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Germe da negação do sujeito em Kant

Não é necessário recorrer a Adorno e Horkheimer para observar a importância que a experiência tem na formação do sujeito na medida em que ela o nega e o reconstitui. A necessidade destes autores está na crítica dessa experiência na atualidade. Ela é falsa ou verdadeira? Cabe sem duvida recuperar este conceito de experiência para entender o que se quer dizer em Kant e Hegel para entender a experiência. O conceito de dialética fica ai inerente.

O germe da dialética do sujeito, que se consolidou em Hegel: “… tudo decorre de entender e exprimir o verdadeiro [do objeto] não como substancia, mas também, precisamente, como sujeito”, já estava instaurado em Kant. O “eu penso” de Kant deve em sua trajetória da apercepção do objeto ir de passivo de volta a ativo à consolidação como eu penso. Trajetória descrita na seguinte citação: “A unidade sintética da consciência, (…) tem de estar submetida toda a intuição, para se tornar objeto para mim, porque de outra maneira e sem esta síntese o diverso não se uniria numa consciência”. A síntese do diverso, no entanto pressupõe, na constituição do eu penso, um sujeito objeto (passivo): “… me conheço a mim próprio como objeto pensado…”. Este sujeito passivo quando fez a percepção da realidade e se torna objeto, na verdade percebe a si próprio, como posteriormente discorre mais demoradamente Kant, e, portanto se constitui[i]. De fato a citação próxima é um dos poucos momentos em que se fala desse sujeito-objeto até o final do Livro Primeiro da primeira divisão da Lógica Transcendental. Em Hegel esta negação do sujeito será constituinte essencial do esquema do processo dialético. Posteriormente esta negação se torna a própria essência da Dialética Negativa.

O conceito, resultado do abandono da vaidade libertaria do pensamento abstrato frente a materialidade na qual está imersa e é custoso para ela se elevar, só pode ser efetivado no processo dialético sincronicamente a reversão do sujeito enquanto sujeito, que se toma objeto e do retomo deste objeto a si mesmo como sujeito. Processo descrito por Hegel na seguinte passagem: “No seu comportamento negativo, que acabamos de ver, o próprio pensar raciocinante é o Si ao qual o conteúdo retorna; porém, no seu conhecer positivo, o Si é um sujeito representado, com o qual o conteúdo se relaciona como acidente e predicado. Esse sujeito constitui a base à qual o predicado está preso, e sobre a qual o movimento vai e vem. No pensamento conceituai o sujeito comporta-se de outra maneira. Enquanto o conceito é o próprio Si do objeto, que se apresenta como o seu vir-a-ser, não é um sujeito inerte que sustenha imóvel os acidentes; mas é o conceito que se move, e que retoma em si suas determinações.” Neste desenvolver ocorre também o processo em que: “… o sujeito passou para o predicado, e por isso foi suprassumido; e enquanto o que parece ser predicado se tornou um massa inteira e independente, o pensamento já não pode vaguear livremente por ai, mas fica retido por esse lastro.” A experiência foi resumida na conhecida passagem: “Experiência é justamente o nome desse movimento em que o imediato, o não-experimentado, ou seja, o abstrato – quer do ser sensível, quer Simples apenas pensado – se aliena e depois retoma a si mesmo.”

O tema Dialética do Esclarecimento e Dialética Negativa já não são mais o objetivo desse texto. É conhecida a frase “Verdadeiro é o todo” em Hegel e sua reformulação por Adorno “O todo é o não verdadeiro”. A segunda é desenvolvimento da primeira. No próprio pensamento hegeliano da Fenomenologia do Espírito; em que o todo deve ser negado constantemente – pois só no fim é que verdade, fim este igual ao fim do circulo, – negação esta contígua ao cume da totalidade do Saber Absoluto onde o saber a verdade coincidem; há quase uma ambivalência entre o Saber Absoluto e o processo que o constitui: a dialética semovente.


[i] “Ora, como para o conhecimento de nós próprios, além do acto do pensamento que leva à unidade da apercepção o diverso de toda a intuição possível, se requer uma espécie determinada de intuição, pela qual é dado esse diverso, a minha própria existência não é, sem duvida, um fenómeno (e muito menos simples aparência), mas a determinação da minha existência [omitiu-se um asterisco com correspondente nota de rodapé] só pode fázer-se, de acordo com a forma do sentido interno, pela maneira peculiar em que me é dado, na intuição interna, o diverso que eu ligo; sendo assim, não tenho conhecimento de mim tal como sou, mas apenas tal como apareço a mim mesmo. A consciência própria está, pois, ainda bem longe de ser um conhecimento de si próprio, não obstante todas as categorias que constituem o pensamento de um objeto em geral pela ligação do diverso numa apercepção”

PS1: Há uma ligação muito mais obvia e usual entre a dialética hegeliana e as categorias kantianas que é expressa no Prefacio da Fenomenologia: “O conceito da ciência surgiu depois que se elevou à sua significação absoluta aquela forma triádica que em Kant era ainda carente de conceito, morta, e descoberta por instinto” (p. 55). Penso que Hegel faz ai uma referencia a como as categorias kantianas já revelam um processo dialético na medida em que em sua organização a categoria terceira sempre parece dar conta da primeira e da segunda ao mesmo tempo, e.g.: as três categorias de modalidade: (1) possibilidade – condição formal -, (2) realidade – concordância das condições formais com o conteúdo – e (3) necessidade – interconexão entre as condições formais e de conteúdo -; ou seja, ai tem-se que a necessidade é quase um momento de síntese dialética entre a universalidade abstrata da possibilidade e a materialidade da concordância com o conteúdo da realidade.

PS2: acho que fica faltando uma continuação sobre esse tema na Dialética Negativa. Quando estiver animado prometo uma continuação.