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O Mundo é GRANDE!

Pretendo sumarizar um conjunto de hipóteses metafísicas nas quais eu realmente acredito (Sim, de verdade, eu creio no que estou escrevendo), todas elas se referem ao mundo parecer um pouco maior do que imaginamos normalmente:

1 O solipsismo é falso: Existem outras pessoas.
Uma boa razão para acreditar nisso é que é mais simples que haja um universo regido por leis físicas simples do que somente uma mente sem nenhuma lei causal simples.

2 O Localismo é falso: Existem lugares como o Japão e o Acre.
Mesmo raciocínio.

3 A interpretação dos muitos mundos da física quântica é verdadeira:
A interpretação dos muitos mundos da física quântica é superior as demais por ser mais simples e preservar parcialmente o caráter determinista da realidade. Num resumo simples ela postula que sempre que a função de onda fosse entrar em mais de um estado possível, ela de fato entra em todos os estados possíveis. Essas ocorrências se dão em universos distintos, sem contato nenhum de nenhuma natureza. Noutras palavras, existe um outro você que não está lendo essas palavras agora num universo muito “distante” e inacessível.

4 O argumento da simulação é verdadeiro:
O argumento da simulação defende a hipótese da Matrix. Em suma ele demonstra que ou 1) Nunca vamos simular universos populados (super simcities), ou 2) Vamos criar leis super rígidas para simular muito poucos universos, ou 3) Devemos acreditar que há uma chance bem maior do que 99% de estarmos vivendo numa simulação.

5 O princípio antrópico é verdadeiro em relação as cordas:
Existem muitos universos concebíveis constituídos pelas cordas previstas pela teoria das cordas, estes universos podem estar em muitos estados (estimados em até 10 elevado a 500) de estabilidade energética. Dentre esses universos, o nosso tem as condições que tem porque, se não tivesse, não poderia comportar seres humanos. Ou seja, parte das leis da física são como são porque nós estamos aqui. Elas de fato são diferentes em outros lugares, mas lá ninguém está olhando.

6 A teoria dos universos bolha é verdadeira
Seja o que for que causa big bangs, pode ser que ocorram novos, e que o nosso tenha antecessores. O nosso big bang pode estar dentro de uma bolha que cresce muito mais rápido, gerada por outro big bang. Como o gás num refrigerante que parece surgir do nada. Só que uma bolha poderia surgir dentro de outra (essas bolhas poderiam variar no nível da energia das cordas, se as cordas forem parte de uma boa descrição da realidade, ou no nível do que quer que constitua o nível físico mais primordial). Novamente, nosso universo tem a cara que tem porque nós estamos nele, dentre as infindáveis bolhas.

7 O espaço é infinito em extensão
Se o espaço é infinito em extensão, e existe uma probabilidade maior do que 0 de que um universo seja criado numa quantidade finita de espaço, então existem infinitos universos. Mais especificamente, existem todos os universos possíveis fisicamente.
Uma consequência interessante é que se o número de configurações físicas possíveis num determinado espaço é finito, então existem infinitos universos iguais ao nosso.

8 O tempo é infinito em extensão
O mesmo que o de cima.

Note que a operação entre essas hipóteses (todas) é de multiplicação (porque uma não exclui a outra), o número que a anterior permite deve ser multiplicado ao próximo para obter o número de universos existentes. (Para quem não conhece, existe matemática dos infinitos, então o que eu disse não é absurdo).

7 A hipótese de surgimento espontâneo de mentes é verdadeira:
Se nossas concepções sobre flutuações de vácuo e buracos negros estiverem certas, dado suficiente tempo, um buraco negro pode gerar espontaneamente um cérebro num determinado estado, logo todas as observações são feitas não só por pessoas que estão de fato fazendo aquela observação, como também por cerebros flutuantes prestes a serem esmigalhados no vácuo que por um acaso raríssimo (imagine ganhar na loteria em todas as loterias da história ocidental, isso é fichinha perto do nível de raridade que estou falando). Devemos por tanto atribuir um percentual não nulo de crença a hipótese de que só existiremos por mais alguns microssegundos, sempre.

8 A hipótese do universo matemático é verdadeira V O realismo modal é verdadeiro:
Não tenho certeza se essas duas posições são a mesma porque partem de perspectivas epistemológicas diferentes. Se não forem, acho que são incompatíveis, e minha tentação é pender para o lado do realismo modal, apesar de admitir que a hipótese do universo matemático parecer, segundo nosso conhecimento atual, mais simples.
A hipótese do universo matemático conjectura que o universo é constituído de entidades matemáticas. Entidades matemáticas somente possuem propriedades relacionais, e portanto elas existem simplesmente em virtude de sua própria existência. No apêndice eu dou um argumento técnico para isso. Pense que “2+3 =5” “dois mais três igual a cinco” e “two plus three equals five” dizem a mesma coisa, referem-se as mesmas entidades, que são propriedades que são unicamente relacionais, e não intrínsecas. Se ela for verdadeira o tempo não tem direção definida e podem existir universos, por assim dizer, virados para o outro lado em relação a nós, entre outras coisas interessantes.
O realismo modal é uma proposta filosófica de que todos os mundos possíveis são reais. Um bom argumento para isso é pensar que se existem infinitos mundos possíveis, porque só um deles é real. O que lhe atribui realidade? Ele tem algum princípio primordial de realidade? Não há razões para crer nisso, então todos os mundos possiveis devem ser reais.

