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Meus palpites sobre inteligência

Em  Crime e Castigo, numa das melhores cenas, Raskonikov(o assassíno) e um interlocutor estão conversando. Raskolnikov frio e resoluto começa a expressar suas teorias, até ali só aludidas no livro. Diz ele que enquanto a maioria das pessoas está submetida aos costumes e leis, uma categoria de homens não muito abrangente pode se agarrar a uma legalidade superior, derivada de fins maiores, e simplesmente quebrar a lei. Napoleão é o exemplo áureo do livro inteiro.

Mas quero me prender aqui principalmente à discussão da produção dessa categoria de homem. Raslkonikov postula uma lei da natureza que garantisse a raridade e dispersão desse tipo de homem, e que talvez no futuro se poderia encontrar o mecanismo exato dessa produção.

Esse homem é definido um pouco de modo um pouco abrangente, mas o principal é que tem características de liderança, vontade firme e inteligência.

Pois bem, hoje me parece (pois não tenho a base pra comentar mas peço que os cientistas do blog o façam) que há como ao menos aceitar como possível tal teoria, e elucidar até certo ponto esses mecanismos. Afinal Dostoiévsky escreve quase um século antes da descoberta do DNA.

Além disso, os fundamentos parecem melhor explicáveis, com a teoria da evolução e o conhecimento do estado “”normal”” do homem, o 99% de tempo de sua existência que passou como coletor-caçador, em bandos de 25-50 homens e normalmente nômades.

É que as características de inteligência, liderança e descaso as regras, que tem uma função importante para a comunidade, tem uma importância que atinge um pico em um determinado número de indivíduos, e depois decaí, chegando a ficar negativa.

Afinal um indivíduo mais inteligente e rebelde é importante para ultrapassar a tradição quando essa ficou obsoleta, para criar novas, para codificar mitologias, enfim, para contribuir com a inteligência para a comunidade. Talvez 2 o ganho seja ainda maior. Mas a partir de um número n, o ganho estanca, e começa a abaixar. Afinal a falta de uma liderança clara, excesso de sectarismo e disputa, a falta de solidez, choque de egos; tudo o que parece advir inevitavelmente de uma produção excessiva de Raskolnikovs.

Aquelas figuras maximizadas de brócolis, que são fractais; a teoria de expressão de genes (eles estão lá mas podem ser engatilhados ou não) e o fato de que uma célula tronco espera estímulos complexos do ambiente antes de se determinar; tudo isso me diz que existem regras complexas entroncadas na nossa natureza que regulam um complexo jogo de surgimento e articulação não só destas, mas também das outras características análogas. Dando um exemplo vulgar: se na comunidade já há um inteligente, sua liderança e outros efeitos suprimem a aparição da mesma característica nos outros indivíduos. Esses poderiam ter o gene por exemplo, mas que não se expressasse por falta de um gatilho necessário.

É claro que imagino a coisa ser muito mais complexa. Mas é interessante visualizar.
Outro problema é a questão da cultura. Pois com a ultrapassagem desses exemplos a-históricos e a consideração das sociedades agrícolas e urbanas, ou seja, dos aglomerados atípicos (para a genética); e principalmente a cultura, a coisa muda de figura. Podemos até dizer que a cultura foi em parte um remendo a uma espécie vivendo além de seus meios (genéticos) e que visava dinamizar os estímulos de maneira a manipular essas condições genéticas puras. Mesmo ambiente rural continua mais gente que os pequenos bandos da idade da pedra. Mas ali a necessidade de inteligentes audaciosos talvez fosse menor, proporcionalmente, que a dos bandos. Em compensação em uma cidade a necessidade de artesões, magistrados, etc é maior e portanto talvez seja interessante separar a inteligência da audaciosidade. Tudo isso exigiria uma espécie de “ilusão”(se pensarmos a idade pré-histórica como a norma de realidade), uma inversão de sinais e potencias dos estímulos e suas apreensões que “apertando os botões certos” efetuasse a mágica cega da maniupulação dos genes.

Ora, e se a memética tem alguma verdade; se idéias boas são as que sobrevivem e fazem seu hospedeiro sobreviver é altamente inteligível esse cenário anterior. É claro que ainda há outros papéis para a cultura (as lendas sobre o terrível lobo, ou a idéia de que os que perderem a vida terão prazer ao lado da divindade), não acho que ela é redutível a essa ilusão mas é fútil dizer que parte dela não está envolvida nessa operação. Somos análogos àqueles animais que criaram proto-patas e sairam da água, não inteiramente adaptados a nenhum dos dois. Nossa genética é muito mal equipada para lidar com as condições de vida pós revolução agrícola, e esse é um processo que vem se acentuando. Paralelamente avança a parte da cultura.

Fico por aqui, só com um apêndice. Se esse modo de raciocinar está correto, legitima-se a forma de pensar patologias psiquiátricas como tendo uma raiz mais que significativa na cultura, e não ser só uma instância individual e particular. Isso ajudaria a explicar, como fazem alguns psicanalistas, o absoluto surto de doenças psiquiátricas, que vem aumentando ano a ano.

Israel

Esse post é um adendo do anterior.

E aqui quero tratar de duas questões distintas mas interligadas. A primeira é o standing moral de Israel. De sua orígem, de suas ações,de sua própria existência.

Em segundo lugar quero tratar de sua capacidade de existir continuada.

Começo com a primeira falando que sou um convicto anti-zionista. A idéia de pegar um povo mutilado e massacrado e enxertar em uma terra com donos e especialmente disputada e valiosa, é nada menos que imbecil. Dou um desconto para aqueles judeus que saídos de campos e da Europa em geral viram a necessidade de um estado próprio. Realmente os ventos ainda não eram favoráveis em lugar algum. É por isso que o mundo inteiro devia ter vetado essa empreitada estúpida, assim como fariamos no mais que fabular cenário de levar os pobres sudaneses afligidos por uma guerra étnica terrível e metermo-los em Manhattan, deixando o Brooklin para os nativos.

Mesmo assim, até hoje discordava de uma resolução da ONU que esteve em vigor por muito tempo e que equacionava o zionismo ao racismo. Em meus argumentos anteriores constava o fato de que Israel deu cidadania a muitos palestinos, em Jerusalem por exemplo, nas colinas de Golã, etc. Além disso tem 20% de árabes em seu parlamento. Não é como se a África do Sul tivesse negros no parlamento ou ministérios.

Alguns fatos já perturbavam essa opinião, como o fato de que árabes de facto não podem renovar suas construções em Jerusalem, e caso se mudem de Jerusalem, perdem o direito de ir morar ali. Há sim, portanto, cidadãos de segunda classe. Varias outras instituições garantem que a posse de terras, entre outros, sejam cuidadosamente alocados em mãos judias.

