos, inclusive:

Need for Closure – the need to reach a verdict in important matters; to have an answer and to escape the feeling of doubt and uncertainty. The personal context (time or social pressure) might increase this bias.

E você acha que tem de estar de algum lado porque sofre do que Dawkins chama de “tragedy of the bicameral mind” a tragédia que é que nossa cognição divide tudo em dois grupos e acha que tem de ser “sim ou não”, “preto ou branco”, “certo ou errado”, etc…. More often than not, você deveria procurar uma Terceira Alternativa

Saíram uns papers sobre pensar em grupo, que dizem que um grupo acha uma solução melhor do que seu melhor membro: “We found that groups of size three, four, and five outperformed the best individuals and attribute this performance to the ability of people to work together to generate and adopt correct responses, reject erroneous responses, and effectively process information,” said lead author Patrick Laughlin, PhD., of the University of Illinois at Urbana-Champaign.

Então, mesmo que você se ache a pessa mais genial do mundo, deixe os outros ajudarem você a pensar para encontrar uma terceira opção.

Para o caso das heranças por exemplo, estou fazendo isso. Não tenho idéia. Me ajudem a pensar!

Do problema da separação do conhecimento e da tentativa de unificação

Culpemos a filosofia do sujeito por parte de tal distanciamento que a filosofia sofreu das ciências naturais. Culpemos totalmente? Não sei dizer ao certo. Meu texto “Da unidade a contradição” pareceu indicar um caminho de unificação. No entanto, como disse antes[1], o que ele faz é tomar as ciências naturais enquanto produção humana e assim ao analisar a Física Quântica não foca no aspecto natural, em produzir leis a partir de dados empíricos da natureza, mas sim na produção da produção dessas leis, ou seja, o próprio desenvolvimento da ciência enquanto área do conhecimento. Logo, naquele texto fica fácil para mim tomar partido da dialética. Parece que caberia tomar as ciências humanas enquanto produção natural, afinal natureza é uma categoria mais geral que ser humano. Talvez deveria ser executada a tarefa ingrata de aplicar o princípio cosmológico de que a interpretação do universo deve ser a mesma para qualquer observador em qualquer região do cosmos as ciências humanas? Se tal aplicação fosse ostensivamente realizada implicaria em converter esta em área em ciências naturais, todas as ações humanas e frutos da consciência seriam explicados pela mesma lei que explica o movimento dos planetas e o comportamento das partículas subatômicas. Apesar das previsões de para quando computadores conseguirão executar tarefas de graus semelhantes a de um cérebro humano serem otimistas o que o atual estado do nosso conhecimento aponta sobre uma real e completa descrição detalhada do cérebro é que (1) (a) com base nas leis da física é computacionalmente impossível calcular as coordenadas espaço-temporais de todas as partículas do nosso cérebro usando mecânica quântica, ou mesmo a química se para efeitos práticos simplificarmos o sistema para meramente neuroquímico já que nenhuma das partículas e transformações que a química não abrange esta presente no cérebro. (b) Adicione-se a isso o fato do cérebro interagir com o meio e se não colocarmos limites de interação do meio, o igualando ao universo visível, o computador para calcular tudo teria no mínimo o tamanho do universo visível, o que é uma contradição. Infelizmente temos que constatar que o universo visível já computa a si mesmo de maneira mais eficiente possível. Logo temos que estabelecer um limite bem pequeno e o tamanho do computador para simular o pequeno universo que queremos sempre será maior que esse pequeno universo. Grandes interações sociais estão fora de questão do nosso computador. Um cérebro totalmente isolado em que se controla a entrada e a saída torna as coisas mais fáceis, no entanto (2) mesmo se um dia existir a capacidade computacional para tanto nós estamos longe de ter definida a estrutura cerebral num plano geral, quanto menos neurônio por neurônio, processo químico por processo químico quanto mais partícula por partícula. Isso nos leva a conclusão final de que (3) se o conhecimento humano que temos hoje evoluir muitíssimo a ponto de termos avançado estrondosamente em poder computacional e neste momento já termos compreendido perfeitamente o cérebro neuroquimicamente antes de desaparecer como espécie – sendo que a única esperança possível deste trágico evento é que surja outra espécie mais adaptada derivada da nossa e que, portanto eles possam usar nosso conhecimento sobre nossa neuroquimica – e antes de termos que começar a nos preocupar com o esfriamento do universo, resultante da sua expansão, e de como operar a possível solução de transferir nossas consciências para uma nebulosa[2], pode ser que um dia consigamos descrever algo como um cérebro isolado baseando-se na mesma lei e com a mesma certeza que descrevemos o movimento do elétron ao redor do átomo. Parece, portanto improvável que consigamos englobar as ciências humanas com uma ciência com o grau de certeza das ciências exatas numa escala de tempo e valha a pena pensar sobre o assunto. Assim sendo, consideraremos a seguir o entendimento do cérebro por uma ciência não tão exata, a biologia. O estudo biológico do cérebro é o conhecimento em atual atividade, mas ainda estamos longe de produzir um modelo que entenda o cérebro biologicamente como entendemos um paramécio biologicamente. Parece-me que entendemos satisfatoriamente um paramécio, de maneira que se o colocarmos em um meio isolado e inserir impulsos controlados consigamos prever como ele ira reagir, e.g.: ele irá se locomover com seus cílios em direção a outro protozoário, ele ira se reproduzir assexuadamente. Mesmo que tal descrição do cérebro e da consciência seja efetivada pela biologia não conseguirmos prever o que um paramécio faz num ambiente complexo, logo pode não ser possível prever o comportamento de um ser humano em grupo, especialmente em grandes grupos interligados como é a nossa sociedade atualmente. Assim concluímos que com grau de certeza desejável é impossível prever grandes sociedades, mas é possível talvez entender a consciência. Com o mesmo método cientifico das ciências naturais há tentativas com grau satisfatório de sucesso empírico tais como em Dennett. Se for separado o conhecimento como na visão de Russell, Dennett estaria na fronteira entre filosofia e ciências cognitivas, produzindo ele mesmo essas ciências. Entretanto ao criar o mind stuff ele não consegue escapar em certo sentido a filosofia do sujeito.

