Minha crise de valores II

Postei este post no meu blog pessoal, enquanto lá ele expressa uma angústia da minha existência, creio que aqui ele soa mais como um desabafo pessoal da minha dificuldade em enfrentar um fato já bem aceito por vários de vcs.

Esta não é verdadeiramente uma segunda crise, é muito mais o desenvolvimento natural da primeira, agora que compreendo um pouco melhor o problema que propus.

Meu problema agora não é ter percebido que nossos valores são, como havia dito, “racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos”, na verdade, resquícios evolutivos não são uma expressão adequada, como vou argumentar, pois na verdade são o que sustentam tudo o que somos. Tampouco é, como no primeiro, uma questão prática em relação a como me conduzir. Acho que este problema já está se resolvendo. Meu problema é aceitar as implicações do que tentarei explicar.

Valores são coisas às quais atribuímos um valor, bom ou ruim, certo ou errado, válido ou inválido, agradável ou desagradável, sejam elas o que forem: prazer, sexo, conversar, comer, dormir, dinheiro, chocolate, comprar roupas, ficar famoso, ajudar as outras pessoas, matar, violentar, sofrer, morrer. Enfim, são coisas que representam algo bom ou ruim para nós numa dada circunstância. Não precisam ser declarados, nem mesmo conscientes, basta que influenciem julgamentos e decisões.

Valores são o que dão sentido a nossa conduta, são o que nos motivam. Sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, seríamos apenas máquinas sem um uso próprio, sem um propósito. Valores são o que fazem com que procuremos comida, queiramos descansar, procuremos pessoas, compremos coisas, persigamos sonhos. São o que dirigem nossas decisões, o que faz o mundo rodar. Nem tudo o que fazemos, no entanto, está prontamente associado a valores; muito de nosso comportamento ocorre de forma impensada, inconsciente, automática ou involuntária, que não necessariamente se faz por meio valores.

No entanto, estes valores tem de vir de algum lugar, e ao meu ver, todos eles começam no nosso hardware, valores são, em última instância, usos sofisticados de um aparelho biológico feito para motivar comportamentos de sobrevivência. Nós nascemos já dotados de uma porção deles; já sentimos fome, sede, sono, dor, prazer, medo e muitos outros impulsos e necessidades. E o repertório vai se estendendo a cada dia, associamos a satisfação dessas necessidades com alguns objetos, passamos a ter respostas emocionais mais estruturadas, desenvolver sentimentos, aprendemos o que é permitido e não permitido, o que é desejado e repudiado pelos outros, o que é considerado bom e ruim pelas diversas pessoas ao nosso redor. Até que por estes processos de organização, incentivo, reforço, imitação e posteriormente reflexão, acabamos formando um grande e complexo sistema de valores, que leva ao complexo e diversificado comportamento que vemos nas pessoas por aí.

Valores têm características curiosas, por exemplo, têm uma natureza relativa, dependente do contexto e do valor das demais coisas. Afinal, o julgamento de valor é bastante comparativo, analógico. Também são dependentes de relevância, acontecimentos distantes tem um valor menor do que acontecimentos próximos. São bastante sensíveis a crenças (basta ver a bolsa de valores) e a emoções. Há muitas outras características peculiares, mas só quero mostrar que valores não são objetos platônicos, não são contruções racionais bem fundamentadas. Valores são contruções mentais, psicológicas, cognitivas, com o fim de favorecer tomadas de decisões eficientes. E é claro, sujeitas ao modo de operar da evolução natural; é um sistema com uma porção de falhas, mas bom o suficiente para a maioria dos problemas de sobrevivência na história evolutiva humana.

Assim, digo que os valores têm uma natureza pragmática. Alguns valores existem e persistem porque são fortemente ligados a nossa constituição biológica, como sono, fome e sede, e dificilmente sofrerão mudanças, porém outros ocorrem porque os aprendemos durante nossa vida, seja por tentativa e erro, seja por imitação, seja porque alguém nos ensinou, e de alguma forma mostraram alguma utilidade prática, ainda que ilusória (a utilidade de um valor é julgada em relação aos valores previamente adotados e ao seu sucesso em auxiliar na resolução de problemas). Valores que se mostram completamente ineficazes são rapidamente desvalorizados.

