Amor e Probabilidade

Minha teoria de terceira pessoa sobre o amor, incorporada de muitos autores, é mais ou menos a seguinte: Amor é a emoção causada para possibilitar constante variação na probabilidade de uma pessoa deixar a outra. Variação o suficiente para que nunca “valha a pena” de fato deixar a outra pessoa e nem deixar-se ser deixado.

Não vou discutir as razões evolutivas para isso, ou porque o amor possa ser visto assim. Para isso, ler “Love as valuing a relashionship” na philosophical review ou o capítulo “Love” de How the mind works.

Como eu sei que o amor funciona assim, eu sei trabalhá-lo dessa perspectiva. Eu sei fazer conscientemente o que as pessoas as vezes só fazem inconscientemente. O assunto desse texto é a ética de fazê-lo.

Farei uma imensa digressão sobre como fazer isso, que pode ser pulada diretamente para a parte ética se bem parecer ou se se quiser conceder, por hipótese, que existam essas coisas que se deve fazer, e que elas são conhecíveis.

Por exemplo, seja um momento qualquer, é em geral verdadeiro e sabido que uma pessoa está mais apaixonada do que a outra. Em geral, o descaso sutil aumenta a paixão, e o descaso total aniquila. (usarei as palavras amor e paixão intercambiavelmente nesse texto, não gosta? Foda-se, é assim que eu uso).

Digamos por exemplo que o objetivo de alguém é ser mais e mais amado. Uma ótima maneira de fazê-lo é concedendo tempo levemente menor do que o que a pessoa está querendo passar com você a cada vez, criando um movimento de saudade exponencial que gera uma semi-obsessão pela possibilidade de se ver.

Isso obviamente não é tudo, é absolutamente fundante, para ser mais amado, criar briguinhas pequenas, sem muita razão MAS sem deixar um clima “pesado no ar”. Resolvê-las na hora ou não vai do caso. É importante que as vezes elas não sejam resolvidas, para criar um mínimo subliminar de tensão e portanto de necessidade de satisfazer o outro.

Presentes sem razão ajudam bastante, CONTANTO que a sua personalidade não seja do tipo obsessive gentleman, ou pessoa excessivamente bondosa que dá presentes a todos, ou babão submisso, ou banana. (não estou dizendo que essas categorias são a mesma, Não São).

Caso você seja um desses, aí o presente não pode ser físico, mas pode ser emocional, mais interessante ainda se for de uma ordem selvagem (uma conquista, desafiar alguém em nome da pessoa, uma viagem sem rumo do nada, um encontro em local desconhecido e misterioso, talvez levemente escuro até, um agarrão num beco). Não pode ser nem objeto físico nem declarativo.

É fundamental lembrar, principalmente para homens, que a pessoa está com você por causa de um milhão de fatores, e um deles é sua posição na hierarquia social metafísica da cabeça dela, então sempre demonstre que você está alto e subindo, como quer que isso se adeque na hierarquia social dela (por exemplo, se ela for emo, você pode sentar na sarjeta, beber muito e ficar penteando a franja para baixo com suas lágrimas silenciosas, isso claramente é apaixonante).

Se você é mulher, por razões evolutivas obvias, é importante variar a quantidade de exposição do corpo (tem um filme ótimo que a meu ver é sobre isso, o diretor com certeza discordaria. Um amor para recordar/A Walk to Remember). Além disso, é importante dar uma sensação de desatenção da sua parte para o homem, de que é mais difícil ter você por inteiro do que parece, e talvez até que você esconde um pequeno mistério. Poupe-o dos detalhes extremamente específicos do seu dia, mas conte mesmo assim o que considerar interessante de uma maneira que o faça pensar sobre a vida, assim você terá destaque sobre as concorrentes, que por vezes falam muito mais porque querem falar do que porque acham que podem construir uma nova idéia através dessas descrições do cotidiano, lembre-se, dentro da cabeça dele, as coisas tem que ter um ‘objetivo’, por isso ele gosta tanto de jogos, o objetivo não precisa ter nenhuma relevância, só precisa existir, vide Tênis, futebol, Bomberman e Sonic. Finalmente, não faça coisas que “dessacralizam” sua imagem, como demonstrar que você tem funções fisiológicas, um vocabulário escatológico ainda mais temível que o que ele usa entre amigos quando bêbado, etc… Isso demonstra (no cerebro primitivo e tosco dos machos de nossa querida espécie) que você andou em “círculos” de sujeira, que provavelmente já fez e ainda fará muito sexo por aí afora e portanto tem baixa probabilidade de garantir que a prole é dele.

