Aos Bixos da Filosofia USP de 2010, 2011, e de todos os anos que virão

Essa é a versão escrita de uma pequena apresentação do grupo de filosofia analítica que fiz para os bixos 2010.

Uma perspectiva pessoal sobre a Filosofia Analítica: Quando entrei aqui na filosofia eu achava, aliás, tinha certeza, que todas as pessoas que entram na filosofia entram movidas por um profundo desejo de entender a natureza da realidade, de ter um contato profundo com o que se sabe de mais profundo e preciso sobre a natureza do mundo. Eu acreditava que o que eu encontraria aqui no departamento seriam as mais novas idéias tidas nos últimos 10 anos sobre o que é o mundo, como ele funciona, e como o nosso conhecimento pode ou não acessar isso.

Descobri, ao longo do primeiro ano, duas coisas. A primeira é que não é a maioria das pessoas que chega aqui que têm esse objetivo, aliás, os mais distintos objetivos trazem pessoas para a Filo USP.

A segunda é que existem outras faculdades em que, por alguma razão, era justamente aquilo que eu acreditava que era estudado. Nessas faculdades, os estudos eram sempre atualizados, as questões em pauta diziam respeito a natureza da realidade, do mundo, da mente, da ética etc…. E o foco era ensinar os alunos a pensar sobre essas questões eles mesmos, e a produzir seus próprios textos e livros sobre essas questões, ou seja, estavam formando filósofos de produção, não historiadores da filosofia. Os lugares que faziam isso eram chamados departamentos de filosofia Analítica.

Acho que a principal razão que me traz aqui hoje é o medo de que haja alguma outra pessoa perdida como eu estava naquele dia aqui hoje, e que ela tenha que enfrentar toda a dificuldade que eu enfrentei de entender a diferença entre o que ela esperava e o que, por acaso, por razões históricas, ocorre aqui. Imagino que aconteça o problema contrário em departamentos de analítica, um monte de alunos perplexos com aqueles textos de 2009 sobre filosofia da física, lógica, a natureza da matéria, a mente humana, e eles esperando uma reflexão mais aprofundada sobre Aristóteles, Spinoza, ou o comentário de Deleuze a Kant.

Meu convite pessoal então, apesar de válido para todos que quiserem conhecer a filosofia analítica, é principalmente para esses perdidos, que nem sabiam que aqui no Departamento se estuda história da filosofia.

Mas afinal, o que é a filosofia analítica: É mais fácil falar antes do que ela não é. Isto é filosofia continental.

Na wikipedia:

Filosofia continental é uma expressão criada originalmente pelos filósofos analíticos anglófonos, principalmente estadunidenses e britânicos, para descrever várias tradições filosóficas procedentes da Europa continental, principalmente da Alemanha e da França.

A expressão compreende, de maneira bastante vaga:

  • A fenomenologia de Edmund Husserl ou Maurice Merleau-Ponty
  • A ontologia fundamental de Martin Heidegger
  • A psicanálise de Sigmund Freud ou Jacques Lacan
  • O existencialismo de Jean-Paul Sartre
  • Diversas correntes do marxismo
  • O estruturalismo em ciências humanas inspirado por Claude Lévi-Strauss ou Michel Foucault
  • A semiologia de Algirdas Julien Greimas ou Roland Barthes
  • A hermenêutica de Hans-Georg Gadamer ou Paul Ricoeur
  • A desconstrução de Jacques Derrida
  • O feminismo
  • A teoria crítica da Escola de Frankfurt

O termo é utilizado sobretudo para descrever uma atividade filosófica por contraste com a filosofia analítica. É mais popular nas ciências sociais, estética, estudos culturais e filosofia do cinema do que nas ditas “ciências duras”.

A Filosofia analítica tem algumas propriedades gerais que a definem:

Caráter argumentativo, com papers e livros sendo escritos a favor e contra posições particulares e específicas.

Tentativa de ser o mais claro possível.

Análise da estrutura lógica dos argumentos utilizando-se de ferramentas da Lógica filosófica. Inclusive usando símbolos de lógica simbólica.

Contato muito próximo com as ciências duras, em particular a física, a biologia, e a psicologia.

Afinidade com pensamento de estrutura mais matemática.

Ter o objetivo de chegar a uma conclusão.

A pergunta: “ Mas se o autor X e o autor Y defendem posições opostas, quem está certo?” sempre tem uma resposta, mesmo que não saibamos qual ela é.

Por contraste, em geral os professores do departamento nunca discutirão se um autor está certo ou não, tentando apenas mostrar como o ponto de vista dele exibe coerência interna e se encaixa num debate histórico. Se esse é o tipo de coisa que te irritaria profundamente, você é um dos interessados no nosso grupo.

Os temas variam muito, Mente, Consciência, Física, Probabilidade, O que se deve fazer para promover a felicidade do mundo futuro, Mecânica Quântica, a direção do tempo, Semântica, Linguagem, Etica, Evolução, Significado. Tudo isso é estudado por autores analíticos.

Os encontros do grupo funcionam assim: Os encontros ocorrem toda semana. A cada 15, todos teremos lido um paper atual de analítica. E a cada quinze novos membros lêem um paper clássico e os que já leram o clássico lerão algum paper de ciência (no momento psicologia), e faremos discussões cruzadas entre os grupos.

Os encontros duram uma hora e meia, e os artigos devem ESTAR LIDOS ANTES da reunião. A reunião é para discutir, entender, contestar ou complementar as idéias do artigo.

Quase todos os artigos de filosofia analítica estão apenas disponíveis em inglês.

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