Mas foi a leitura do livro do Chomsky, chamado Piratas e Emperadores, que me fez concordar com a tal resolução. Não há racional possível para o estado de Israel hoje que não precise se utilizar de alguma diferença qualitativa entre os estados Israelense e árabes, que não tenha um fundo racista. Elas são das mais variadas, e a mais leve é:

Israel é um estado democrático (pelas razões que já elenquei acima) de direito, ao contrário da pletora de estados ditatoriais e brutais que o cercam.-as vezes com o adendo: deixado à mão dos palestinos essa terra reverteria a um país atrasado.

-Um estado democrático não mantém regiões trancadas, sem direito a voto, de passagem, de protesto, de consciência e expressão. Pois essa é a paisagem nas desoladoras Gaza e Cisjordânia. Além disso, essa afirmação implica que uma etnia-árabe- é por natureza mais bruta ou selvagem, e/ou sua religião inferior, selvagem ou bárbara.(um rapido olhar sobre as praticas haredis judaicas já anula esse tipo de olhar superior)

-Além disso a falta de democracia ao seu redor foi Israel que ajudou a criar: O Libano, numa ação direta, alguns outros como reação indireta àquele corpo estranho.

Daí pra frente os argumentos só pioram, com teores religiosos- normalmente o velho Deus nos prometeu essa terra, ou explicitamente racistas.

A segunda parte dessa questão complicada da situação moral de Israel passa por um inventário relativizado de suas ações. Sobre isso indico a mesma leitura acima(só para estômagos fortes) e afirmo somente que deve ser incrivelmente triste para um sobrevivente do holocausto ver seus filhos se tornarem os algozes. E para Moisés, se esse ainda vê, ver a idolatria de uma faixa de terra se elevar acima de preceitos básicos como não matarás.

Sobre a questão imensamente mais complicada da existência continuada de Israel, acho aqui que essa nação não é viável a longo prazo. Falo isso sem considerar se é justa ou não a existência de Israel exceto onde a percepção do mundo ajude ou atrapalhe, pois em grande parte ele concorda comigo.

Na verdade as opiniões do mundo são as mais variadas. Os EUA tem uma devoção forte, fruto de décadas de propaganda favorável (consultar Chomsky sobre isso também), um alinhamento da teologia cristã com o apoio  incondicional de Israel, e principalmente um forte apoio e influência política da enorme colonia judaica americana (~5 milhões). A Europa ocidental é defensora dos moldes clássicos do estado, pré 67, mas sua opinião pública guarda um razoável desagrado pelo desprezo Israelense a considerações humanitárias. Também odeiam a continua quebra de suas soberanias por agentes do Mossad. Já para o Leste, a partir da Austria, o anti-semitismo é forte, e na Russia, enorme. O resto dos países tende a se alinhar como a Europa ocidental (Brasil é especialmente vocal ai, mas Chile, Argentina, etc seguem).

Ponto de consenso é que brusca ou suavemente a participação dos EUA no mundo em todos os sentidos tende a diminuir. Em 46 os EUA detinham metade da economia mundial. Desde então essa proporção vem baixando, mesmo que eles mantém um crescimento saudável. Uma nova configuração do cenário internacional vai se montar, com o poder de barganha da Russia bastante aumentado, um EUA tentando lidar com sua decadência relativa, aumento do poder de Brasil e do cone sul em geral, com vozes de esquerda. O mundo árabe terá aumentado um pouco, concentradamente nos microestados da Arábia. Mas o petróleo continuará a ser uma grande peça de troca.

O importante é a ascenção da China e Rússia aqui, além da reversão da unipolaridade. Essas mudanças de que falo são lentas, e mesmo sem qualquer ameaça de bomba trocada, vão se operando nos varios foros de debate internacional, nas influências, nos programas de ajuda, intercâmbio. Ora, para qualquer país que considere somente relações comerciais, o pragmatismo chinês por excelência, o 1 bilhão de muçulmanos supera os dispersos, embora ricos, judeus, especialmente na questão do petróleo. Essa é uma posição que será gradualmente exercida pelo Japão, a medida que esse começar a ter opiniões mais próprias. Os árabes não são pragmáticos e são exclusivistas, e se tiverem mais poder de barganha (e com o óleo mais escasso, terão)usarão. Rússia, como disse, é provavelmente o país mais anti-semita e não se incomodaria em ver os chechenos perderem um de seus principais argumentos de revolta. A China tem um problema parecido com os Uigures. Uma consideração especial para a Igreja Católica, essa é fragmentária, mas tem lados flagrantemente anti-semitas. O papado, que importa no entendo, é de neutro para europeu.

Mesmo assim Israel ainda é uma economia dinâmica, com apoios bilionários ao redor do globo e o exercito de longe mais bem equipado da região. Além de bombas atômicas, que só o distante Paquistão pode rivalizar. E parte de sua população, boa parte, é fanática e não sairia dali a não ser morta. E o apoio dos EUA ainda serão massivos, mesmo que em 20 anos sua proporção da economia mundial baixe significativamente.

Por isso mesmo só pelo soft power se consumirá lentamente a economia e instituições do país. Mas internamente há dois grandes problemas.

-O primeiro é a polarização cada vez maior em torno dos assentamentos. Uma pequena parte dos israelenses vive nos assentamentos, que são enclaves em território além do de Israel (em busca de uma grande Israel, ou um Lebensraum. Qualquer semelhança é mera…), mas que geram a maior parte da confusão. Os Israelenses modernos e conscientes não acha certo servir em um exercito massacrando palestinos por causa de alguns fanáticos religiosos cuja idéia de constituição civil é o velho testamento. A polarização começou a chegar a tal ponto que a organização dos assentados agora retalia qualquer ataque palestino a um assentamento tanto nos palestinos como em organizações de paz. E a verdade é que essas organizações de paz e os israelenses modernos em geral são a cobertura e álibi de Israel no seu marketing internacional de Europa cravada no meio dos bárbaros. Quem se compadeceria dos radicais? Com os desafios externos aumentando, tanto econômicos quanto militares, essas tendências tendem a se exacerbar, e vislumbro até uma parte do movimento de paz e dos cosmopolitas israelenses emigrando. As duas israeis só coexistem na irmandade militar exigida de todos, e no sonho obsoleto de seus avós visionários. A visão parece cada vez menos realidade e talvez os netos e bisnetos desistam se a condição for a guerra incessante.

-Outro ponto fundamental são os árabes internos. Israel já tem 20% de árabes e uma proporção igual em seu parlamento, que no fundo acabaria com o estado, se tivesse o poder. A verdade é que as projeções demográficas projetam que essa proporção vá a 30% até 2020, o que inviabiliza um governo sem a participação deles quase, e torna um terço da população do estado inimigos deste. Com uma demografia assim, o país parece menos viável, e foi exatamente o que Ariel Sharon percebeu quando saiu de Gaza e tirou os assentamentos dali: seria inevitável dar direitos políticos dentro do estado de Israel aos habitantes daquele território, e eles só ajudariam a compor uma maioria de palestinos.

Ora, você poderia me dizer, e no caso de um processo de paz bem sucedido. muito do que eu disse não faria sentido.

