Os Principais Obstáculos ao Conhecimento Racional

Esse texto concerne os seis hábitos mentais que me parecem ser os maiores desmanteladores do pensamento racional, seja em discussões de senso comum, conversas do dia a dia, ou nos maiores e mais conhecidos artigos filosóficos e científicos1.

Esses seis hábitos são a Falácia Naturalista (e o problema ser-dever), Vagueza, Relativismo, Procura de Skyhooks, Medo de Estatísticas e Reducionismo Cobiçoso. Considerarei primeiramente os primeiros dois, já que eles são as características fundantes dos demais quatro, e são características que podem ser encontradas em pessoas que auxiliam esses memes a se replicar, apesar dos danos devastadores que podem criar e da quantidade massiva de dinheiro neles dispendiada.

A primeira característica concerne uma falta de compreensão de como a racionalidade deve estar engendrada no mundo. A racionalidade deve estar engendrada de duas maneiras, ela pode ser utilizada junto com fatos para prover uma figura, uma descrição de como o mundo funciona, e pode ser usada com ou sem fatos do mundo para provir ideais e idéias sobre ética, como comportar-se, como não comportar-se, e o que é ou não é bom. Ainda que seja tão importante que o pensamento racional esteja engendrado no pensamento ético quanto no pensamento descritivo, é o segundo que será considerado nesse texto, e a ética será apenas parte de minha discussão quando se tratar de sua influência na maneira que as pessoas constroem conhecimento a respeito do mundo e seu funcionamento interno.

1) Dever não é Ser, Bom não é Verdadeiro. (A Falácia Naturalista)

O raciocínio, ao ser utilizado para pensar a maneira que o mundo funciona deveria funcionar de uma maneira não enviesada, e isso significa basicamente uma das coisas mais difíceis de se aceitar para algumas pessoas, que é que o mundo não tem maior probabilidade de se comportar da maneira que você deseja somente porque você assim deseja, o mundo funciona como funciona, e ele não leva em consideração nem o que você considera moralmente bom, nem como você crê que ele deveria ser. Suponha que astrônomos descubram que não haverá um eclipse na terra pelos próximos oitenta anos, e que por alguma razão a mídia mundial divulgasse a notícia como chocante, com o seguinte título: “Toda Uma Geração Humana Ficará Sem Poder Ver Eclipses.” Bem, se as notícias fossem suficientemente convictas, provavelmente haveria uma grande quantidade de pessoas que fortemente desejariam que houvesse um eclipse em suas vidas, do fundo do coração. Mas não é bem provável que alguém começasse a realmente acreditar que haveria um, independentemente de quantas pessoas concordassem que o mundo seria um lugar melhor se houvesse. Isso é facilmente compreensível para qualquer um, mas o mesmo raciocínio não se aplica, por exemplo, à maneira que as pessoas tendem a pensar sobre a natureza humana. Se mostramos a alguém um estudo que diz que algumas pessoas são mais inteligentes que outras biologicamente, ou que homens têm maior probabilidade de estuprar porque nossa espécie é neotênica, a maioria das pessoas diria: “Blasfêmia! Você está tentando justificar terríveis comportamentos baseado na natureza e portanto sua concepção de natureza não pode ser verdadeira. ” “Justificar” é uma palavra bastante ambígua e traquinas, já que pode significar tanto justificar eticamente como logicamente, o que são significados bastante distintos. Nos dois casos considerados, a pessoa que mostra o artigo está de fato tentando justificar logicamente uma razão pela qual algumas pessoas são mais inteligentes e também a razão pela qual algumas pessoas tem tendência a estuprar. Esse tipo de justificativa significa que ele está tentando dar uma explicação, uma maneira de ver, de porque as coisas são como são, de quais fatos do mundo, juntos, geram alguns fenômenos como inteligência diferencial e estupro. Dizer que esses fenômenos são altamente determinados por predisposições biológicas para uma arquitetura cerebral escrita no código genético não é em nenhum sentido possível concordar que essas coisas sejam boas, não é senão concordar que elas são reais, ou muito provavelmente reais.