Como já deve estar evidente, estou sendo bem geral, falando de um aspecto muito amplo de nossas vidas. Valores morais, materiais, sentimentais, estéticos, sexuais, todos eles entram no pacote (ainda estou um pouco em dúvida se crenças são valores ordinários, ou se são de alguma forma diferentes ou mais fundamentais que os outros tipos). E isto tem implicações dramáticas.

Isto significa que o valor é, em última análise, determinado pelo seu valor prático na vida pessoal. Desta maneira, todo o complexo de valores morais sustentados em nossa sociedade, refletem de alguma forma, crenças sobre o seu valor prático (observe, por exemplo, que não pecar para alcançar o reino dos céus é algo de utilidade extremamente prática, se o indivíduo acreditar). Além disso, são coisas que não tem nenhuma existência independente; a existência de um valor é a existência de pessoas que os adotem. Cometer certa ação é errada, se houver pessoas segundo as quais aquela ação tenha um valor negativo. Caso contrário, a ação é completamente desprovida de qualquer valor e é meramente mais um fato do mundo. Isto relativiza brutalmente todos os valores humanos. Todas as coisas que consideramos certas, verdadeiras, bonitas, valiosas, o são desde que nós acreditemos que sejam, o que, por sua vez, depende de nosso julgamento de sua utilidade prática, ou de instintos biológicos que forcem seu valor. Em resumo, nossos valores são os que são porque nós temos esta determinada constituição biológica e porque, na história de nossa sociedade, estes valores tiveram utilidade prática na vida dos seus indivíduos.

Voltando a questão prática de como se conduzir, acho que esta idéia por si já determina mais ou menos uma conduta, o valor de nossas ações é o valor que as pessoas (nós incluídos) emprestam a elas, nem mais nem menos. Como a decisão da ação é tomada numa perspectiva individual, a consideração do valor que as demais pessoas atribuem, fica a critério do sujeito, de acordo com a utilidade prática que ele veja nisso (o que naturalmente depende de seus outros valores, suas metas, etc).

O problema desta vez vem porque, se o desenvolvimento do homem e da sociedade humana foi impulsionado por valores histórico-biológicos, a existência humana se torna basicamente este amontoado de valores. Nós vivemos para satisfazer valores, e criamos valores para viver. Se por algum motivo perdêssemos a capacidade de dar valor as coisas, tudo perderia seu significado, e a existência do mundo humano deixaria de existir. Assim, são os próprios valores que sustentam nossa existência, nosso significado, o sentido do desenvolvimento das sociedades. E por esta razão, são a coisa que garante nossa própria existência, são uma coisa muito importante, por mais que esta importância exista por ela mesma.

O que eu não entendo é, se a nossa existência depende da existência dos valores, que valores deveríamos escolher? O nosso progresso em satisfazê-los eficientemente (creio que isto seja o que ocorre com o uso intensivo de certas drogas, por exemplo), e em mudar nossa constituição biológica não provocará a destruição da nossa existência? Como fazer para que o nosso progresso em suprir nossas necessidades e desejos não destrua nossa própria existência?
Parece-me muito paradoxal e circular que o sentido de nossas vidas seja dado por valores e que por isto nós devamos preservá-los. Existe algum sentido em querermos preservar nossa existência, a não ser por ela mesma? É isso tudo que somos? Somos máquinas cujo sentido é lutar para continuarmos fazendo este sentido?
Isto me faz sentir meio desiludido com a existência, somos apenas isso? O próximo passo na história do universo na criação de entidades que vivem para si mesmas?
Acho que esta é a questão que tenho de amadurecer até minha próxima crise.

4 opiniões sobre “Minha crise de valores II”

  1. Tempo de Crises.

    Antes de dizer qualquer coisa que tenha utilidade, prática ou não, gostaria de pontuar que caramba! como tem havido crises ao meu redor (e dentro de mim). Estimo em 75% a proporção de pessoas de quem eu gosto que tiveram uma crise importante nos últimos 2 meses.

    Sentido e criação de sentido.