Não acredito em um processo de paz  por uma série de razões. A primeira é que a direita está muito forte em Israel, e tende a continuar e se radicalizar. Afora isso, os Palestinos ja perceberam essas tendências e advogam cada vez mais a saída do estado único, sabendo que se for concedido em poucos anos eles terão maioria e liberarão o direito de retorno, efetivamente acabando com Israel. Além disso  Gaza e a Cisjordania estão divididas, e não há sequer um lider de centro em Israel com a mínima vontade política. O clima não é para paz em lugar nenhum. E o Hezbollah vai atirar misseis não importa o que.

Mas comentem por favor, que acham

No filme “O declínio do império americano” somos apresentados a um grupo de intelectuais, nos anos 80, que discutem e preparam uma reunião do grupo´à mesa de um jantar . A ligação com o título é implicada, e a minha interpretação é que as tendências culturais como a hipersexualização e liberalização dos costumes deixou uma geração mal situada e desorientada, entre um pólo tradicionalista e outro liberal. O diagnóstico seria parecido com o que fizera Khomeini da sociedade ociental: essas tendências vão corroer a fibra social e a massa amorfa resultante não conseguirá se impor uma direção, resolver seus problemas, estará paralisada enquanto os interesses particulares consomem o estado, ou sociedade.

Na sequência do filme, 20 anos posterior, o diretor reúne o mesmo grupo e mata seu protagonista. Lentamente, para um câncer, ele sucumbe cercado de seus amigos lembrando de seus bons tempos de militância política e artística. O filme se chama As invasões bárbaras, e daí vemos que ele avança no seu diagnóstico em uma analogia com Roma. Mas o 9/11 é somente brevemente mencionado. É dessa vez a morte de uma geração de intelectuais, resignados na apatia ou isolação que marcaria o nosso periodo. Dos sonhos utópicos ou não dessa geração sobrou um pragmatismo amedrontado e uma incapacidade de sonhar na nova geração, ali representada pelos filhos dos personagens.

É no domínio virulento do coração do império (EUA) por uma burrice conceitual acompanhada por treinamento técnico, que ele mesmo realizou aquilo que Khomeini e outros tanto visaram: uma gama de engenheiros, cientistas, matemáticos, etc. sem no entanto o senso crítico que costumam ter as classes intelectuais. A tese de Denis Arcand (o diretor) a meu ver é de que se engendra a olhos vistos uma nação, e um sistema global, pois o sonho de Khomeini continua impossível. A destruição da verdade através da propaganda, da exacerbação dos signos, da polemica sofística em suma, tem consequências, e um país que tenha Sarah Palin em seu cargo supremo age contra seus interesses. E a verdade é que o governo por ali está cheio de aparelhamentos que fariam os sindicalistas catapultados ao nosso tupiniquim governo federal parecerem posdocs de Harvard em comparação. (Quem quiser exemplos basta ver os novos promotores federais e as escolas de origem, ou a Harriet Myers, que tentaram por na Suprema Corte).

Já é fácil ver como é difícil para eles tomarem uma decisão em conjunto, não importa quão vital seja. Uma série de elementos, como petty politics domina o espaço público cultural, e a própria percepção de tempo se acelera através dos bônus trimestrais para CEOs e as hipotecas renovadas a cada seis meses. Não conseguem dar um mínimo de assistência social à população e vivem na verdade sob um capitalismo excludente que só não se mostra assim porque prende os descontentes (a maior população carcerária do mundo em termos relativos e absolutos de longe!).

Vendo sob esse prisma, imagino um doente, que se afasta cada vez mais das possibilidades de cura. Uma mudança muito profunda no próprio centro da cultura americana, quanto a consumo, renda, mas principalmente política. E essa mudança é necessária em escala quase global. Mas é mais interessante ilustrar a imobilidade no coração da cultureconomia mundial.

Dois limites se impõe nessa espiral descendente: China e o meio ambiente.

O aquecimento global e a escassez de recursos forçarão uma maior internacionalização não só do Capital e da informação, como vem acontecendo, mas de poder efetivo governamental. Alguns minerais já vão começar a acabar, o petróleo está quase ou já passou de seu pico de produção e o “estoque de ár poluível” do mundo já está no negativo, por assim dizer. Medidas governamentais fortes serão tomadas após algum tipo de coordenação muito forte, talvez depois de algumas guerras. O importante da questão aqui é que essa distribuição exige uma certa paridade, ou talvez até algum peso em direção aos em desinvolvimento, caso contrario pode have uma possível guerra. Enfim, o que quero dizer aqui é a necessidade de RACIONALIDADE na tomada das decisões, que é facilmente desvirtuada em campanhas políticas e no processo político como nos o conhecemos.

É aqui que entra a China. A China passou séculos autocentrada e aperfeiçoando seu sistema de serviço civil. A forte tradição confucionista encontrou um grande revés em Mao, mas com esse por fora Deng Xiaoping o levou a perfeição. Os burocratas são incentivados fortemente a serem impecáveis, caso contrário podem simplesmente ser executados. Pelo lado dos incentivos, tem prometida uma carreira estável e promissora se apresentarem resultados, mas são compelidos a ficar somente um determinado tempo em cada cargo, especialmente nos do topo. Isso evita personalismos e ambição desenfreada.

Essa estrutura bem feita, com muito mais detalhes que eu sei e posso descrever, conseguiu feitos inigualados na história da humanidade, como tirar pessoas do nivel de pobreza as centenas, ter o maior numero de mestrandos do mundo e por uma universidade nos top 10 do mundo; tudo isso em bastante pouco tempo. Mas isso todos já sabem. A questão é que tudo isso foi feito exatamente por um governo racional, pelo menos numa medida maior que as nossas. Eles também conseguem limitar o número de filhos por mulher, algo necessário no mundo inteiro mas impedido por influências malignas como a igreja católica. O que me lembra, na China essas influências são mínimas! Ali a Igreja existe, mas sob a denominação de Igreja patriótica apostólica romana, e a cuidadosa supervisão governamental. Supervisão que, durante o periodo classico e moderno inteiro, o governo teve e que impediu a hipertrofia de crenças sobrenaturais em organismos desafiadores.

Com os desafios populacionais e ambientais mundiais o modelo Chinês vai ser cada vez mais sedutor ao Ocidente, especialemente à medida que esse cultivar uma aparência mais democrática (mas com cuidado, afinal foi a reação, ou o esforço de tornar a democracia palatável para as elites que corroeu as inteligências nacionais). Com 10, 12 bilhões de pessoas, metais acabando, petróleo escasso como no mundo de Mad Max o petty politics como o ateísmo de alguns, a maconha de outros, enfim, tudo o que compõe uma pessoa inteligente e a impede de controlar as massas ingratas, terão de ser jogados fora, talvez eleitoralmente, talvez por meio de golpes leves, enfim, quando a merda atingir o ventilador, vai ser alguém com um paninho, e não uma cruz, que vai ter de limpar.

