Uma pequena crise de valores minha.

Pedro e Diego

Pedro e Diego são irmãos, pedro tem 22 anos, Diego tem 12, seus pais se separaram quando Diego tinha apenas 4.

Parênteses são pensamentos. Aspas são ações.

Pedro: - Pessoal, tá na hora, bora ir para a festa? Já tou esperando a vinte minutos….

Diego: - Pedro! Fica aqui e joga videogame comigo?

Pedro: - Não posso Di, vou sair com meus amigos, a gente vai na casa do zé.

Diego: - Mas não vai ser mais legal que ficar aqui e jogar videogame, fica aqui, por favor… eu tou no castelo do chefe, e a gente pode jogar street fighter… Que que vocês vão fazer lá, ficar conversando? (que coisa chata que é ficar conversando…)

Pedro: - É, a gente gosta de conversar (O pessoal vai beber e talvez se pegar também, será que eu devo beber hoje?)

Diego: - Antigamente você dormia mais cedo e brincava comigo de carrinho, de cidade, fica aqui, por favor!

Pedro: - Di, eu tou ficando velho, eu quero sair com meus amigos (será que vai ter alguma mina gata lá? Putz, bem que eu gosto de videogame, e vai ter tanto cigarro….)

Diego: - Gente velha é muito chata, vocês saem, ficam bebendo e fumando, conversam as coisas mais chatas do mundo e falam que tão se divertindo. Amanhã vou com meus amigos no parque jogar frisbee.

Pedro: - (putz, deve ser muito legal jogar frisbee drogado, se pá um dia eu faço isso) Olha, eu sei que pra você parece chato, mas quando você tiver a minha idade, vai entender, a gente não gosta tanto assim de ficar em casa, porque tem o papai, e a gente não quer ficar perto (nem de criança pequena)… (ai ai, bem que eu gostava dessa época, eu assistia tevê e jogava magic comigo mesmo e me divertia muito)

Diego: - Não vou entender nada, você faz isso porque é burro, eu sei que você gosta bem mais de andar de bicicleta do que de ir pra esses bares porque odeia cigarro, você só faz isso porque todo mundo faz… Você vivia criticando as pessoas porque elas não eram criativas, eu consigo criar 5 jogos diferentes em uma hora, e você não quer brincar comigo e só sai com esses amigos.

Pedro: - (acho que vou sentar e atrasar um pouquinho e bater um papo com meu irmão) Olha Di, é o seguinte, antes, eu tinha mais paciência, e eu inventava os programas e chamava as pessoas, agora eu tou que nem o Rafa, cansado de as pessoas não terem respeito nem responsabilidade com os horários que elas falam, então eu aceito fazer o que elas forem fazer, pra não ficar tenso.

Diego: - É, mas fazendo isso você tá se divertindo bem menos, e também, seus amigos gostam de você justamente porque com você é diferente, porque seus programas são estranhos, e não têm drogas… Lembra do Alê te dizendo isso?

Pedro: - Tá, é verdade isso, mas também tem o fato de que agora meus amigos tão muito mais boêmios, não adianta eu tentar de novo criar os programas que eu criava antigamente e achar que as pessoas vão, e além do que, hoje em dia as pessoas só acham que um programa vale a pena se forem 8 pessoas, antigamente, elas se contentavam com 3…

Diego: - Os meus amigos, a Ju, a Lya, o Thi, o Lourenço, o Stevaux o Bruninho e o Florestan são no total 7, e eu me divirto bem mais jogando pique-esconde maluco e gol a gol maluco do que você nas suas festas com mil pessoas.

Pedro: - Isso é o que você acha! (Nossa, ele tá muito certo, que merda… quero entender melhor esse moleque) Porque você acha que eu fico até as 4 da manhã fora quando eu vou nesses lugares? Não é porque eu gosto?

Diego: - Você é bobo, fica indo em cafés e balada e bar e tal só porque você gosta das pessoas, mas nem precisaria, essas pessoas podiam muito bem ir com você no kart, no paintball, no parque, vim aqui em casa ver filme, jogar nonsense….

Pedro: - Olha, em parte você tá certo, eu as vezes fico com medo de não ir nesses lugares porque tenho medo de perder as pessoas, tipo, a Iara, o Feck, sabe, eles são muito legais, mas eles tão nessa vibe idiota de ficar saindo o tempo todo, e agora todo mundo tá assim, na verdade, todo mundo É assim.

Diego: - Nem todo mundo é assim, o Splin, o Davi e o Lucas não são assim, e a maioria se você chamar para vim pra cá ou para fazer algum programa vêm, a Gi e a Iara sempre saem com você.

Pedro: - É, mas como é que eu vou ver o Feck, o Rodrigo Godoy e o Thor se eu não fizer essas coisas?

Diego: - Mas se você não se diverte então você não devia ver eles…

Pedro: - Não é assim que funciona, eu gosto deles, eles são legais, é que tá todo mundo numa fase muito boêmia, eu preferia a fase saúde com a Let, ou jogar tênis com o Bruninho…

Diego: - Tá, então já que os seus amigos tão sendo bobos você tá sendo bobo igual, prometo pra mim mesmo que nunca vou fazer isso. E também não vou fumar nem beber.

Pedro: - Eu dizia a mesma coisa, beber é ruim, mas é engraçado as vezes, o chato é ter que conviver com as pessoas bêbadas, eu tenho que aceitar isso se não não tenho mais ninguém pra sair, hoje em dia todo mundo bebe, todo mundo fuma e fuma maconha.

Diego: - Isso é mentira e você sabe, você até outro dia só andava com gente que não fuma, e quem fumava nunca fumava perto de você, você que tá querendo conhecer pessoas que fumam e indo em lugares que você não gosta. A gente pode desenhar bandeiras!

Pedro: - Tá, hoje eu vou ficar pra conversar com você, quero ver se você entende porque eu faço essas coisas… Ó, seguinte, eu não quero inventar programas, porque dá muito trabalho, demora umas 6 horas para bolar um programa e ligar para todo mundo…

Diego: - Quem é todo mundo? Quantas pessoas?

Pedro: - Umas 35 40…. tá, eu sei, não precisa chamar tanta gente, mas é que todo mundo pergunta, quem vai? E se eu não responder umas 6 pessoas, as pessoas não querem ir, acho que eu não sou mais tão divertido quanto eu era antes, e acho que as pessoas não querem mais se encontrar em pequenos grupos, o que é burrice porque nivela a conversa por baixo, aí como ia ser ruim mesmo as pessoas bebem para que fique menos ruim, e obviamente, só piora. Ou sei lá, se pá eu tou exagerando…..

Diego: - Olha, você sai sim com poucas pessoas, anda de bike com o Renex, conversa com o João, passa dias e dias com a Gi, você não tá só exagerando, tá mentindo pra você mesmo. Eu gosto bem mais de jogar simcity do que de falar com meninas, então eu não fico falando com elas, você não gosta de ir no vanilla mas vai mesmo assim, você é é burro.

Pedro: - Olha tem outra coisa também, se eu não vou nesses lugares, eu sinto que estou perdendo o programa do dia, é como se o dia tivesse passado em branco entende. Não é uma boa idéia perder o programa do dia, porque se eu fico em casa eu me sinto mal, pensando que eu podia ter ido.

Diego: - blábláblá…. vou assistir meus amigos não conseguirem ter uma vida feliz sem ficar bêbados porque isso é bem mais legal que ver o corcunda de notre dame…

Pedro: - Tá, eu não sei direito o que fazer, eu acho mesmo que estou sendo meio idiota

Diego: - Só meio?

Pedro: - Eu entendi… Mas tem outras coisas também, como eu vou conseguir eventualmente conhecer meninas se eu não for nesses lugares?

Diego: - Pensa nas pessoas que você gostou na vida, quantas delas fumavam? Quantas delas gostavam de sair a noite? Quantas você conheceu num programa desses? Você não gosta desse tipo de gente, não para conviver o tempo todo, só as vezes, não é culpa sua que seus amigos viraram isso, mas você não é isso, não interessa o quanto gosta deles, se a ju e a lya começarem a fumar um dia, ou se o florestan ficar indo na balada, eu não vou mais sair tanto com eles, eu vou continuar saindo com o bruninho e o stevaux e pronto.

