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Ética, Herança, Propriedade, Há Alternativa?

Faz uns anos que a seguinte questão me intriga: O que seria bom em termos de herança e propriedade.

Uma questão para mim é bastante relacionada: Se tenho uma moeda, e digo que apenas se ela der cara vou usar meu dinheiro para comprar piscinas de plástico, e se der coroa não, deve haver um regulamento diferente para os impostos sobre as escolhas caso dê cara e caso dê coroa?

Em geral as pessoas estão dispostas a dizer que é absurdo condicionar impostos sobre se uma decisão financeira foi ou não feita porque uma moeda deu cara… Uma piscina custa 10000, seja porque deu cara ou porque deu coroa, o imposto sobre ela será 300, digamos….. Não parece fazer sentido nenhum pensar que devemos taxar apenas as caras.

Uma intuição contraditória a essa rege o seguinte princípio: Quando uma pessoa morre ela deve ter grande parte de sua herança adquirida pelo Estado, já que ela era parte da sociedade e isso funciona como distribuição de renda etc…

A razão da contraditoriedade: Digamos que eu tenha meu milhão de reais. Meu amigo Alfredo tem o dele. Eu decido condicionar meu uso de dinheiro segundo a moeda…. Ele decide escrever um testamento em favor de sua filha. Mal sabíamos nós, mas um terrorista maluco estava a distância, e nos moldes de um filme do irmão Cohen, decidira que a vida de Alfredo estava para ser decidida naquela moeda. A moeda dá cara, e após o funeral de meu pobre amigo, que recebera um tiro de sniper, eu compro minhas piscinas.

Ambos os eventos foram condicionados na mesma coisa, mas eu pago impostos normais, e o patrimônio dele é tomado pelo Estado, que diz que é justo e razoável que um dinheiro que não foi ganho pela filha fique com ela, pelo menos não tanto. Em geral é assim que ocorre, principalmente em países mais ricos.

Há uma grande diferença entre dizer que alguém não merece um patrimônio porque não ganhou ele, e dizer que uma pessoa pode gastar o próprio dinheiro com o que bem entender. É estranho que, de todas as coisas do mundo, é quando uma pessoa escolhe gastar seu dinheiro com aquele que criou, ama, compartilha genes e mais quer garantir, que surge uma lei dizendo: Não. Você pode gastar seu dinheiro com BMW, Diesel e Dolce Gabbana, mas jamais, ouça bem, jamais, deixaremos que você gaste (uma parte d)ele com sua querida e amada filha, que saiu de seu ventre, que você viu falar pela primeira vez, ensinou boa parte do que sabe, ama de paixão etc….

Vivemos em uma sociedade que é menos favorável ao gasto de dinheiro com nossos filhos do que, digamos, com prostitutas.

Isso soa doentio.

Por outro lado, não é doentio que não tenhamos um sistema de correção de todas as mazelas sofridas por aqueles que nascem pobres? O mínimo que se espera de uma sociedade não Nietzscheniana é que haja uma tentativa de igualdade de condições de criação. É absolutamente revoltante que alguém nasça com direito a fortuna de um califa árabe enquanto milhares de sauditas famintos não tem acesso a educação por falta de dinheiro.

As duas intuições são importantes, e é bem difícil decidir entre elas.

A questão que se coloca é em parte: Como decidir sobre o direito a patrimônio. Em favor dos seres que virão a existir, ou em de acordo com quem produziu o valor?

Ninguém tem culpa de existir. “Existirmos a que será que se destina?”

Os pais não tem culpa de preferirem seus filhos a roupas da Diesel.

Nesse ponto você já deve ter decidido de que lado está, isso se deve ao fato de que, como todos os humanos, você está sujeito aos bias cognitivos, inclusive:

Need for Closure – the need to reach a verdict in important matters; to have an answer and to escape the feeling of doubt and uncertainty. The personal context (time or social pressure) might increase this bias.

E você acha que tem de estar de algum lado porque sofre do que Dawkins chama de “tragedy of the bicameral mind” a tragédia que é que nossa cognição divide tudo em dois grupos e acha que tem de ser “sim ou não”, “preto ou branco”, “certo ou errado”, etc…. More often than not, você deveria procurar uma Terceira Alternativa

Saíram uns papers sobre pensar em grupo, que dizem que um grupo acha uma solução melhor do que seu melhor membro: “We found that groups of size three, four, and five outperformed the best individuals and attribute this performance to the ability of people to work together to generate and adopt correct responses, reject erroneous responses, and effectively process information,” said lead author Patrick Laughlin, PhD., of the University of Illinois at Urbana-Champaign.