Hard cash

Hobbes, no Leviatã, cria uma teoria politica de um Estado que para se manter saudável mantém um poder quase absoluto, inclusive sobre a propriedade. Já Locke, que escrevia enquanto envolvido no coup que tirou James II (um católico absolutista) do poder, afirmou a inviolabilidade da propriedade. Ele traça uma causa histórica para fundamentar essa inviolabilidade:

No começo todos tinham seu pedaço de terra, tanto quanto pudessem cuidar. Em um certo momento a moeda é inventada e a acumulação começa. O processo é inteiramente justo dada sua origem fundamentalmente justa.

Locke foi um dos autores mais lidos durante a revolução americana, e os documentos dessa era revelam essa influência. A partir dele surgiram as varias tradições politicas anglófonas e um certo liberalismo que perdurou nesses países. Também pela forma “natural” que se deu a industrialização dos dois países, houve menos contestação e pode perdurar essa linha de pensamento liberal, elitista e essesncialmente amoral, já que os países reformados continham uma miríade de tradições e vertentes religiosas e essa esfera, ao contrário do mundo católico, foi introjetada no mundo privado. Essa relação amigável de ideologias também as sustentou e moldou mutuamente.

Pois bem, dois outros fatos são importantes na nossa trilha. O primeiro são os bancos. O banco é uma invenção antiga, mas que gerava uma profunda desconfiança: foi banido na França após alguns golpes oportunistas, e alguns founding fathers o chamavam de imoral. Na Europa eles custeavam as carissimas guerras do séc. XVIII, e eram de certa forma vitais. Nos EUA o desenvolvimento foi mais tortuoso. Um saudável fluxo de exportações, minas gigantescas de ouro encontradas e outros elementos fizeram do banco uma necessidade. Mas aquela ideologia da inviolabilidade da propriedade ainda pairava, mas surpresa e chocada, com o desafio que agora lhe era proposto.

Afinal, um banco é, uma instituição que intermedia empréstimos de dinheiro. Mas ele faz isso guardando uma soma de dinheiro, e emprestando outra. Elas não precisam coincidir, então efetivamente o que se está fazendo é na verdade criar dinheiro. É claro que existe um grande problema possivel: se todos forem recolher seu dinheiro ao mesmo tempo, o banco quebra, ou seja, não consegue pagar todos os seus devedores.

Esse é o problema. Todos são adultos e dispõem da sua propriedade livremente, mas de certa forma a estabilidade e permanência que tinha a propriedade antes desaparece. E há todo um debate sobre se se está roubando ou desinformando os clientes. Até o fim do séc. XIX nos EUA ainda há um debate forte contra bancos e principalmente contra a reserva federal, a instituição que leva o sistema bancário a um novo nivel ao estabelecer um emprestador de última instância. Se o Itaú quebrasse hoje o Meireles ia estar amanhã no enterro do Setúbal pondo um grande cheque gordo de alguns bilhões. A reserva é um banco central, e no começo essa atribuição era a única de um banco central.

Essa transformação se dá na própria natureza do dinheiro. Ele deixa de ser uma riqueza física portável, como ouro ou prata; ou mesmo um símbolo que representa uma riqueza física determinada, para um acordo instável entre toda sociedade de um agente intermediador por um lado, mas de uma commodity do outro: O dinheiro tem um custo afinal, o juro.

A riqueza, a ajuda na industrialização e na guerra convencem o mundo inteiro da importancia dos bancos. Isso apesar da grande controvérsia que era gerada quando um banco quebrava, ou toda uma série deles, e uma grande massa furiosa descobria que não reaveria suas posses. Há até quem leia o mágico de Oz como uma alegoria política, onde a pequena Dorothy, o simbolo da inocência, sai do mundo da hard currency para uma terra de feitiço e encanto, e precisa seguir pela yellow brick road (lingotes de ouro) até a liberdade.

Para se ter uma idéia da extensão do debate, ainda existe um representante no congresso americano que quer abolir o FED e o dinheiro virtual.

Após os anos 20-30 o governo começou a intervir mais e mais na economia dos países industrializados. A primeira crise de tempos industriais avançados foi forte e novos atores no cenário, como sindicatos e partidos populares forçaram um tipo de atuação diferente, afinal agora haviam novos problemas, como desemprego (algo verdadeiramente inédito de certa maneira). Uma certa justificação moral a ser tentada pode ser a seguinte: A economia depende do setor financeiro, que por sua vez depende de governos. As vezes esse tem de intervir e pagar para que um banco não quebre. Essa autoridade última força o governo a ter nas mãos as rédeas finais da economia, quer queira quer não. Mas a verdade é que a intervenção passa por outros motivos como justiça social em geral, subsídios e outras formas de competição, etc.

O problema é que as opiniões temperadas e razoáveis do séc. XVIII, embora não tenham resistido na Inglaterra ou lugar algum da Europa, persistiram nos EUA. Claro que esses eram muito complexos e variados, mas idéias como “o direito de portar armas”, e cuidar de seu território ainda ressoavam com grandes faixas da população. Toda uma ideologia tornada obsoleta pela civilização industrial. Como se administra o espaço aéreo acima de uma propriedade? Como se administram as ondas de rádio que por ali passam? Todas questões que em si mostram como o modo antigo de se pensar a propriedade estava caduco.

Inviável retroceder. Qualquer um que advogue que o desemprego pode flutuar livremente está tão ideologicamente contaminado que deve achar que Pinochet seria um convidado agradável pro jantar. Não funcionaria. E a verdade é que a ideologia liberal inglesa tem mais a agradecer a seus marinheiros que seus literatos. List desbanca toda escola do laissez-faire com os exemplos contundentes dos países que se industrializaram e progrediram na marra. Essa lista se prolonga mesmo após sua morte incessantemente com um exemplo gritante na Coréia e o principal na China.

Digressões a parte, aquela ideologia do cada Bob em seu rancho e sua carabina estava fadada a ruína. Nixon declarou que eram todos keynesianos àquela altura e a questão parecia simplesmente encerrada. Alguns anos após emergiu Reagan, discurso liberal mas o maior défcit da história dos USA.

Esse paradoxo está longe de ser um mistério. Reagan seduziu justamente esse Bob. Lembrou o modo “como seus pais e avós e bisavós tinham vivido”, criou uma nostalgia impossível de ser resolvida, pois passava pela ilusão de um governo que não taxasse, que não “interferisse” na questão racial, na social, etc.

O gênio foi perceber um grande fantasma ideológico que ainda pairava,e se aproveitar dele. Claro que isso passou por uma dose incrivel de hipocrisia pura. Afinal qualquer promessa dessas é impossível de se realizar e a própria tentativa pode conseguir algumas vitórias mas nunca se chegará, como querem alguns que lutam por princípio, a um governo minimamente mínimo.