Pedro: - Você não entende, todo mundo é assim, quando você for grande, até você vai ser assim, exige muuuita energia fazer o que eu fazia de criar programas alternativos o tempo todo. E a outra opção é ser que nem o Davi, o Lucas ou a Sofia, e ficar em casa a maior parte do tempo, eu gosto de sair, eu queria que todos eles não fossem assim. (droga, como eu queria que eles não fossem assim) “lacrimeja e põe as mãos na cabeça” (mas não tem o que fazer, nem é culpa deles, nem minha nem nada, é natural que seja assim, odeio ser o último dos moicanos)

Diego: - Você está sendo duplamente burro, burro de ir nesses programas, e burro de achar que eles não vão mais te ver se você não for, é só fazer outras coisas e chamar eles.

Pedro: - É, mas eu sou inseguro, a Greyce sempre me zoa por isso (saudade da Greyce), eu não sei se eles vão continuar gostando de mim se eu participar só dos programas que não envolvem esse movimento tribal chato (quando eu convivia com a Érica, a Fabi, o Rô o Cid o Luis e o Davi não era assim, mas hoje em dia eles são assim também, fora o Davi, então não tem volta)

Diego: - Desenhei a do Nepal, é a mais legal!

Pedro: - É nada, a da Líbia é bem mais legal…. Passa o vermelho que eu quero desenhar a da Argélia agora, ainda tem argila?

Diego: - Não, eu usei tudo ontem…. Eu e o Florestan ficamos brincando e vendo The Critic, é muito engraçado!

Pedro: - hehe, é, faz mó cara que eu não vejo The Critic, eu só estudo e saio… (nem é verdade, eu faço um monte de coisas boas aqui em casa e tal, eu reclamo de mais. É que nem o Feck disse aquela vez, a gente finge que as coisas tem a importância 10 vezes mais mas nem é verdade, as coisas nem têm tanta importância, a gente acha que tem grandes questões, mas isso é meio delírio.)

Diego: - Tá vendo! Amanha eu vou ficar jogando Mario Party o dia todo, o que você vai fazer.

Pedro: - Ah, acho que vou num piquenique na praça do pôr-do-sol, depois tenho uma festa, aí vou vim pra casa jogar magic…

Diego: - Ó, viu, esse é um dia legal, você deveria ficar mais tranquilo, você fica muito preocupado de combinar as coisas.

Pedro: - (putz, como eu sou burro, ao invés de perder horas inventando programas e ligando para as pessoas, eu acabo perdendo horas descobrindo o programa do dia, eu deveria realmente voltar a planejar as coisas direito, com antecedência e tal. Tou decidido, vou voltar a fazer isso)

Diego: - Tá errado aquí ó, o amarelo é no meio.

Pedro: - Droga… Ei, mais tarde quer meditar comigo, parece chato, mas você vai se sentir bem tranquilo, é divertido

Diego: - Só se depois a gente brincar de lutinha.

Pedro: - Fechado! E o que você vai fazer essa semana?

Diego: - Bom, agora começou as férias né, vou ver Jurassic park 2 que tá no cinema, e vou na casa do Gaba, que eu conheci esses dias, tem mesa de ping pong e red alert ĺá.

Pedro: - E amanhã de dia?

Diego: - Ah, acho que vou ver tevê, vai passar um programa sobre a estação espacial, e vou com a mamãe no shopping, blergh! (se bem que talvez ela me leve no playland)

Pedro: - Acho que eu deveria as vezes ter um pouco mais de rotina, não sei… enfim você tá certo quanto a algumas coisas, e eu estou exagerando. Quando eu tinha a sua idade, eu costumava dar ordens para mim mesmo, dizendo por exemplo: Nunca vou deixar de nadar quando tiver uma oportunidade, nunca vou ficar em casa com preguiça quando puder sair, imagina, tou enfrentando o problema ao contrário agora, não quero sair tanto e fiquei aqui falando com você para perceber isso. Enfim, eu sempre tomava decisões e considerava que as decisões do passado deveriam valer no futuro. Várias vezes eu me desobedeci, agora, sinceramente, recapitulando, eu não vejo que na maioria dessas vezes foi para melhor. Se eu tivesse continuado todas as minhas regras (mesmo sendo obsessivas e tal) eu acho que eu teria me divertido mais.

Diego: - Eu sei que vocês acham conversar legal, mas as coisas mais legais da vida são montanha russa, piscina e jogos e tal. Essas coisas de ficar saindo só por sair é bobagem.

Pedro: - Você vai entender um pouco quando entender o que é gostar de meninas..

Diego: - Os seus amigos gays não gostam de meninas e saem muito mais que você

Pedro: - É mas isso é porque eles também gostam de sexo, foi o que eu quis dizer, você entendeu!

Diego: - Não não tinha entendido, eu achei que só meninas gostassem de conversar…

Pedro: - É mais ou menos….. Sei lá, mas tem algo de estranho acontecendo, e acho que você devia me ensinar a fazer um pouco essas coisas que você faz, voltar a gostar disso! Acho que você só pinta bandeiras até hoje porque você ainda acha que consegue fazer isso bem, eu não faço mais essas coisas que não acho que faço bem entende? Ó tá errado a lua da argélia é pro outro lado.

Diego: - Claro que sabe, o seu desenho tá bem melhor que o meu….

Pedro: - Mas tá pior do que o do arthur e o do alê.

Diego: - E melhor que o do Florestan, que o do Stevaux, que o do thi….

Pedro: - É, eu até que não desenho tããão mal.

Diego: - Que vídeo é esse que você estava vendo.

Pedro: - É de um professor nerd de computação da Carnegie Mellon, é um vídeo que ficou muito famoso porque é a aula final dele, sobre sonhos de infância, e ele estava com câncer e sabia que iria morrer. O nome dele é Randy Pausch, tá no youtube, demora uma hora e pouco.

Diego: - Aposto que ele não sai mais com amigos para programas que ele não quer….

Pedro: - É sem dúvida não….

Diego: - Você viu o filme Antes de Partir, é a mesma coisa…

Pedro: - É, mais ou menos a mesma coisa, chorei muito nesse filme

Diego: - Porque a gente não brinca de escrever os nossos Bucket List, as coisas que a gente quer fazer antes de morrer?

Pedro: - Não sei, acho que talvez fosse mais interessante eu escrever algo tipo um diálogo de mim comigo mesmo criança, para ver como os meus pontos de vista mudaram com o tempo… parece mais complexo e interessante

Diego: - Ah, por favor, agora fiquei com vontade, Ué, escreve o Bucket list e depois amanhã o texto, por favor vai, eu vou pegar as canetas!

Pedro: - mmmm tá bom vai, vamo lá…

Diego: -

1 Subir na escultura que tem entre aqui e a casa da vovó de bicicleta

2 Dar um grito da torre Eiffell < {< significa feito}

3 Ver o museu de dinossauros de nova york <

4 Zerar todos os Marios > {parcialmente}

5 Ir de novo pra a disney <

6 Acabar as provas mais rápido que todo mundo <

7 Ter o melhor deck de magic e ganhar do lucas e do stevaux <

8 Ser um grande cientista ou escritor

9 Beijar a Ju > {vale selinho, conta outros amores?}

10 Ser criança para sempre

Pedro: -

1 Publicar um artigo bom de filosofia ou ciência em um periódico americano

2 Não ter que trabalhar em nada chato

3 Entender o máximo sobre como o mundo funciona e sobre felicidade

4 Continuar perto dos meus amigos de verdade {nota, eu não saberia definí-los}

5 Fazer alguma coisa que eu possa olhar e falar, tá, agora é certeza, eu deixei um bom legado no mundo.

6 Zerar todos os Marios

7 Ir de novo para a Disney

8 Ser criança para sempre

9 Explorar todo tipo de universo ou experiência consciente possível, no mundo todo, na mente toda, e ao longo do máximo da história, passada e futura.

10 Fazer com que as pessoas ao meu redor vejam a vida de uma forma mais criança, e aproveitem toda sua magnitude, de uma maneira similar a minha {não sei em que sentido}

Diego: - Terminei!

Pedro: - Eu também, olha como somos metódicos, os dois deram 10 hahahah……

Diego: - Pois é…. Obrigado por ter ficado aqui comigo hoje, você as vezes não dá importância pra mim e eu fico aqui sozinho em casa.

Pedro: - Oh, vem cá, dá um abraço campeão. Tá na hora de dormir, vamo tomar um toddy que amanha vai passar o que mesmo no Discovery? (tá, se pá eu quero ter filhos)

Quando eu ia nascer, meus pais passaram uma semana decidindo entre Pedro e Diego, se as escolhas fosse entre essas duas etapas, entre esses dois Pedro e Diego, acho que eu prefiro tentar ser um pouco mais Diego. Talvez um Diego que incorpore os sonhos do Pedro, que afinal, são meus sonhos atuais, são as coisas que quero fazer, que gosto.