Então, mesmo que você se ache a pessa mais genial do mundo, deixe os outros ajudarem você a pensar para encontrar uma terceira opção.

Para o caso das heranças por exemplo, estou fazendo isso. Não tenho idéia. Me ajudem a pensar!

Inteligência e Responsabilidade Moral

por Jonatas

O livre-arbítrio existe (como decisão auto-determinada), podendo ser contingencialmente mais ou menos restringido qualitativamente, seja por pressões ou sugestões externas ou por condições internas, como o uso de substâncias psicoativas, desordens mentais ou a presença de emoções fortes. No entanto, ele independe da inteligência, contanto que exista um mínimo dela para poder constituir uma decisão. Pode acontecer de a inteligência ser inibida e diminuída, causando decisões menos inteligentes ou menos informadas, mas não deixando necessariamente de serem livres por isso. A inteligência determina a qualidade das decisões, e a qualidade, a partir de um nível mínimo, deixa de ser requisito à liberdade.

A moral instintiva foi condicionada pela evolução humana, cumprindo a função de um substituto improvisado e de qualidade inferior à inteligência, sendo também afetável consideravelmente pelos julgamentos e pelos costumes culturais. Não corresponde a um valor moral real, senão de forma acidental.

Regras morais são variadas, podendo ser jurídicas, religiosas ou filosóficas, e servem como paliativo às insuficiências de julgamento moral individual. Costumam ser inflexíveis, generalizando um raciocínio moral primordial a um determinado conjunto de situações hipotéticas ― daí sua inferioridade, em termos ideais, aos julgamentos morais consequencialistas ― e, no caso de regras morais em vigor em uma sociedade, costumam ter a sua adoção obrigatória imposta por ameaça de punição. Regras morais também são úteis a morais consequencialistas caso se conformem pragmaticamente a seus objetivos.

O melhor comportamento ético não é alcançável pela moral instintiva, nem pelo seguimento das regras morais; consiste na racionalidade de uma ética consequencialista. A maior bondade é altamente dependente de julgamento e de conhecimento, e costuma sempre sofrer de alguma carência nesses dois fatores.

Entre maldade e bondade há uma delimitação absoluta ― dependente da ação que é seu objeto ter um resultado positivo ou negativo em relação à sua ausência ― no entanto, ambos fazem parte de uma mesma escala contínua e admitem variação de intensidade. O resultado ser positivo ou negativo é algo dependente do seguinte julgamento moral utilitário: positivo é aquilo que gera em média uma melhora qualitativa subjetiva dos sentimentos para o total dos observadores relevantes de forma indiscriminada, sendo tanto mais positivo quanto maior for a melhora; negativo, o mesmo, quanto a uma piora. A taxa de câmbio entre sentimentos subjetivos absolutamente positivos e negativos é flutuante e imprecisa devido à sua subjetividade, possivelmente só podendo ser determinada com alguma precisão dentro de um sujeito, para si mesmo. Por isso, pode ser abandonada a distinção entre utilitarismo positivo e negativo.

Os mais perigosos em potencial são aqueles que têm inteligência suficiente para superar as regras morais, e talvez a sua moral instintiva, mas não chegam a criar um substituto racional a elas. Normalmente têm inteligência moderadamente alta, mas isso é variável, pois o desempenho mental nesse âmbito depende de outros fatores como a disposição filosófica e o conhecimento. Para descobrir verdades filosóficas, é preciso inteligência, disposição filosófica e conhecimento, nessa ordem de importância. Pobrezas parciais em uns podem ser compensadas pelos outros, mas só até certo ponto.

A punição tem o único propósito real de ser um controle comportamental psicológico paliativo à burrice. A maldade é sempre redutível a burrice, pois a maldade é sempre ultimamente uma decisão burra. Como a burrice ultimamente não é proposital, entre outras razões, a punição não tem sentido como motivada pela vingança, e serve unicamente para o propósito de prevenção do mal. A sua base no sentimento de vingança deve ser descartada, assim como todas as decisões morais devem ser separadas da moral instintiva. Consonantemente, o sofrimento do ser maléfico equivale em valor moral real ao sofrimento do ser benéfico, devendo ser igualmente evitado se todos os outros fatores forem iguais.