Vou tentar fazer um outro post sobre a questão do List mais tarde

I

Que as nações tenham de passar por algum tipo de conflito para se formarem como tal não é nem um tributo aos freqüentes banhos de sangue que antecedem proclamações de “países” nem a tentativa de criação de uma “lei histórica”. Será uma lei só se vista através do conceito preciso de nação moderna, quer dizer, para se juntar ao grupo de nações modernas um território precisa passar por um conflito profundo, uma “tragédia sísmica” que o insula e recorta, ao menos nos corações e mentes.

Que as nações tenham se formado em períodos tão diferentes prova que não falamos de uma exigência natural da dinâmica política que se formem estados modernos. Na verdade a tendência é contrária e as forças internas e conservadoras de um território tendem a protelar ao máximo esse processo. O processo também não surge por uma demanda popular ou algum tipo de necessidade interna, mas é o resultado da subserviência de um território atrasado e a reação que se segue. Afinal se Brasil ou Índia se formaram como nações não foi por um ato real de unificação ou por algum resultado de suas dinâmicas internas consideradas por si mesmas, mas se deram em reação a poderes exteriores imperialistas; reação contra a espoliação. É nessa tendência mais ou menos universal que podemos achar uma justificação da tendência mais ou menos universal da exigência de um conflito profundo, de uma revolução, guerra civil para que se constitua uma nação.

A evidência empírica é enorme. Espanha, França, Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália. Américas inteiras – Brasil, América Espanhola e Estados Unidos. Japão, China, Vietnã, Índia. Como exceções notáveis temos por exemplo Austrália e Nova Zelândia, talvez Canadá. Não falamos portanto de nenhum tipo de Lei histórica necessária. Mas é inegável que na grande maioria dos casos um país só é um país após um ou vários tremores em seu âmago.

II

Nota-se rapidamente que fica difícil falar na invenção de um país através de um só ato – tanto um ato “cênico” quanto um ato efetivo. Não é uma batalha ou a assinatura de uma constituição que vão moldar uma nação. O caso dos Estados Unidos salta a vista. Se falamos desse abalo sísmico, onde encontramos em sua história? Seria na guerra de independência, que uniu diversos territórios, etnias, religiões em torno de alguns valores comuns; ou a guerra civil, um espasmo da diferença de territórios antes unidos só por um inimigo comum? Aqui o terreno é mais nebuloso, e teremos de nos expressar beirando a sofística. De certa maneira uma guerra foi a conseqüência latente da outra; uma certa consumação tardia. Mas também foi resultado de um processo de adaptação e homogeneização que não durou somente durante o período oficial de guerra, mas se manifestou nessas como massas de terras sub-oceânicas que aqui e ali, em suas maiores elevações formam montanhas, ou vistas de cima, ilhas.

Portanto em primeiro lugar, reserva e sofisticação no uso desse conceito de “conflito formador”, atenção para seus limites e a atenção da relação de seus elementos com as particularidades próprias de seus territórios. E as conseqüências particulares também…

III

Essa discussão no entanto não é importante pela precisão histórica que ela pode dar ou então pelas simplificações colegiais em que pode incorrer, mas pelas conseqüências políticas e sociais que ela nos ajuda a entender.

O caso do Brasil é emblemático. O país se inventou diversas vezes: Descoberta e formação de instituições coloniais, vinda da família real e transferência da corte, independência formal, inúmeras supressões de revoltas com convulsões internas e guerra do Paraguai, e finalmente o nacional desenvolvimentismo de Getúlio. Cada uma dessas etapas deixou marcas profundas no tecido social, incluindo o fato curioso de o Brasil, país de etnias, religiões e regiões muito diversas ter pouquíssimos conflitos regionais ou separatistas (e não por um pacto federativo bem acabado, pelo contrário,há e houve um centralismo grande de fato). Mas o mais marcante de cada etapa é o fato de que nenhuma delas é uma mudança que vai além do necessário para manter a maior parte da estrutura anterior. A independência só tirou Portugal da posição de intermediário no comercio com a Inglaterra, o Brasil continuou na mesma posição de antes no contexto do comércio mundial e estrutura produtiva. O Getúlio das leis trabalhistas era o mesmo que dizia ser o melhor amigo da Burguesia brasileira, e não seu inimigo. A famosa frase de Leopardi, “tudo tem de mudar para que tudo continue igual”, essa sim tem na terrinha o privilégio de lei histórica. Poderíamos traçar as origens dessa tendência à acomodação em diversos fatores culturais, vindos da tradição ibérica, da ausência de movimento de independência por motivos contingentes, do patriarcalismo das relações sociais , e alguns outros elementos. Mas esse trabalho escapa a nosso escopo aqui. Queremos agora ver as conseqüências desse “comodismo” brasileiro e a estranha unidade aparente do Brasil apesar de seu âmago restar intocado.

IV

O Brasil é um país desprovido daquele espaço ideal do público: res publica. Não há disposição de se sacrificar o pessoal pelo público. Os EUA, país do capitalismo e individualismo por excelência tem sim o seu espaço público, uma convenção de valores e um ideal de nação que permeia toda consciência da nação. Ali não é incomum que se doe dinheiro a universidade que se estudou, que milionários se dediquem a filantropia e criem verdadeiras instituições de pesquisa, artes, desenvolvimento ou cultura. Como em todo lugar há uma boa dose de hipocrisia e a falência desses valores por ali é um processo mais recente, mas ainda assim é um lugar de onde uma figura marginal como Noam Chomsky pode falar de seu país como “greatest country in the world”- O melhor do mundo! Uma coesão social curiosa dadas as diferenças gritantes nas opiniões de Chomsky e a da América média.

Sobre a Europa em geral então a expressão desse ideal é mais gritante e menos necessária. Representações físicas desse ideal, parques, escolas e sistemas em geral, de transporte, educação e todo o mais mostram o grau de sacrifício que o individuo está disposto a se sujeitar pelo público (através de impostos bastante altos as vezes. Imagine dedicar 70% do seu salário ao governo – escandaloso e sueco).

V

Essa inexistência de espaço público é efeito direto da falta de uma força unificadora, um princípio harmonizador que é raramente encontrado em tempos de paz, fora de forças armadas ou guerreiras ou subversivas. São nos camisas negras, nos portadores do livro vermelho ou nos puritanos calvinistas; em toda sorte de iludido idealista (que oxímoro) que se encontra a força e impulso que constituem uma nação. O apagamento temporário das individualidades, das diferenças em vista de algo maior é o que dá origem a uma verdadeira nação, e não uma coleção de indivíduos que acha coletivamente proveitoso subsumir-se legalmente a uma categoria arbitrária de país para ganhar reconhecimento internacional. Os poucos intelectuais que ousavam demandar uma Europa unida eram uma minoria antes que duas grande guerras fizessem ocorrer ao Europeu médio que talvez a etnia e religião do seu vizinho fosse menos importante do que ter um governo central e democrático (enquanto o tal vizinho for um europeu também. Nenhum respeito ao marroquino sujo…).

Nem à direita nem à esquerda o Brasil teve algo ligeiramente apelidável de revolução. Acomodações e cessões esterilizavam qualquer processo e esvaziavam seu significado. O general Golbery entendeu bem as regras do jogo e foi um dos principais catalisadores da criação do Partido dos Trabalhadores, em plena ditadura. Comandou a transição pacífica, conseguiu trancar segredos e fazer com que a transição se desse calmamente, com interesses aqui e ali assegurados. À hora da constituinte, mesmo com o dorso moral que certos deputados lhe conferiam, seu alcance não poderia ser mais do que limitado.

VI

Felizmente as linhas de tensão da história não são uniformes, não há leis históricas ou etapas determinadas. Enquanto o Brasil em muitos sentidos ainda é uma ficção romântica, ele tem forças descomunais e particulares que poderiam no futuro servir de tijolos à construção de um ideal verdadeiro (ou seja, com conseqüências efetivas). Seu apreço pela diversidade (e não uma simples tolerância como na tradição protestante), sua capacidade de juntar sem prejudicar as partes é especial por si, e mais ainda considerando o déficit global desse tipo de atitude. E parece ser o absoluto melhor material para se constituir uma nação, não só mais um entre outros. Arriscaríamos mesmo a dizer que até agora o Brasil se deu ao luxo de se formar tão pouco como nação pela sua potência exagerada pra tal, por um gasto mínimo energia, onde tão pouco impulso constituinte produz uma coesão tão surpreendente? Por enquanto ainda um gigante adormecido, um urso em hibernação. Mas só ursos, não ratos, podem hibernar, e seu despertar é sempre poderoso,

Potencia e vontade de potencia

Conatus: o principio ontologico proposto na Etica de Espinosa de que cada ser visa preservar-se. E aqui o lugar comum aristotelico de que os seres “sublunares“ sao todos corruptiveis é reformulado, ja que todos os modos sao por definiçao insubstanciais, logo causados, e portanto com começo e fim. Importante ressaltar o carater ontologico e nao somente biologico do conceito. Aplica-se a todos os corpos e ideias e outros modos de outros atributos inacessiveis a nos, pobres humanos com acesso a somente esses dois aspectos do real.

Ja vontade de potencia é um bocado mais dificil de definir. Pelas proprias metodologias antipodas de Nietzsche e Espinosa, uma certa ambiguidade proposital, uma evoluçao do proprio conceito na obra e suas diferentes apropriaçoes por diferentes autores de peso. Heidegger dira que ela é uma ontologia escamoteada mesmo no mais critico dos autores, e que a vontade de assenhorear-se das forças e elementos do mundo é uma lei incrustrada no real, no proprio ser, a estrutura mesma do mundo (como pensariamos vulgarmente ser as leis da fisica, ou os designios de Deus retrocedendo alguns séculos). Scarlet Marton diz ser a retomada de uma cosmologia a la pré-socraticos, como Tales, Anaximandro, Heraclito, etc, que construiam seus cosmos (do original grego ordem ou sistema arranjado; oposto ao caos) postulando uma physis, como a agua, o ar e o fogo foram pra aqueles. Ja Carlos Alberto Ribeiro de Moura dira que o conceito escapa a qualquer pretensao ontologica e que Nietzche é sim a ”ultrapassagem” do dogmatismo classico essencialista, como promete, e é somente (mais) uma interpretaçao privilegiada, submetendo esse conceito ao perspectivisimo nietzcheano.
O conceito ainda traz problemas quanto ao seu conteudo. Aqui ha mais consenso sobre se ler a vontade de potencia como uma vontade de assenhorear-se. E esse é um prisma interpretativo que percorre toda a obra nietzcheana madura: em suas analises de Estado e politica, por exemplo quando considera que um poder muito absoluto nao pode senao ter suas partes constituintes se voltando contra si e competindo, mas que a situaçao oposta, de a oposiçao a um poder muito grande gerar profunda uniao; e suas analises dos afetos, das relaçoes pessoais, dos livros e ideias muitas vezes passa por esse mesmo prisma.

Pois bem. A comparaçao dos dois conceitos nao é novidade. Parte do proprio Nietzche, que tem uma imagem shoppenhaueriana do Espinosa (obra mas principalmente vida). A saber, que Espinosa tinha sido um ”tipo” comum do séc. XVII, o ateu virtuoso. Criou-se uma imagem de um contemplador honesto e placido mas que para a confusao dos teologos era ateu (para se ver até onde ja se chegou a vontade de verdade e o refinamento e boa fé do pensamento: como se um daqueles fanaticos americanos a la jesus camp pudesse admitir tal possibilidade ao inves de pensar em absolutos toscos. But I digress…). Nietzche fara uma analise fisiologica e dira que a filosofia espinosana resulta numa etica ascética, como comprovada em sua doentia vida inerte, de um simples amante da verdade imune ao devir do mundo por uma conexao com um Deus ”desprovido de carne”, o mais longe possivel daquele Deus vivente, de Abraao e Jaco, de que falava Pascal em oposiçao ao arquiteto perfecionista e constante de Descartes (a discussao aqui gira em torno dos milagres e de Deus como uma figura antropomorfica). Dira que o conatus ja esta implicito na vontade de potencia, portanto nao o nega, o afirma, mas diz que é uma constataçao obvia e sem valor que algo que quer assenhorear-se e dominar precisa se manter ao menos no patamar onde esta: entra-se em campo pra ganhar, mas na impossibilidade disso, que ao menos se empate!

O conatus espinosano se complica muito mais que a vontade de potencia quando lembramos que para ele o fluxo do mundo é um dado e muito mais complicado que em autores anteriores. Assim, embora as ideias e coisas tenham uma existencia/essencia garantida por serem os produtos inimpossibilitaveis de um Deus que cria absolutamente tudo que pode (ou seja, tudo que pode ser criado por um Deus que pode criar tudo de infinitas maneiras), as coisas ainda tem duraçoes, e nao sao como na tradiçao platonica crista frutos de ideias atualizadas em corpos/almas que tem uma duraçao independente da sua propria ideia, essa sim imortal pois parte de Deus. A Idéia é a coisa e a coisa é a idéia. Mas aqui precisamos entender como algo que morre (nosso corpo e alma) tem no universo uma existencia permanente. A chave aqui é lembrar que a duraçao so existe do ponto de vista da criatura, nao tem valor ontologico, e que o universo visto por deus é um grande solido estatico de quatro dimensoes. Assim dizer que algo existe agora mas nao em 1900 é algo que so faz sentido para uma criatura que ve o mundo como uma secessao de estados graças ao poder imaginativo de seu corpo (em oposiçao a faculdade de pensar que contempla as coisas desde o ponto de vista da eternidade).
Mas voltando ao conatus, nesse fluxo complexo que é o cosmo, nenhum modo (criatura) pode aspirar a uma verdadeira substancialidade, ou seja, a realizaçao desse conatus, que dependeria da impossibilidade de ser influenciado por algo outro que nao si mesmo. o conatus é um principio dirigente, nao um fim, muito menos um fim realizavel. Assim chega-se a imagem estranha de um ser que para preservar-se e si mesmo precisa…modificar-se! Essa imagem cessa de ser tao estranha quando pensamos no ser humano, que precisa realizar multiplos comércios com o ambiente, como a alimentaçao, para manter um (aproximado) mesmo ser. Uma repetiçao e diferença, se quiserem.