Essa é só uma entre tantas micro-crises que passam na nossa vida, como as que a Anita descreveu no blog e várias outras…. Seja como for, achei que eu devesse escrever isso para mim mesmo, e dar um olhada em o que afinal o pequeno eu pensa de mim, e quanto eu me importo com ele.

O problema da imaterialidade dos valores

Estava refletindo sobre as implicações do meu último post e cheguei a um problema. Ele está relacionado a como se determinar se algo é bom ou ruim para alguém.

Se os valores são imateriais, isto é, não têm existência independente existindo somente enquanto houver quem os sustente, então todos os juízos se tornam também dependentes, e assim, parece razoável dizer que uma determinada ação só é boa ou má, benéfica ou prejudicial, se alguém assim a julgar. Uma implicação disto é que ações que destroem valores e juízos, ou que impedem que ocorram, deixam de ser julgadas. Por exemplo, suponha que eu mate alguém (instantaneamente, antes que a pessoa perceba que vai morrer) porque isto convém aos meus interesses; como a pessoa que morreu não é capaz de formular um juízo (supondo que juízos de mortos sejam irrelevantes), o único juízo a respeito do caso seria o meu, e que seria bom, portanto, matar a pessoa foi uma ação boa (quem pode dizer o contrário?). E existem inúmeras outras situações deste tipo, incluindo todo tipo de morte ou incapacitação mental intencional, roubar oportunidades e objetos de valor das pessoas sem que elas saibam (como o desvio de dinheiro público), impedir a divulgação de informação e a formação de senso crítico.

Isto me parece ser algo suficientemente contra-intuitivo para nos preocuparmos. Em suma, estou dizendo que não faz sentido dizer que algo é bom ou ruim ou que seria bom ou ruim para alguém se ninguém fez este juízo, esta proposição não tem nenhuma realidade, nunca ocorreu em nenhum lugar, é um crime sem vítima, um jogo sem jogador. Note que não estou falando de como as coisas devem ser, estou falando de como elas são; se não há ninguém para julgar algo como bom ou ruim não há tal juízo.

Isto é contra-intuitivo porque nossa moral não considera apenas juízos que ocorrem; nossa noção de certo e errado em geral é baseada numa opinião hipotética do outro, mesmo que o outro não exista realmente. Também avaliamos contrafactuais, isto é, situações possíveis, mas que de fato não ocorreram, ou ainda não ocorreram. É natural que a moral inclua julgamentos contrafactuais, afinal, ela serve para que convivamos bem em sociedade, o que exige que possamos prever e testar possibilidades condicionais. Assim, embora estas sejam noções importantes na moral, elas não parecem existir na ética. É interessante notar que as religiões não têm este problema, elas o resolvem por meio de um referencial moral privilegiado, isto é, uma moral absoluta (”material”) ou alguém onipresente julgando cada evento do universo.

Resumindo, estou tentando mostrar que embora consideremos moralmente erradas algumas ações envolvendo a destruição de valores (como assassinatos súbitos), elas não parecem ter relevância ética, uma vez que não há quem as julgue como prejudiciais. Mas não creio que isto signifique que nossa moral é inadequada, creio que isto indique que há mais a se considerar, que este raciocínio ignore alguma coisa. Não parece nada razoável que matar ou incapacitar as pessoas seja algo bom desde que seja feito de modo que não tenham como reagir (por exemplo, remover parte do cérebro de uma pessoa sob anestesia). Entretanto não se pode dizer que em algum momento ela tenha sido ruim para alguém. O mesmo vale para o roubo de oportunidades. Onde está a falha?

Não sei. Mas acho que há algumas pistas. Suponha que existam cientistas muito interessados em realizar um experimento científico cujo resultado seja potencialmente útil ao progresso da humanidade, porém tenha alguma chance de extingui-la instantaneamente (qualquer semelhança com certos experimentos reais é mera coincidência), uma espécie de roleta russa da humanidade. Se o experimento der certo, teremos um benefício, se der errado, teremos a eliminação de todos os valores, e portanto algo não avaliado. Como argumentei no meu post anterior, a existência de valores é o que sustenta nossa motivação de vida, e não há sentido da existência humana fora deles, de forma que a extinção de valores é a pior coisa que pode ocorrer, num certo sentido, mesmo não tendo um valor interno ao sistema, e portanto algo que deveríamos considerar como eticamente indesejável, algo muito prejudicial.

Talvez este seja um indício de que não podemos definir o valor ético apenas em função dos valores morais dos sujeitos de um dado instante, e que a ética como normalmente a concebemos requer necessariamente algum outro tipo de fundamento, como alguma forma de valoração dos próprios valores, alguma dependência de instantes anteriores, probabilidades, trajetória, relações causais ou alguma outra coisa. Para mim a questão está em aberto.

Minha crise de valores II

Postei este post no meu blog pessoal, enquanto lá ele expressa uma angústia da minha existência, creio que aqui ele soa mais como um desabafo pessoal da minha dificuldade em enfrentar um fato já bem aceito por vários de vcs.

Esta não é verdadeiramente uma segunda crise, é muito mais o desenvolvimento natural da primeira, agora que compreendo um pouco melhor o problema que propus.

Meu problema agora não é ter percebido que nossos valores são, como havia dito, “racionalizações sociais desajeitadas de resquícios evolutivos desadaptados à realidade em que vivemos”, na verdade, resquícios evolutivos não são uma expressão adequada, como vou argumentar, pois na verdade são o que sustentam tudo o que somos. Tampouco é, como no primeiro, uma questão prática em relação a como me conduzir. Acho que este problema já está se resolvendo. Meu problema é aceitar as implicações do que tentarei explicar.

Valores são coisas às quais atribuímos um valor, bom ou ruim, certo ou errado, válido ou inválido, agradável ou desagradável, sejam elas o que forem: prazer, sexo, conversar, comer, dormir, dinheiro, chocolate, comprar roupas, ficar famoso, ajudar as outras pessoas, matar, violentar, sofrer, morrer. Enfim, são coisas que representam algo bom ou ruim para nós numa dada circunstância. Não precisam ser declarados, nem mesmo conscientes, basta que influenciem julgamentos e decisões.

Valores são o que dão sentido a nossa conduta, são o que nos motivam. Sem valores não teríamos por que fazer nada em particular, seríamos apenas máquinas sem um uso próprio, sem um propósito. Valores são o que fazem com que procuremos comida, queiramos descansar, procuremos pessoas, compremos coisas, persigamos sonhos. São o que dirigem nossas decisões, o que faz o mundo rodar. Nem tudo o que fazemos, no entanto, está prontamente associado a valores; muito de nosso comportamento ocorre de forma impensada, inconsciente, automática ou involuntária, que não necessariamente se faz por meio valores.

No entanto, estes valores tem de vir de algum lugar, e ao meu ver, todos eles começam no nosso hardware, valores são, em última instância, usos sofisticados de um aparelho biológico feito para motivar comportamentos de sobrevivência. Nós nascemos já dotados de uma porção deles; já sentimos fome, sede, sono, dor, prazer, medo e muitos outros impulsos e necessidades. E o repertório vai se estendendo a cada dia, associamos a satisfação dessas necessidades com alguns objetos, passamos a ter respostas emocionais mais estruturadas, desenvolver sentimentos, aprendemos o que é permitido e não permitido, o que é desejado e repudiado pelos outros, o que é considerado bom e ruim pelas diversas pessoas ao nosso redor. Até que por estes processos de organização, incentivo, reforço, imitação e posteriormente reflexão, acabamos formando um grande e complexo sistema de valores, que leva ao complexo e diversificado comportamento que vemos nas pessoas por aí.

Valores têm características curiosas, por exemplo, têm uma natureza relativa, dependente do contexto e do valor das demais coisas. Afinal, o julgamento de valor é bastante comparativo, analógico. Também são dependentes de relevância, acontecimentos distantes tem um valor menor do que acontecimentos próximos. São bastante sensíveis a crenças (basta ver a bolsa de valores) e a emoções. Há muitas outras características peculiares, mas só quero mostrar que valores não são objetos platônicos, não são contruções racionais bem fundamentadas. Valores são contruções mentais, psicológicas, cognitivas, com o fim de favorecer tomadas de decisões eficientes. E é claro, sujeitas ao modo de operar da evolução natural; é um sistema com uma porção de falhas, mas bom o suficiente para a maioria dos problemas de sobrevivência na história evolutiva humana.

Assim, digo que os valores têm uma natureza pragmática. Alguns valores existem e persistem porque são fortemente ligados a nossa constituição biológica, como sono, fome e sede, e dificilmente sofrerão mudanças, porém outros ocorrem porque os aprendemos durante nossa vida, seja por tentativa e erro, seja por imitação, seja porque alguém nos ensinou, e de alguma forma mostraram alguma utilidade prática, ainda que ilusória (a utilidade de um valor é julgada em relação aos valores previamente adotados e ao seu sucesso em auxiliar na resolução de problemas). Valores que se mostram completamente ineficazes são rapidamente desvalorizados.

Como já deve estar evidente, estou sendo bem geral, falando de um aspecto muito amplo de nossas vidas. Valores morais, materiais, sentimentais, estéticos, sexuais, todos eles entram no pacote (ainda estou um pouco em dúvida se crenças são valores ordinários, ou se são de alguma forma diferentes ou mais fundamentais que os outros tipos). E isto tem implicações dramáticas.

Isto significa que o valor é, em última análise, determinado pelo seu valor prático na vida pessoal. Desta maneira, todo o complexo de valores morais sustentados em nossa sociedade, refletem de alguma forma, crenças sobre o seu valor prático (observe, por exemplo, que não pecar para alcançar o reino dos céus é algo de utilidade extremamente prática, se o indivíduo acreditar). Além disso, são coisas que não tem nenhuma existência independente; a existência de um valor é a existência de pessoas que os adotem. Cometer certa ação é errada, se houver pessoas segundo as quais aquela ação tenha um valor negativo. Caso contrário, a ação é completamente desprovida de qualquer valor e é meramente mais um fato do mundo. Isto relativiza brutalmente todos os valores humanos. Todas as coisas que consideramos certas, verdadeiras, bonitas, valiosas, o são desde que nós acreditemos que sejam, o que, por sua vez, depende de nosso julgamento de sua utilidade prática, ou de instintos biológicos que forcem seu valor. Em resumo, nossos valores são os que são porque nós temos esta determinada constituição biológica e porque, na história de nossa sociedade, estes valores tiveram utilidade prática na vida dos seus indivíduos.

Voltando a questão prática de como se conduzir, acho que esta idéia por si já determina mais ou menos uma conduta, o valor de nossas ações é o valor que as pessoas (nós incluídos) emprestam a elas, nem mais nem menos. Como a decisão da ação é tomada numa perspectiva individual, a consideração do valor que as demais pessoas atribuem, fica a critério do sujeito, de acordo com a utilidade prática que ele veja nisso (o que naturalmente depende de seus outros valores, suas metas, etc).

O problema desta vez vem porque, se o desenvolvimento do homem e da sociedade humana foi impulsionado por valores histórico-biológicos, a existência humana se torna basicamente este amontoado de valores. Nós vivemos para satisfazer valores, e criamos valores para viver. Se por algum motivo perdêssemos a capacidade de dar valor as coisas, tudo perderia seu significado, e a existência do mundo humano deixaria de existir. Assim, são os próprios valores que sustentam nossa existência, nosso significado, o sentido do desenvolvimento das sociedades. E por esta razão, são a coisa que garante nossa própria existência, são uma coisa muito importante, por mais que esta importância exista por ela mesma.

O que eu não entendo é, se a nossa existência depende da existência dos valores, que valores deveríamos escolher? O nosso progresso em satisfazê-los eficientemente (creio que isto seja o que ocorre com o uso intensivo de certas drogas, por exemplo), e em mudar nossa constituição biológica não provocará a destruição da nossa existência? Como fazer para que o nosso progresso em suprir nossas necessidades e desejos não destrua nossa própria existência?
Parece-me muito paradoxal e circular que o sentido de nossas vidas seja dado por valores e que por isto nós devamos preservá-los. Existe algum sentido em querermos preservar nossa existência, a não ser por ela mesma? É isso tudo que somos? Somos máquinas cujo sentido é lutar para continuarmos fazendo este sentido?
Isto me faz sentir meio desiludido com a existência, somos apenas isso? O próximo passo na história do universo na criação de entidades que vivem para si mesmas?
Acho que esta é a questão que tenho de amadurecer até minha próxima crise.

Comentários sobre os Flights from Reality

Aqui você comenta os vôos das outras pessoas, comenta o post como um todo, e fala tudo o que não pode dizer no coment do post original.

Divirta-se.

Flights from Reality

Num artigo de mesmo título, escrito para o times dos anos trinta, Russell comenta sobre o habito da leitura, discutindo esses pequenos vôos da realidade, esses desvios possíveis ao quais nos damos o luxo de habitar durante uma leitura de uma boa ficção.

Gostaria de que colocássemos aqui diferentes reflexões sobre esse hábito, não o da leitura, ouçam-me bem. Mas o hábito de deixar-se levar para fora da dita realidade, do mundo de nossos afazeres pleonasmicamente mundanos.

Há diversas maneiras de se sair da realidade, e pelo que aprendi até hoje, cada um dos colaboradores do blog poderia levar-nos, por algum tempo, ao seu nicho particular de viagem, a sua pequena caverna na qual ele desfruta os sabores do poder sobre as forças incontroláveis. O poder sobre as forças incontroláveis caracteriza, em alto grau, a ficção, e acho que quando dizemos que alguém de fato está a avoar-se da realidade, ao menos parcialmente implicamos que esse alguém está desafiando alguma força da natureza.

Os vôos para fora da realidade podem-se interpor através da literatura (e aqui acho que teríamos um pouco de problemas entre os membros para relatar o assunto), da poesia (onde creio que o Thor e o Nagase possam dar boa conta), da arte gráfica (e aqui, pedirei, ainda outra vez, a colaboração do Alê, do Arthur também), dos alteradores químicos de consciência (vários podem contar experiências aqui), do delírio e da loucura (Davi, nosso psicólogo poderia nos auxiliar nesse campo), e também da imersão em pequenos nichos sub-sociais e sub-lunares, nos quais há uma transformação total dos conteúdos de nossas intenções, desejos e frases, em outras coisas (O João poderia falar um pouco da nerdisse, alguém de jogos de computador, eu de Magic, vou pedir a algumas meninas que falem de astrologia como evento social), se alguém aqui é bom de sonhos lúcidos, também poderia relatá-los. Por último, estados auto-induzidos psicologicamente de desafio da realidade, que eu me empenharia em relatar (Por exemplo induzir a si mesmo uma crença estranha, induzir os próprios desejos, induzir-se ao nada, como na meditação).

Peço exceção portanto nesse post para que os comments possam ser grandes (até os convoco a serem!) e sugiro algumas formas canônicas de comentários, para evitar que se comece com “Eu acho que meditar é pior que ser nerd porque … e eu sou nerd porque bla bla bla”. Ou seja, para evitar defesas de pontos de vista e possibilitar apenas intercâmbio de mundos conhecidos:

1 Descrever a experiência como um todo, ex: “Ler histórias de detetive nos leva para …. e a sensação… com as consequências ….”

2 Descrever experiências particulares  “Numa viagem de ácido que tive as cores …. e ouvi as pedras….”

3 Uma abordagem genérica ” O homem busca o imaginário pois….  e a condição humana …. o amor então é … “

Esse post não tem como objetivo ver quem é melhor ou pior nos seus vôos para fora da realidade (então críticas a nerdisse, astrologia, ou drogas, não são bem vindas) seu objetivo é discutir a experiência humana desse desvio do mundo real, e conhecer alguns dos mundos possíveis de se acessar, de diversas maneiras, por favor, não discutam coisas pentelhas, sejamos, a la Alberto Caeiro, “Simples e calmos, como os regatos e as árvores”.

Para garantir, COM CERTEZA que não haverá comentários que não sejam dos tipos canônicos acima nesse post (tipo “A descrição do Thor é interessante porque revela que …”) eu vou postar um outro post que chama COMENTÁRIOS SOBRE OS FLIGHTS FROM REALITY.  E alí devem residir quaisquer meta comentários ou outros que não se encaixem no pré-estabelecido.

Abraços, e não levem minhas obsessões organizadoras à mal.

Um último pedido:  Se você for escrever um coment, faça-o ANTES de ler os que já escreveram, isso evita que sua cabeça fique com uma forma prévia de quanto, como e o que escrever, e diminui a chance de vc não escrever porque já cansou de ler os dos outros.

I

Que as nações tenham de passar por algum tipo de conflito para se formarem como tal não é nem um tributo aos freqüentes banhos de sangue que antecedem proclamações de “países” nem a tentativa de criação de uma “lei histórica”. Será uma lei só se vista através do conceito preciso de nação moderna, quer dizer, para se juntar ao grupo de nações modernas um território precisa passar por um conflito profundo, uma “tragédia sísmica” que o insula e recorta, ao menos nos corações e mentes.