Porque acredito nisso

Aceito o que eu chamo de postulado da simplicidade, que é a hipótese de que o que é mais simples é mais provável do que o que é mais complexo. Por mais que não pareça a primeira vista, uma análise minuciosa de todos esses argumentos de uma perspectiva simplificadora leva a crer em sua veracidade. Nosso conhecimento do mundo, em termos físicos e filosóficos (inclusive filosofia da matemática) começa a nos levar a lugares que nunca imaginamos antes, como esses que relatei acima. O fato de que essas hipóteses são contra-intuitivas não diz nada sobre o quão verdadeiras elas são, mas diz bastante sobre como a evolução darwiniana não necessita de nos dar intuições sobre a natureza última do mundo, mas simplesmente intuições sobre a natureza última da melhor estratégia para roubar a comida daquele lobo e comer com nossos filhos.

Que diferença isso faz

A maioria faz bastante. A que faz mais diferença é de longe o argumento da simulação. Se estamos vivendo numa simulação, podemos ser desligados a qualquer momento, alguns defendem que portanto devemos tentar fazer coisas importantes, ser mais egocêntricos, e ficar mais perto de pessoas importantes e sermos nós mesmos importantes, para não cair em uma área da simulação que os Criadores não estejam interessados em continuar simulando (por exemplo o acre) e sermos desligados. Esse argumento pressupõe que os criadores estão simulando sua história evolutiva e nós somos os simulacros ancestrais. Eles também poderiam estar simulando a produção de proteínas em fígado de pato, e portanto seria bom ficar perto de patos, mas isso parece pouco provável. Também devemos estar aterrorizados com o prospecto de que uma vez que criemos uma superinteligência computacional (o que deve acontecer ainda nesse século) a capacidade computacional dela pode exaurir a do computador no qual ela está sendo processada, obrigando o sistema a encerrar operações (ou seja, nas portas do transhumanismo que nos levaria ao paraíso, seremos sumariamente desligados e substituídos por uma tela azul da morte.)
A interpretação dos muitos mundos da quântica é divertida porque nos leva a pensar que temos uma escolha entre vários futuros possíveis, o que é legal. Evidente que essa escolha não é como o livre-arbítrio cristão, mas e daí, é legal mesmo assim.
Se o princípio antrópico valer para cordas e universos bolhas, tanto melhor, isso nos faz saber que tem toda uma galera por aí se perguntando as mesmas coisas que a gente, e deve ter uns universos icosadimensionais irados, que talvez faça com que os matemáticos possam falar “Claro que eu estudo uma coisa que existe!” O grave problema é que, por sermos uma dentre as milhões de civilizações do multiverso que sobreviveu até agora, não temos nenhuma capacidade intuitiva de prever e erradicar catástrofes que poderiam destruir a espécie inteira. Por exemplo, temos mais medo de aranhas, cobras e leões do que de carros, que matam muito mais, imagine então quão pouco medo temos de asteróides, aquecimento global, nanotecnologia devoradora de particulas auto-replicantes etc… quase nada. E no entanto esses são os maiores perigos do século que virá, fora sermos desligados.
Não quero deprimir ninguém, mas tem um lado negro na interpretação da quântica. Existem muito mais estados futuros possíveis em que o seu cérebro desagrega do que em que ele se mantém estável. Então de alguma maneira você está morrendo constantemente trilhões de vezes. Por outro lado, você não tem a menor idéia disso nenhuma vez. Então ou você fica triste por estar morrendo sempre, ou feliz porque o que você chama de morte final não é muito diferente do seu dia a dia. Por outro lado, você pode imaginar que está escolhendo o seu futuro, o que é legal.
Se cérebros podem surgir por aí no espaço infinito, por exemplo cuspidos por um buraco negro, então todas as observações possíveis são feitas. Segue que devemos parar de achar que as coisas são coisas, e passar a acreditar que existe uma chance enorme de que elas sejam coisas, alguma chance de que sejam coisas dentro de uma simulação (que por sua vez pode estar em outra etc…. ) e talvez não existam, sejam apenas ilusões que o buraco negro que cuspiu seu cérebro a dezesseis segundos está experienciando por acaso. Isso tem implicações interessantes para a epistemologia e filosofia da ciência.
Se a hipótese do universo matemático for verdadeira, o fato de que experienciamos o tempo em direção ao futuro só se deve ao fato de que os padrões de relação entre as particulas no espaço quadridimensional no qual estamos se torna menos complexo nessa direção (a famosa contra-entropia que as vezes é usada como definição de vida). Gosto de pensar que nesse caso todo o resto do universo é consciente ao contrário, na outra direção, na qual sua entropia está diminuindo, assim como está diminuindo a de nossas mentes, isso era algo que eu nunca tinha dito pra ninguém.
O realismo modal é muito louco, absolutamente tudo que não é logicamente contraditório ocorre, inclusive, evidente todas as hipóteses acima, a não ser que elas tenham uma contradição ainda não descoberta. O fato de que existimos é uma evidência interessante de que algo existe. E se algo existe, porque aquele algo e não outro algo?
Acho que nesse ponto o leitor deve estar pensando, e porque diabos você fica pensando nessas coisas? Acho que a melhor reposta para isso é que todas essas idéias são incrivelmente mais mágicas, interessantes, sofisticadas e maravilhosas que qualquer coisa que você veja na tevê, ou que seus amigos te digam, ou que você conseguisse pensar sozinho. Além do que, conseguir de fato conceber essas idéias e não ignorá-las, levá-las em conta, viver de acordo com suas consequências etc… é algo que exige pessoas extremamente inteligentes, que conseguem perceber o quanto as implicações disso fazem diferença em como devemos agir, e essas pessoas precisam impedir os desastres que podem acontecer a todos se ninguém se dedicar a isso. E no mais, é simplesmente muito legal.