Assim a idéia de ligaçao, que parecia separar a vontade de potencia do conatus nao mais o faz. Ela os aproxima.
E nao conseguimos deixar de sentir reminiscencias nietzschenas quando lemos no tratado da emenda do intelecto que a causa da infelicidade dos homens é unir-se(amor-eros) com coisas pereciveis como dinheiro, causas e mesmo amigos, embora ele dedique a esses uma bela homenagem. E podemos facilmente ler que essa uniao é justamente uma junçao de potencias, contida num mundo de forças determinadas em seu conjunto infindaveis (como a reuniao de todos os corpos, que cegamente se chocam, unem, desunem, ou de todas as idéias-mundo cultural- que igualmente se ”chocam”, ”modificam”, etc). E uma concepçao de mundo muito parecida com a Nietzscheana exceto por um detalhe: a opçao que Espinosa da pela busca de uma suprema beatitude, a uniao com algo de imperecivel que permitisse ao homem olhar com descaso para as partes individuais e pereciveis e se consolar com uma visao de totalidade e eternidade do mundo no seu nucleo mais profundo. Se um deus tao sem carne tem algum poder consolador é algo que nos parece improvavel.
Mas e se tirassemos esse Deus, quer pela refutaçao da prova ontologica, quer pela morte mais bem cultural de Deus, quer por uma evoluçao violenta da vontade de verdade que contivesse os dois elementos anteriores. Merleau-Ponty diz que a marca do racionalismo do XVII, aquilo que une desde pascal até espinosa é a crença num infinito positivo (ao contrario do infinito como mera negaçao, como sera considerado depois inclusive pelo proprio MP.
Assim poderiamos dizer que as concepçoes de mundo sao muito parecidas, se ao menos retirarmos a crença num infinito positivo. O que sobra sao forças cegas em choque constante, sem qualquer barreira entre fisico e psiquico e social (o que permite as interpretaçoes verticais em Nietzsche), que se ligam e se separam sem nenhuma totalidade possivel, nenhuma finalidade no todo, ou mesmo nas partes se excluirmos o poder interpretativo de uns macaquinhos arvorados numa pedra no meio da via lactea. é claro que as consequencias éticas aqui sao tremendas. Nao existe tal suprema beatitude, nao existe nada que possa ser designado supremo, o infinito é somente uma virtualidade e sempre se pode ir além. Nenhuma resignaçao nem ascética nem ascética a maneira espinosana ( que nao tem a ver com renuncia ou pureza e portanto nao mereceria esse nome-consultem a ultima proposiçao da Etica pra mais esclarecimentos).

Bem apos esse exagerado e quase nao necessario panorama, preciso ainda assim dizer que conatus e vontade de potencia, apesar de coincidirem parcialmente, so seriam o mesmo principio do ponto de vista de um paranoico que acha que nunca esta suficientemente armado contra o devir,que acumula como proteçao e escravisa para nao ser escravisado. Ou seja, nao é bem assim.

Ha no entanto um principio espinosano que me agradaria mais aproximar da vontade de potencia que o conatus. é a potencia, ou produtividade. Ali onde Descartes trabalha com nada, finito(homem) e infinito(deus), espinosa fara o mesmo, mas dara uma marca a essas constataçoes que sao, no entanto, imediatas: a potencia, intercambiavel pela perfeiçao. Essa igualdade ressalta um lado muito importante de um pressuposto basico espinosano, baseado naquele ainda mais fundante da causalidade estrita e inquebravel entre todos os elementos do cosmos: a de que a perfeiçao nao é somente a capacidade de optar e ai fazer, nao é um direcionamento de forças mas uma eclosao cega de forças tomada em seu valor total. Deus nao seria melhor por evitar criar um mundo com sofrimento, ele seria menos perfeito, nao seria mesmo Deus por nao ter a potencia de criar absolutamente tudo. Perfeiçao é potencia de criar,e so. Caprichos e contingencias nao cabem a ontologia, assim como consideraçoes morais ou outras interferencias do ser enquanto alguma coisa no ser enquanto ser.

E de certa maneira criar é assenhoriar-se, ha uma hirierarquia dada entre o criado e a criatura. Potencia e Vontade de potencia. Potencias plasticas e moldantes. Claro que Espinosa nao prescrevia diretamente essa escalada que significa a vontade de potencia, mas isso porque ele tinha em maos o infinito absoluto, e com ele, o pacote completo do cristao, mas retrabalhado: Deus, beatitude, vida eterna. E nem seu comportamento era tao indiferente ao curso das coisas, como mostra suas preocupaçoes praticas e teoricas em relaçao a politica, seu apreço pela amizade (que no entanto é um amor a algo finito) entre outras cutchi-cutchices do nosso judeuzinho.
Assim, como provavelmente nem ele conseguia se enganar tanto a respeito desse espectro desencarnado que é seu Deus, ao menos no nivel do consolo(da mesma maneira que Nietzsche acusa Schoppenhauer de um descolamento pratica teoria ao denunciar o habito daquele de tocar sua flauta antes de dormir, seu odio pelas mulhers, etc), aplicou sua potencia gigantesca principalmente de pensar a se assenhoriar com uma logica dura e estrita e um medo descomunal das fogueiras inquisitorias das mentes e coraçoes, a ponto de se traçar a ele o começo do iluminismo, de Hegel e Shoppenhauer, o romantismo alemao, a filosofia analitica, kant, e etc o tomarem como um ponto basilar da filosofia, ou seja, Espinosa se assenhorou assustadoramente do pensamento politico e filosofico de eras inteiras. (Se me utilizo de um psicologismo, e quereis me condenar, é porque sois seguidores do metodo estrutural ao que retruco que aqui estou no ”real nietzcheano”, e que vos fodeis).

é isso. Vou salvar voces de continuar essa minha prosa aspera e tosca, errante e coroada com a falta de acentos do meu teclado defeituoso. é um esboço, ou melhor ainda um vomito em prosa, que ainda nao tive a chance de elaborar com um minimo de rigor e estrutura. Por isso redobro o pedido por correçoes e discussoes sobre o assunto, embora seja um bocado tecnico, é tambem bem interessante. E salvo voces agora da continuidade desse discurso ”oscar”

PS: notem que eu podia ter continuado o ciclo vicioso anterior ad nauseum(pensem literalmente, nao deixem o latim os separar do sentido original, e ai voces chegaram ate onde eu podia ter chateado voces). Mas agora, a suprema beatitude do silencio.

Visões de mundo opostas em Nietzsche

Me deparei em Nietzsche com duas visões de mundo bastante diferentes.