Que as nações tenham se formado em períodos tão diferentes prova que não falamos de uma exigência natural da dinâmica política que se formem estados modernos. Na verdade a tendência é contrária e as forças internas e conservadoras de um território tendem a protelar ao máximo esse processo. O processo também não surge por uma demanda popular ou algum tipo de necessidade interna, mas é o resultado da subserviência de um território atrasado e a reação que se segue. Afinal se Brasil ou Índia se formaram como nações não foi por um ato real de unificação ou por algum resultado de suas dinâmicas internas consideradas por si mesmas, mas se deram em reação a poderes exteriores imperialistas; reação contra a espoliação. É nessa tendência mais ou menos universal que podemos achar uma justificação da tendência mais ou menos universal da exigência de um conflito profundo, de uma revolução, guerra civil para que se constitua uma nação.

A evidência empírica é enorme. Espanha, França, Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália. Américas inteiras - Brasil, América Espanhola e Estados Unidos. Japão, China, Vietnã, Índia. Como exceções notáveis temos por exemplo Austrália e Nova Zelândia, talvez Canadá. Não falamos portanto de nenhum tipo de Lei histórica necessária. Mas é inegável que na grande maioria dos casos um país só é um país após um ou vários tremores em seu âmago.

II

Nota-se rapidamente que fica difícil falar na invenção de um país através de um só ato - tanto um ato “cênico” quanto um ato efetivo. Não é uma batalha ou a assinatura de uma constituição que vão moldar uma nação. O caso dos Estados Unidos salta a vista. Se falamos desse abalo sísmico, onde encontramos em sua história? Seria na guerra de independência, que uniu diversos territórios, etnias, religiões em torno de alguns valores comuns; ou a guerra civil, um espasmo da diferença de territórios antes unidos só por um inimigo comum? Aqui o terreno é mais nebuloso, e teremos de nos expressar beirando a sofística. De certa maneira uma guerra foi a conseqüência latente da outra; uma certa consumação tardia. Mas também foi resultado de um processo de adaptação e homogeneização que não durou somente durante o período oficial de guerra, mas se manifestou nessas como massas de terras sub-oceânicas que aqui e ali, em suas maiores elevações formam montanhas, ou vistas de cima, ilhas.

Portanto em primeiro lugar, reserva e sofisticação no uso desse conceito de “conflito formador”, atenção para seus limites e a atenção da relação de seus elementos com as particularidades próprias de seus territórios. E as conseqüências particulares também…

III

Essa discussão no entanto não é importante pela precisão histórica que ela pode dar ou então pelas simplificações colegiais em que pode incorrer, mas pelas conseqüências políticas e sociais que ela nos ajuda a entender.

O caso do Brasil é emblemático. O país se inventou diversas vezes: Descoberta e formação de instituições coloniais, vinda da família real e transferência da corte, independência formal, inúmeras supressões de revoltas com convulsões internas e guerra do Paraguai, e finalmente o nacional desenvolvimentismo de Getúlio. Cada uma dessas etapas deixou marcas profundas no tecido social, incluindo o fato curioso de o Brasil, país de etnias, religiões e regiões muito diversas ter pouquíssimos conflitos regionais ou separatistas (e não por um pacto federativo bem acabado, pelo contrário,há e houve um centralismo grande de fato). Mas o mais marcante de cada etapa é o fato de que nenhuma delas é uma mudança que vai além do necessário para manter a maior parte da estrutura anterior. A independência só tirou Portugal da posição de intermediário no comercio com a Inglaterra, o Brasil continuou na mesma posição de antes no contexto do comércio mundial e estrutura produtiva. O Getúlio das leis trabalhistas era o mesmo que dizia ser o melhor amigo da Burguesia brasileira, e não seu inimigo. A famosa frase de Leopardi, “tudo tem de mudar para que tudo continue igual”, essa sim tem na terrinha o privilégio de lei histórica. Poderíamos traçar as origens dessa tendência à acomodação em diversos fatores culturais, vindos da tradição ibérica, da ausência de movimento de independência por motivos contingentes, do patriarcalismo das relações sociais , e alguns outros elementos. Mas esse trabalho escapa a nosso escopo aqui. Queremos agora ver as conseqüências desse “comodismo” brasileiro e a estranha unidade aparente do Brasil apesar de seu âmago restar intocado.

IV

O Brasil é um país desprovido daquele espaço ideal do público: res publica. Não há disposição de se sacrificar o pessoal pelo público. Os EUA, país do capitalismo e individualismo por excelência tem sim o seu espaço público, uma convenção de valores e um ideal de nação que permeia toda consciência da nação. Ali não é incomum que se doe dinheiro a universidade que se estudou, que milionários se dediquem a filantropia e criem verdadeiras instituições de pesquisa, artes, desenvolvimento ou cultura. Como em todo lugar há uma boa dose de hipocrisia e a falência desses valores por ali é um processo mais recente, mas ainda assim é um lugar de onde uma figura marginal como Noam Chomsky pode falar de seu país como “greatest country in the world”- O melhor do mundo! Uma coesão social curiosa dadas as diferenças gritantes nas opiniões de Chomsky e a da América média.

Sobre a Europa em geral então a expressão desse ideal é mais gritante e menos necessária. Representações físicas desse ideal, parques, escolas e sistemas em geral, de transporte, educação e todo o mais mostram o grau de sacrifício que o individuo está disposto a se sujeitar pelo público (através de impostos bastante altos as vezes. Imagine dedicar 70% do seu salário ao governo – escandaloso e sueco).

V

Essa inexistência de espaço público é efeito direto da falta de uma força unificadora, um princípio harmonizador que é raramente encontrado em tempos de paz, fora de forças armadas ou guerreiras ou subversivas. São nos camisas negras, nos portadores do livro vermelho ou nos puritanos calvinistas; em toda sorte de iludido idealista (que oxímoro) que se encontra a força e impulso que constituem uma nação. O apagamento temporário das individualidades, das diferenças em vista de algo maior é o que dá origem a uma verdadeira nação, e não uma coleção de indivíduos que acha coletivamente proveitoso subsumir-se legalmente a uma categoria arbitrária de país para ganhar reconhecimento internacional. Os poucos intelectuais que ousavam demandar uma Europa unida eram uma minoria antes que duas grande guerras fizessem ocorrer ao Europeu médio que talvez a etnia e religião do seu vizinho fosse menos importante do que ter um governo central e democrático (enquanto o tal vizinho for um europeu também. Nenhum respeito ao marroquino sujo…).

Nem à direita nem à esquerda o Brasil teve algo ligeiramente apelidável de revolução. Acomodações e cessões esterilizavam qualquer processo e esvaziavam seu significado. O general Golbery entendeu bem as regras do jogo e foi um dos principais catalisadores da criação do Partido dos Trabalhadores, em plena ditadura. Comandou a transição pacífica, conseguiu trancar segredos e fazer com que a transição se desse calmamente, com interesses aqui e ali assegurados. À hora da constituinte, mesmo com o dorso moral que certos deputados lhe conferiam, seu alcance não poderia ser mais do que limitado.

VI

Felizmente as linhas de tensão da história não são uniformes, não há leis históricas ou etapas determinadas. Enquanto o Brasil em muitos sentidos ainda é uma ficção romântica, ele tem forças descomunais e particulares que poderiam no futuro servir de tijolos à construção de um ideal verdadeiro (ou seja, com conseqüências efetivas). Seu apreço pela diversidade (e não uma simples tolerância como na tradição protestante), sua capacidade de juntar sem prejudicar as partes é especial por si, e mais ainda considerando o déficit global desse tipo de atitude. E parece ser o absoluto melhor material para se constituir uma nação, não só mais um entre outros. Arriscaríamos mesmo a dizer que até agora o Brasil se deu ao luxo de se formar tão pouco como nação pela sua potência exagerada pra tal, por um gasto mínimo energia, onde tão pouco impulso constituinte produz uma coesão tão surpreendente? Por enquanto ainda um gigante adormecido, um urso em hibernação. Mas só ursos, não ratos, podem hibernar, e seu despertar é sempre poderoso,

Potencia e vontade de potencia

Conatus: o principio ontologico proposto na Etica de Espinosa de que cada ser visa preservar-se. E aqui o lugar comum aristotelico de que os seres “sublunares“ sao todos corruptiveis é reformulado, ja que todos os modos sao por definiçao insubstanciais, logo causados, e portanto com começo e fim. Importante ressaltar o carater ontologico e nao somente biologico do conceito. Aplica-se a todos os corpos e ideias e outros modos de outros atributos inacessiveis a nos, pobres humanos com acesso a somente esses dois aspectos do real.

