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Patrimônio e Felicidade, a Hipótese do Mergulho

Conjecturo aqui, brevemente, a hipótese do mergulho a respeito de dinheiro.

Segundo a hipótese do mergulho, devemos controlar nosso patrimônio de maneira diferente da sugerida pelo senso comum.

A hipótese do mergulho tem como pressuposto que o mercado é desenvolvido principalmente para os mais jovens, e que a energia e vontade de exercer prazer é maior nos mais jovens.

O lazer de uma pessoa de 28 anos é bem mais agitado e potencialmente custoso do que o de uma de 40. Uma pessoa de 28 pode retirar muito mais de uma viagem, em termos de experiência, do que uma de quarenta.

Entretanto uma de 40 pode tirar muito mais de uma empresa, ou um nicho de mercado, que uma de 28.

Em suma, os jovens descobrem que seria ótimo ter dinheiro para uma série de desejos que possuem, e decidem lutar por ele. O fazem enfaticamente, e tornam-se mais ricos com o tempo. Por vezes isso ocorre rápido, e por vezes eles se tornam pessoas mais velhas e ainda caras. Mas em muitos casos, as razões iniciais pelas quais eles almejavam o dinheiro se perderam junto com os hormônios, os cabelos negros e vivos, e a pele tenra e macia.

É razoavelmente claro que a linha vermelha do gráfico abaixo representa a capacidade de ganhos de uma pessoa ao longo da vida. Infelizmente, em nossa sociedade, a capacidade de ganho não reflete a vontade de gasto das pessoas.

A maioria das pessoas escolhe (ou melhor, é levada não muito pensadamente) a gastar numa proporção do que ganha (alguns 50% alguns 110% dependendo de algum traço de personalidade e necessidades). Isso significa que a curva de gasto de uma pessoa média (esse simpático ser inexistente, a pessoa média, amiga da minha tia) vai seguir a mesma orientação do vermelho nesse gráfico.

O patrimônio dessa pessoa então começará estável, seja em 0, seja no que quer que ela tenha de empuxo inicial vinda da familia,  ficará estável por um par de anos, e começará a crescer com o tempo. Esse crescimento ocorre até a aposentadoria, quando entra nova era de estabilidade ou leve queda.

No entanto, há muito mais a se fazer em termos de festas, champagne, arvorismo no cambodja, natação no havaí, cinema com amigos, teatro no centro velho, bicicross, rodeios, passeatas, encontros em restaurantes tailandeses, perfumes adocicados, e chocolates quentes quando se tem 25 ou 30 anos, do que quando se tem 60 anos. (o fato de que chocolates quentes e perfumes usados por pessoas de 60 serem mais caros é um reflexo do patrimônio desnecessário destes, não de sua necessidade real)

Donde a Hipótese do Mergulho sugere que, independentemente do seu patrimônio inicial, deve-se ter um patrimônio distribuído de acordo com a curva preta do gráfico, isto é, dando um mergulho e eventualmente voltando para a superfície.

Como forma de memorizar a idéia, é fundamental lembrar de alguns pontos chave: Aos 25 temos o ponto de inflexão do mergulho, aquele no qual, num determinado mês, a diminuição (O delta) de patrimônio deixa de ser maior do que no mês anterior.

O ponto de menor patrimônio total são os 33, idade na qual atinge-se o maior delta na capacidade de ganho (a quantidade ganha num mês torna-se mais diferente da do mês anterior) E aqui ainda se tem enorme vontade de grandes festas com ofurô, cavernas, atemóia, framboesa, kino e outras frutas de elite

Para ter uma memória fácil disso, é só usar um adesivo mnemônico. o mínimo patrimônio soa algo ruim, quase um símbolo de decadência, portanto fácil lembrar-se da associação com Jesus. Se você foi consumido na infância pelo memeplexo cristão (pense pelo lado bom, você não nasceu um réptil), pode fingir que a referência é a morte dele, ao invés disso.

