Algumas reflexões sobre o problema mente-corpo

O problema mente-corpo questiona como a mente, aparentemente imaterial, se relaciona com o corpo, isto é, como ela depende dele e quais as relações causais entre os dois. Falarei mais especificamente da relação da consciência fenomenal, que compreende as sensações, os qualia, enfim, aquilo que se sente. De que maneira e onde nosso corpo gera estas sensações imateriais? Elas são em algum sentido independentes dele? Poderíamos construir máquinas com estas sensações?

Vou assumir nesta reflexão que o que chamamos de consciência fenomenal não é uma ilusão, isto é, que ela tem algum tipo de realidade objetiva que corresponde ao que percebemos subjetivamente como consciência e que dá significado a frases como “ele é consciente” e “cachorros devem ser conscientes”.

Como mencionei anteriormente, acho que um fato potencialmente muito importante na questão da consciência fenomenal (qualia) é que cada um de nós reconhece tê-la e experenciá-la, e sabe portanto que tem qualia, mostrando que se não é fisicamente necessário, é pelo menos efetivo que em nós seres humanos os qualia estão associados a processos físicos no cérebro.

No meu entendimento isto torna o chamado argumento epifenomenalista pouco plausível. Ele diz que poderia ser que o cérebro de alguma forma gere consciência sem que esta tenha qualquer consequência causal sobre ele, ou seja, o cérebro provoca a consciência, mas a consciência nada faz sobre o cérebro. Ora, se a consciência não atua sobre o cérebro, é extremamente improvável, surpreendente e coincidental que nosso cérebro atue como se fosse capaz de “percebê-la”. Além disso, se nosso reconhecimento e relato de consciência é consequência isolada do cérebro e nada tem a ver de fato com ela, não temos nenhum motivo para crer que temos alguma consciência, e postular que ela exista se torna irrelevante. Assim, enquanto é possível que o cérebro gere consciência sem que isto tenha nenhuma consequência causal necessária sobre ele, esta proposta parece não ter nenhum suporte*.

Suponho então que o processo da consciência tal como ocorre no cérebro humano tem consequências físicas. Assim sendo, se supusermos que o sistema físico do cérebro pode ser simulado computacionalmente com uma razoável precisão, a simulação deverá ter exatamente o mesmo comportamento de um cérebro, inclusive o de reconhecer a própria consciência. Como supomos que este reconhecimento se dava originalmente em função do próprio fenômeno, temos de admitir que a simulação simula também pelo menos os processos físicos provocados pela consciência.

Vamos analisar então estas suposições, cenários possíveis e quais suas consequências sobre o entendimento da natureza da consciência (1=sim 0=não):

É possível simular o cérebro num computador convencional qualquer com exatidão suficiente para reconhecer a própria consciência?
0. É possível simular o cérebro em algum outro sistema físico artificial (por exemplo, num computador quântico ad hoc)?
0.0. Então o funcionamento do cérebro deve depender de alguma propriedade muito especial do cérebro estranhamente irreprodutível em sistemas artificiais (possivelmente fora da física convencional).
0.1. Então o funcionamento do cérebro depende de propridades físicas muito especiais que não talvez não possam ser reproduzidas em sistemas computacionais quaisquer. Porém, são reprodutíveis em alguns sistemas físicos.
Neste caso, a consciência pode ser um processo material (por exemplo algum tipo de reação, partícula ou campo), possivelmente revelando novos princípios físicos, ou hipercomputacional (requer capacidade computacional superior a de uma máquina de Turing). Em qualquer dos casos, poderemos dentro dos seus limites descobrir as relações entre este tal processo ou computação e os estados conscientes no nosso cérebro e contruir máquinas conscientes, embora possa ser bastante difícil e trabalhoso.
1. Os processos físicos relevantes às consequências da consciência são suficientemente simuláveis, mas… estamos simulando juntamente também a própria consciência, além de seus efeitos físicos?
1.0. Epifenomenalismo: Sistemas podem apresentar todas as consequências de se ser consciente porém sem tê-la. De maneira que não temos nenhuma evidência de que exista nenhuma outra consciência além da nossa (se é que podemos confiar na existência da nossa)*.
1.1. O computador da simulação é plenamente consciente e a consciência é portanto uma propriedade funcional dos sistemas físicos. Podemos construir seres conscientes à vontade, bastando que descubramos qual é esta propriedade e como ela se associa ao sistema de reconhecimento de estados conscientes no nosso cérebro.