A partir das considerações feitas até agora acredito que cabe separar o conhecimento como se segue:

Não ficou claro no desenho, mas a aresta da Física está se aprofundando, “furando” a pagina, enquanto que a da Moral está no mesmo plano que a da pagina. Sejam as coordenadas cartesianas[3] pode-se dizer que esta figura se encontra no quadrante onde todos os eixos são positivos e: z: produção de conhecimento e universalidade, x: ausência de caráter humano e y: certeza. Nessa figura as áreas de conhecimento aplicado se encontram mais perto da base e distante da área de produção de conhecimento. Uma conseqüência de organizar o conhecimento dessa forma é que ocorre uma perda de certeza da física quando ela se encaminha para a universalidade. Existem vários exemplos em que a física perde simplicidade metodológica e certeza para ganhar universalidade e são justamente nesses exemplos que ela avança e produz conhecimento real.[4] Outra conseqüência é que a estética ganha certeza no seu caminho para a universalidade, isso pode ser expresso na redução da experiência estética a uma lógica interna da experiência artística, operada por Adorno[5]. A moral, por sua vez, no caminho para a universalidade perde o caráter exclusivamente humano e começa a ter um caráter sujeito as leis naturais e biológicas como ocorre na psicologia evolutiva e em Nietzsche. Acredito que outros aspectos dessa pirâmide são facilmente comprováveis, mas pretendo explorá-los mais tarde em outro texto. Outro aspecto da pirâmide é que ainda não podemos dizer que existe um vértice, pois não existe uma única categoria unificadora. Podemos afirmar, no entanto, que a filosofia se encontra na região onde deveria estar o vértice, pois apenas ela lida satisfatoriamente com as 3 áreas restantes. Dizer que a síntese é o vértice da pirâmide se assemelha em tudo a falha que Nietzsche aponta em Kant: responder a pergunta simplesmente dizendo esta de maneira afirmativa. Fujamos desse erro, mas para onde? As vezes penso em abandonar o projeto unificador e abrir mão da unicidade da verdade, mas rapidamente percebo que isso é uma alucinação conceitual, verdades são únicas por definição. Só que no processo dialético de busca da verdade elas se negam e vão sendo falseadas e substituídas por verdades com maior grau de falsiabilidade. Essa busca pode parecer inútil, mas me lembro de um momento em que Stephen Hawking se pergunta porque ir tão alem no entendimento da física teórica e responde que ir alem no entendimento é uma atividade que move a nós como espécie desde milhares de anos atrás e tem dado certo até hoje, logo parece útil. Mas será que como descreve Nietzsche no seu texto “O Pathos da verdade” somos esse povo que inventou o conhecimento e ira logo desaparecer?[6]. Seja U o universo e u a teoria que da conta desse universo[7]. Todas as teorias cientificas até hoje tratam de um subconjunto desse universo e elas crescem por expansão, e.g.: a mecânica newtoniana da conta de um pequeno subconjunto N que são os fenômenos macroscópicos e não relativísticos, a mecânica quântica abarca esse subconjunto e ainda da conta dos fenômenos microscópicos. A relatividade abarca N mais os fenômenos relativísticos. As direções em que esses subconjuntos se expandem não são aleatórias, mas sim determinadas pelos anseios e desejos dos cientistas e da humanidade na época da criação da teoria. Se definirmos a verdade como a teoria x que da conta do maior subconjunto X de U pode-se dizer que a verdade tem caráter histórico. No referido texto, e em outros, Nietzsche ridiculariza o conhecimento humano por ser apenas uma interpretação de um ponto de