Inteligência e Responsabilidade Moral

por Jonatas

O livre-arbítrio existe (como decisão auto-determinada), podendo ser contingencialmente mais ou menos restringido qualitativamente, seja por pressões ou sugestões externas ou por condições internas, como o uso de substâncias psicoativas, desordens mentais ou a presença de emoções fortes. No entanto, ele independe da inteligência, contanto que exista um mínimo dela para poder constituir uma decisão. Pode acontecer de a inteligência ser inibida e diminuída, causando decisões menos inteligentes ou menos informadas, mas não deixando necessariamente de serem livres por isso. A inteligência determina a qualidade das decisões, e a qualidade, a partir de um nível mínimo, deixa de ser requisito à liberdade.

A moral instintiva foi condicionada pela evolução humana, cumprindo a função de um substituto improvisado e de qualidade inferior à inteligência, sendo também afetável consideravelmente pelos julgamentos e pelos costumes culturais. Não corresponde a um valor moral real, senão de forma acidental.

Regras morais são variadas, podendo ser jurídicas, religiosas ou filosóficas, e servem como paliativo às insuficiências de julgamento moral individual. Costumam ser inflexíveis, generalizando um raciocínio moral primordial a um determinado conjunto de situações hipotéticas ― daí sua inferioridade, em termos ideais, aos julgamentos morais consequencialistas ― e, no caso de regras morais em vigor em uma sociedade, costumam ter a sua adoção obrigatória imposta por ameaça de punição. Regras morais também são úteis a morais consequencialistas caso se conformem pragmaticamente a seus objetivos.

O melhor comportamento ético não é alcançável pela moral instintiva, nem pelo seguimento das regras morais; consiste na racionalidade de uma ética consequencialista. A maior bondade é altamente dependente de julgamento e de conhecimento, e costuma sempre sofrer de alguma carência nesses dois fatores.

Entre maldade e bondade há uma delimitação absoluta ― dependente da ação que é seu objeto ter um resultado positivo ou negativo em relação à sua ausência ― no entanto, ambos fazem parte de uma mesma escala contínua e admitem variação de intensidade. O resultado ser positivo ou negativo é algo dependente do seguinte julgamento moral utilitário: positivo é aquilo que gera em média uma melhora qualitativa subjetiva dos sentimentos para o total dos observadores relevantes de forma indiscriminada, sendo tanto mais positivo quanto maior for a melhora; negativo, o mesmo, quanto a uma piora. A taxa de câmbio entre sentimentos subjetivos absolutamente positivos e negativos é flutuante e imprecisa devido à sua subjetividade, possivelmente só podendo ser determinada com alguma precisão dentro de um sujeito, para si mesmo. Por isso, pode ser abandonada a distinção entre utilitarismo positivo e negativo.

Os mais perigosos em potencial são aqueles que têm inteligência suficiente para superar as regras morais, e talvez a sua moral instintiva, mas não chegam a criar um substituto racional a elas. Normalmente têm inteligência moderadamente alta, mas isso é variável, pois o desempenho mental nesse âmbito depende de outros fatores como a disposição filosófica e o conhecimento. Para descobrir verdades filosóficas, é preciso inteligência, disposição filosófica e conhecimento, nessa ordem de importância. Pobrezas parciais em uns podem ser compensadas pelos outros, mas só até certo ponto.

A punição tem o único propósito real de ser um controle comportamental psicológico paliativo à burrice. A maldade é sempre redutível a burrice, pois a maldade é sempre ultimamente uma decisão burra. Como a burrice ultimamente não é proposital, entre outras razões, a punição não tem sentido como motivada pela vingança, e serve unicamente para o propósito de prevenção do mal. A sua base no sentimento de vingança deve ser descartada, assim como todas as decisões morais devem ser separadas da moral instintiva. Consonantemente, o sofrimento do ser maléfico equivale em valor moral real ao sofrimento do ser benéfico, devendo ser igualmente evitado se todos os outros fatores forem iguais.

2 opiniões sobre “Inteligência e Responsabilidade Moral”

  1. Muito impreciso o texto.

    Bom é o que melhora,
    Ruim é o que piora
    O livre arbítrio existe
    Independe da inteligência
    Entre maldade e bondade há uma delimitação absoluta
    Maldade é redutível a burrice
    Punição também.

    Para mim, todas essas teses estão ou muito mal defendidas no texto, ou mal explicadas. Não é algo de se admirar, já que elas se dividem entre as falsas, os erros de categoria e as injustificáveis.

    Só concordo com uma coisa que o texto diz:
    “Para descobrir verdades filosóficas, é preciso inteligência, disposição filosófica e conhecimento, nessa ordem de importância. “

  2. Hum, é mesmo? Na verdade eu escrevi o texto para mim mesmo lembrar dessas idéias que tive enquanto tomava banho, sem me preocupar com explicações ou com a aceitação dele. Talvez devesse esperar que ele não ficasse muito bom para os leitores… como é difícil lidar com o aspecto da retórica em um texto!

    Acho que comecei ele com o pé esquerdo ao expor na primeira frase um argumento do qual vc discorda, o que é o oposto do que seria retoricamente adequado.

    Tentarei explicar um pouco mais…

    “Bom é o que melhora, ruim é o que piora.” – Não imagino qual pode ser sua objeção a isso.

    “O livre-arbítrio existe e independe da inteligência (exceto por um mínimo)” – Bem, é a mesma visão que o Dennett tem. Acho que está bem explicado, embora vc possa discordar. Expus meus argumentos nos comentários daquele post da Priscila.

    “Entre maldade e bondade há uma delimitação absoluta” – Absoluta no sentido de invariável, quanto a uma ação, e em relação à sua ausência. Teoricamente é possível averiguar isso, e me parece válido.

    “Maldade é redutível a burrice” – Talvez este seja o mais controverso. Não encontrei alguém ainda que concordasse com ele. Não obstante, não encontrei argumentos válidos contra. Maldade é definida como o descumprimento de uma ética ideal, algo que não faz sentido. Um ser com inteligência, disposição filosófica e conhecimento em níveis idealmente altos, deve conhecer a ética ideal e agir de acordo com ela. Como nossa ética não pode ser superior a essa ética ideal, o que causaria o comportamento que não a seguisse seria “falta de inteligência, de disposição filosófica ou de conhecimento”, o que chamei de burrice. A situação é um pouco mais complexa que isso, mas é basicamente assim. Assumo que a ética ideal exista, e não sou relativista ético.

    Punição não é redutível a burrice. Ela é um paliativo a ela, conforme os motivos que mencionei logo acima.

    Abraços

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