A ordem do selvagem. Para ambos os lados, é importante desligar-se um pouco do mal estar da civilização e simplesmente ser selvagem as vezes, não consigo ver um limite claro no qual isso não seja bom para os homens. Não acho que haja um nível no qual uma intenção animalesca não seja positiva mesmo que várias em sequência. Obviamente não em momentos fofos, brigas, fofocas etc… mas nos tempos intermediários. Para a mulher existe um limite claro, mas isso depende completamente do homem, acho que alguns homens não devem ter limite para conversas sem palavras, sexo sem pudores, e ataques de vontade aleatória em momentos aleatórios. Outros homens são diferentes com um ponto ideal de selvageria desejável.

Digamos agora que o objetivo da pessoa seja se manter estável. Aí começa a ter variações mais complexas, e o tempo lógico do namoro/relação passa a interferir. Como o tempo lógico varia entre relações é difícil precisar quando se deve fazer cada coisa. Vou assumir mais ou menos o seguinte tempo histórico, e o leitor pode esticar ou comprimir os tempos conforme o tempo lógico que lhe interessa.

Suposição: 3 Meses iniciais: A paixão começa a surgir como um objeto confuso e vai tomando força. É uma potência difusa e prazeirosa que ainda não está fixa como uma coisa única. 3 a 6 Mês: A paixão está em seu nível alto, estável e conhecido, é sempre um prazer encontrar-se com a pessoa, e fazer nada nunca é um problema, a razão para ver o outro nunca inclui uma desculpa (vamos no cinema?) mas pode ser claramente explicitada como ver o outro em si. 6 a 8 Mês, o corpo começa a dar ordens de estabilização, começam os mecanismos naturais e insconcientes de manter o outro por perto (briguinhas, um pouco de paranóia, leve medo de perder, e vontade de causar medo de perder) 8mês até X (entre 1 e 3 anos) estabilidade a 70% aqui ondula sempre a probabilidade de deixar o outro, regulada por brigas, choros, sexos, presentes, momentos e outras pessoas. X (Xis): A crise. As brigas se tornam mais intensas e mais sem sentido, o medo de perder vira semi-obsessivo ou o descaso começa a bater, o tesão em outras pessoas aumenta, a vida parece confusa, e por vezes nem se sabe o que há de errado. A tensão aumenta ao ponto de quebrantar.

Não vou falar sobre os namoros/relações que resistem à crise.

Para se manter estável nos 3 meses iniciais é necessário mostrar um descaso grande e não ser interessante, porque a tendência natural é de subida, talvez pegar pesado nos preconceitos da pessoa ajude. 3 ao 6 mês: A tendência natural é a estabilidade em alto nível, continuar surpreendendo talvez prolongue a estabilidade no final. No começo, nada é necessário para ficar na mesma. 6 ao 8 mês: O corpo começa a ordenar coisas que fazemos inconscientemente e que atrapalham a vida, a tendência é de queda, a pessoa não é mais tão impressionante, e nem nós conseguimos ser, realizando a profecia de que a relação não vai mais tão perfeita quanto antes. Ainda é muito bom, mas não é mais fantástico. Nessa época estabilidade é muito difícil, os mecanismos por trás da queda tem a ver com a passagem do tempo e a reconfiguração dos hormônios, que são forças muito violentas. Evitar ao máximo as tendências interiores as críticas, com e sem sentido, e tentar dizer para o outro fazer o mesmo (e porque) talvez sejam o melhor approach, mas não tenho certeza de que isso seja claramente possível. 8Mês a X: Faça mais ou menos o que parece instintivo e natural, encontre quando for o caso, brigue quando sinta necessidade, chore quando sentir vontade, fuja quando bem lhe parecer, a maré está a seu favor. X A crise: Talvez esse seja o ponto mais importante para as pessoas (afinal, quem ainda não está na crise está na época de desejar estabilidade do amor e portanto, erroneamente em pelo menos 50% dos casos por uma obviedade matemática, antevê que a crise será totalmente contra sua vontade). Me parece bastante difícil sobreviver a crise, uma teoria sobre ela é que ela existe porque é o momento em que o primeiro filho já estaria grande para caminhar sozinho, e pela lógica é hora de mudar os genes com os quais interagir, outra teoria é que a ausência de filho configura possível infertilidade, o que é absolutamente inaceitável e tem que ser resolvido com uma mudança de parceiro. Ou seja, claramente o lado biológico não ajuda e além disso não pode ser resolvido. É preciso lutar em outros âmbitos, na minha opinião a melhor maneira é com mudanças radicais, exaptando (utilizando para uma função diferente da original) uma idéia da psicanálise que é a transferência. A transferência em psicanálise diz respeito a ver o analista (ou outra pessoa) como alguém que é parte da sua vida (pai, mãe, namorada, tio, amigo do primário etc…). Dizem os psicanalistas que isso é essencial para o sucesso de algumas terapias (é importante sempre tomar cuidado em dobro com o que eles dizem). Nossa exaptação é a seguinte: E fazer o contrário? É possível? Eu defendo que sim, talvez a melhor maneira para se manter durante a crise é gerar uma singularidade ou epifania na qual você se torna, na representação do outro uma outra pessoa. E melhor ainda se ambos fizerem o mesmo. Uma revolução radical, tudo mudou, nada será como antes, porque isso possibilita a ilusão cognitiva de que não é mais a mesma pessoa que está alí. Obviamente isso não elimina as brigas homéricas, as tensões inelimináveis, talvez até só possa acontecer durante elas. O fato é que talvez isso possibilite uma “estabilidade” tanto quanto possível durante a crise. A outra coisa que com certeza ajuda é o sexo pós briga, de preferência com overlap com o final da briga, num espaço psicológico confuso em que uma coisa se funde em outra sem nem se perceber.