Ja vontade de potencia é um bocado mais dificil de definir. Pelas proprias metodologias antipodas de Nietzsche e Espinosa, uma certa ambiguidade proposital, uma evoluçao do proprio conceito na obra e suas diferentes apropriaçoes por diferentes autores de peso. Heidegger dira que ela é uma ontologia escamoteada mesmo no mais critico dos autores, e que a vontade de assenhorear-se das forças e elementos do mundo é uma lei incrustrada no real, no proprio ser, a estrutura mesma do mundo (como pensariamos vulgarmente ser as leis da fisica, ou os designios de Deus retrocedendo alguns séculos). Scarlet Marton diz ser a retomada de uma cosmologia a la pré-socraticos, como Tales, Anaximandro, Heraclito, etc, que construiam seus cosmos (do original grego ordem ou sistema arranjado; oposto ao caos) postulando uma physis, como a agua, o ar e o fogo foram pra aqueles. Ja Carlos Alberto Ribeiro de Moura dira que o conceito escapa a qualquer pretensao ontologica e que Nietzche é sim a ”ultrapassagem” do dogmatismo classico essencialista, como promete, e é somente (mais) uma interpretaçao privilegiada, submetendo esse conceito ao perspectivisimo nietzcheano.
O conceito ainda traz problemas quanto ao seu conteudo. Aqui ha mais consenso sobre se ler a vontade de potencia como uma vontade de assenhorear-se. E esse é um prisma interpretativo que percorre toda a obra nietzcheana madura: em suas analises de Estado e politica, por exemplo quando considera que um poder muito absoluto nao pode senao ter suas partes constituintes se voltando contra si e competindo, mas que a situaçao oposta, de a oposiçao a um poder muito grande gerar profunda uniao; e suas analises dos afetos, das relaçoes pessoais, dos livros e ideias muitas vezes passa por esse mesmo prisma.

Pois bem. A comparaçao dos dois conceitos nao é novidade. Parte do proprio Nietzche, que tem uma imagem shoppenhaueriana do Espinosa (obra mas principalmente vida). A saber, que Espinosa tinha sido um ”tipo” comum do séc. XVII, o ateu virtuoso. Criou-se uma imagem de um contemplador honesto e placido mas que para a confusao dos teologos era ateu (para se ver até onde ja se chegou a vontade de verdade e o refinamento e boa fé do pensamento: como se um daqueles fanaticos americanos a la jesus camp pudesse admitir tal possibilidade ao inves de pensar em absolutos toscos. But I digress…). Nietzche fara uma analise fisiologica e dira que a filosofia espinosana resulta numa etica ascética, como comprovada em sua doentia vida inerte, de um simples amante da verdade imune ao devir do mundo por uma conexao com um Deus ”desprovido de carne”, o mais longe possivel daquele Deus vivente, de Abraao e Jaco, de que falava Pascal em oposiçao ao arquiteto perfecionista e constante de Descartes (a discussao aqui gira em torno dos milagres e de Deus como uma figura antropomorfica). Dira que o conatus ja esta implicito na vontade de potencia, portanto nao o nega, o afirma, mas diz que é uma constataçao obvia e sem valor que algo que quer assenhorear-se e dominar precisa se manter ao menos no patamar onde esta: entra-se em campo pra ganhar, mas na impossibilidade disso, que ao menos se empate!

O conatus espinosano se complica muito mais que a vontade de potencia quando lembramos que para ele o fluxo do mundo é um dado e muito mais complicado que em autores anteriores. Assim, embora as ideias e coisas tenham uma existencia/essencia garantida por serem os produtos inimpossibilitaveis de um Deus que cria absolutamente tudo que pode (ou seja, tudo que pode ser criado por um Deus que pode criar tudo de infinitas maneiras), as coisas ainda tem duraçoes, e nao sao como na tradiçao platonica crista frutos de ideias atualizadas em corpos/almas que tem uma duraçao independente da sua propria ideia, essa sim imortal pois parte de Deus. A Idéia é a coisa e a coisa é a idéia. Mas aqui precisamos entender como algo que morre (nosso corpo e alma) tem no universo uma existencia permanente. A chave aqui é lembrar que a duraçao so existe do ponto de vista da criatura, nao tem valor ontologico, e que o universo visto por deus é um grande solido estatico de quatro dimensoes. Assim dizer que algo existe agora mas nao em 1900 é algo que so faz sentido para uma criatura que ve o mundo como uma secessao de estados graças ao poder imaginativo de seu corpo (em oposiçao a faculdade de pensar que contempla as coisas desde o ponto de vista da eternidade).
Mas voltando ao conatus, nesse fluxo complexo que é o cosmo, nenhum modo (criatura) pode aspirar a uma verdadeira substancialidade, ou seja, a realizaçao desse conatus, que dependeria da impossibilidade de ser influenciado por algo outro que nao si mesmo. o conatus é um principio dirigente, nao um fim, muito menos um fim realizavel. Assim chega-se a imagem estranha de um ser que para preservar-se e si mesmo precisa…modificar-se! Essa imagem cessa de ser tao estranha quando pensamos no ser humano, que precisa realizar multiplos comércios com o ambiente, como a alimentaçao, para manter um (aproximado) mesmo ser. Uma repetiçao e diferença, se quiserem.

Assim a idéia de ligaçao, que parecia separar a vontade de potencia do conatus nao mais o faz. Ela os aproxima.
E nao conseguimos deixar de sentir reminiscencias nietzschenas quando lemos no tratado da emenda do intelecto que a causa da infelicidade dos homens é unir-se(amor-eros) com coisas pereciveis como dinheiro, causas e mesmo amigos, embora ele dedique a esses uma bela homenagem. E podemos facilmente ler que essa uniao é justamente uma junçao de potencias, contida num mundo de forças determinadas em seu conjunto infindaveis (como a reuniao de todos os corpos, que cegamente se chocam, unem, desunem, ou de todas as idéias-mundo cultural- que igualmente se ”chocam”, ”modificam”, etc). E uma concepçao de mundo muito parecida com a Nietzscheana exceto por um detalhe: a opçao que Espinosa da pela busca de uma suprema beatitude, a uniao com algo de imperecivel que permitisse ao homem olhar com descaso para as partes individuais e pereciveis e se consolar com uma visao de totalidade e eternidade do mundo no seu nucleo mais profundo. Se um deus tao sem carne tem algum poder consolador é algo que nos parece improvavel.
Mas e se tirassemos esse Deus, quer pela refutaçao da prova ontologica, quer pela morte mais bem cultural de Deus, quer por uma evoluçao violenta da vontade de verdade que contivesse os dois elementos anteriores. Merleau-Ponty diz que a marca do racionalismo do XVII, aquilo que une desde pascal até espinosa é a crença num infinito positivo (ao contrario do infinito como mera negaçao, como sera considerado depois inclusive pelo proprio MP.
Assim poderiamos dizer que as concepçoes de mundo sao muito parecidas, se ao menos retirarmos a crença num infinito positivo. O que sobra sao forças cegas em choque constante, sem qualquer barreira entre fisico e psiquico e social (o que permite as interpretaçoes verticais em Nietzsche), que se ligam e se separam sem nenhuma totalidade possivel, nenhuma finalidade no todo, ou mesmo nas partes se excluirmos o poder interpretativo de uns macaquinhos arvorados numa pedra no meio da via lactea. é claro que as consequencias éticas aqui sao tremendas. Nao existe tal suprema beatitude, nao existe nada que possa ser designado supremo, o infinito é somente uma virtualidade e sempre se pode ir além. Nenhuma resignaçao nem ascética nem ascética a maneira espinosana ( que nao tem a ver com renuncia ou pureza e portanto nao mereceria esse nome-consultem a ultima proposiçao da Etica pra mais esclarecimentos).

Bem apos esse exagerado e quase nao necessario panorama, preciso ainda assim dizer que conatus e vontade de potencia, apesar de coincidirem parcialmente, so seriam o mesmo principio do ponto de vista de um paranoico que acha que nunca esta suficientemente armado contra o devir,que acumula como proteçao e escravisa para nao ser escravisado. Ou seja, nao é bem assim.