A primeira é a que vou chamar aqui, talvez com pouco direito, de fisiologismo. Consiste num curto circuito do plano das idéias ao plano fisiológico, como se as idéias não tivessem autônomia mas fossem epifenômenos de movimentos esses sim mais substânciais nas visceras do mundo. As idéias nada são além de ilhas; montanhas subterrâneas que nos aparecem superficialmente como delimitadas e substanciais, mas que se sustentam e devem todo sua existência a movimentos tectônicos mais profundos e sua interação mútua a esses mesmos movimentos, que em nada reflete o que as ilhas são mas sim os humores vulcânicos.

É procedendo assim que Nietzsche faz sua análise do Asceta. O Bem, Deus, as Formas Puras, nada disso é nada além do resultado de gases e outros desconfortos físicos de alguns ascetas ressentidos. Ironia especial pra esse caso onde as mais “sublimes” idéias tem origem vergonhosa. O homem tenta justamente se consolar desse mundo se desnaturalizando, criando outras realidades (transcendentes) e ideais. É claro que os que o farão serão aqueles descontentes com a realidade dada: os doentes, os excluídos, os fracos.

A avaliação do Asceta está na genealogia da moral, e é além de fisiológica, genealógica. Entra em outras questões e pormenores que não nos interessam aqui. Mas no puro fisiologismo a questão que importa é a da saúde e da doença. A avaliação das éticas, um dos pontos nucleares desse autor, será feita a partir desse ponto de vista: quão saudável ou doentio ele é? . Nietzsche adere a uma teoria médica que em grossos termos é como a dos humores: doenças não são fatores exógenos ou mudanças qualitativas, mas sim desbalanços e desequilibrios nos próprios fluídos ou constituintes do corpo (Claude Bernard).É assim também que Nietzsche dirá que os impulsos humanos não tem nenhum valor moral (e fisiológico, portanto) em si, mas sim em relação a uma proporção, além da qual se entra em um estado doentio.

Outra visão de Nietzsche parece nos dizer o contrário. Vou chamá-la, de novo por falta de designação adequada, de Transcendental. Ali onde ele diz que nossas visões são já condicionadas, que todo olhar já é um julgamento moral (e não um dado a ser julgado, como diria o senso comum). A maneira como vemos as coisas, como experimentamos a realidade em geral, depende já de uma constituição mental construída, especialmente se focarmos o sentido moral. Essa visão sem dúvida é tributária a Kant, em cujo sistema o Sujeito ao perceber já da a forma do mundo, é o próprio Demiurgo que carimba a massa amorfa do mundo com selos das mais variadas formas (zebras e zeppelins e dodecaedros agudos) e cria sua própria caverna autista de fenômenos, se aproveitando no máximo dos poucos raios de sol que atravessam o teto para fazer seus próprios animaizinhos de sombra . De qualquer maneira, essa visão de que o próprio sujeito é criador ao menos parcial de seu próprio mundo se encontra muito em Nietzsche, por exemplo ali onde ele comenta sobre os povos europeus e a experiência (seu feeling, seu “tato”) particular de cada país em relação à arte por exemplo. Ou então quando ele diz que os alemães tem olhos mais perspicazes para o vir-a-ser; que são de temperamento mais heraclitiano que pamediniano (e aqui justificado por, entre outros, um fator lingüistico). É aqui que cessa o Nietzsche biólogo disposto a julgar desde o budismo zen até o protestantismo calvinista com seu termômetro saúde-doença e começa o Nietzsche que parece agir de um ponto de vista injustificadamente (pelo seu próprio meio de ação) neutro; capaz de penetrar na maneira de experimentar a realidade (na lente da distorção da visão, se quiserem; e puderem guardar a lembrança que não existe percepção livre de distorção, não como ruído mas como essência própria da percepção) dos outros para entender uma obra, um povo, uma época. Algo similar com aquilo que desenvolve Foucault quando diz que a forma de se experimentar o fenomeno da verdade muda através das eras.

Nagase uma vez, citarei tortamente de memória, me disse que pretendia investigar como em Nietzsche a genealogia é a continuação de uma espécie de jogo de máscaras, ou seja, que buscar os inumeros significados amontoados em cada idéia e fenômeno não levaria ao conhecimento dele (conhecer é conhecer pela causa), e que seria o fisiologismo, o estudo das relações orgânicas subterrâneas o estudo que realmente poderia tirar essas máscaras e expor a fratura do real exposta.

E embora tenha de admitir que talvez a ordem temporal da obra de Nietzsche o fisiologismo vá ganhando peso enquanto o “”transcendentalismo”” vá perdendo, de modo que “O nascimento da tragédia” é admitidamente hegeliano e o “Ecce Homo”, último livro, é onde não só o fisiologismo aparece com mais força em toda obra, mas onde a Alemanha é mais  debochada pelo autor; sugiro que os dois são desenvolvimentos de uma antinomia Schoppenhaueriana:

No parágrafo 7 do primeiro livro Schoppenhauer se debruça sobre o materialismo e o idealismo (de Fichte). O mundo que independe do sujeito, e o tratamento desse como mero objeto enquanto simples agregado de matéria, e o mundo inteiro como criação autônoma do sujeito. Diz as duas serem falsas por se embasarem em suas próprias conclusões, e declara que sendo o mundo representação, não há objeto abstraído do sujeito nem sujeito isolado sem objetos (dada que a representação envolve por definição aquilo que é representado e alguém que pegue a apresentação e a reapresente): “Assim, necessariamente, vemos de um lado a existência de um mundo todo dependente do primeiro ser que conhece, por mais imperfeito que seja; de outro, vemos esse primeiro animal cognoscente dependente de uma longa cadeia de causas e efeitos que o precede na qual aparece como um membro diminuto. Essas duas visões contraditórias, pelas quais somos, de fato, conduzidos com igual necessidade, poderiam decerto ser denominadas uma ANTINOMIA da nossa faculdade de conhecimento”.  O mundo enquanto não é visto por ninguém não tem significação alguma, mas para que surja uma forma complexa capaz de vê-lo, é necessário que ele passe de um estado “simples” (big bang? suit yourself here) à formação dessa estrutura representativa que obviamente não existe, mas confere mesmo o significado retroativo a toda essa atividade passada.

A transição conceitual para Nietzsche ficará mais clara se pensarmos ainda que foi a forma de pensar em antinomias e contradições, típica da época anterior a sua, que abriu espaço para seu perspectivismo. Com a diferença que o perspectivismo permite um crescimento de cada um dos elementos, o proto-fisiologismo (materialismo-objetivismo) e o proto-“”transcendentalismo”” (idealismo-subjetivismo) não enquanto amarrados um ao outro mas enquanto autônomos. Cada um deles fundamenta inquéritos da obra de Nietzsche sem que eles se anulem, e que podem trabalhar muito bem juntos (na Genealogia da Moral por exemplo).

Aguardo no mínimo um post de resposta do Daniel