* Vou admitir uma possibilidade um pouquinho plausível para a consciência que ainda tornaria uma forma de (pseudo)epifenomenalismo plausível: a consciência poderia ser um processo que enquanto no nosso cérebro ela certamente tem consequências causais, elas são muito sutis e dependentes de propriedades muito específicas e delicadas da arquitetura do nosso cérebro (porém ainda presentes na maioria de nós). De maneira que um sistema físico que reproduzisse o cérebro pudesse reproduzir a arquitetura grossa suficiente para o comportamento de reconhecimento da consciência, mas insuficiente para que ela provocasse consequências causais sobre ele. Mas acho que se trata de uma hipótese quase tão implausível quanto a primeira.

Como argumentei, acho o epifenomenalismo implausível, mas creio que infelizmente não temos maneiras de refutá-lo; a pergunta 1 não me parece ser empiricamente testável. A possibilidade de o funcionamento do cérebro depender de alguma propriedade muito especial possivelmente fora do nosso conhecimento físico convencional (por exemplo, a necessidade de uma alma encarnada) também parece possível, embora dificilmente confirmável (mesmo que descobríssemos o fenômeno bizarro, seria necessário um princípio mais fundamental para garantir que ele é necessário para a consciência em todos os sistemas físicos).

Portanto, se não cometi nenhum erro, vemos que se admitirmos que a consciência fenomenal de fato existe, e que não haja uma razão muito misteriosa para não sermos capazes de simular o cérebro, provavelmente seremos capazes de decifrar os princípios que vinculam a consciência fenomenal com seus substratos, e construir máquinas conscientes, provavelmente também possibilitando que futuramente as consciências humanas vivam eternamente na forma de máquinas, como prevê Kurzweil, entre vários outros.

Obs: Meu palpite é que somos completamente simuláveis por computadores convencionais (1.1).

6 opiniões sobre “Algumas reflexões sobre o problema mente-corpo”

  1. Concordo com quase tudo…

    Talvez a idéia da consciência ser uma “reação, partícula ou campo”, ou outra coisa misteriosa, não explique a sua característica, pois essa característica só parece poder ser entendida na forma de um mecanismo, e esse mecanismo, qualquer que seja, pode, preferencialmente, ser explicado em termos de física convencional. Todas as propriedades ou forças físicas parecem ter a ver semelhantemente com mecanismos tais como força, movimento, atração, massa, etc. e nada muito diferente disso, como uma consciência, o que não exclui a possibilidade de uma tal propriedade, mas também não explica seu mecanismo (e na falta de um mecanismo, parece talvez poder ser descartada sem perda).

    Para o universo existir, como coisa observada, parece ser necessário que ele possa assumir a primeira pessoa, ser algo interno, e não meramente existir como algo externo. A nossa visão física do universo tende a o ver uniformemente como algo externo, extrínseco, na terceira pessoa. A consciência não se dá na terceira pessoa, mas na primeira pessoa – naquilo que é ela propriamente, e não naquilo que é observado como externo, talvez por isso seja difícil a imaginar ou conceber na terceira pessoa. Parágrafo confuso, apenas tentei seguir uma linha de raciocínio incerta e curiosa.

    Talvez o cérebro não possa ser simulado em software de computadores convencionais, porque a arquitetura desses computadores seria algo diferente e um elemento a mais naquilo que é simulado, um elemento que causaria distorção (involveria processos subjacentes diferentes e possivelmente cortaria fora outros processos essenciais). É que o cérebro tem uma arquitetura bem peculiar, de redes de neurônios conectadas entre si, de todo um aparato sensorial, e se essa arquitetura for de alguma forma prejudicada, mesmo que dê os mesmos outputs parece correr o risco de não ser consciente. A consciência como a concebemos é um fenômeno muito particular do cérebro, que só parece ocorrer da maneira como ocorre no cérebro, devido a sua estrutura emocional, perceptual, sensorial, e de personalidade, ainda que pudesse ocorrer de maneiras muito diferentes em outras arquiteturas.

  2. Tenho profundas discordâncias com várias partes.

    Me parece que você 1 Se propôs a supor que a consciência é física e também cognoscível. Para concluir (c) a consciência é cognoscível e física.
    Não me parece um argumento interessante.

    2 Considerando que a consciência seja uma propriedade fina, e que consigamos fazer uma simulação grossa do cérebro: Você disse que haveria possibilidade de que este sistema tivesse reconhecimento da consciência. Nesse caso ele estaria iludido sobre estar consciente, o que fere a premissa.