vista ínfimo do universo determinado pelas necessidades mais mesquinhas do homem. De fato assim talvez o seja, mas isso não invalidada, como quer o filosofo, o conhecimento ou a busca pela verdade, pois (1) seja a expansão do subconjunto determinada pelas necessidades mesquinhas do homem ou não ela será sempre uma expansão sobre U onde os enunciados têm sempre um grau de verdade, (2) proceder desta maneira em busca da verdade é um dos sucessos evolutivos da raça humana e logo devemos continuar a proceder assim e por fim (3) Nietzsche errou a quanto iríamos viver na Terra e a nossa importância, a importância do surgimento de novas unidades replicadoras e como isso ira afetar mesmo outras espécies que virão.

Aforismo final:

Da defesa da totalidade – Há ainda uma crença em parte da filosofia que tal unificação entre as ciências humanas e as naturais seria uma pretensão vã relegada a tendências do século XIX. Com quanto tom de bravata e chacota a filosofia continental do século XX bradou contra as tendências totalizadoras hegelianas. Mesmo Adorno, com todo seu respeito a Hegel e uma tentativa de desenvolvê-lo sob ele mesmo, tal qual um urubu não cessava de agourar “O particular! O particular!”. De outro galho gralhavam também parte da filosofia francesa, todos em coro. Claro que eventualmente alguns também davam seus vôos, uns fugindo da carcaça da quimera hegeliana e outros indo a sua direção para lhe petiscar a carne. Existem ainda os anglo-saxões, que estavam isolados na ilhota, longe da besta hegeliana, esses quando muito se contentavam de de vez em quando visitar o continente e dar uma boa cagada em cima da quimera! Cagada essa executada por Russell com maestria no seu Historia da Filosofia Ocidental só comparável em fanfarrice filosófica ao modo como Hegel pretende invalidar a matemática no prefacio de sua Fenomenologia. Mas afinal que tenho eu com essas fanfarrices de aves europeias? – eu, uma bela e esbelta ave tropical! O pensamento não vai se recuperar do seu trauma com a ruína das totalidades simplesmente abandonando a pretensão ao todo. Como já bem diria Hegel e bem sabia Adorno “O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento”. Hegel, como afirmava Adorno, não quis dar igualdade de direitos entre o particular e o universal, mas se não fosse meramente por esta questão moral, diria sem titubear “Toda totalidade é falsa”. No entanto a superação da totalidade deve ser empírica e não conceitual. Penso as vezes como toda a macaquice dialética adorniana não pode ser reduzida a um grande marabalismo hegeliano, Adorno de alguma forma esperava tirar ainda algo de engraçado dessa atividade de bobo da corte, atividade essa que deve ser respeitada afinal durante boa parte da historia da humanidade todos nós assistimos extasiados essa atividade artística de prima categoria e difícil de se apreender – muito esmero é necessário nessa arte, um esmero que talvez nós só esperaríamos de algum que é ingenuo o suficiente para propor um saudosismo do artesanato- , expedrando que de alguma forma uma dessas bolas nos cairia no colo com a marca ‘dado empirico’. Russell não passava de um marabalista desajeitado, ao qual poucos apreenderam a rir e por isso a filosofia continental pouco lhe deu respeito. Mas deixemos nós também de brincadeiras, afinal essa crença do abandono da totalidade é na verdade mais uma desculpa para que se oculte o grande erro fatal de quase toda filosofia continental do século passado: a total ignorância das ciências naturais – quando Deleuze ou Lacan tentaram se aproximar delas foram motivo de piada por Sokal. Eu, portanto, não compartilho dessa crença.