    Me parece que os diferentes valores que sustentamos ao longo da vida não podem ser caracterizados, como sugere o Tag, como memes, isso porque não necessariamente todos (ou os mais importantes) são auto-replicantes. Acredito que grande parte da informação de valoração dos seres humanos, em suas particularidades, não deve nem ser expressável em linguagem. Não estou dizendo que isso dê qualquer sentido último a vida, é só uma questão conceitual, não entendo os valores como querendo se multiplicar (ou seja, seu “sentido” não é interno) mas sim como tendo uma intencionalidade (intenções) derivadas dos genes e dos memes. Ou seja, um valor não é em si e para si, mas sim ele é parte do contexto de existência e significação de uma outra coisa, os replicadores.

    Não, eu não acho que isso “resolve o problema”

    Sinceramente, não estou tentando, com esse post, provar nenhum ponto, apenas discutir um pouco as questões trazidas.

    “Somos máquinas cujo sentido é lutar para continuarmos fazendo este sentido?”
    Não, isso são os escritores de auto-ajuda, gurus, padres etc…

    “se a nossa existência depende da existência dos valores, que valores deveríamos escolher?”
    Acho essa uma questão mal colocada. Os valores, diferentemente do desejo de Sartre, já nos são dados, não podemos escolher. Podemos apenas focar mais em algumas particularidades. Mas o basicão (Liberdade, Fraternidade, Baladas, 3 na Dudinka, e matar o bowser) é dado….

    Eu me sinto bem quando me sinto fazendo parte da parte mais avançada (por exemplo, a que compreendeu que o que estamos fazendo aqui é ser o próximo passo em direção aos novos replicadores etc…) em oposição a classe burra, desinformada etc…. Não escolhi esse valor, mas luto cada dia da minha vida por ele.

    A vida é, infelizmente para todos, apenas isso mesmo, uma infinidades de micro-sentidos que não se compõe num macro sentido. Mas lembremo-nos também que o macro sentido, o desejo dele, é um desejo inventado, tipicamente monoteísta. E que não é olhando por esse viés, necessariamente, que temos de procurar o sentido da vida, podemos olhar para outros lados, para o que Aldous Huxley chamou de os antipodas da mente, e procurar os Sentidos da vida, plural.

  2. Acho que o utilitarismo resolve isso plenamente: os valores são tidos pela perspectiva de variações de positivo e negativo na experiência consciente, correspondendo a valor positivo e negativo. Se não há possibilidade de determinar com precisão o que é positivo e negativo à experiência consciente, não há como determinar o valor, e realmente nem sempre o valor pode ser determinado, mas pode-se estabelecer guidelines de valor com base em estimativas pré-estabelecidas.

  3. Caro jonatas, acho que, se você acha que o utilitarismo resolve isso plenamente. Não compreendeu o significado da palvra resolve.

    Tudo que o utilitarismo Não faz é resolver isso. A crise do Leo é justamente porque ele não quer valores pré-estabelecidos (por ele mesmo) ele quer algo que tenha valor. Não algo a que ele atribua valor. Ele já sabe que é capaz de atribuir valor. Mas isso lhe incomoda.

    O utilitarismo é apenas o nome para uma seita de pessoas que decidiu um valor comum, bem como os skatistas.

  4. Desculpe pela demora em responder. É, de fato, minha preocupação é, primeiramente minha surpresa em perceber que “o que somos” é basicamente este monte de valores arbitrários, e em segundo, se nossos valores são baseados em necessidades primárias ou elementos culturais mais ou menos arbitrários, isto significa que não há realmente valores melhores que outros? Que se eliminarmos nossas necessidades primárias (como suponho que deverá ocorrer eventualmente), nossa existência será apenas um amontoado de valores tão arbitrários quanto torcer para o Corinthians ou gostar de pagode? Como o Diego apontou, não estou procurando um critério de avaliação de ações, mas sim dos próprios valores que servem de critérios.

    Diego, acho que os valores são memes sim, os valores ligados a instintos são parasitas hereditários humanos, os culturais então nem se fala, como as pessoas costumam conhecer novos estilos de música (ou arte em geral), aprender o certo e errado, convenções, piadas, interesses, e até certos sentimentos senão por imitação/influência alheia? Acho que a imitação compete bem com a utilidade prática na sobrevivência dos valores… e portanto acho que são sim um meme muito bem caracterizado.

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