O problema da imaterialidade dos valores

Estava refletindo sobre as implicações do meu último post e cheguei a um problema. Ele está relacionado a como se determinar se algo é bom ou ruim para alguém.

Se os valores são imateriais, isto é, não têm existência independente existindo somente enquanto houver quem os sustente, então todos os juízos se tornam também dependentes, e assim, parece razoável dizer que uma determinada ação só é boa ou má, benéfica ou prejudicial, se alguém assim a julgar. Uma implicação disto é que ações que destroem valores e juízos, ou que impedem que ocorram, deixam de ser julgadas. Por exemplo, suponha que eu mate alguém (instantaneamente, antes que a pessoa perceba que vai morrer) porque isto convém aos meus interesses; como a pessoa que morreu não é capaz de formular um juízo (supondo que juízos de mortos sejam irrelevantes), o único juízo a respeito do caso seria o meu, e que seria bom, portanto, matar a pessoa foi uma ação boa (quem pode dizer o contrário?). E existem inúmeras outras situações deste tipo, incluindo todo tipo de morte ou incapacitação mental intencional, roubar oportunidades e objetos de valor das pessoas sem que elas saibam (como o desvio de dinheiro público), impedir a divulgação de informação e a formação de senso crítico.

Isto me parece ser algo suficientemente contra-intuitivo para nos preocuparmos. Em suma, estou dizendo que não faz sentido dizer que algo é bom ou ruim ou que seria bom ou ruim para alguém se ninguém fez este juízo, esta proposição não tem nenhuma realidade, nunca ocorreu em nenhum lugar, é um crime sem vítima, um jogo sem jogador. Note que não estou falando de como as coisas devem ser, estou falando de como elas são; se não há ninguém para julgar algo como bom ou ruim não há tal juízo.

Isto é contra-intuitivo porque nossa moral não considera apenas juízos que ocorrem; nossa noção de certo e errado em geral é baseada numa opinião hipotética do outro, mesmo que o outro não exista realmente. Também avaliamos contrafactuais, isto é, situações possíveis, mas que de fato não ocorreram, ou ainda não ocorreram. É natural que a moral inclua julgamentos contrafactuais, afinal, ela serve para que convivamos bem em sociedade, o que exige que possamos prever e testar possibilidades condicionais. Assim, embora estas sejam noções importantes na moral, elas não parecem existir na ética. É interessante notar que as religiões não têm este problema, elas o resolvem por meio de um referencial moral privilegiado, isto é, uma moral absoluta (“material”) ou alguém onipresente julgando cada evento do universo.

Resumindo, estou tentando mostrar que embora consideremos moralmente erradas algumas ações envolvendo a destruição de valores (como assassinatos súbitos), elas não parecem ter relevância ética, uma vez que não há quem as julgue como prejudiciais. Mas não creio que isto signifique que nossa moral é inadequada, creio que isto indique que há mais a se considerar, que este raciocínio ignore alguma coisa. Não parece nada razoável que matar ou incapacitar as pessoas seja algo bom desde que seja feito de modo que não tenham como reagir (por exemplo, remover parte do cérebro de uma pessoa sob anestesia). Entretanto não se pode dizer que em algum momento ela tenha sido ruim para alguém. O mesmo vale para o roubo de oportunidades. Onde está a falha?

Não sei. Mas acho que há algumas pistas. Suponha que existam cientistas muito interessados em realizar um experimento científico cujo resultado seja potencialmente útil ao progresso da humanidade, porém tenha alguma chance de extingui-la instantaneamente (qualquer semelhança com certos experimentos reais é mera coincidência), uma espécie de roleta russa da humanidade. Se o experimento der certo, teremos um benefício, se der errado, teremos a eliminação de todos os valores, e portanto algo não avaliado. Como argumentei no meu post anterior, a existência de valores é o que sustenta nossa motivação de vida, e não há sentido da existência humana fora deles, de forma que a extinção de valores é a pior coisa que pode ocorrer, num certo sentido, mesmo não tendo um valor interno ao sistema, e portanto algo que deveríamos considerar como eticamente indesejável, algo muito prejudicial.

Talvez este seja um indício de que não podemos definir o valor ético apenas em função dos valores morais dos sujeitos de um dado instante, e que a ética como normalmente a concebemos requer necessariamente algum outro tipo de fundamento, como alguma forma de valoração dos próprios valores, alguma dependência de instantes anteriores, probabilidades, trajetória, relações causais ou alguma outra coisa. Para mim a questão está em aberto.