Ha no entanto um principio espinosano que me agradaria mais aproximar da vontade de potencia que o conatus. é a potencia, ou produtividade. Ali onde Descartes trabalha com nada, finito(homem) e infinito(deus), espinosa fara o mesmo, mas dara uma marca a essas constataçoes que sao, no entanto, imediatas: a potencia, intercambiavel pela perfeiçao. Essa igualdade ressalta um lado muito importante de um pressuposto basico espinosano, baseado naquele ainda mais fundante da causalidade estrita e inquebravel entre todos os elementos do cosmos: a de que a perfeiçao nao é somente a capacidade de optar e ai fazer, nao é um direcionamento de forças mas uma eclosao cega de forças tomada em seu valor total. Deus nao seria melhor por evitar criar um mundo com sofrimento, ele seria menos perfeito, nao seria mesmo Deus por nao ter a potencia de criar absolutamente tudo. Perfeiçao é potencia de criar,e so. Caprichos e contingencias nao cabem a ontologia, assim como consideraçoes morais ou outras interferencias do ser enquanto alguma coisa no ser enquanto ser.

E de certa maneira criar é assenhoriar-se, ha uma hirierarquia dada entre o criado e a criatura. Potencia e Vontade de potencia. Potencias plasticas e moldantes. Claro que Espinosa nao prescrevia diretamente essa escalada que significa a vontade de potencia, mas isso porque ele tinha em maos o infinito absoluto, e com ele, o pacote completo do cristao, mas retrabalhado: Deus, beatitude, vida eterna. E nem seu comportamento era tao indiferente ao curso das coisas, como mostra suas preocupaçoes praticas e teoricas em relaçao a politica, seu apreço pela amizade (que no entanto é um amor a algo finito) entre outras cutchi-cutchices do nosso judeuzinho.
Assim, como provavelmente nem ele conseguia se enganar tanto a respeito desse espectro desencarnado que é seu Deus, ao menos no nivel do consolo(da mesma maneira que Nietzsche acusa Schoppenhauer de um descolamento pratica teoria ao denunciar o habito daquele de tocar sua flauta antes de dormir, seu odio pelas mulhers, etc), aplicou sua potencia gigantesca principalmente de pensar a se assenhoriar com uma logica dura e estrita e um medo descomunal das fogueiras inquisitorias das mentes e coraçoes, a ponto de se traçar a ele o começo do iluminismo, de Hegel e Shoppenhauer, o romantismo alemao, a filosofia analitica, kant, e etc o tomarem como um ponto basilar da filosofia, ou seja, Espinosa se assenhorou assustadoramente do pensamento politico e filosofico de eras inteiras. (Se me utilizo de um psicologismo, e quereis me condenar, é porque sois seguidores do metodo estrutural ao que retruco que aqui estou no ”real nietzcheano”, e que vos fodeis).

é isso. Vou salvar voces de continuar essa minha prosa aspera e tosca, errante e coroada com a falta de acentos do meu teclado defeituoso. é um esboço, ou melhor ainda um vomito em prosa, que ainda nao tive a chance de elaborar com um minimo de rigor e estrutura. Por isso redobro o pedido por correçoes e discussoes sobre o assunto, embora seja um bocado tecnico, é tambem bem interessante. E salvo voces agora da continuidade desse discurso ”oscar”

PS: notem que eu podia ter continuado o ciclo vicioso anterior ad nauseum(pensem literalmente, nao deixem o latim os separar do sentido original, e ai voces chegaram ate onde eu podia ter chateado voces). Mas agora, a suprema beatitude do silencio.

Preocupações a respeito do blog.

Estou preocupado com o futuro do blog.

Ele tem sido lido  : )

Ele tem sido comentado  : )

Os temas são interessantes : )

Ele está piorando em qualidade  : (

Ele está ficando mais restrito  : (

Menos gente está postando  :(

Ele está sendo dominado por seres que podem passar 5 horas por dia na net  : (

Proponho as seguintes mudanças.

1 Nova Regra:   Exceto o dono de um post, cada pessoa só pode fazer Dois (2) comments por post. Evitando assim, circularidade, argumentação ad infinitum, e o que é mais importante, perda de paciência dos nossos potenciais leitores externos. Isso vale em dobro para nossos amigos Paralelo e Jonatas, que postam demais, em virtude de sua vinculação internética com o conhecimento.

2 Chamar pessoas de outras áreas (Linguística, sociologia, arte, economia, engenharia) para postar no blog, acho que qualquer pessoa que 3 membros do blog concordem em chamar já está de bom tamanho.

3 Atentar para o fato de que nem Todas as questões do universo vão se resolver aqui, e portanto vale a pena deixar posts em aberto as vezes (ou seja, não levados ao máximo extenuante de tréplicas e etc) para manter os caminhos da mente aberta. Pode-se pensar que isso é só um reforço à idéia 1, e de fato é isso mesmo, uma base fundacional para sua implementação.

4 Manter em mente, ao postar, a correlação inversa entre número de leitores e tamanho do texto. Reduzindo-o ao seu mínimo possível, e as vezes até menos, para poder ter mais feedback.

Abraços a todos. E continuemos o bom trabalho que estamos implementando até agora.

Diego

Administrador, em igual valor de potência aos demais, do blog Brainstormers.

Principio Antrópico e Determinismo

Olá, gostaria mais uma vez de trazer outro tópico de discussão de fora do blog para o blog: A distinção entre o principio antrópico forte e fraco é necessária?

Eu defendo que não, pois nós podemos enunciar um único principio antrópico como aquilo que diz que nossas teorias sobre o universo devem dar conta de explicar o dado empírico facilmente acessível para nós, nós. Eu defendo que a distinção entre fraco e forte: “o fraco diz apenas que, se estamos aqui, é claro que o Universo, o sistema solar e a Terra são o tipo de lugar que propicia estarmos aqui, seja o que for necessário pra isso. O forte diz que, se estamos aqui, então o Universo e tudo o mais DEVEM ser o tipo de lugar que propicia estarmos aqui, como se fosse impossível ter sido de outro modo” (Paralelo) é apenas uma discussão sobre o determinismo estrito e não estrito e, portanto só mistura discussões que deveriam ser mantidas separadas. O Paralelo defende que a distinção não tem a ver com determinismo e sim com contingência e necessidade. Eu argumento que contingência e necessidade é outra maneira de enunciar se algo é estritamente determinado ou não. Por exemplo, num terreno mais exato onde as coisas são mais determinadas como a física do modelo padrão nós podemos dizer que leis como a da mecânica quântica e da relatividade tem que prever um universo que se desenvolva a tal ponto que existam seres humanos. Na biologia as leis da evolução não precisam determinar necessariamente no sentido estrito que ocorram seres humanos, mas sim que isso seja uma possibilidade provável dado o surgimento de unidades replicadoras (de vida). Na verdade então a discussão se torna sobre o quanto sabemos ou não das condições iniciais e das leis e como elas são mais ou menos estritamente determinadas. Ou se aceita como auto-evidente que o enunciado de que necessidade e contingência não tem nada a ver com determinismo é falso ou essa discussão só terá valor se movermos o campo dela para discutir outros tópicos imanentes a ela.

Máquinas de Turing e a mente humana

Uma máquina de Turing é uma máquina que dado um input executa um certo algoritmo composto por certa quantidade finita de passos gerando um output. Por exemplo, uma máquina executando o seguinte algoritmo: “Se Q.I. > 120 então interagir. Caso contrario, não interagir.” O input seria o Q.I. e o output um dado binário de interagir ou não interagir. Uma computação para, chegando a um fim, quando se obtem um output. Certas computações não pararam, como por exemplo “Enumere a serie dos números naturais”.

O objetivo desse texto é demonstrar que existem verdades acessíveis a mente humana que não são acessíveis a uma máquina de Turing. Isso foi proposto inicialmente pelo matemático Kurt Gödel no artigo de 1951 intitulado: ‘Some basic theorems on the foundations of mathematics and their implications’ e posteriormente retomado por inúmeros matemáticos e filósofos como J.R. Lucas, Ernest Nagel ou Roger Penrose. Baseando-se nos meus rudimentos em lógica simbólica reproduzo, numa mera meta-linguagem informal matemática, o argumento dado por Penrose no livro ‘Shadows of the mind’:

Seja a serie de todas as computações aplicadas exclusivamente a n:

s = C1(n), C2(n), C3(n), ….,Cq(n), ….