Pós Fim: Se a relação acabou, para se manter estável, é necessário que durante a crise não se tenha ido até o fim na tortura dos pontos fracos do outro e nem trapaceado (traição por exemplo, escárnio público etc…) provided that, me parece que o esquema é fugir da tradicional perseguição obsessiva e principalmente da absurda, mas igualmente tradicional “Olha como eu estou bem sem você” ou “Olha esses meus 33 namorados novos bem melhores que você”. Essa atitude, além de burra e ridícula, não ajuda nada a manter estável o nível de amor pós-relação. Acho que onde ela aparecer no outro ela deva ser criticada abertamente, inclusive com explicitação do tipo “Não faz o menor sentido você ficar falando isso para mim, eu não estou fazendo isso com você, e reconheço a importância do que aconteceu sem querer eliminá-la, não fazer isso é infantil” Essa acusação é suficiente para que a razão pela qual a pessoa faz isso, ou seja, a tentativa de te mostrar que ela é superior a você na hierarquia social, fique mostrada como patentemente burra, por operar como uma guerra fria (esse na verdade deve ser um mecanismo inconsciente que nos faz desejar A(mor) para obter o oposto de A(mor), algo muito comum já que nossos genes estão cagando e andando para nós, e vice versa). Uma vez que essa não seja uma estratégia que pareça boa, o interesse do ser humano percebe a sacanagem dos genes e a possibilidade de estabilização aumenta bastante. Para mulheres acho que é bem mais possível isso, e também é razoável usar uma estratagema levemente sexy para manter uma estável distância ao invés de afastamento. Para homens sou mais cético. Em primeiro lugar, mulheres são mais sensíveis, em segundo lugar, o estratagema que os genes delas prepararam é muito sólido, na medida em que é muito frequênte que elas cortem relações completamente (alguns homens também o fazem) e isso faz com que seja muito difícil manter uma aliança estável. Se não houver nenhum caminho de insistência que não gera raiva infinita na mulher, talvez o melhor a fazer seja desistir e esperar o tempo.

Por fim digamos que o objetivo seja diminuir o amor: Tudo que vou dizer não se aplica aos três primeiros meses, nos quais provavelmente o melhor jeito seja ver a pessoa muito pouco e demonstrar claríssimamente que você está baixo na hierarquia social e não quer ter nada “sério” jamais. No restante do tempo uma boa maneira é demonstrar interesse infinito, obsessão bananesca, bananismo genérico, cair em rotina metódica metódica metódica, esquecer datas imporantes, dar presentes claramente não específicos à personalidade do outro, pedir desculpas por tudo, ser excessivamente civilizado e mundano, falar apenas sobre os assuntos do jornal. É óbvio, mas importante, lembrar que é necessário manter o estoque alto de coisas para estabilizar depois, porque afinal, estamos, literalmente, falando de ser um chato, e não se quer eliminar a coisa toda. Uma só dentre essas várias opções deve ser o suficiente. Um erro muito comum nesse âmbito é achar que um tanto de descaso vai resolver o problema, pelo contrário, descaso prova que você está acima da pessoa, que você é foda, mais foda que ela, seu genes estão top de linha e você é a nova geração do que há de bom nesse mundo, afinal, você tem coisas mais importantes do que ele para se importar. Ou seja, esse é um péssimo approach para diminuir o amor. Descaso grande pode funcionar, mas cuidado, a faixa na qual isso funciona é pequena, e o risco de paixão obsessiva (falha pra -) ou mágoa (falha pra +) é muito grande para valer o risco.