[1] “Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais.”

[5] “As obras de arte são copias do vivente empírico, na medida em que a este fornecem o que lhes é recusado no exterior e assim libertam daquilo para que as orienta a experiência externa coisificante” (Adorno, Teoria Estética) ou “A exterioridade em sua imediatez não tem valor para nós, mas admitimos que por trás dela haja algo de interior, um significado, por meio do qual a aparição exterior é espiritualizada. A exterioridade aponta para o que é sua alma. E isso porque um fenômeno que significa algo não se representa a si mesmo e o que é na sua exterioridade, mas representa outra coisa.” (Hegel, Cursos de Estética). Em termos mais simples pode-se dizer que para essa tradição a logica interna da obra é ser feita a partir da realidade empírica imediata, mas remeter para uma outra realidade fantasiada e por isso – acrescentaria Adorno – tem um caráter emancipatório pois abre as possibilidades do que pode vir a ser o real para o individuo

[6] “Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento.” (O Pathos da verdade In: Cinco Prefácios para livros não escritos)

[7] Sobre isso ver ultimo parágrafo de https://brainstormers.wordpress.com/2008/03/30/da-natureza-do-conhecimento-matematico/ e discussão subseqüente.

Minha crise de valores

Este texto saiu aquém do que eu gostaria, mas acho que propor o tópico é mais importante do que meu contentamento em expressá-lo otimamente. Também o publiquei no meu blog.

Tenho pensado sobre valores.

Entendo por valores, quaisquer coisas que se valorize, que se ache importantes, que respondam as perguntas: O que você gosta/não gosta? O que você acha certo/errado? O que você acredita/não acredita?

São objetos, pessoas, crenças, atitudes, idéias, sentimentos, sensações e posturas em relação ao mundo. Não estou tratando aqui de valores como números, grandezas, conceitos ou outros valores abstratos.

Os valores determinam o que vou preferir comer, as pessoas com quem gosto de estar, o que farei amanhã, como vou interpretar tal fato, o quanto vou gostar de tal acontecimento, por quais parceiros sexuais irei optar, o que farei da minha vida, que música irei baixar.

Eu estou em crise, porque resolvi questionar meus valores, e agora não sei mais quais e como escolhê-los.

Refletindo um pouco, notei que muitos dos valores adotados pelas pessoas tem um fundo em nossa constituição biológica; nós sentimos fome, sede, excitação sexual, sono, raiva, medo, ciúmes, tristeza, felicidade, prazer e dor, nós nos machucamos, adoecemos e morremos, nós nos acasalamos e temos filhos. Temos instintos de sobrevivência, um aparelho cognitivo e um corpo físico que nos impõem uma série de necessidades e motivações. Por esta razão, durante nossa vida, desenvolvemos gostos, crenças e tendências, que de alguma forma tentam satisfazer e conciliar estes tantos impulsos com o meio onde vivemos.

E nós ocorremos de viver em sociedade, em meio a outros indivíduos, e comunicamos estes valores, convencionamos regras e acumulamos cultura. A existência dessa sociedade, por sua vez, traz mais um monte de relações como cooperação, rivalidade, poder, propriedade, família, amizade, amor, inveja, etc. que por sua vez geram muitos outros valores.