    3 “Como supomos que este reconhecimento se dava originalmente em função do próprio fenômeno, temos de admitir que a simulação simula também pelo menos os processos físicos provocados pela consciência.”
    A simulação pode fazer isso de duas maneiras. (1) fazendo os processos que são funcionalmente iguais com consciência e (2) fazendo os processos que são funcionalmente iguais sem consciência.
    Ou seja, não é porque a versão original tinha evento P causado por evendo mental M que a simulação não possa ter evento P causado por evento físico F.

  3. Diego:
    1 O que quer dizer com cognoscível?
    Estou supondo que a consciência tenha alguma consequência física, não que ela seja física necessariamente no mesmo sentido que o cérebro é.

    2 Não fere a premissa de que a consciência dos seres humanos é não-ilusória, mas a das máquinas que criamos poderia ser, caso a consciência seja uma propriedade fina.

    3 Não tenho certeza se entendi, mas acho que esta seria minha pergunta 1.

    Minha intenção foi apenas explicitar algumas consequências de se conseguir ou não simular o reconhecimento, sob a hipótese de que não somos iludidos a respeito da nossa própria consciência. E acho que isto implica necessariamente nos 3 cenários que descrevi (simulação, impossibilidade de simulação ou epifenomenalismo) ou na suspensão da hipótese (implicando que consciência seja uma ilusão em algum sentido).

    Talvez fosse bom acrescentar que:
    – Podemos tomar o epifenomenalismo como uma forma de ilusão de consciência (uma vez que o reconhecimento não é consequência causal da própria), novamente excluindo-o do argumento.
    – O cenário 0.1 não deve ser muito forte, no sentido de que se dependermos de propriedades físicas específicas do cérebro elas não devem ser muito difíceis de ser simuladas, pois o cérebro apresenta variação razoável entre indivíduos e tolerância de condições ambientais aparentemente não muito específicas.
    – Talvez o cenário pseudoepifenomenalista que mencionei possa ser evidenciado por experimentos de integração cérebro-máquina nos quais o sujeito só tenha consciência da parte cérebro.

  4. Rend,

    Não podemos ser reducionistas.

    Em um texto de 1989 Miguel Covian opina, utilizando uma analogia: duas imagens estereoscópicas produzem imagens subsidiárias, as quais, quando fundidas produzem uma imagem focal. Essa fusão põe em evidência uma característica que não está presente nas imagens subsidiárias, ou seja, da fusão surge algo novo, que não resulta de uma simples soma das imagens, mas de uma integração entre elas. Do mesmo modo a mente surgiria da atividade cerebral, ou seja, segundo Polany o cérebro é necessário para que surja a mente, mas não é suficiente para explicar o fenômeno na sua totalidade. Portanto a mente não é a soma aritmética da atividade dos neurônios: é uma entidade diferente com suas próprias leis. Outra analogia é: […] a emissão da voz deixa aberta a possibilidade de combinarem-se os sons em palavras, que a gramática articula em frases. Porém, as leis da gramática não se aplicam à produção de voz. De acordo com esta perspectiva, a mente seria um nível que, para suas operações utiliza o cérebro como nível precedente, mas que é irredutível aos princípios deste.

    Acrescento que o cérebro é uma das partes de um sistema nervoso, o qual integra um organismo. Por isso, acho muito difícil simular a mente humana, já que ainda não se consegue simular, adequadamente, uma ação mais simples como o caminhar bípede.

    O texto de Covian na integra foi disponibilizado por: Rogerio Fonteles em: http://petroleo1961.spaces.live.com/Blog/cns!7C400FA4789CE339!758.entry

    Sua leitura vale à pena para este tipo de reflexão.

  5. Por que não podemos ser reducionistas? Além disso há formas variadas, mais fortes e mais fracas de reducionismo.

    Não excluo a possibilidade de a mente ser emergente à atividade cerebral, tanto é que acredito nela, a irredutibilidade eu acho que é uma questão mais duvidosa e tendo a não aceitar. Não acho que a mente seja semanticamente a própria atividade cerebral, isto não parece fazer sentido.

    Sei que ainda não conseguimos simular o cérebro, mas não vejo nenhum obstáculo fundamental para que isto ocorra, a não ser o progresso tecnológico que estamos esperenciando, e como eu disse, se não houver alguma razão misteriosa para não conseguirmos, será um problema técnico a ser superado em algumas décadas.

    Vou dar uma olhada no texto que mencionou.

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