Essa é a parte teórica pura (vide a forma SE X ENTÃO Y em oposição a DEVE-SE FAZER Z). Minha questão é Ética:

Seja todo esse conhecimento, é de bom grado usá-lo?

Vejamos algumas respostas:

Resposta intuitiva: Só uma mente perversa e doente pensaria nisso, é escabroso falar sobre isso, e se utilizar disso poderia ser considerado crime sem maiores ressalvas.

Contra-argumento: Essa é a mesma resposta que a Resposta Intuitiva daria para a questão “Será que não há um Deus?” “Podemos usar camisinha?” ou “Devemos gastar mais tempo amando do que trabalhando?”.

Contra-argumento 2: Se está descrevendo alí justamente a razão pela qual a intuição diverge do que é bom para as pessoas, ou seja, se a tese for verdadeira, segue logicamente que a intuição não é um bom guia para o bem viver.

Romântico: Essa descrição destrói a possibilidade de viver a coisa de dentro, de sentir toda a intensidade da vida, e portanto ela deve ser evitada, e não deve ser usada para agir.

Contra-argumento 1: Isso é simplesmente falso, a coisa é vivida com total intensidade mesmo quando ela é conhecida, técnicos de computador não tem menos prazer em usar o computador, e bons jogadores de tênis não tem menos prazer ao jogar tênis. Além disso a mesma crítica é feita contra a crítica de arte constantemente, e não é consenso que saber arte piora a arte, muitos acham que melhora.

Contra-argumento 2: Pode ser verdade que não se está vivendo a coisa de dentro, mas a vida não é a respeito de intensidades, mas sim de intensidades BOAS. Ninguém deseja a intensidade de descobrir que seu irmão de 15 anos está com cancer inoperável no cérebro, ninguém quer a emoção ultra-intensa de estar dirigindo num acidente de carro que mata um amigo seu. Como na média proceder de acordo com esse conhecimento maximiza muito as emoções boas, perder um pouquinho das pontas de intensidade é um preço bem pago por muito mais felicidade e momentos com a pessoa amada (ou longe dela, dependendo do objetivo).

Sociólogo-francês: Isso é uma redução absurda, o amor é muito mais do que isso, e não pode ser operado com esses conceitos e nem nesse nível.

Resposta: Blá Blá Blá Wiskas-sachê Blá blá blá Wiskas-Sachê. O amor é ÓBVIAMENTE infinitamente mais do que isso, até porque isso é uma descrição em terceira pessoa, e o amor é um sentimento em primeira pessoa, quando você tiver algo interessante a dizer, voltamos a conversar.

Feminista: Blergh

Resposta: Blargh.

Igualitarianista: Utilizar esses conceitos é injusto na medida em que nem todas as pessoas os possuem e quase ninguém consegue operar sobre eles além das próprias emoções. Isso conferiria uma vantagem sua em relação as outras pessoas e portanto é moralmente inadequado como qualquer exerção de poder sobre o outro.

Resposta: Talvez eu não tenha nenhuma resposta boa para esse argumento, o melhor que consigo pensar é dizer que isso não significa que isso não deva ser usado em casos em que seja melhor para ambas as pessoas. Ou seja, nos 70% dos casos em que os dois ganhariam mais felicidade se deva pensar assim. Os outros 30% não posso contra-argumentar sem apelar a uma ética individual à qual não me submeto.

Ingênuo: A vontade explícita das pessoas sempre coincide com a vontade dos corpos (meaning genes) delas, e o certo é permitir que essa comunhão se dê perante a Deus como Ele o quer, até que a morte os separe.

Resposta: Há duas maneiras de se resolver essa questão, uma é você abrir os olhos e olhar para o mundo ao redor, a outra é comprar uns livros, quaisquer livros fora da sessão Religião/auto-ajuda, sim, pode ser na ala infantil, sim, também pode ser em direito penal, quaisquer livros, acredite.

Primitivista/naturalista: A natureza deve seguir seu curso, e é interessante deixá-la operar como deve, e viver cada momento de tudo isso.

Resposta: Isso é um objetivo, pode ser o seu, não é o de algumas outras pessoas, considero respeitável, mas não considero que deva ser uma moral generalizada.

