Ciúme

Diego C 2004. Período em que estava aprendendo a escrever.

Ciúme

“A boa vida não pode ser vida sem autocontrole,
mas é melhor controlar uma emoção restritiva e
hostil como o ciúme, do que uma emoção generosa
e expansiva como o amor.” Bertrand Russell 1929

Há poucas coisas às quais nossa sociedade dá tamanha importância quanto o ciúme, dentre as ações humanas deliberadas, é das mais legisladas, juntamente com o assassinato, o tráfico e o roubo. O casamento é das instituições civis de maior importância, e as práticas relativas a ele costumam ser vigorosamente legisladas, arbitradas e modificadas, o que mostra o desconforto social que circunda questões relativas ao matrimônio, como divórcio, traição, pensões, amor etc.
Na escola, aprende-se que a diferença entre um compromisso sério e um rolo é a existência de ciúmes, e todos os materiais escolares de meninas estão repletos de símbolos amorosos de seus únicos amores. Os contos de fadas ensinam às meninas que serão acordadas por seus príncipes encantados, e viverão felizes para sempre, e aos meninos que devem passar por cima de todos os outros cavaleiros, e dos dragões para alcançá-las.
O ciúme é ensinado desde a infância como sendo uma das mais nobres características de um ser humano. Nos filmes, novelas, revistas sobre gente famosa, o ciúme é encarado como algo que se deve defender a qualquer custo, e do que depende a honra de qualquer pessoa que dê valor a sí mesmo. Ai de um ator ou atriz que saia da linha e se deixe levar, numa noite, por uma tentação, toda a mídia estará a postos para ridicularizar, e o cônjuge ficará malfalado até que, como convém à mídia, apareça um novo alvo para satisfazer os interesses latentes das donas de casa, que para reprimir seus próprios desejos de pular a cerca, assistem as novelas para ter chance de ver outros pulando-a.
Todo o nosso sistema legal sobre casamento é baseado nos moldes e conformes do ciúme, o casamento é um contrato que visa, essencialmente, segregar o casal do mundo exterior, para poder evitar que o cônjuge se envolva com quaisquer outras pessoas, aceitando para sí que essa segregação também é desejável. Divorciar-se é difícil, e, para os provedores da casa, é também economicamente indesejável. O casamento, para efeitos práticos, representa a substituição do ciúme do sujeito pelo ciúme do Estado, que passa a ser aquele que cumpre as funções do ciúme pessoal, a saber, dificultar quaisquer envolvimentos entre o cônjuge e pessoas do sexo oposto. Como substituto, o Estado é alias bastante efetivo, pois seu ciúme, além de pesar nos bolsos, não decresce quando cai a taxa hormonal e a paixão.
Se por um lado o casamento representa uma facilitação no exercício de estar enciumado, por outro, ele demonstra o quanto o ciúme necessita de auxílio para sobrepor-se ao desejo e a vontade de amar. O casamento, as alianças de namoro, a moral, o ensinamento escolar, são tantas as tentativas de honrar o ciúme, a ainda assim, permanece latente em nossa sociedade uma grande quantidade de homens e mulheres infiéis. A traição acompanha a história humana desde quando parte da humanidade se tornou monogâmica, e nenhuma instituição, por mais poderosa que fosse, conseguiu impedir que os seres humanos continuassem se relacionando emocionalmente e sexualmente com outras pessoas.
Estima-se que pouco mais de metade dos homens casados, e pouco menos da metade das mulheres seja infiel, o que quer que a lei, as morais ou a voz das massas deseje, a ação não parece comprovar.
O sentimento de posse, o desejo de ter uma mulher como apenas sua, deriva da época em que a humanidade descobriu a paternidade, e os homens, que descobriram ser pais, tinham de controlar as mulheres para poderem conhecer sua linhagem, hoje em dia, esse sentimento está tão acoplado a nossa carga moral desde a infância, que consideramo-lo inato, honroso e importante. Por outro lado, fingimos ignorar, ao menos no discurso, outro sentimento, muito mais forte, o desejo, a vontade de relacionar-se, o amor.
É evidente que temos uma predisposição biológica tanto para termos ciúme, e possuirmos, como também para nos reproduzirmos com outros indivíduos, ou seja, temos impulsos que nos direcionam ao amor, bem como temos impulsos que nos direcionam ao aprisionamento emocional. Caberia nos perguntarmos, como fez Russell, alimentando qual dessas tendências naturais estariamos tornando-nos indivíduos melhores e mais saudáveis.