Dos 33 em diante, começa a fase de recuperação do dinheiro, até o ponto de trifurcação.   O preto representa a continuação da vida normal com um filho, ou com um parceiro que ganha dinheiro e dois filhos. O verde claro a vida com um parceiro que também produz dinheiro e um filho, ou sem nenhum filho, e o azul eu deixo como exercício intelectual ao ávido leitor.

A escolha de 42 como ponto de trifurcação foi baseada principalmente no guia do mochileiro das galáxias, que influênciou os circuitos geradores de números aleatórios do meu cérebro de maneira incorrigível. Mas pode-se pensar que essa é a idade em que a escola e cultura dos filhos começa a pesar no bolso.

vai caindo ai sobe e estabiliza

Breve autobiografia intelectual de um jovem de vinte anos.

Desde que era criança nas minhas leituras da Dialética do Esclarecimento e nas de revistas de divulgação cientifica sentia um dispare entre os dois. Quando mais tarde no colegial fui informado que teria durante minha carreira escolher entre as duas áreas, ciências humanas e naturais, aquele desconforto inocente inicial cresceu e tomou forma num desejo de unificar ambos, para não ter que escolher nenhuma das duas áreas, perdendo assim a outra. Ademais naquela época minhas leituras da Metafísica aristotélica já semeariam um desejo de universais que dêem conta de explicar vários particulares – também quanto não foram essas leituras um ponto marcante na genealogia do meu desapego ao mundo pratico. Alguns anos mais tarde, nas leituras de Hegel e eternas revisitações de Adorno percebi que um universal vazio e abstrato não se sustenta, coisa que o velho Aristóteles concordaria. Mas para alem de Aristóteles, para que este universal realmente abarque uma totalidade ele precisa estar se desenvolvendo numa negação constante que passa pelo particular, era a tensão dialética. Esta que em grande parte das ciências humanas parece ser útil para ser usada como método de analise do real. Um todo diferente se dá nas ciências exatas, um pensamento racional linear que segue uma lógica clássica e matemática, pensamento que se desvelava para mim nas leituras obcecadas e incessantes de um livro introdutório à Física Quântica.

 

Pelos pais que tive, que seguiram a carreira intelectual, quando chegou o momento da escolha do curso para a graduação havia uma certa expectativa, de minha parte principalmente, que aquilo iria afetar dramaticamente todo o resto da minha vida. Como a balança não pendia para nenhum lado em termos estritamente epistemológicos acabei escolhendo com base no grupo de pessoas que queria estar e com base em qual área recebia mais incentivo da sociedade (e de capital), talvez por essa ultima financiar mais as exatas – concedendo que capital atrai pessoas e que uma maior concorrência seleciona os melhores – as pessoas com as quais queria conviver estavam nas exatas. Disto resultou que fiz um ano do curso de Química para o meu total desapontamento com as pessoas que ali estavam, pois pareciam procurar mais o capital e a aceitação social do que o conhecimento e para piorar a própria estrutura do curso refletia isso em parte, com sua racionalidade técnica extremada que Adorno tanto critica por sua alienação extremada. Mudei para a Filosofia no outro ano.

É difícil dizer precisamente que caminhos teria percorrido na filosofia caso uma parte da minha vida não fosse dedicada ao estudo de ciências exatas. Confesso que minha habilidade natural com ciências exatas não é muito elevada, talvez sendo esse um dos motivos pelo qual mudei de rota, mas apesar disso guardo grande admiração pelo modo que essa área do conhecimento é construída. Lembro-me de um dia em que estávamos discutindo habito em David Hume, havia uma tendência a cair em discussões conceituais infindáveis quando o Diego resolveu soltar sua carta na manga e deu a explicação neurológica de porque temos hábitos. Incrível como toda aquela nevoa metafísica se desanuviou e – algo difícil no meio filosófico – se revelou algo claro, coerente e compatível com a experiência. Ao meu ver a discussão tinha se encerrado ali. De algum modo me senti numa situação análoga àquela de quando a ciência vem explicar o que os mitos tentavam dar um leve esboço tosco de explanação racional. Russell dizia que a religião trata daquilo que imaginamos, a filosofia do que não sabemos ao certo e a ciência do que sabemos com certeza. Essa visão parece diminuir a filosofia em certos aspectos, mas em outros creio que a coloca num local privilegiado de produção de conhecimento, ou seja, tornar aquilo que não sabemos em conhecimento certo. Só guardo certas ressalvas, pois a religião – aquilo que não sabemos e imaginamos – é justamente aquele tipo de conhecimento que sentimos como absolutamente certo, logo como bem lembra inúmeras vezes Adorno, é necessário o cuidado para que a ciência não recaia no mito.