Desta forma, concluí que nossos valores devem advir da confusa dinâmica da sociedade misturada à complicada natureza humana, resultando em uma grande coleção de leis, costumes, princípios e convenções que de alguma forma tentam racionalizar nossos valores de maneira a organizar a convivência social.

Isso me surpreendeu, pois sempre imaginei os princípios éticos e do direito como grandes leis bem fundamentadas racionalmente, e de repente me pareceram muito mais um modo meio arbitrário de separar os espaços individuais requeridos por nossos organismos, que por sua vez devem ter desenvolvido estes impulsos e necessidades pois estes favoreceram suas sobrevivências nas suas trajetórias evolutivas, que pouco tem a ver com suas vidas atuais. Ou seja, os valores que eu considerava tão bons se esfacelaram em racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos.

Foi uma desilusão. Entretanto, pensei que a ausência de valores tampouco é interessante. Um mundo sem valores é um mundo indiferente, sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, não teríamos por que gostar de nada, nossa existência não seria mais interessante, importante, feliz ou desesperadora do que a de uma pedra. De modo que ter valores parece algo bom. E, de qualquer maneira, já que nós temos um corpo que nos traz todas essas necessidades, porque não optar por achar um jeito legal de satisfazê-las do que desprezá-las e preferir o regime da matéria inerte?

Isso me põe na posição em que estou agora, um meio termo bastante indeterminado, no qual considero que é melhor ter valores do que ser matéria inerte e por outro lado, vendo que os valores convencionais são bastante arbitrários. A questão da arbitrariedade não seria um problema tão grande se eu não fosse me deparar e conviver com tantas outras pessoas que discordam das minhas opções caprichosas.

Ultimamente tenho percebido que nem todos os valores são realmente tão adequados assim, certamente não parece bom viver num mundo onde as pessoas se matam o tempo todo, extinguem as demais espécies vivas desertificando o planeta, exercem um domínio egoísta e individualista sobre todas as outras, propagam doenças irresponsavelmente, incitam medo e geram miséria. De forma que temos algumas condições de contorno aí (que embora se baseiem numa impressão intuitiva, me parecem boas e fundamentadas o suficiente). Ademais, parece-me bom escolher valores que me permitam conviver bem comigo e com as pessoas do meu meio, por uma simples conveniência, afinal é preciso sobreviver.

Enfim, não consegui ir muito além disso. Será que não existem princípios realmente fundamentais, intrínsecos a nós capaz de determinar um pacote de valores razoável? Será que todas essas coisas que cremos e queremos são assim tão irracionais, casuais e involuntárias quanto parecem? Parece-me que, uma vez que “ter valores” é melhor do que a “inexistência de valores”, a existência humana, e possivelmente de outros seres vivos, tem algum valor também. Mas o que é que torna esta existência tão interessante? Os fenômenos subjetivos? A nossa complexidade? A nossa imprevisibilidade? A nossa cultura? Os nossos valores? Nada disto está claro para mim.

E mais, provavelmente, num futuro não muito distante, nós sejamos capazes de manipular nossa própria constituição biológica a ponto de poder eliminar, alterar ou acrescentar os impulsos que nos motivam. Poderemos então ser o que quisermos. O que escolheremos?

5 Questões que quero descobrir a resposta

1 O que é mais simples é mais provável que o complexo? Se sim, porque, que lei rege isso?

2 O espaço é infinito em algum sentido? Seja espacialmente, seja em quantidade de universos etc?   Isso implicaria que existem infinitos mundos iguais ao nosso, etc….

3 Há razões para se agir moralmente?  Se houver, são razões para se agir moralmente em qualquer caso, ou razões para se agir moralmente quando isso for aumentar a felicidade do mundo?

4 Existe algo além da felicidade?  Se modificarmos a condição humana, e alterarmos nossos cérebros, será que existe no espaço do possível outro sentimento que não surge por seleção natural que também é um fim em si mesmo?

5  Relacionamento amoroso vale a pena? Darwin, antes de se casar, fez uma lista de prós e contras do casamento em relação a comprar um cachorro.  Se essa lista fosse feita, com uma enumeração extensiva, será que o resultado seria positivo para o lado do relacionamento? Ou esse tempo seria melhor dedicado a alguma outra atividade?