A importância do ciúme, ou que se acreditava que ele tinha, está diminuindo bastante, isso se deve a diversos fatores relacionados ao desenvolvimento histórico das sociedades, por exemplo, o sexo atualmente não precisa gerar filhos, dada a diversidade de anticoncepcionais disponíveis. O ciúme moral que carregamos vem de um tempo no qual existia uma grande chance de se ter filhos em relações extra-conjugais, a moral da época tratou de impedir que uma pessoa fosse considerada virtuosa e de bom caráter caso tivesse filhos sozinha, além do quê, ter filhos sempre foi caro para as famílias de classes mais abastadas (aquelas que são mais moralizadas) e portanto fazia sentido que houvesse da parte dos moralistas algum tipo de incentivo ao ciúme. Numa sociedade em que relação e filhos não mais se conectam, não há mais utilidade nessa pregação do ciúme, principalmente na educação infantil, quando são construídos os princípios morais das crianças.
Os preservativos e anticoncepcionais nos levaram a uma era em que o sexo pode ser praticado com liberdade antes desconhecida, sem ter de se levar em conta o risco de filhos indesejáveis, estamos em um momento em que finalmente exercer nossos desejos amorosos e sexuais não vem acompanhado de problemas financeiros e familiares, mas a moral vigente continua perseguindo fortemente as pessoas que se consideram livres o suficiente para aceitar que seu desejo de amar possa ser maior que o de possuir, ou no mínimo mais virtuoso.
Sem dúvida que a prática de relações amorosas e sexuais está se tornando mais ampla durante a juventude, os jovens homens de hoje podem, aos vinte anos, ter se relacionado já com trinta ou quarenta pessoas diferentes sem que sejam massacrados e malvistos pelas pessoas a sua volta, até algumas mulheres já gozam esse privilégio, embora a moral continue, vias de regra, atentando contra as mulheres que adotam práticas tão liberais quanto as dos homens. Ainda há, entretanto, um tabu sagrado que não parece ser tocado com frequência: A possibilidade de eliminar o ciúme em relações “sérias”, a própria definição de “sérias” tornou-se completamente interligada com a idéia de ciúmes. A moralidade, grande pílula de amnésia da humanidade, nos fez esquecer que “sérias” significa seriedade e profundidade, e alterou o conceito de sérias para “unicas, exclusivas, e possessivas”. Quando pergunta-se para alguém se está numa relação séria ou não, a resposta que se espera nada tem a ver com a profundidade emocional ou a seriedade da relação, é completamente dependente do ciúme, e do quanto uma pessoa prende a outra, essencialmente, se fossemos substituir o termo “séria” por algo mais plausível com o que queremos de fato saber, até doentia seria uma substituição mais razoável.
Essa necessidade de separar a relação séria da relação não séria traz uma série de implicações perigosas, afinal, não são só as pessoas de fora que vêem assim, quem se relaciona também fica sempre em dúvida se a relação é séria, a não ser que ambos se comprometam a não beijar mais ninguém. Se uma das partes quer realmente ter uma relação séria, terá dois caminhos. Um é simplesmente fazer isso do modo ciumento e convencional, pedir em namoro e impedir que ambos possam ser livres em seus desejos, o outro é ter a coragem de explicar que quer ter, apesar de continuar livre, uma relação mais séria, pode-se até dizer compromissada, mas diversas dificuldades se colocam ante essa idéia de propor uma relação séria e livre. A primeira dificuldade é ter de explicar que isso, uma relação séria e livre, é possível, sem ser condenado por um fazer uma proposta tão impura como desejar liberdade e igualdade de direitos. Estranho como esses mesmos ideais no ramo político vigoram desde a revolução francesa, e no amor, a igualdade continua sendo regulada pela falta de liberdade, e quanto menos fraternidade melhor.
Quem sabe, no futuro, o amor passe a influir mais na economia, e com isso, passe a evoluir na mesma velocidade que a política, esperamos que não seja necessária uma revolução proletária anti-ciúme para que as pessoas pensem no assunto, por enquanto, questionar o funcionamento de ideologias como o ciúme é sempre um exercício importante de evolução do pensamento pessoal.

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