Defina-se Ξ(x) como: x é uma computação que chega a um fim. Para saber se Cq(n) chega a um fim temos que fazer outra computação A(n,q) que para se e somente se Cq(n) não para:

¬ Ξ[Cq(n)] Ξ[A(n,q)] ( * )

Consideremos o caso especifico q = n:

¬ Ξ[Cn(n)] Ξ[A(n,n)]

Mas A(n,n) pertence a serie s, ou seja, é uma certa computação aplicada exclusivamente a n. Assim: A(n,n) = Ck(n). Segue que:

Ξ[A(n,n)] Ξ[Ck(n)]

Consideremos o caso n = k:

Ξ[A(n,n)] Ξ[Cn(n)]

Para não contradizer * segue que: ¬{Ξ[Cn(n)]}. No entanto isso não é decidível usando-se A(n,q) - pois ¬ Ξ[A(n,n)] e disto seguiria que Ξ[Cn(n)] - e é uma verdade matemática. Logo a mente humana chega a verdades que ultrapassam qualquer sistema computacional. Gödel mesmo afirma, no interior de um enunciado disjuntivo: “the human mind (even within the realm of pure mathematics) infinitely surpasses the powers of any finite machine”. Um algoritmo de uma máquina de Turing pode ser visto, como ressalta Gödel, como um sistema formal de axiomas. Assim, isso é apenas uma outra maneira de enunciar o teorema da incompletude, seja ele:

“Let Κ be any class of formulae. We denote with Conseq(Κ) the smallest set of formulae that contains all formulae of Κ and all axioms and is closed under the relation immediate consequence. Κ is called ω-consistent if [there is no formula a with one free variable where we can derive a(n) for all n, but also ¬ ∀n . a(n), a contradiction. Ou seja: ω-cons(A) = ¬∃a [(A ├ a(n))^(A ├ ¬a(n))]] (…)
Theorem VI: For every ω -consistent primitive recursive class Κ of formulae there is a primitive recursive class-sign r such that neither forall(v,r) nor not(forall(v,r)) belongs to Conseq(Κ) (where v is the free variable of r).” (Gödel(1931), On formally undecidable propositions of Principia Mathematica and related systems)

A diferença é que da forma que eu apresentei se está evidenciando uma de suas conseqüências. É interessante notar que no geral o que está prova faz é mostrar que um algorítimo A(q,n) que decida se algorítimos param falha quando o algoritmo em questão é ele mesmo, em outras palavras substituindo em *:

¬ Ξ[A(n,q)] ↔ Ξ[A(n,q)]

é uma contradição. Para que ω-cons(A(q,n)) seja valida temos que assumir que a finitude ou não da computação A(n,q) é indecidivel. Talvez isso seja de alguma maneira equivalente ao segundo teorema da incompletude que diz:

“For any well-defined system of axioms and rules (…) the proposition stating their consistency (or rather the equivalent number-theoretical proposition) is undemonstrable from these axioms and rules, provided these axioms and rules are consistent and suffice to derive a certain portion of the finitistic arithmetic of integers.” (Gödel(1951), Some basic theorems on the foundations of mathematics and their implications)

Ou seja, a consistência de um sistema é indecidível dentro do próprio sistema.

Citando o artigo de 1951 mais uma vez:

“This requirement for the rules and axioms is equivalent to the requirement that it should be possible to build a finite machine, in the precise sense of a “Turing machine”, which will write down all the consequences of the axioms one after the other. [Ou seja eles estarão fechados sob a relação de conseqüência imediata.] For this reason, the theorem under consideration is equivalent to the fact that there exists no finite procedure for the systematic decision of all diophantine problems of the type specified.”

Solomon Feferman, matemático e editor das obras completas de Gödel, aponta que o autor do artigo citado acreditava que, considerando a matemática enquanto conjunto de verdades demonstráveis- em oposição a matemática enquanto sistema formal consistente -, era possível produzir uma decisão sistemática para todas as equações diofantinas(Conferir:aqui) e que a mente humana superava qualquer máquina finita. Apesar de considerar que as 3 possibilidades da proposição “mente humana supera qualquer maquina finita V existem problema diofantinos insolúveis” serem possíveis. Fererman, ele mesmo, defende que ambas os termos da disjunção são verdades.

Não estabeleci ainda se das conclusões feitas nesse texto segue - como quer Penrose em seu referido livro - qualquer outra conclusão sobre a mente humana além do fato de ela alcançar verdades incomputáveis por máquinas de Turing. Entretanto, existe algo que queria ressaltar que esse argumento indiretamente valida e que pode parecer estranho aos mais precipitados em saltar para questões filosóficas, mas triviais aos acostumados ao pensamento lógico. Ele valida que existem sistemas formais e que eles geram uma certa serie de enunciados que são verdades matemáticas – ou seja, maquinas de Turing são sistemas eficientes de gerar verdades - e ele invalida que exista um único sistema formal que gere todas as verdades – ou seja, uma única maquina de Turing alcançando todas as verdades. Gostaria agora de fazer uma especulação que, portanto não vai estar imbuída do grau de certeza que esse texto teve até aqui, grau esse que o texto derivava de traçar precisamente conclusões de teorias bem estabelecidas e que agora não ira derivar de maneira tão precisa (cabe salientar, no entanto, que a minha apresentação do teorema de Gödel foi extremamente informal e tosca, tendo sido feita por mero acidente do objetivo principal que era explicitar o argumento de Penrose). Extrapolando os domínios da matemática pode-se dizer que isso nos faz chegar à conclusão de que a mente humana pode ser uma máquina composta por varias máquinas de Turing que jamais podem ser consistentes entre si, ou seja, a mente humana é multiconsistente. Ocorre que se pode adotar também a outra postura possível, ela ser regida por um único sistema axiomático em momentos discretos de tempo, mas o exercício do entendimento é justamente de expandir essa consistência; essa posição é enfraquecida pelo fato empírico de que se pode obter muito sucesso prevendo o comportamento de certos módulos cognitivos baseando-se no argumento que a mente é uma máquina de Turing constante – por constante entendo que não expande seu sistema de axiomas – e que se disso segue que é provável que de fato partes da mente trabalhem sob a perspectiva de ter um sistema fixo de axiomas e ser computacional. Dado a ausência de um atual ‘sistema da mente’ me parece provável que ele não exista e na verdade a mente é multiconsistente. Seja a suposição altamente provável de que existe uma unidade no sujeito faço a suposição de que uma das funções da consciência seria então definida em ser o conjunto de enunciados multiconsistêntes que enunciam a consistência de cada sistema (modular ou não) axiomático do cérebro e a busca por um nível mais abstrato de consistência entre os sistemas. Conclui-se ao final que a atitude que alguém deverá ter diante da vida é se preocupar com tornar consistentes dois sistemas não consistentes e assim sucessivamente, dado que na posteridade do ponto de singularidade o estrito poder computacional das maquinas ultrapassara os de um ser humano e todas as conseqüências de um sistema axiomático poderão ser traçadas de uma maneira mais eficiente (quem sabe até posteriormente e num futuro não tão distante, esses sistemas também poderão ser testados empiricamente, conquanto que o teste for definido mecanicamente como de fato muitos testes de teorias físicas bem conhecidas o são) que a qual um ser humano é capaz. Atualmente pode-se dizer que boa parte da humanidade se dedica a tais tarefas que poderão ser realizadas por maquinas, eu não me dou esse luxo. No meu ultimo texto postado aqui proponho minha pirâmide de categorias para organizar o conhecimento humano e digo que não sabemos sobre o vértice. Evitei declarar a existência do vértice para escapar a critica de Nietzsche e, pois não poderia declarar de modo algum que o que o vértice seria teria qualquer correspondência com o real, como conseqüência ele não seria verdadeiro por essa definição. Agora declaro a existência do vértice como mera entidade ontológica necessária ao conhecimento humano, seja ela a atividade de achar consistência. Essa tese seria comum tanto às teses ontológicas predominantes da tradição dialética que rege parte da estética e algum terreno obscuro da moral - i.e.: a tensão contraditória da negação - e também as teses ontológicas matemáticas que regem a física - i.e.: o principio de não contradição. O principio da não contradição e da tensão dialética não são auto-excludentes, só há uma mudança de foco de como proceder frente a conhecimentos que já podem ser certos – excluindo totalmente qualquer rastro de inconsistência - e conhecimentos que ainda não temos nenhuma perspectiva de certeza e determinismo – admitindo certo grau de indeterminismo inconsistência na teoria; a observação de Popper de que a dialética perde sentido se o principio da não contradição é negado em absoluto parece conssoar com esta proposição. (Conferir: O que é Dialética In: Conjecturas e Refutações) Os conhecimentos físicos são os mais certos e bem estabelecidos, logo, como de fato ocorre no conhecimento, temos que fazer o conteúdo se mover dentro da minha pirâmide indo da estética, passando pela moral e chegando finalmente ao reino da física. A pirâmide jamais perderá dimensão, se tornando um plano da moral, ou uma reta da física supondo a vida de entidades conscientes no universo como finita.