Minha crise de valores II

Postei este post no meu blog pessoal, enquanto lá ele expressa uma angústia da minha existência, creio que aqui ele soa mais como um desabafo pessoal da minha dificuldade em enfrentar um fato já bem aceito por vários de vcs.

Esta não é verdadeiramente uma segunda crise, é muito mais o desenvolvimento natural da primeira, agora que compreendo um pouco melhor o problema que propus.

Meu problema agora não é ter percebido que nossos valores são, como havia dito, “racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos”, na verdade, resquícios evolutivos não são uma expressão adequada, como vou argumentar, pois na verdade são o que sustentam tudo o que somos. Tampouco é, como no primeiro, uma questão prática em relação a como me conduzir. Acho que este problema já está se resolvendo. Meu problema é aceitar as implicações do que tentarei explicar.

Valores são coisas às quais atribuímos um valor, bom ou ruim, certo ou errado, válido ou inválido, agradável ou desagradável, sejam elas o que forem: prazer, sexo, conversar, comer, dormir, dinheiro, chocolate, comprar roupas, ficar famoso, ajudar as outras pessoas, matar, violentar, sofrer, morrer. Enfim, são coisas que representam algo bom ou ruim para nós numa dada circunstância. Não precisam ser declarados, nem mesmo conscientes, basta que influenciem julgamentos e decisões.

Valores são o que dão sentido a nossa conduta, são o que nos motivam. Sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, seríamos apenas máquinas sem um uso próprio, sem um propósito. Valores são o que fazem com que procuremos comida, queiramos descansar, procuremos pessoas, compremos coisas, persigamos sonhos. São o que dirigem nossas decisões, o que faz o mundo rodar. Nem tudo o que fazemos, no entanto, está prontamente associado a valores; muito de nosso comportamento ocorre de forma impensada, inconsciente, automática ou involuntária, que não necessariamente se faz por meio valores.

No entanto, estes valores tem de vir de algum lugar, e ao meu ver, todos eles começam no nosso hardware, valores são, em última instância, usos sofisticados de um aparelho biológico feito para motivar comportamentos de sobrevivência. Nós nascemos já dotados de uma porção deles; já sentimos fome, sede, sono, dor, prazer, medo e muitos outros impulsos e necessidades. E o repertório vai se estendendo a cada dia, associamos a satisfação dessas necessidades com alguns objetos, passamos a ter respostas emocionais mais estruturadas, desenvolver sentimentos, aprendemos o que é permitido e não permitido, o que é desejado e repudiado pelos outros, o que é considerado bom e ruim pelas diversas pessoas ao nosso redor. Até que por estes processos de organização, incentivo, reforço, imitação e posteriormente reflexão, acabamos formando um grande e complexo sistema de valores, que leva ao complexo e diversificado comportamento que vemos nas pessoas por aí.

Valores têm características curiosas, por exemplo, têm uma natureza relativa, dependente do contexto e do valor das demais coisas. Afinal, o julgamento de valor é bastante comparativo, analógico. Também são dependentes de relevância, acontecimentos distantes tem um valor menor do que acontecimentos próximos. São bastante sensíveis a crenças (basta ver a bolsa de valores) e a emoções. Há muitas outras características peculiares, mas só quero mostrar que valores não são objetos platônicos, não são contruções racionais bem fundamentadas. Valores são contruções mentais, psicológicas, cognitivas, com o fim de favorecer tomadas de decisões eficientes. E é claro, sujeitas ao modo de operar da evolução natural; é um sistema com uma porção de falhas, mas bom o suficiente para a maioria dos problemas de sobrevivência na história evolutiva humana.

Assim, digo que os valores têm uma natureza pragmática. Alguns valores existem e persistem porque são fortemente ligados a nossa constituição biológica, como sono, fome e sede, e dificilmente sofrerão mudanças, porém outros ocorrem porque os aprendemos durante nossa vida, seja por tentativa e erro, seja por imitação, seja porque alguém nos ensinou, e de alguma forma mostraram alguma utilidade prática, ainda que ilusória (a utilidade de um valor é julgada em relação aos valores previamente adotados e ao seu sucesso em auxiliar na resolução de problemas). Valores que se mostram completamente ineficazes são rapidamente desvalorizados.

Como já deve estar evidente, estou sendo bem geral, falando de um aspecto muito amplo de nossas vidas. Valores morais, materiais, sentimentais, estéticos, sexuais, todos eles entram no pacote (ainda estou um pouco em dúvida se crenças são valores ordinários, ou se são de alguma forma diferentes ou mais fundamentais que os outros tipos). E isto tem implicações dramáticas.

Isto significa que o valor é, em última análise, determinado pelo seu valor prático na vida pessoal. Desta maneira, todo o complexo de valores morais sustentados em nossa sociedade, refletem de alguma forma, crenças sobre o seu valor prático (observe, por exemplo, que não pecar para alcançar o reino dos céus é algo de utilidade extremamente prática, se o indivíduo acreditar). Além disso, são coisas que não tem nenhuma existência independente; a existência de um valor é a existência de pessoas que os adotem. Cometer certa ação é errada, se houver pessoas segundo as quais aquela ação tenha um valor negativo. Caso contrário, a ação é completamente desprovida de qualquer valor e é meramente mais um fato do mundo. Isto relativiza brutalmente todos os valores humanos. Todas as coisas que consideramos certas, verdadeiras, bonitas, valiosas, o são desde que nós acreditemos que sejam, o que, por sua vez, depende de nosso julgamento de sua utilidade prática, ou de instintos biológicos que forcem seu valor. Em resumo, nossos valores são os que são porque nós temos esta determinada constituição biológica e porque, na história de nossa sociedade, estes valores tiveram utilidade prática na vida dos seus indivíduos.

Voltando a questão prática de como se conduzir, acho que esta idéia por si já determina mais ou menos uma conduta, o valor de nossas ações é o valor que as pessoas (nós incluídos) emprestam a elas, nem mais nem menos. Como a decisão da ação é tomada numa perspectiva individual, a consideração do valor que as demais pessoas atribuem, fica a critério do sujeito, de acordo com a utilidade prática que ele veja nisso (o que naturalmente depende de seus outros valores, suas metas, etc).

O problema desta vez vem porque, se o desenvolvimento do homem e da sociedade humana foi impulsionado por valores histórico-biológicos, a existência humana se torna basicamente este amontoado de valores. Nós vivemos para satisfazer valores, e criamos valores para viver. Se por algum motivo perdêssemos a capacidade de dar valor as coisas, tudo perderia seu significado, e a existência do mundo humano deixaria de existir. Assim, são os próprios valores que sustentam nossa existência, nosso significado, o sentido do desenvolvimento das sociedades. E por esta razão, são a coisa que garante nossa própria existência, são uma coisa muito importante, por mais que esta importância exista por ela mesma.

O que eu não entendo é, se a nossa existência depende da existência dos valores, que valores deveríamos escolher? O nosso progresso em satisfazê-los eficientemente (creio que isto seja o que ocorre com o uso intensivo de certas drogas, por exemplo), e em mudar nossa constituição biológica não provocará a destruição da nossa existência? Como fazer para que o nosso progresso em suprir nossas necessidades e desejos não destrua nossa própria existência?
Parece-me muito paradoxal e circular que o sentido de nossas vidas seja dado por valores e que por isto nós devamos preservá-los. Existe algum sentido em querermos preservar nossa existência, a não ser por ela mesma? É isso tudo que somos? Somos máquinas cujo sentido é lutar para continuarmos fazendo este sentido?
Isto me faz sentir meio desiludido com a existência, somos apenas isso? O próximo passo na história do universo na criação de entidades que vivem para si mesmas?
Acho que esta é a questão que tenho de amadurecer até minha próxima crise.

Minha crise de valores

Este texto saiu aquém do que eu gostaria, mas acho que propor o tópico é mais importante do que meu contentamento em expressá-lo otimamente. Também o publiquei no meu blog.

Tenho pensado sobre valores.

Entendo por valores, quaisquer coisas que se valorize, que se ache importantes, que respondam as perguntas: O que você gosta/não gosta? O que você acha certo/errado? O que você acredita/não acredita?

São objetos, pessoas, crenças, atitudes, idéias, sentimentos, sensações e posturas em relação ao mundo. Não estou tratando aqui de valores como números, grandezas, conceitos ou outros valores abstratos.

Os valores determinam o que vou preferir comer, as pessoas com quem gosto de estar, o que farei amanhã, como vou interpretar tal fato, o quanto vou gostar de tal acontecimento, por quais parceiros sexuais irei optar, o que farei da minha vida, que música irei baixar.

Eu estou em crise, porque resolvi questionar meus valores, e agora não sei mais quais e como escolhê-los.

Refletindo um pouco, notei que muitos dos valores adotados pelas pessoas tem um fundo em nossa constituição biológica; nós sentimos fome, sede, excitação sexual, sono, raiva, medo, ciúmes, tristeza, felicidade, prazer e dor, nós nos machucamos, adoecemos e morremos, nós nos acasalamos e temos filhos. Temos instintos de sobrevivência, um aparelho cognitivo e um corpo físico que nos impõem uma série de necessidades e motivações. Por esta razão, durante nossa vida, desenvolvemos gostos, crenças e tendências, que de alguma forma tentam satisfazer e conciliar estes tantos impulsos com o meio onde vivemos.

E nós ocorremos de viver em sociedade, em meio a outros indivíduos, e comunicamos estes valores, convencionamos regras e acumulamos cultura. A existência dessa sociedade, por sua vez, traz mais um monte de relações como cooperação, rivalidade, poder, propriedade, família, amizade, amor, inveja, etc. que por sua vez geram muitos outros valores.

Desta forma, concluí que nossos valores devem advir da confusa dinâmica da sociedade misturada à complicada natureza humana, resultando em uma grande coleção de leis, costumes, princípios e convenções que de alguma forma tentam racionalizar nossos valores de maneira a organizar a convivência social.

Isso me surpreendeu, pois sempre imaginei os princípios éticos e do direito como grandes leis bem fundamentadas racionalmente, e de repente me pareceram muito mais um modo meio arbitrário de separar os espaços individuais requeridos por nossos organismos, que por sua vez devem ter desenvolvido estes impulsos e necessidades pois estes favoreceram suas sobrevivências nas suas trajetórias evolutivas, que pouco tem a ver com suas vidas atuais. Ou seja, os valores que eu considerava tão bons se esfacelaram em racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos.

Foi uma desilusão. Entretanto, pensei que a ausência de valores tampouco é interessante. Um mundo sem valores é um mundo indiferente, sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, não teríamos por que gostar de nada, nossa existência não seria mais interessante, importante, feliz ou desesperadora do que a de uma pedra. De modo que ter valores parece algo bom. E, de qualquer maneira, já que nós temos um corpo que nos traz todas essas necessidades, porque não optar por achar um jeito legal de satisfazê-las do que desprezá-las e preferir o regime da matéria inerte?

Isso me põe na posição em que estou agora, um meio termo bastante indeterminado, no qual considero que é melhor ter valores do que ser matéria inerte e por outro lado, vendo que os valores convencionais são bastante arbitrários. A questão da arbitrariedade não seria um problema tão grande se eu não fosse me deparar e conviver com tantas outras pessoas que discordam das minhas opções caprichosas.

Ultimamente tenho percebido que nem todos os valores são realmente tão adequados assim, certamente não parece bom viver num mundo onde as pessoas se matam o tempo todo, extinguem as demais espécies vivas desertificando o planeta, exercem um domínio egoísta e individualista sobre todas as outras, propagam doenças irresponsavelmente, incitam medo e geram miséria. De forma que temos algumas condições de contorno aí (que embora se baseiem numa impressão intuitiva, me parecem boas e fundamentadas o suficiente). Ademais, parece-me bom escolher valores que me permitam conviver bem comigo e com as pessoas do meu meio, por uma simples conveniência, afinal é preciso sobreviver.

Enfim, não consegui ir muito além disso. Será que não existem princípios realmente fundamentais, intrínsecos a nós capaz de determinar um pacote de valores razoável? Será que todas essas coisas que cremos e queremos são assim tão irracionais, casuais e involuntárias quanto parecem? Parece-me que, uma vez que “ter valores” é melhor do que a “inexistência de valores”, a existência humana, e possivelmente de outros seres vivos, tem algum valor também. Mas o que é que torna esta existência tão interessante? Os fenômenos subjetivos? A nossa complexidade? A nossa imprevisibilidade? A nossa cultura? Os nossos valores? Nada disto está claro para mim.

E mais, provavelmente, num futuro não muito distante, nós sejamos capazes de manipular nossa própria constituição biológica a ponto de poder eliminar, alterar ou acrescentar os impulsos que nos motivam. Poderemos então ser o que quisermos. O que escolheremos?