Por outro lado, a pessoa mostrando os estudos não está tentando mostrar que o mundo deveria ser assim, a maneira como o mundo deveria ser não é o estudo da ciência, nem da filosofia analítica, é o estudo da política, filosofia moral e ética, religião, tecnologia etc…

A compreensão do fato de que a natureza não justifica eticamente nada, ela justifica logicamente, é um importante aprendizado para qualquer um que queira discutir a respeito das coisas do mundo sem um viés ético. O viés ético vem da falácia naturalista, como G. E. Moore chamou esse tipo de desentendimento, ou da confusão entre dever e ser. A falácia naturalista e o problema da confusão do que é com o que deveria ser, são, na minha opinião, os fatores dirigentes por trás do Relativismo, de alguns procuradores de Skyhooks, do Medo de Estatísticas e de algumas formas de Reducionsmo Cobiçoso. Mantendo isso em mente, que verdadeiro não significa bom, voltemo-nos para outra característica comum nas pessoas que falham em evitar esses quatro erros.

2) Vagueza

A vagueza é outra característica comum que mina grandes esforços no campo do pensar, eu cito parte dos pensamentos de Bertrand Russell sobre a vagueza2:

“Existe uma certa tendência naqueles que perceberam que as palavras são vagas a acreditar que as coisas também são vagas. Frequentemente ouvimos bastante sobre o fluxo e o continuum e a não-analisabilidade do Universo, e é frequentemente sugerido que conforme nossa linguagem se torna mais precisa, se torna menos adaptada a representar o caos do qual o homem supostamente evoluiu o cosmos. Isso parece para mim ser uma falácia de verbalismo – a falácia que consiste em trocar as propriedades que pertencem a uma representação e aquilo que ela representa. Salvo a representação, seja cognitiva ou mecânica, não pode existir coisa tal qual a vagueza ou a precisão; as coisas são como são, e isso é tudo. […] Quando o conhecimento é vago, isso não se aplica ao conhecer como uma ocorrência; já que uma ocorrência é incapaz de ser vaga ou precisa, todas as ocorrências são. Vagueza em uma ocorrência cognitiva é uma característica de sua relação com aquilo que é conhecido, não uma característica da ocorrência ela própria. “

Ainda que esse não seja o ponto que ele está defendendo no texto, quero enfatizar o fato de que não é apenas porque as palavras são vagas que as pessoas começam a pensar que as coisas são vagas, existem outras razões para isso. Se as coisas fossem mais vagas, as crenças sobrenaturais das pessoas teriam maior probabilidade de ser inclusas nas coisas possíveis do mundo. Se as leis da física (não as leis conhecidas da física, mas as leis, quaisquer que sejam, sob as quais a física realmente opera) fossem vagas por exemplo, haveria espaço para, digamos, cristãos dizerem que Deus opera no subnível, fazendo escolhas sob a égide das coisas possíveis. Na realidade existem pessoas que dizem que Deus, e também o Livre-arbítrio, realmente operam no mundo numa escala quântica, exatamente porque existe um nível de vagueza aparente no estado atual da teoria quântica. Essa vagueza pode ser igualmente preenchida por razoáveis argumentos matemáticos ou probabilísticos sobre o movimento da matéria3, e é assim que a maioria da comunidade científica os vê, mas onde quer que haja um nível de incerteza, indeterminação, e por vezes vagueza haverão pessoas irracionais tentando impor suas crenças, de natureza religiosa ou não, no mundo, para fazê-lo parecer um pouquinho mais como elas desejariam que fosse, e um pouco menos como ele realmente é.

A vagueza e a falácia naturalista são hábitos mentais bastante perigosos, e eles vem sempre acompanhados dos outros quatro tipos de erros que considerarei daqui em diante.

3) Relativismo

O maior objetivo do meme relativista é permitir que os memes do relativista sejam verdadeiros, independentemente dos fatos. O relativismo é um meme muito apelativo porque permite todos os maus hábitos que alimentam o intelecto do pseudo-intelectual. Ele tem largo espaço para ser vago, já que as coisas e a realidade para um relativista dependem da pessoa que está falando sobre elas, e do momento histórico no qual a pessoa está inscrita, da concepção de verdade da academia e dos sistemas controladores de poder etc… Elas não dependem. A realidade depende de como o mundo é, e o fato de que algumas visões de mundo estão embebidas em bobagem acadêmica é mais provavelmente uma consequência do relativismo do que algo que o relativismo pretende evitar. Existe um mundo lá fora esperando para ser conhecido, esse mundo não se importa se você estuda na Universidade de Cambridge ou na Universidade Desconhecida N 2039, na qual o acordo tácito é desprezar a idéia de verdade, mesmo que uma verdade não totalmente ou imediatamente acessível e pragmática. A gravidade funciona na Ruanda e no Chade tanto quanto em Mônaco ou nos Estados Unidos. Mulheres que aparentam ser mais férteis são consideradas atraentes na Austrália bem como na Itália, porque isso depende de uma tendência biológica de machos de desejar fêmeas que tenham maior probabilidade de lhes dar uma criança. A estrutura do universo não é relativa. Ela é desconhecida, já que seria necessário ao menos outro universo para computar esse. Ela também pode ser “incerta” da perspectiva de um observador olhando para o futuro, como as interpretações com colapso da física quântica desejam mostrar. Mas não é relativa, não existe algo como a terra girando ao redor do sol para você mas não para mim. Não há algo como “Há igual validade nas crenças de todos”. Esse meme é o que eu chamaria de O Meme New Age. O Meme New Age, cujas profundas raízes estão na filosofia posmodernista, no modelo tradicional de ciência social (Standard Social Science Model), e no meme para aceitar crenças religiosas alheias, é um meme muito perigoso. Ele ameaça a ciência hoje em dia como a inquisição o fez na era medieval, quando as pessoas se recusavam a cessar de acreditar que a tecnologia faz suas vidas melhores, e sistematicamente, mesmo que insconscientemente, desafiavam dogmas estabelecidos.

O Meme New Age vem de um passado nobre, já que suas intenções eram promover a paz, religiosa e política, e a liberdade. Mas alguns desses memes foram exaptados para o campo da ciência, e dali para a apreciação do povo, que, é claro, inverteu tudo e tornou-o a melhor desculpa contemporânea para acreditar em coisas completamente absurdas, como astrologia, o poder da mente, e todo tipo de substitutos new age para a religião… Ele também por vezes caminha junto com o meme “tudo é possível”. Esses dois memes são perigosos porque fazem parecer que cada um é o responsável causal por seu próprio estado de bem-estar, o que noutras palavras significa que pessoas que estão deprimidas, tristes, pobres, ou não inteligentes são responsáveis por seus próprios destinos, já que a “verdade” deles depende de seus próprios desejos e vontades, não de eventos além de seu controle. Para aqueles que acreditam nesses memes (ou uma caricatura deles) não há razão para ser justo, ou para corrigir malícias sociais, afinal de contas, tudo é possível, você só tem de desejar o suficiente.

4) Procurando por Skyhooks

O conhecimento racional é algo que pode vir de qualquer linha de pesquisa, e essa tem sido a principal razão para a existência de considerável liberdade na escolha de pesquisadores de seus tópicos de estudo, relativamente, por exemplo, a liberdade de um construtor de carros na maneira como ele vai performar seu trabalho. É da liberdade acadêmica, e um pouco menos da liberdade intelectual garantida por um escritório de patentes na Suíça, que vêm as mais interessantes idéias que posteriormente se tornam mainstream. Liberdade de escolha, quando se trata das forças por trás da pesquisa aparentariam ser, portanto, uma técnica bastante sábia para obtenção da melhor qualidade de produção. Mas isso não parece ser a verdade. Existe um hábito da mente que, como parte dos programas de pesquisa, causou mais mal do que bem. Esse hábito, seguindo a apreciação de Daniel Dennett em A Perigosa Idéia de Darwin, eu chamarei de “procurando por Skyhooks”.

Um Skyhook (gancho-celeste) na explicação dele é “…[Uma] força ou poder ou processo de “precedência da mente”, uma exceção ao princípio que todo o design, e o design aparente, é em última instância o resultado de mecanicidade sem motivos e sem mentalidade. Um Crane [guindaste], em contraste, é um subprocesso ou propriedade especial de um processo de design que pode ser demonstrado ser ele mesmo um previsível (ou retrospectivamente explicável) produto do processo básico”

Os Skyhooks são legatários de uma idéia de deus ex machina, a figura divina fictícia que salva o herói quando o autor o meteu numa enrascada sem saída. Crianças ao criar histórias tipicamente fazem utilização de uma espécie de deus ex machina simplificado: “E então ele encontrou o dragão e ficou preso na caverna e quando o dragão ia morder ele ele, ele…. acordou, era tudo um sonho e ele viveu feliz para sempre, Fim.” No teatro grego essa função era cumprida principalmente por seres divinos (e portanto antropomórficos), a sugestão era que houvesse uma mente capaz de, acima e além das forças naturais, resolver um problema.

No mundo da ciência é muito comum que haja pessoas que fazem o mesmo tipo de suposição, aquele objeto não pode ter surgido por meios naturais, tem de haver alguma mente, uma interferência superior que possibilite tal maravilha. Mas de novo e de novo aquilo que não podia ser explicado com as ferramentas da ciência de uma década acabam sendo explicados na década seguinte, como um subproduto sofisticado mas apenas composto dos produtos básicos anteriores, com o auxilio de Cranes (guindastes), eles mesmos também feito do produto original. E então os procuradores de Skyhooks voltam sua esperança para alguma outra maravilha do mundo que simplesmente precisa ter sido criada por algo que veio do céu.

Ele sugere o caso de procuradores de Skyhooks no Darwinismo. Primeiro pontuando que todo o design foi criado por este processo cego e mecânico e depois reforçando “Poderia isto ter realmente acontecido? Ou precisou o processo de uma ‘mãozinha’ [leg up] vez ou outra (talvez apenas no comecinho) de algum tipo de Skyhook? Por mais de um século, céticos têm tentado encontrar uma prova de que a idéia de Darwin simplesmente não pode fazer o trabalho, ao menos não todo o trabalho. Eles têm desejado, caçado, rezado por Skyhooks, como exceções ao que eles veem como a sinistra visão do algorítmo darwiniano se solidificando como manteiga. E de novo e de novo, eles surgem com desafios muito interessantes – saltos e lacunas e outras assombrações que parecem, de início, necessitar de Skyhooks, mas daí vem os Cranes, descobertos em muitos casos pelos mesmos céticos que estavam esperando encontrar um Skyhook”

Moderação contra oponentes intelectuais não é uma qualidade extensivamente presente no trabalho de Dennett, mas esse parágrafo me parece ser levemente moderado demais, uma particularidade que é, é claro, corrigida bem até demais no restante do livro. Ainda assim, existem algumas coisas pontuadas nele que serão úteis ao nosso escrutínio, num sentido neutro, mas não moderado.

É claro que é possível que os Cranes (guindastes) sejam descobertos pelos céticos que estavam desejando um Skyhook (gancho-celeste). Considerando que a maioria dos céticos com relação ao darwinismo são raramente céticos também com relação a suas inclinações mentais e hábitos mentais, e muito mais céticos a respeito de estatísticas (já que existe bastante evidência a favor, e muito pouca contra, o darwinismo) é altamente improvável que eles tenham um papel significante na descoberta de Cranes. É claro que o escopo desse texto abrange do senso comum e conversas de dia a dia até artigos acadêmicos, e existe uma proporção diferencial que deve ser atribuída de tolerância aqueles com o hábito de procurar Skyhooks nesses diferentes contextos. Não devemos tolerar ou aceitar com moderação a busca por Skyhooks numa conversa genérica, ou numa discussão de senso comum, já que este seria o caso das pessoas que estão rezando por, e desejando Skyhooks. Num grau muito menor, eu creio que as pessoas que caçam Skyhooks também permanecem um obstáculo para a construção do conhecimento racional. No caso do desejador e do orador é fácil ver que eles não fazem nada senão alimentar inclinações ilógicas, crenças anti-estatísticas e desejos improváveis das pessoas a seu redor. Ao caçador, por outro lado, não podemos atribuir que esteja fazendo a mesma coisa já que ele está executando um programa de pesquisa, e portanto ele poderia descobrir que de fato está certo, e se esse é o caso, então há Skyhooks, ele de fato haverá criado conhecimento racional. É sobre a possibilidade de que as pessoas estejam certas que se sustenta a liberdade acadêmica, mas a liberdade acadêmica não pode ser confundida com o relativismo. Não pode haver uma realocação de recursos do mesmo montante à hipótese de que o câncer é causado por um pote de chá orbitando Marte, a de que é causado pela devastação das florestas, e a de que é causado por algum tipo de mau comportamento celular bioquimicamente explicável. A razão para isso é que, ainda que esses três programas de pesquisa possam de fato se revelar corretos, eles têm uma probabilidade muito diferente de fazê-lo. Já que há evidência estatística (para não dizer lógica!) a favor da hipótese da célula, o defensor da devastação florestal tem o ônus da prova de mostrar porque é necessário estudar seu caso. Ainda mais difícil é o caso do defensor do pote de chá, já que ele também carrega o ônus da prova da existência do pote de chá orbitando Marte, que não exibiu particular evidência desde que Russell escreveu a respeito dessa possibilidade (e improbabilidade) muitas décadas atrás.

Voltemo-nos agora a nosso caso, e depois de deixar a absoluta maioria de procuradores de Skyhooks, os desejadores e os oradores, pensemos a respeito do caçador. O caçador, quando ele se propõe a procurar um Skyhook tem o ônus da prova de mostrar porque é provável que alí exista um, já que o passado não mostrou evidências de Skyhooks (com aproximadamente 2000 anos de pesquisa somente na cristandade). Já que sempre houve uma grande quantidade de dinheiro sendo alocada na pesquisa por Skyhooks fora do mundo acadêmico pois os oradores pagam os caçadores para continuarem vigiando em busca deles, eu diria que o mundo acadêmico e o mundo do conhecimento racional em geral não estariam ameaçados se eles varressem todo o dinheiro que eles fornecem aos caçadores de Skyhooks e o utilizassem para atividades que têm maior chance de produzir conhecimento, como pesquisa em bioquímica ou alimentar sapos com caviar.

5) Reducionismo Cobiçoso

Dos seis maiores obstáculos para a construção de conhecimento racional, o Reducionismo Cobiçoso é o menos comum, e também o menos perigoso. Ele é o oposto da procura por Skyhooks, tendo seu nome também tirado de A Perigosa Idéia de Darwin.

O reducionistas cobiçosos pensam que não haja Cranes (guindastes), e que tudo deve poder ser explicado em termos simplísticos, sem nenhum tipo de alavancagem interna do sistema. Pulam da física de partículas para a sociologia em apenas um passo, sem percorrer todas as alavancagens (Cranes) intermediárias que normalmente pensamos entre essas áreas.

O bom reducionista seria aquele que por um lado não procura nada no céu para auxiliá-lo, ou seja, não procura Skyhooks, e por outro lado leva em conta a existência de processos internos ao sistema de alavancagem que permitem novos níveis de complexidade, os Cranes.

Toda vez que alguém tenta fazer uma teoria sobre um fenômeno, ela deve, ao menos em princípio, poder dar origem a um programa de pesquisa que possa compreender partes do fenômeno, ou aceitar o fato de que há uma parte do fenômeno que não pode ser atacada naquele nível de explicação.

Um exemplo clássico é uma crítica no texto de Tomas Nagel “O Que É Ser um Morcego” 4 na qual ele critica o fato de não termos uma linguagem descritiva de estados mentais que seja independente do observador, e portanto nós não podemos sequer começar a falar do que é ser um morcego. A razão para não termos essa linguagem é que não temos uma teoria dos estados mentais no nível correto de análise, e o nível de análise no qual temos uma forma descritiva de falar sobre eles (o nível físico ou biológico por exemplo) não são suficientes para uma teoria da mente, quanto menos da mente de morcegos.

O que Nagel está pontuando é que ele acha que a filosofia da mente na época estava sendo uma reducionista muito cobiçosa, já que os níveis de explicação que ela propunha (só o biológico e o físico) não eram suficientes para uma teoria completa.

A fronteira entre o reducionismo cobiçoso e o bom reducionismo é bem menos clara do que a fronteira entre bom reducionismo e a procura por Skyhooks. Isso basicamente porque no primeiro caso ambos os lados tem o ônus da prova, já que o Cobiçoso João pode argumentar que “Todo fenômeno até hoje foi explicado somente com este e aquele níveis de análise” ao que Parsimonioso Harry responderá “De fato, mas há alguns fenômenos que existem de fato, como X ou Y que ainda não são explicáveis nesses níveis e que podem ser explicados no nível Z.” Já que a questão de ser o nível Z requerido ou não para uma explicação é uma questão empírica, deve haver investimento em ambos os lados, e o Reducionismo Cobiçoso tem seu lugar garantido.

Não é no Reducionismo Cobiçoso acadêmico que o problema para o conhecimento reside. Caçadores cobiçosos são sempre bem vindos. São os oradores e desejadores que são novamente perigosos, já que eles comprometem a possibilidade até mesmo de levar em consideração a possibilidade do nível Z de explicação. O Behaviorismo era uma boa idéia, e uma boa tentativa, mas agora é evidente que a psicologia precisa de um nível de explicação que explore mais níveis do que apenas condicionamento operante, condicionamento no nível físico. A possibilidade de entender os erros de Skinner só existiu porque alguém foi um bom reducionista, e não existe razão em particular para advogar publicamente o Reducionismo Cobiçoso mais do que existe para advogar que não criemos novos níveis de análise da economia ou da política. Explicar quase tudo em termos de quase nada não é algo ruim, mas é importante que de fato haja uma explicação, e não apenas uma petição apelativa que declara que o nível superior pode ser explicado em termos do inferior mas não demonstra como isso poderia ocorrer.

6) Medo de Estatísticas

Todos sabem que a África sub-saariana é mais pobre que o oeste europeu e ninguém acredita que essa informação deva ser mantida num cofre secreto, mas a mesma crença não parece existir para outros tipos de informação. A razão para isso, outra vez, é a falácia naturalista, que agora estenderemos conjuntamente com a confusão entre Ser e Dever na “falácia atualística”

Enquanto a falácia naturalista declara que o que é natural é bom, a falácia atualística dirá que o que é de fato ocorrente é bom. Ambas estão subscritas no mesmo erro, o erro de transformar verdade em bondade. É verdade que se você tomar dois grupos particulares entre os seres humanos e fizer um teste em ambos eles, a performance de um dos grupos irá ser em média melhor que a do outro, salvo nos casos em que todos falhem na tarefa (por exemplo “voar”) ou conseguida por todos eles (“pesar mais do que 4 quilos).

A questão a respeito de se as pessoas que usam bonés têm maior ou menor chance de usar óculos azuis no jantar do que pessoas que não é uma questão sobre um fato do mundo, e ainda que não tenhamos uma resposta para ela, existe uma resposta esperando ser descoberta. Suponha que descubramos que de fato pessoas que usam boné têm maior chance de usar óculos azuis no jantar, isso é apenas informação factual, e seria uma falácia atualística assumir que isso seja uma coisa má ou boa nela mesma. Não faz sentido fazer uma asserção do tipo : “O comportamento de usar óculos azuis deveria ser mantido pelos usuários de bonés porque usuários de boné têm maior probabilidade de usar óculos azuis.” Até aqui tudo bem, o mesmo vale para a África e Europa “Pessoas da África deveriam ser mais pobres que pessoas da Europa, porque pessoas da África são em média mais pobres que pessoas na Europa”.

Ambas são completamente absurdas, elas inferem ética dos fatos, e a ética não concerne aos fatos, ela concerne as intenções, e ao que deve ser feito. A estatística não nos diz o que deveríamos fazer, ela nos diz o que está se passando.

Uma vez que isso esteja entendido, devemos nos voltar a uma questão diferente. ¿É bom saber o que está se passando? Não em todos os casos, com certeza. Uma criança não deve saber que um certo botão ativa uma bomba se ela não tiver clareza de o que é uma bomba, ou que não é uma boa ativar bombas em geral. Uma pessoa muito gorda não deveria ser sistematicamente lembrada desse fato mais do que o suficiente para percebê-lo. Mas há outras naturezas da verdade que é bom espalhar.

¿Que teremos então a dizer quando de fato o que se está passando é terrível, como no caso da pobreza? Nesse caso parece claro a maior parte dos pensadores que deveria haver algum tipo de auxílio internacional que ajudasse o desenvolvimento da vida de pessoas pobres. Estranhamente, as pessoas se comportam eticamente quanto a esse caso, e não eticamente no caso de preocupações econômicas a respeito de mulheres negras. Pessoas preconceituosas diriam: “É por causa dessas mulheres negras que meu país não evolui, garotas negras jogam fora o dinheiro de meus impostos em sua falta de educação, deveríamos parar de ajudar”. Não é preciso dizer que isso é absurdo, e mais importante do que ser absurdo, não segue de nenhuma estatística no mundo, não poderia, porque não é uma afirmação a respeito de fatos, o “deveríamos” e o “jogam fora” dentro dela fazem dela uma asserção ética, que não pode ser confirmada ou desconfirmada por evidências.

O que é perigoso para o conhecimento é que mesmo pessoas não preconceituosas adotarão uma interpretação muito equivocada dos dados quando, por exemplo, disserem que essa informação deveria ser escondida para fazer o preconceito ir embora. Isso não é verdade, o preconceito sempre precedeu a informação, o preconceito é bastante comum entre caçadores coletores e índios, e má ética irá surgir onde quer que informação seja escondida. Por exemplo, existe evidência considerável de que a diferença de QI entre negros e brancos em 1981 nos EUA era causada em parte por razões sociais. Se nós apresentarmos apenas a informação bruta, de que brancos ganham tem QI maior do que negros, é possível que encontremos sérios problemas para nossa vida pessoal, mas se não escondermos a parte mais importante dos dados estatísticos, a causa provável para que haja uma diferença estatística, então estaremos fazendo bem.

Saber as causas de algo que nos parece uma chocante diferença entre como o mundo é e como deveria ser é em geral uma coisa muito boa. Pense sobre as afirmações preconceituosas de alguns europeus sobre os estrangeiros que vão trabalhar em seus países, se eles disserem “eles são estúpidos”, o que é uma maneira bastante desprazeirosa de dizer “eles são em média menos inteligentes do que pessoas nascidas na Europa” eles estarão fazendo uma afirmação um tanto quanto verdadeira com um viés ético extremamente condenável. Mesmo se eles forem, de fato, por medidas como profissão ou QI menos inteligentes, a informação sobre causas foi escondida, e então não há razões tangíveis e intuitivas acessíveis para que o preconceito vá embora. Se por outro lado as causas forem sistematicamente pontuadas, então haverá razão não apenas para a redução do preconceito em troca da neutralidade, mas também haverá mais razões para que boas ações políticas surjam. Esses estrangeiros têm alta probabilidade de ser pessoas pobres em seus países por exemplo, e alta probabilidade de terem tido uma educação muito ruim comparada com as pessoas nascidas na suiça por exemplo. Se essa parte da informação é negada, então não há espaço fácil e acessível para a redução do preconceito. Isso funciona em princípio até para informação que em geral deveria ser mantida em segredo, a criança que não deve saber sobre o botão que ativa a bomba poderia ser prontamente avisada sobre ele, quando ele tenha idade o suficiente para entender as causas e efeitos que estão envolvidos em todo o mundo da ativação de bombas, das causas da existência de uma bomba até as razões pelas quais algumas pessoas têm o poder causal de ativá-la e outras não. A pessoa gorda pode ser lembrada de sua condição, contanto que se mantenha território para uma causalidade desculpável. Por exemplo, se alguém é gordo por causa de metabolismo lento, é muito menos maldoso dar-lhe ambas a informação factual e a informação causal ao mesmo tempo do que prover apenas a informação factual.