Minha posição pessoal fica em geral junto com a do igualitarianista, até porque eu sou um luckegalitarian, que é uma posição bastante parecida (a diferença é que luckegalitarian acham que deveria existir uma compensação ativa e não somente igualitária para as diferenças de sorte entre as pessoas. Mas apenas para cima. Por exemplo, se alguém nasceu lindo, genial e talentoso não se deve reprimí-lo ou queimar sua cara, mas se alguém nasceu feio e burro se deve fazer mais esforço para ajudar essa pessoa do que o que se faz para todos e ele deve ter direitos especiais de acesso a beleza (por exemplo salões de beleza), igualmente para renda. Uma pessoa não deve poder nascer mais rica do que o tanto máximo que é inevitável para que exista progresso tecnológico, ou seja os recursos deveriam ser igualmente distribuidos tanto quanto possível sem eliminar a vontade de mérito de todos. Uma pessoa mais burra deveria ter mais e não menos acesso a educação etc… ) O igualitarianista acha que a sorte é um dado que deve ser levado em conta, mas que a justiça é independente disso. O luckegalitarian acha que a sorte é um dado que deve ser ativamente compensado sempre que possível, e que uma justiça ideal só seria plena quando todos tivessem a mesma sorte ou azar, contanto que ninguém tenha que ser jogado para baixo.

Imagino que haja muitas outras respostas, e gostaria de receber algumas, para pensar mais profundamente a questão,e mudar de opinião se for o caso.

10 opiniões sobre “Amor e Probabilidade”

  1. Talvez surja a questão de porque eu escrevi sobre a terceira pessoa e não a primeira pessoa.

    Em primeiro lugar, não tenho uma teoria em primeira pessoa do amor, em geral eu me sinto muito fortemente impactado pelas experiências muito belas da vida e não me resta interesse, força ou capacidade para fazer teorizações, em outras palavras, sou um bobão. Isso não vale para tudo, mas vale para as coisas maravilhosas da vida, como o amor, bolhas de sabão, patins, gol-a-gol, mario kart, sleeping overs, virada cultural, filmes com o anthony hopkins etc…

    Em segundo lugar não acho que faça sentido dar uma teoria de primeira pessoa para perguntar uma questão ética, basicamente porque não fazemos idéia do que as outras pessoas tem em primeira pessoa, e nossas ações tem que se regular naquilo que achamos que é comum a todos nós (por exemplo querer ser feliz e não querer ter malária).

  2. Concordo que um relacionamento estável tem de variar a probabilidade da maneira que você disse, mas discordo que isso se preste a uma definição correta de amor. Amor seria melhor definido como todos os conjuntos de sentimentos que são responsáveis pelo inicio e perpertuação de uma relação amorosa. Gerar tal variação de probabilidade é somente um das muitas funções do amor. Na relação amorosa de longo prazo não basta que ambos não estejam dispostos a abandonar o relacionamento, ambos tem de estar dispostos a investir um no outro muito mais alem desse patamar, de outro modo a relação não iria se sustentar após o nascimento de um filho. Alem disso, ambas as partes estarão em constante disputa para tentar obter o máximo de investimento da outra com o mínimo de investimento próprio, uma vez que isso irá refletir o investimento parental. Para que a mulher garanta o máximo de investimento parental que lhe seja possível ela tem de fazer, previamente ou posteriormente, o homem estar num grau de envolvimento muito maior do que aquele que simplesmente mantenha a relação. Alem disso, o homem, tem que garantir um grau de interesse suficiente para evitar ser traído. Não há variação e sim tendência constante a estabilidade. Na relação amorosa de curto prazo não é necessário que ambos estejam nesse patamar de estabilidade uma vez que só a troca de genes está implicada. Nesse caso existe variação, pois o homem tem de convencer a mulher a entrar nesse relacionamento (através dos seus genes bons) já que do ponto de vista feminino ele não vale a pena a principio – pela assimetria no investimento parental em mamíferos.Um relacionamento se mantêm estável a longo prazo se ambas as partes acreditam estar com o melhor que conseguem. Se uma das partes acredita que poderia ficar com alguém com características melhores (alguém com mais inteligência, ambição, status, simetria facial e comprometimento, no caso das mulheres; e alguém com mais saúde física, aparência e fidelidade no caso dos homens) então o relacionamento tende a instabilidade. Para que uma parte crie essa crença na outra ele tem de exacerbar suas característica desejáveis para outra, isso é feito das mais variadas maneiras possíveis, que todos nós conhecemos muito bem.

    Descaso sutil gera amor muito indiretamente, fazendo a pessoa acreditar que você tem um status mais elevado do que o dela. No geral, se o seu status está razoavelmente garantido, investir em demonstrar comprometimento é muito mais eficaz. Talvez os homens no geral tenham criado esse mito de “quanto mais maltrata mais ela gosta” como fruto de uma ilusão cognitiva que expressa o desejo do homem de não se envolver com ninguém e só sair espalhando seus genes por ai. De modo algum isso seria o mais relevante num relacionamento, mesmo se descaso sutil gerasse quantidades absurdas de variação positiva em como a outra pessoa vê seu status, num relacionamento a longo prazo as mulheres tendem avaliar igualmente status e comprometimento (em alguns paises com baixa desigualdade social, comprometimento ganha), logo os efeitos se cancelariam. Alem do mais, se você gosta da pessoa e quer estar com ela o descaso sutil tem o preço de você não estar com a pessoa, apezar de ter como objeto que a pessoa te queira (o que lembra mais puro sadismo e não amor). Pequenas brigas são efetivas para que uma parte pense que a outra está insatisfeita e assim invista mais no relacionamento e na descendência. Acredito que você não tenha diferenciado muito bem entre relações de curto e longo prazo, elas são dois tipos muito bem definidos e distintos de relação no nosso cérebro em que ambas as partes procuram coisas diferentes. Acredito que você tenha usado critérios que “mantêm” uma relação de curto prazo para uma relação de longo prazo, o que te fez considerar muito pouco critérios como estabilidade (em oposição variação) e comprometimento, ao ponto que não penso que seus conselhos sejam realmente eficazes em se manter uma relação de longo prazo. Talvez seja possível usar o seu método para ter uma relação de longo prazo que consista de varias relações de curto prazo seriadas com a mesma pessoa. Apesar de ter a vantangem de conservar aquela paixão fulgorosa por todo o relacionamento acredito que isso da muito, muito mais trabalho do que ter um relação de longo prazo simples e que tem muito mais chances de dar errado. Tenho vários outros comentários à parte teórica do seu texto que posteriormente gostaria de tecer, mas pela escassez de tempo no momento queria focar na parte de o que fazer, que considero a mais relevante. São opiniões de grande tom subjetivo e que refletem a minha experiência pessoal.

    Como disse, a evolução moldou nossos sentimentos amorosos para manter uma união estável com o máximo de custo/beneficio de investimento possível e com um grau de envolvimento muito maior do que é suficiente para não ser ou não querer deixar o relacionamento. Essas características são ideais se você vai ter um filho com a pessoa e quer ter uma família feliz (no geral a familia vai estar tanto mais feliz quanto mais possuir as caracteristicas que geram uma boa descendencia com um custo/beneficio alto para ambas as partes) e estável (ao menos por uns 3-6 anos). No entanto cada vez mais as pessoas buscam o envolvimento amoroso por si mesmo, sem o objetivo puro de perpetuar a espécie. Nesse caso não é necessário uma disputa por grau de investimento e outros tópicos relacionados a criar um envolvimento que produza a descendência com maior taxa de sobrevivência. Claro, se nos despreendermos por completo desses mecanismos evolutivos acabaríamos por eliminar com o amor por completo e isso me parece impossível, no atual estagio do transhumanismo. No entanto é interessante tentar eliminar só a parte desagradável do relacionamento. Acredito que essa parte é justamente a que concerne disputas por grau de envolvimento e de investimento (que foi quase que o foco todo do seu texto) restando só um amor que é composto por uma necessidade de cuidar, de comprometimento e de fazer a vida do outro melhor e outros sentimentos que inexoravelmente vêem a tona como um leve ciúmes e necessidade de possessão.
    Acho que as pessoas tem muita dificuldade de lidar com insegurança e fragilidade em relacionamentos. Ou elas tendem a lidar com isso usando a técnica do descaso e da indiferença, ou se jogando demais de uma forma quase animalesca. Penso que os relacionamentos seriam muito melhores se as pessoas aceitassem que elas estão apaixonadas, que elas querem o outro e demonstrem isso abertamente, sem uso de técnicas indiretas para manter relacionamentos (uma vez que isso só teria função em relacionamento de curto prazo ou em obter mais futuro investimento parental). Você ta la frágil apaixonado, perdido de amor, a outra pessoa sabe disso, você ta nas mãos delas (ou ao menos uma parte não irrelevante sua), você é dependente e você quer ela muito e essa é a vida e não tem o que fazer. É assim que eu acho que consegui e tenho consigo obter o máximo de prazer e fornecer o máximo de prazer em relacionamentos. No final, essa tática da muito muito menos trabalho do que ficar pensando constantemente, quase que de uma maneira paranóica, em técnicas mirabolantes-evolutivas de como fazer o outro querer você aos custos de as vezes magoar a outra pessoa. Esse tipo de união me parece muito mais propicio a ter benefícios emocionais (pois é estável e você obtém e fornece prazer constante) e pragmáticos (pois você gasta menos tempo pensando em relacionamento e mais tempo vivendo ele e o outros aspectos da vida). Isso abre espaço para uma troca de influencias e idéias e de ajuda mutua, o que propicia um ambiente quentinho e nutritivo para os memes – e não os genes – se reproduzirem. O único trabalho é deixar o cinismo de lado e admitir a própria fragilidade perante o outro.

  3. Um teste que tem-se mostrado bom em prever felicidade e estabilidade em relacionamentos é o seguinte:

    “Based on a series of factor analytic studies of both Big Five markers and personal
    attributes that were theoretically linked to mate value, Ellis et al. (2002) derived
    six major domains of comparison between current and alternative partners,
    each of which were theoretically linked to adaptively important questions about
    mates (as expressed in the questions following each trait description):

    1. Agreeable-committed (altruism, cooperation, trust, fidelity, and commitment):
    Who is likely to share resources? Who will be a good cooperator
    and reciprocator? Who will remain faithful and committed to a long-term
    relationship?
    2. Resource-accruing potential (dependability, perseverance, achievement orientation,
    intelligence, and economic success): Who has the will and perseverance
    to achieve important goals? Who can reliably obtain economic and
    nutritional resources for me and my family?
    3. Physical prowess (physical strength and prowess): Who is a good hunter and
    fighter? Who can retain the resources they have and expropriate resources
    from others?
    4. Emotional stability (calmness and stability): Who can cope with adversity
    without being overwhelmed by it? Who is mentally healthy and stable?
    5. Surgency (dominance, leadership, and ascendance): Who is high or low in
    the present social hierarchy? Who is likely to aggressively pursue available
    resources and opportunities?
    6. Physical attractiveness (beauty and sex appeal): Who is healthy? Who is fertile?
    Who has “good genes” that could be passed on to my children?

    The TSDI constituted the six summated rating scales based on these dimensions
    (Ellis et al., 2002). To assess subjective dependence to partners, each TSDI item was
    worded in the following manner: “If you and your current partner broke up, how
    difficult would it be for you to find another partner who is as [adjective]?” Thus, for
    each personality adjective (trait), respondents were asked to make explicit comparisons
    between their current partner and their best available alternative partner(s).”
    (Commitment, Love, and
    Mate Retention
    LORNE CAMPBELL and BRUCE J. ELLIS)

    Investir em aumentar a sua pontuação nesses 6 aspectos (e diminuir a alheia), portanto, é um bom modo de manter um relacionamento.

  4. Se o objetivo é se submeter ao modus operandi da paixão e tentar maximizar esse tipo de experiência, não vejo nada contra usar todo o conhecimento sobre isso, mesmo que unilateralmente.

    Apenas acho que este objetivo é péssimo, do ponto de vista do objetivo geral de tentar ser feliz.

    Em vez de pensar que a paixão é essencial à boa vida, já era hora de ver que ela é quase que dispensável. Explico: vale muito mais priorizar relações leais, honestas, verdadeiras (do tipo que jamais acabarão – amor, no caso) e deixar a paixão em segundo plano.

    Havendo atração e sexo, vai rolar paixão de qualquer modo. Sem dúvida em menor grau do que as explosivas e loucas paixões de quem busca especificamente isto – que semprem podem falhar e ser insuportáveis, aliás.

    Mas paixões intensas de seis meses nem fodendo compensam a alegria sempre crescente de viver relações plenamente verdadeiras: nada de cinismo, de jogos, de tática, de distâncias, de ilusões construtivas – nada de toda essa preocupação com arrumar o teatro.

    Estar apaixonado por alguém estranho (pior se deliberadamente estranho) não é grande coisa perto de realmente conhecer uma pessoa, sem medos, sem intriga, e saber que o amor ali é por razões reais, não por truques.

    A idéia de cultivar relações onde a falsidade é parte ativa do tempero, pra mim, está fora de cogitação.

  5. Em primeiro lugar, concordo com a maioria dos comentários do joão (inclusive com a maioria dos que discorda de mim).

    Achei interessante o ponto dele sobre meus conhecimentos serem do tipo que mantém uma relação de curto(médio) prazo a longo prazo.

    Ambos Paralelo e João estão indo para um lado de amor de longo prazo que não possui a incandescência que me parece bastante interessante, paixão, que eles não parecem valorizar como eu valorizo.

    Além disso, os dois não são pessoas de comportamento tribal, no sentido de não estar convivendo constantemente com pessoas que vivem em grupo, que tem outros parceiros sempre disponíveis em grupo, cujas situações hierárquicas estão em constante mudança. Ou seja, eles vivem em ambientes de menos ameaça (evidente que havendo menos ameaça existe também menos oferta, e também menos status na oferta disponível).

    O mundo tribal é mais complicado que isso. A tensão está sempre presente, a hierarquia é maleável e sempre há gente nova vindo e indo.

    Acredito que meus poucos relacionamentos de mais de 6 meses (3) e 3 anos (1, quebrado em partes conforme o João descreveu) não me permitam comparar com conhecimento o tipo de relacionamento mais de médio prazo, com paixão fulgurosa e amor, de relacionamentos estáveis de longo prazo no qual só existe amor. Imagino que eles não tenham acesso a informação inversa. Ou seja, não faz sentido eu argumentar que um jeito ou outro é mais feliz.

    Por ora, tenho a dizer apenas que o método que eu expus me parece mais eficiente em ambientes com maleabilidade de pessoas muito grande, e o deles no caso contrário.

    A única idéia que vale discordar é a exposta pelo João na qual já de início aquele que ama confessa seu inemovível amor para a outra pessoa. Pensem comigo, porque é tão difícil dizer que se ama alguém? Porque dá um frio na barriga infinito e não saem palavras…. Isso é como dizer que comemos doce porque é doces são gostosos. Comemos doces porque na savana tinha poucos carboidratos. É tão difícil dizer que se ama alguém porque no passado evolutivo isso deu pau muitas vezes, isso maximiza duas possibilidades horríveis. Piripaque instantâneo e fim da relação ainda no início. Desconsideração por parte da pessoa em nível inconsciente por razões sociais “Ele já está apaixonado? Ora então ele deve ser um bocó, não deve valer a pena” disseram a dopamina e norepinefrina da garotinha.

    Por essas razões, nosso organismo está bem projetado para não confessar o amor enquanto não for a hora, e acho que assim deve-se permanecer.

    1. Se observa que uma infância perturbada está associada a níveis altos de cortisol durante a infância (hormônio do stress) o que gera um estratégia de relacionamento mais voltado a curto prazo e ao inicio prematuro da menstruação em meninas. Enquanto que uma infância mais calma esta associado a níveis de cortisol normais ou mais baixos durante a infância e uma estratégia voltada a longo prazo. Isso se explica pelo fato de em um ambiente mais instável a estratégia com maior fitness ser a de curto prazo e num ambiente estável, o contrario.
      Alem disso sociedades com mais homens do que mulheres tendem a usar mais estrategias de longo prazo e o inverso também vale. Isso se explica pois o sexo limitante pode escolher qual estratégia usar.
      Niveis altos de testtosterona no desenvolvimento embrionário também está correlacionadas com estrategias de curto prazo.

  6. Meu deus que brainstorm enorme.

    Falar que ama alguém já foi um pouco difícil para mim. Mas hoje acho natural, sinto prazer em afirmar certo padrão de zelo porque sei que isso aumenta as chances de empatia e troca de intencionalidades.

    E quando duas pessoas sabem sobre suas intencionalidades e estabelecem um certo grau de empatia, abre-se espaço para menos confusão.

    Claro que, nesse ato, não se deve jogar-se de corpo inteiro porque como já foi citado, é um risco afirmar ‘zelo’ e/ou amor e colocar em risco investimentos de cunho físico e até psíquico.

    Se estabelece o intuito e o sentimento de ‘zelo’ ou amor porque ele dá prazer. O que dá prazer, você afirma, externaliza e deixa o mundo mais colorido e fofinho.

  7. “Neuroenhancement of Love and Marriage: The Chemicals Between Us”
    http://www.bep.ox.ac.uk/latest_news/?a=9396

    Nesse artigo os autores discutem quais seriam as melhores formas de alterar nossos relacionamentos e o amor. Em geral a felicidade de alguem pode ser ordenada assim: termino de relacionamentos < solteiro < em um relacionamento. Logo o mais vantajoso é permanecer no mesmo relacionamento durante o maior tempo possivel, no entanto evolutivamente os relacionamentos foram programados para durar apenas alguns anos. Os autores discutem então maneiras quimicas de se alterar isso com substancias que aumentem o funcionamento do neurotransmissor ocitocina , responsavel por pair bonding e amor. Uma substancia que já faz isso é o ecstasy. Uma dose de ecstasy tem a mesma quantidade de efeitos colaterais que 49 colheres de manteiga. (quem quiser o paper sobre isso posso achar). No entanto, uma extensa pesquisa nesse campo ainda se faz necessaria.

    É sempre bom saber que para cada jeito que a nossa vida poderia ser melhor, tem sempre um transhumanista pensando em como fazer isso.

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