 

De algum modo me causa mal estar saber que no campo do conhecimento existem duas respostas diferentes a pergunta “Como proceder diante do real?”. As ciências humanas e parte da filosofia parecem responder de um modo e as ciências exatas de outro. Essa divergência se da, ao meu ver, pois nas ciências naturais sujeito e objeto são separados e nas ciências humanas não. Segundo Adorno, esse ultimo fato justificaria o método dialético nas ciências humanas. Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais. Recentemente elaborei um texto tratando desses e outros assuntos pertinentes a uma tentativa de unificação que logo digitarei e postarei aqui no blog.

 

Se no campo da teoria objetiva ainda não encontrei satisfatoriamente uma relação entre ambas essas áreas, na minha pratica subjetiva tenho claro que as ciências naturais me fornecem parâmetros formais e de conteúdo na filosofia. Formais, pois quando os pensamentos lógicos, racionais e empiristas são passíveis de serem aplicados temos a obrigação moral de o fazer e onde eu aprendi a pensar assim foi nas ciências exatas. De conteúdo, pois existem certas áreas do conhecimento que já são conhecidas ao certo e não podem mais serem debatidas como se fossem conhecidas com duvida, como certas partes da psicologia e a existência de princípios metafísicos ocultos (Deus entre eles),  assim a contribuição é de mostrar que conteúdos simplesmente não são mais território da filosofia. Nas palavras de Adorno: “A filosofia não se transformará em ciência, mas sob a pressão dos ataques empiristas banira todos os posicionamentos que, por serem especificamente científicos, são devidos às ciências particulares e obscurecem os posicionamentos filosóficos”

 

Desta experiência de vida penso que aprendi duas coisas: (1) dedicar toda a sua existência a unificar o conhecimento humano na adolescência te faz ter crises existenciais desnecessárias para essa idade e virgem ao final do colegial. (2) Ter namoradas, vida social (por comparação) e diversões banais te faz ligeiramente mais feliz, mas burro e com saudades do tempo que lia Kant o dia todo. Dessas duas considerações concluo uma terceira: (3) tenho que achar um meio termo.

 

Retornando ao meu dilema epistêmico: cada vez que cedia a um lado sentia que traia o outro, como se fosse para a Filosofia para nunca mais voltar a Álgebra Linear e a Física. O velho Aristóteles havia, no entanto, graciosamente plantado suas sementes em mim ao definir a filosofia como “a ciência das ciências”, “a arte da sapiência”, que lida com os universais e com a causa primeira. Mesmo o nosso dicionário aponta a filosofia em primeiro lugar como “O estudo do real.” (atenção para o ponto final). Por que então hoje em dia tão freqüentemente identificamos esta nobre ciência das ciências com as ciências humanas? Por que, na USP em grau máximo, nas universidades os departamentos de filosofia parecem mais agrupados com as ciências humanas do que com as naturais? Quanta inveja da Grécia Antiga em que a physis era também tarefa de obrigação de qualquer filosofo, conjuntamente com escrever textos sobre moral e poética.

 

Recentemente, talvez um pouco a margem dessa minha busca obsessiva por unificação, retornei Nietzsche após 11 anos. Devo dizer que minha plena concordância com esse pensador me faz pensar se lá nos começos de minha infância a leitura do Zaratustra não plantou profundas raízes em minha personalidade. Sempre acreditei como Aristóteles que: “De fato, o sábio não deve ser comandado, mas comandar, nem deve obedecer a outros, mas a ele deve obedecer quem é menos sábio” ou seja, que a filosofia é a tarefa dos senhores.