Tivemos o suficiente da falácia atualística, o medo de estatísticas (ou de asserções provavelmente estatisticamente verdadeiras) é então o último dos hábitos daninhos que encontraram seu lugar de desenvolvimento em nossa sociedade em certa medida anti-matemática e anti-realistica.

Conclusão

Esses seis hábitos:

Dever não é Ser, o Bom Não é o Verdadeiro. (ou falácia naturalista)

Vagueza

Relativismo

Procura de Skyhooks

Medo de Estatísticas

Reducionismo Cobiçoso

…foram responsáveis por inaceitáveis perdas para o Homem, certamente zilhões de Reais, milhões de vidas e quantidades absolutamente imensuráveis de conhecimento. É chegado o momento de nos erguermos contra esses inimigos, sejam eles inimigos internos, tentando ultrapassá-los, ou inimigos externos, mostrando as causas para os desentendimentos das pessoas a respeito das coisas para auxiliá-las a pensar mais claramente a respeito de todo tipo de assunto. Mais que tudo, devemos desencorajar a Falácia Naturalista o máximo que possamos, pois ela deve ser considerada a força diretora por trás de uma quantidade de mal e escuridão sobre nosso mundo que faria com que as pessoas sentissem seus estômagos retorcerem, se fossem revelada como tal.

Nossas mentes têm imensas capacidades, e está dentre elas a habilidade de discernir dentre fatos confiáveis e não confiáveis, ou idéias. Se formos nos dedicar orgulhosamente a fazer desse discernimento uma questão de preocupação pública, nós estaríamos dando um grande passo na direção sempre vivo paraíso dos filósofos e profetas, apontemos nossas flechas na direção certa, e dentro de tempo o suficiente, existe maior esperança em um mundo menos preconceituoso, mais inteligente e mais sofisticado.

1Para uma brilhante defesa contrária a parte dos pontos aqui defendidos, ver O Colapso da Verdade e Outros Ensaios, de Hilary Putnam

2 Russell, Bertrand, Collected Papers, vol. 9, pp. 147–154

3Não exatamente da matéria, mas da onda probabilística determinada pela função de onda. Para aqueles que defendem como eu a interpretação dos muitos mundos da física quântica, retire a palavra “Probabilística” da sentença anterior. ¿Quer aprender mecânica quântica de maneira intuitiva? A sequência de Eliezer Yudkowsky sobre o tema é o lugar certo para isso. http://lesswrong.com/lw/r5/the_quantum_physics_sequence/

4 Nagel, T. 1974 “What Is It Like to Be a Bat?” Philosophical Review 83:435-50.

8 opiniões sobre “Os Principais Obstáculos ao Conhecimento Racional”

  1. Este texto será parte de um livro que estou escrevendo, e quaiquer erros de gramática, factuais, de estilo ou éticos devem ser apontados sem demora, obrigado.

  2. Concordo em geral… acho que está um pouco difícil de entender, mas meu QI deve estar reduzido em alguns pontos pois bebi um pouco.

    Tem muitos erros de spelling.

  3. Jonatas, obrigado por avisar que está difícil de entender. Se você puder me passar o texto copiado com letras grandes nas partes não-inteligíveis eu me disporei a torná-lo mais compreensível. (Se sobrar tempo pode por os erros de ortografia também. Mas isso é menos importante e demora mais, então prefiro que você só destaque as partes difíceis.)

    Valeu.

  4. Estou sem paciência para isso, desculpe. Acho que a parte mais difícil de entender foi a dos Sky-hooks, cuja definição aliás vc não escreveu mas citou.

  5. Só se ela depende de uma interferência que venha “de cima” por assim dizer, uma interferência ou direcionada (intelligent design por exemplo) ou de algum tipo de divindade, ou mente superior. Tem que rolar um “acima e além”

  6. no 3) o ultimo paragrafo tem uma frase extremamente longa, eu me perdi algumas vezes lendo ela
    se não eu achei que ta compreensivel no geral, porque vc pos varios ¿ ?
    eu nao entendi direito o que são os ganchos, mas eu to assumindo que isso aconteceu porque eu nao li o q eu deveria ter lido e que pra voces filosofos do meu brasil esse seja um termo corrente
    é so isso
    beijos

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