FIM

Apêndice Técnico, intelectual, etc…. (não leia caso tudo isso aí em cima tenha te parecido absurdo, ou incompreensível):

Os filósofo David Lewis, Peter J Lewis, Papineau e outros discutem as muitas mortes da física quântica em uma série de artigos com títulos sobre o gato de schrodinger e quantas vidas ele tem, que podem ser encontrados digitando how many lives schrodinger no google.
O físico do MIT Max Tagmark, em textos fáceis de achar em seu site, defende a hipótese do universo matemático bem como interpretação de Hugh everett da física quântica contra as clássicas críticas de ausência de conteúdo empírico, etc…
De longe o principal filósofo a pensar esses assuntos é Nick Bostrom. O argumento da simulação é dele. E ele formalizou matematicamente o argumento do dia do juizo final (temos 95% de chance de sermos extintos em menos de 5 mil anos) Ele trabalha todas essas hipóteses, inclusive falando sobre éticas em mundos infinitos, o que devemos fazer, etc etc… tudo isso pode ser encontrado no site dele.
Os físicos John D Barrow, Martin Rees e Typler também discutem algumas hipóteses de grandes mundos.
O filósofo David Chalmers, com base no argumento da simulação de Nick Bostrom faz uma defesa de que a hipótese da Matrix não é uma hipótese cética (ou seja, nossas crenças não se tornam todas falsas se ela for verdadeira) similar ao argumento sobre o cérebro num vaso de Hilary Putnam.
A razão pela qual a natureza dos objetos matemáticos é puramente relacional é um pouco complicada. Se a estrutura deles é somente uma estrutua sintática, ou seja, uma estrutura de manipulação de símbolos, então cada elemento é constituído das relações que ele forma com os demais. O que o determina é justamente suas relações com os demais e a estrutura dessas relações. Wittgenstein argumenta que, assim sendo, não se pode pensar esses objetos sem suas relações, e não se pode falar sobre eles. Esse argumento me parece falso. Suponhamos que os objetos se constituam através de uma serie de relações, que formam uma estrutura, uma vez que a estrutura está montada, eu fixo um designador rígido (Kripke 1980) que designa aquele objeto em particular. Uma vez que esse designador rígido está fixado, ele pegara o mesmo objeto em todos os mundos, e isso independe dos demais objetos com os quais este tenha uma relação, que para Wittgenstein seria impossível. Se no entanto só existir uma intensão epistêmica (segundo a two-dimensional semantic framework) para cada objeto sintático, a crítica de Wittgenstein é verdadeira.
Se você entendeu esse parágrafo anterior, te pago um jantar. Ele serve, entretanto, para mostrar como é suja e hedionda a estratégia dos pós-modernos de escrever aquilo que não é inteligível. Escrevi em analitiquês, então é possível entender, e faz sentido, mas o fiz de maneira tão pouco limpa e clara que parece pós-modernês.

O mundo pode acabar

Dentro em pouco pretendo postar um texto que escrevi já faz um tempo sobre Sabedoria e Inteligência, no qual argumento que ambas são movidas, de alguma maneira, pela capacidade de pensar no longo prazo.

Interessantemente, as vezes, coisas de longo prazo tem um efeito violento no nosso curto prazo, e sequer somos capazes de prevê-las.

Esse sujeito, por outro lado se dá ao trabalho de prevê-las, e propor soluções.

É realmente importante que as poucas mentes capazes de compreender essas questões se voltem para elas as vezes, and so, I give you: