Sujeito e Poderes da Palavra Falada e Escrita: Uma Ficção Gravitando Derrida, Dennett e Pinker

Esse texto foi escrito como um trabalho para uma disciplina de filosofia na usp. Ele é enorme (11pgs) mas acho que é interessante. Meu único medo ao publicá-lo aqui é passar a idéia de que eu acho que Derrida deva ser lido. Então quero destacar o seguinte: Não acho absolutamente que nenhum ser humano, jamais, deva ter que ler Derrida. Considero que ler Derrida talvez esteja entre os 15% piores de coisas para fazer com o próprio tempo, e que no máximo o artigo da stanford encyclopedia deva ser lido, caso alguém queira muito ter uma idéia. Dito isso, espero que seja de proveito aos diletantes do blog.

“And working with Derrida has always meant working more or less
closely with the frontier, or the frontiers, of philosophy and literature.”
Geoffrey Bennington

“ If all awareness is a linguistic affair, then we are never going to be
aware of a word on the one hand and a thing-denuded-of-words
on the other and see that the first is adequate to the second.
But the very notions of ‘sign’ and ‘representation’ and ‘language’
convey the notion that we can do something like that”
Richand Rorty

Sentados de frente ao pôr do sol num vale espanhol encontram-se três figuras1 de peculiar semblante capilar. O primeiro, de cabelos excessivamente brancos e nariz que não nega as origens francesas, o segundo, com a barba e cabelos que tranquilamente seriam confundidos com papai-noel por uma criança desatenta, e o terceiro porta cabelos encaracolados até os ombros, tipicamente adolescentes se não fossem grisalhos. Ao som de Vivaldi discutem algumas questões sobre a linguagem.

Derrida: A escritura opera de maneira diferente da palavra falada, cria uma espécie de sujeito intersubjetivo, possibilita o surgimento de uma consciência pura, cuja voz fala de maneira transcultural, e maximalizada na figura do cientista. “ [L]e sens n’y est pas assujetti à la successivité, à l’ordre du temps logique ou à la temporalité irréversible du son.” (Grammatologie p127).

Pinker: Essa noção de consciência pura me parece demasiado vaga. Por exemplo, sabemos que somos conscientes visualmente em geral dos níveis intermediários entre as categorias abstratas (“mesa”,”cão”, “mamãe”) e dos níveis sensoriais de percepção (os riscos e linhas projetados em nossa retina). Estamos conscientes em geral, visualmente, desse nível intermediário no processamento. Já no caso da linguagem, quando falamos estamos em geral conscientes do nível silábico, em oposição aos sons brutos ou as estruturas de significação das palavras.

Derrida: Por “pura” entendo essencialmente aquilo que transpassa culturas e indivíduos, a escritura permite uma comunicação na qual não se pode mais recorrer a intencionalidade do falante para verificar o que de fato se “quis dizer”. Ela cria um novo paradigma de simbolização. Esse novo tipo de sujeito, um sujeito puro, na medida em que não infectado das particularidades de ninguém, ou das indexalidades individuais de um contexto de elocução é uma consequência da escrita, e ele representa, em certa medida, um novo caminho para a metafísica.

Dennett: Posso entender com isso que você está sugerindo que existe uma intencionalidade na escrita pura, desconsiderada de seu escritor.

Derrida: Não uma intencionalidade, existe significação e linguisticidade. Uma pletora de significados se entremeia nessa linguagem, criando um novo espaço onde poderia surgir algo como uma nova episteme, independente de sujeitos particulares, e portanto algo que pode nos auxiliar a minar a metafísica da presença. Alternativamente poderia fazer surgir uma nova metafísica.

Dennett: Em meu The Intentional Stance argumento a favor da idéia de considerarmos quaisquer entidades processadoras de informação suficientemente complexas como agentes intencionais, lembro-me de pelo menos duas coisas em seus textos que eu classificaria assim. O status da escritura e da máquina de escrita que você supõe operar no insconsciente freudiano. Ambas estão reconhecendo padrões e se dirigindo para um ou outro lado, seja através da interminável sequência de signos que constitui a escritura, seja através da constante reelaboração de traços mnésicos (ou o que eu chamaria de alterações médias de reforço sináptico) que opera a linguisticidade do insconsciente.

Derrida: De fato eu entendo que haja ao menos três tipos de linguisticidade habitando o mundo. A linguisticidade que opera na voz, na consciência individual e que está sempre impregnada de differànce, que só pode ver a si mesma através de um espacement. Além disso a linguisticidade do insconsciente que regimenta operações conscientes através de quase-regras que não têm valor semântico ou sintático bem determinado, mas ainda assim operam e modificam as condições de possibilidade daquilo que é de fato falado e vivido pelo falante. Por último a linguisticidade da escritura, que, como antecipei, não vê na intencionalidade do falante seu fundamento, e portanto talvez esteja numa melhor posição para descarregar a metafísica da presença, da consciência, da autonomia…
Não me disporia a dizer que essas duas últimas linguisticidades têm uma intencionalidade, uma maneira última de fixar a referência, então não posso concordar.

Dennett: Como um Quiniano, estaria longe de mim querer fixar regras de determinação da referência ou de tradução ipsis literis entre quaisquer linguagens que sejam, ainda mais de tipos tão distintos. Minha defesa é apenas que não existe nenhuma intencionalidade legitima, ou originária, contra a qual devem ser contrastadas as intencionalidades derivadas. Ou seja, a referência de um termo, seja ele “gavagai” ou “differànce” sempre admitirá enormes quantidades de referências, e não há maneira de distinguir entre elas.

Derrida: Na escritura, você diz.

Dennett: Não, tanto na escritura, quanto no insconsciente, quanto na consciência, quanto num programa de computador. Evidente que existem níveis de imprecisão diferentes em cada um desses sistemas, e que nós somos um sistema muito eficiente de captura de erros de referência. É fácil enganar uma máquina de refrigerante com uma moeda falsa, ou um sapo com uma mosca falsa, é bastante difícil enganar um humano com uma mulher falsa, mas exemplos como o gavagai de Quine e a Twin Earth2 de Putnam demonstram que não é impossível.

Derrida: Então você está sugerindo uma espécie de caminho de desconstrução da noção metafísica de sujeito a partir de uma concepção mais vaga de intencionalidade, negando, assim como eu, que haja intencionalidade determinada na escritura ou no insconciente, mas indo além e declarando que o que quer que a história da filosofia queira dizer com intencionalidades determinadas na consciencia do sujeito, isso também não existe na mesma medida?

Dennett: Exatamente. O meu projeto filosófico, apesar de por caminhos muito diferentes tem também por objetivo desconstruir a noção de sujeito, de consciência, de autonomia, e de autenticidade. Para isso sirvo-me principalmente não de noções abstrusas como differànce, espacement, e etc mas de evolução darwiniana e inteligência artificial.

Pinker: Há algo que não me soa bem naquilo que os parece fazer concordar a respeito do grau de determinação da linguagem falada. Ambos parecem estar falando como se a linguagem fosse somente determinada pelo uso, e que o limite de precisão da referência fosse justamente o limite da capacidade de utilizar um termo e agir de acordo com ele. Mas há razões para crermos que a linguagem é mais fixa do que apenas uma série ordenada de convenções. Essa hipótese de determinação por uso, chamada de radical pragmatics, e sustentada na filosofia famosamente por Wittgenstein, pode ser refutada empiricamente. Como eu pontuo em meu The Stuff of Thought (2007pg115):
“…[T]he more frequent a word is, the more polysemous it is, and vice versa. For example, the comon verb set (which occurs 372 times in every million words) has more than eighty dictionary definitions; the less common verb sever (9 per million) has four, and the rare verb senesce (less than 1 in a million) has just one. This is just what you would expect if words by default are precise in meaning, and accumulate additional senses through separate exposures, but the opposite of what you would expect if words by default are diffuse in meaning, and are sharpened with additional exposures through discrimination training.”

Derrida: Você traz uma questão que é muito cara a mim, a questão da polissemia, ou como eu costumo falar, da disseminação. Uma das perguntas que eu reforço a importância é, porque não a disseminação ao infinito? Porque temos que readmitir sempre na linguagem e na vida a determinação, a especificidade. Isso pode ser apenas mais um reflexo do desejo de divinização da filosofia tradicional. A tentativa de compatibilização entre identidade, autenticidade e a liberdade necessita de uma especificidade para que o eu se veja como idêntico a si mesmo. Mas não existe tal coisa. Mesmo ao olhar para si próprio é necessário um espacement, uma abertura, um ver-se enquanto o outro. E nisso se perde o valor da falsa identidade. A polissemia talvez soe ao filosofo tradicional ou ao estruturalista como um politeísmo, e a cristandade do ocidente não permitiria tal pecado. A disseminação é criminosa em todos os âmbitos nos quais se envolve a filosofia ocidental, do politeísmo a poligamia. Mas a mim parece claro que a disseminação é o próprio fator que determina a possibilidade da linguisticidade. A comunicação que supõe uma tradução sempre possível é um atentado, todo ato de fala já traz consigo o espectro da convenção as regras que regem a linguisticidade do falante à qual se deve submeter o ouvinte. A não compreensão é, nesse sentido, compreensão maior do que a compreensão, já que esta depende de uma violência.

Dennett: Mas o propósito de uma linguagem, como já foi pontuado por Quine, Davidson e eu é justamente o de transmitir informação verdadeira com precisão. Uma linguagem que fosse 55% mentira por exemplo não poderia evoluir, pois seria adaptativo para um indivíduo não entendê-la, e logo todo o grupo, ou espécie, deixaria de ter a capacidade de compreensão de linguagem. É uma propriedade essencial e estrutural de qualquer língua que ela sirva ao menos em maioria para descrever o mundo.

Pinker: Isso desconsidera atos performativos, que são justamente aqueles nos quais me parece que Derrida pontua que ocorre uma violência de tradução.

Dennett: Pelo contrário, um ato performativo depende de um modelo cognitivo (por exemplo virtual) do mundo ao redor bastante específico para que o agente ouvinte possa interpretar corretamente o que deve ou não fazer. A noção de liberdade promulgada por você, senhor Derrida, me parece aí simplesmente uma abstenção de ação. Não impor a traducibilidade entre duas linguagens faladas não é libertar o Homem, mas privá-lo da conquista da comunicação, submetendo-o, ainda mais, as forças da natureza contra as quais a linguagem evoluiu.

O sol se põe no horizonte, e é servida uma garrafa de vinho para amenizar o frio, após um brinde, a conversa é retomada:

Derrida: Falavamos sobre atos performativos, perlocucionários. A mim parece que a distinção entre atos performativos e demais sentenças de uma linguagem falada é uma má distinção. Não há uma clareza de preto no branco aqui, mas uma espécie de degradê, e em última instância a ação de uma sentença se confunde com seu significado. Ao menos em parte é isso que amplia o grau de determinação da palavra falada em comparação a escritura, o grau de disseminação de uma sentença diminui se ela se conecta em contexto a as ações dos indivíduos. Num monólogo interno, não há sentido pois o significante se torna índice e se traduz em ato, não há possibilidade de signo. Em casos menos extremos de elocução, ainda assim a expressão guarda muito da determinação na forma de índice, de refração imediata do significante no mundo. O ato elocucionário está sempre colocado como expressão, e é na expressão que podemos precisar aquilo que a escritura opera de maneira distinta, trans-individual, transcendental.

O garçom se manifesta:

Diego Caleiro: O que me parece mais razoável dizer é que a linguagem nos permite falar sobre objetos do mundo (e fora dele) com um grau de precisão que o sujeito epistemológico não pode fazê-lo. A linguagem é capaz de falar sobre metafísica por exemplo, mesmo que eu não seja capaz de conceber metafísica de maneira coerente. De Merleau Ponty ao linguista Lakoff em seu Philosophy in the Flesh fica claro que nossa mente está incorporada, que somos seres cognoscentes no mundo, e que pensamos principalmente sobre ele. Entretanto, como pontua David Lewis, estamos o tempo todo utilizando sentenças modais como “A Rússia poderia não ter sido o maior país do mundo”, que dependem de toda uma operação metafísica de se supor mundos possíveis, designar a Rússia rigidamente, e deixar a referência de ‘o maior país do mundo’ aberta. Esse tipo de operação é a linguagem que nos permite fazer, e portanto podemos falar de metafísica, sobre isso Lewis pontua (Lewis 1983 p136):
“I can. Some say they can’t. They say their understanding is limited to what can be expressed by modalities and world-restricted quantifiers. I have no help to offer these unfortunates, since it is known that the expressive power of a language that quantifies across worlds outruns that of the sort of language they understand. See, for instance, Allen Hazen, “Expressive Completeness in Modal Language,” Journal of Philosophical Logic 5 (1976): 25-46. His examples of theses inexpressible by modalities and world-restricted quantifiers alone are notable for their seeming intelligibility.”

Entendo o caminho de Derrida mais ou menos dessa maneira, não pensando a escritura como algo nela mesma transcendental, mas como algo que é capaz de representar o transcendental, falar sobre ele, enunciar questões a respeito etc… Existe um sentido no qual se poderia dizer que a escritura é transcendental, o mesmo sentido no qual os estruturalistas diriam que há uma transcendentalidade regendo os mitos. Isto é, algo que determina toda a classe dos mitos sem pertencer a nenhum deles, e que não perpassa a consciência de nenhum indivíduo que crê nos mitos.

Pinker: Mas essa transcendentalidade, essa propriedade de estar num nível mais profundo que o da consciência é justamente aquilo que Chomsky descobriu, que gerou as árvores semânticas, e a respeito do que eu defendo a tese de que seja um instinto em meu livro The Language Instinct. Numa visão de mundo que me parece que todos compartilhamos, que é a da eliminação do sujeito transcendental e de suas propriedades divinas, não é nada mais do que razoável e necessário encontrar um princípio de explicação do porquê a estrutura da linguagem perpassa indivíduos e culturas, e a explicação mais adequada e simples para isso é a existência de um instinto (determinado por uma parte do código genético comum a todos) que orienta essas regras. Não é nada misterioso, espiritual. Essa transcendentalidade só transcende nossa capacidade epistêmica imediata enquanto seres conscientes, mas está muito bem engendrada no mundo físico.

Diego Caleiro: Exatamente por isso não acredito que seja interessante uma interpretação da transcendentalidade da escritura como esse tipo de transcendentalidade, isso não traria nada de novo, conquanto a outra interpretação, de que o elemento diferencial da escritura ao ser intersubjetiva é que ela funciona de maneira epistemicamente diferente e pode falar a respeito de coisas que não temos acesso é muito mais frutífera.

Derrida: Nesse sentido, já coloquei por vezes a questão: Aquilo que me garante a possibilidade do sentido é ao mesmo tempo aquilo que me gera a possibilidade de perdê-lo. Isso porque o sentido transcendental só se pode dar fora do sujeito, no locus trancendental habitado pela escritura (que é intersubjetiva). Por outro lado, se o sentido está lá, na escritura, como posso ter acesso a ele?

Dennett: Isso é simples, você não pode, por problemas como a impossibilidade de interpretação radical, inescrutabilidade da referência e o próprio problema da polissemia (ou disseminação, se quiser) você nunca estará plenamente qualificado para acessar ou interpretar essa informação. O que se faz na escritura fica na escritura.

Diego Caleiro: Ora, mas se assim for, que garantia posso ter eu que esse poder da linguagem que eu não posso acessar está de fato lá? Não é só uma questão de não saber o conteúdo do objeto que estamos discutindo, isto é, o poder transcendental da linguagem escrita, é também uma questão de saber se existe de fato esse poder. Roubando uma metáfora de Russell, não se trata só de saber o sabor do chá que está orbitando marte, mas também, e principalmente de saber se há de fato um chá orbitando marte.

Derrida: O exemplo do bloco mágico de Freud talvez nos seja de serviço aqui. Assim como no bloco mágico, num determinado ângulo e com a correta iluminação eu consigo obter parte da informação acerca daquilo que me é inacessível (e portanto, no nosso discurso atual, transcendental) é possível que simplesmente ao deparar-me com a escritura eu tenha acesso parcial que me dê a garantia da existência desses poderes trancendentais.

Dennett: Alternativamente, podemos simplesmente admitir ignorância e evitar minar a filosofia com noções que dependam desse tipo de trancendentalidade. No exemplo dado, podemos simplesmente admitir que não fazemos idéia de se a Rússia poderia ou não ter sido o maior país do mundo, mesmo que a linguagem pareça indicar que sim. Nós, neo-quinianos, em geral tomamos essa perspectiva de análise.

Diego Caleiro: Uma terceira possibilidade é admitirmos um novo sujeito epistêmico, localizado na própria escritura, e tomarmos ele, e não a nós, como o ponto de partida. A idéia de Derrida sobre o cientísta e a ciência como encarnações dessa intersubjetividade representa bem isso. Podemos conceder que o criador de conhecimento não é um eu cartesiano, um sujeito fenomênico ou qualquer coisa assim, mas sim justamente a própria estrutura regente da linguagem escrita. Quem sabe em outras palavras, deixo de ser apenas eu e passa a ser o meu texto.

Dennett: O problema de fazer isso é mais uma vez o de que senteças como “Prota engelska” podem ser traduzida de infindáveis maneiras caso não saibamos sua origem. Por outro lado como pontuei antes, quanto maior o conjunto de símbolos sintáticos (por exemplo letras) em sequência, maior a quantidade de constrições naquilo que um texto pode representar, um livro não pode ser a respeito de qualquer coisa, mas o nome dos personagens pode ser trocado por exemplo, então a referência de um livro num idioma desconhecido ainda é bem aberta. Quanto maior o texto, mais determinada a referência e mais clara a intencionalidade (no meu sentido fraco) das palavras nele contidas. Uma frase simples no entanto admite infindáveis traduções, possibilidades representacionais, porque estruturas simples mapeiam coisas demais.

Derrida: Me incomoda o que parece ser uma noção de telos na visão de mundo de vocês, como se o texto fosse tão determinado quanto um sujeito, e na medida em que ele se constrói e reconstrói, apenas torna mais perfeita sua capacidade de significar. Como se, no limite o texto fosse se tornar Homem, ou Deus, único e determinado. Essa visão teleo-lógica não é boa como filosofia do sujeito, e eu digo que não é boa como filosofia da linguagem.

Diego Caleiro: E se encararmos o texto apenas como um construendo constante que se determina conforme se amplia, satisfazendo as necessidades computacionais de Dennett, e ao mesmo tempo o texto por conta de mudanças de uso contingencias e contextos também cria polissemias, disseminações conforme se inscreve no mundo. Isso nos orientaria em direção a uma filosofia da linguagem ondulatória, que ao mesmo tempo vê um grau médio de teleologia na linguagem (o suficiente para manter a evolução funcionando) mas permite oscilações de sentido, em particular naqueles aspectos que mais se distanciam da vida cotidiana, como por exemplo a metafísica. O programa de Derrida assim se justifica na medida em que seu objeto é quase sempre um conjunto de construtos metafísicos pertinentes a episteme de uma época, e é justamente nesses terrenos sombrios da linguagem, que não tem valor evolutivo, que mais se pode errar, e onde mais se justifica aplicar a desconstrução. Se a linguagem ondula de uma maneira que parece direcionada a um telos, certamente mesmo em seus momentos de mais precisão e acurácia ela ainda se encontra muito longe. A destruição de noções metafísicas, o jogar um texto contra ele próprio, a procura da differànce são uma metodologia que nos mostra, continuamente, que o território da filosofia é o terrítório onde as ondas não mais estão se aproximando da realidade. Betrand Russell dizia que a ciência é o que sabemos, a filosofia o que não sabemos, e a religião o que inventamos, e via a função do filósofo como transformar filosofia em ciência. É irrelevante para nossos própósitos discutir a diretiva de Russell, mas sua premissa se encaixa de maneira interessante nessa discussão. Se a premissa for verdadeira, a filosofia de Derrida é uma metologia de verificar se algo ainda é filosofia, e não escapou para o domínio da ciência. Onde se desconstrói, se filosofa. Onde não se desconstrói, se “cientiza”.

Derrida: Diego, você diz que não traria algo de novo pensar a transcendentalidade da escritura como a inacessibilidade da consciência as idealidades da linguagem. A consciência pura acessa essas idealidades, e não o sujeito. Ainda que isso tenha sido dito pelos estruturalistas, minha noção é mais fluida, na medida em que encompassa todas as possiveis modificações e significações da linguagem ao mesmo tempo, com sua poesia, disseminação, literatura, filosofia etc… se reconstruindo continuamente sem uma origem. Sem um centro. Nessa medida, ela é diferente da noção proposta pelos estruturalistas. É algo de novo.

Diego Caleiro: Sem dúvida mas ela não está sozinha nisso….

Dennett: Meu amigo Hofstadter por exemplo propõe uma visão muito parecida do Homem em “I Am a Strange Loop”, a noção de um strange loop é justamente uma estrutura fluida, aberta, repleta de auto-referências que não se orienta numa únidade individual e que amplia e reduz aspectos de sí própria. O funcionamento de um Strange Loop me parece muito similar ao que Derrida chama de Linguagem, e também de sua visão anti-metafísica do sujeito…
–Derrida interrompe…

Derrida: “A supposer que la théorie de la cybernétique puisse déloger en elle tous les concepts métaphysiques — et jusqu’à ceux d’âme, de vie, de valeur, de choix, de mémoire — qui servaient naguère à opposer la machine à l’homme, elle devra conserver, jusqu’à ce que son appartenance historico-métaphysique se dénonce aussi, la notion d’écriture, de trace, de gramme ou de graphème.” (Grammatologie p19)

Dennett continua: Eu mesmo escrevi um texto: “The Self as the Center of Narrative Gravity” em que proponho que o Self é uma noção abstrata, como um centro de massa, ao redor do qual se constroem nossas “Intencionalidades” ações, comportamentos, sentenças etc… Um centro de massa não é algo físico, mas existe en tant que entidade abstrata, defendo que um Self seja o mesmo tipo de coisa.

O vinho começa a subir a cabeça….
Derrida: Essas idéias podem ter atravessado o atlântico, mas surgiram aqui, na boa e velha europa, já que escrevi muito antes de vocês.

Dennett: E nos sobrou o trabalho de traduzir, transduzir, e tranformar o seu obscurantismo terrorista em algo que pode ser compreendido, que se adequa a ciência contemporânea, que é compatível com a evolução e a computação, e que por isso mesmo justifica a utilização desse tipo de idéia.

Derrida: Aí você se engana, e começa mais uma vez a cair em noções metafísicas presentes à ciência contemporânea, a próxima geração de desconstrutores se encarregará de chafurdar nisso. Como uma degustação, já antecipo que dentro das filosofias computacionais as noções de símbolo por exemplo estão repletas daquilo que chamo de “contamination”. Hofstadter tem publicado a respeito de o principal aspecto da cognição ser o funcionamento dela como analogia, e por vezes como metáfora, mas, como já disse antes (De la dissémination, Paris, Seuil, 1972, p. 172.)(Marges, Paris, Minuit, 1972, p. 303.): “La métaphoricité est la contamination de la logique, et la logique de la contamination.” “La philosophie, comme théorie de la métaphore, aura d’abord été une métaphore de la théorie.”

Pinker: Nessa batalha semântica intercontinental sintática intencional não haverá hoje vencedor, cantemos então, com Lewis Carroll, uma música que bem representa parte dos problemas que estivemos discutindo:

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

“Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!”
He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought —
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.
And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!
One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.
“And, has thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!’
He chortled in his joy.

`Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.”

Referencias:
Carroll, Lewis.Through the Looking-Glass and What Alice Found There. 1872
‘Jabberwocky” disponível em:

.

Acesso em: 06 jun. 2009, 08:46.

Dennett, Daniel. Darwin’s Dangerous Idea: Evolution and the Meanings of Life. Penguin Science 1996
—————. The Self as a Center of Narrative Gravity in F. Kessel, P. Cole and D. Johnson, eds, Self and Consciousness: Multiple Perspectives, Hillsdale, NJ: Erlbaum, 1992.

Derrida, Jacques. La voix et le phénomène : Introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl (Broché) 3e édition 2003

—————–.L’écriture et la différence (Poche)1979

—————–. De La Grammatologie. Editions de Minuit 1967

Hofstadter, Douglas. 2001 Analogy as the Core of Cognition IN The Analogical Mind: Perspectives from Cognitive Science.
Online version: http://prelectur.stanford.edu/lecturers/hofstadter/analogy.html
———–. I Am a Strange Loop. Basic Books 2007

Kripke, S. Naming and Necessity. Harvard University 1980

Lewis, David Kellog. Attitudes De Dicto and De Se IN Philosophical Papers vol 1. Oxford University Press. 1983

Maniglier, Patrice. Surdétermination et duplicité des signes : de Saussure à Freud.
Online Version:

Pinker, Steven. The Stuff of Thought. Harvard University. 2007

———–. The Language Instinct: How the Mind Creates Language .Perennial Classics. 1994

Putnam, Hilary. The Meaning of Meaning IN Language, Mind, and Knowledge. University of Minnesota press. 1975

Quine. Word and Object. The MIT Press. 1964

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