Felicidade

por Jonatas

Fala-se em “viver” a vida. Para viver a vida basta estar vivo, esse “viver” deve então significar aproveitar a vida ou viver com felicidade.

Existem atividades que se faz por um objetivo ou recompensa futura, e existem atividades que são recompensadoras por si mesmas. Poderia-se dizer que as primeiras não são “viver”, e as segundas são. No entanto, não parece ser possível a uma pessoa evitar completamente as atividades que não geram felicidade no momento, portanto “viver” a vida é algo que pode somente ocorrer em parte do tempo e nunca sempre. O quanto certas atividades são feitas somente por uma recompensa futura ou pela felicidade que elas mesmo geram é variável e pode ser mudado. Pessoas têm maior ou menor satisfação nas mesmas atividades, dependendo da forma como as veem. Logo, “viver” a vida não significa necessariamente fazer certos tipos de atividade, mas antes ter satisfação nas atividades que se faz, sejam quais forem.

Quando se faz atividades esperando apenas uma recompensa futura, ou ainda, quando se ocupa a vida predominantemente em atividades que visam apenas recompensa futura, pode-se pensar que o futuro será “viver”. Visto que não existe “viver” absoluto, precisa-se pensar em termos relativos, então se poderia ainda pensar que o futuro será mais “viver” que o presente, o que pode ser verdade. O fato de certas atividades não gerarem recompensa imediata não as torna prejudiciais, se no futuro valerem a pena. Algumas dessas atividades não seria aconselhável evitar. No entanto, é mais satisfatório tentar as encarar de maneira a serem também o mais recompensadoras por si mesmas, no momento de sua ação.

O que é felicidade ou satisfação? Prazeres sensoriais poderiam ser considerados felicidade, no entanto, não são automaticamente assim. Mesmo quanto aos prazeres sensoriais, a maneira como se os encara está à sua base, determinando parcialmente a satisfação que geram ou não. Por exemplo, é possível se acostumar a comidas de um certo nível, de modo que as comer deixe de gerar a satisfação que geravam anteriormente. Da mesma forma, um tipo de vida luxuosa pode causar menos prazer inicialmente a uma pessoa acostumada com luxos que a uma pessoa acostumada com uma vida pobre. Portanto, a felicidade é um produto da maneira como se encara os dados sensoriais diversos.

Temos no nosso cérebro regras estéticas inatas que interpretam os dados sensoriais como mais ou menos positivos. A maneira como se encara os dados sensoriais diversos pode ser mais ou menos automática, conforme o quanto eles são dependentes dessas regras inatas: um estímulo de dor é automaticamente encarado como muito ruim, e temos pouco controle sobre isso. No entanto, mesmo nesse caso extremo podemos o maximizar ou o minimizar dependendo da maneira como o encaramos, como exemplificado pelos masoquistas. Outros estímulos sensoriais que produzem reações mais sutis dependem a um maior grau da maneira como os encaramos, e o quanto de felicidade geram pode ser mais facilmente alterado assim. As regras inatas de interpretação dos sentidos e a maneira como podemos os interpretar de forma a serem mais positivos são parte do objeto de estudo da estética.

A felicidade vinda de prazeres sensoriais diretos, além de ocorrer apenas em uma pequena parte do tempo, é algo com o que se acostuma a um certo grau, fazendo alguns desses prazeres diminuirem, e tornando a sua satisfação cada vez mais difícil. A busca de prazeres também gera angústia quando eles não podem ser satisfeitos. Como prazeres sensoriais diretos são difíceis de satisfazer, essa angústia pode se tornar algo ruim a ponto de fazer alguns prazeres de difícil satisfação não valerem a pena. Por isso, muitos filósofos antigos recomendavam a diminuição dos prazeres, seus desejos e expectativas, como forma de se satisfazer mais facilmente. Essa satisfação seria não uma felicidade relacionada diretamente a prazeres sensoriais, mas a um bem estar constante, decorrente da forma como a vida é encarada.

Grande parte das atividades que são recompensadoras por si mesmas não dão necessariamente prazer sensorial direto, mas um prazer mais subjetivo, uma satisfação dependente a um maior grau da forma como encaramos essas atividades. Dessa forma, esse tipo de felicidade é mais facilmente satisfeito e mais constante, podendo ser mesmo auto-perpetuador, ao invés de diminuir aos poucos, como alguns prazeres sensoriais diretos.

Há um tipo de atividade que costuma gerar uma satisfação subjetiva muito grande em todas as pessoas, que foi estudado e caracterizado por Mihaly Czikszentmihalyi, e chamado de “fluir” (flow). As atividades que costumam gerar esse tipo de satisfação subjetiva se caracterizam por usar nossos talentos e capacidades na mesma medida de que somos capazes, fazendo-nos focar toda a nossa atenção e concentração no seu desempenho. Se a atividade exige menos do que a nossa capacidade, ela começa a se tornar entediante; se exige mais, começa a gerar ansiedade. Quando fazemos uma atividade que exige nossos talentos e capacidades na medida certa sentimos uma recompensa por sermos capazes de fazer algo que é difícil, sem ser difícil demais para que não o possamos fazer. Por essa atividade exigir nossa concentração e nossa atenção total, ela nos faz esquecer momentaneamente os nossos problemas diários e focar apenas nela.

Esse tipo de atividade costuma ser descrito por todas as pessoas como o tipo de experiência que mais lhes dá satisfação, e inclui a arte, esportes e jogos como o alpinismo, tênis, xadrez, etc., o trabalho, desafios intelectuais, socialização, podendo abranger também muitas outras atividades. A forma como vemos experiências também pode ser alterada para causar mais “fluir”, se as fazemos de modo a serem desafiadoras na medida certa e a absorverem toda a nossa atenção. Possivelmente esse tipo de atividade é uma das melhores estratégias para “viver” a vida.

Um outro elemento importante na felicidade costuma ser a vida social. As pessoas mais felizes costumam ter um amor correspondido e muitos amigos. Dependendo da facilidade com que se consegue satisfazer as necessidades de vida amorosa e social, pode ser mais ou menos benéfico as desejar, já que a inexistência de um desejo é preferível a um desejo insatisfeito.

Além dessas fontes de felicidade, nosso bem estar é afetado em grande medida por crenças e pensamentos, como a visão geral que temos da vida, ou a necessidade de significado e importância na vida. Na frustração de significados religiosos ou metafísicos, algumas pessoas têm crises de existência. O sentido e a importância da vida, ao ser justificado de alguma forma, gera bem estar. Embora todo o sentido último da existência esteja baseado na felicidade e satisfação em um sentido amplo, o sentido e a importância vistos na vida podem servir como uma maneira de as atingir. Isso é chamado de “vida com sentido” (meaningful life), e aquele que descobre um sentido próprio e naturalista para a sua vida foi chamado de “sobre-humano” (übermensch). Muitas pessoas alcançam esse sentido ao descobrirem quais são as suas qualidades e as por em serviço de algo maior que si mesmas, como “o mundo”, ou outras pessoas

10 opiniões sobre “Felicidade”

  1. Jonatas,
    Parece existir uma tendência no texto de valorizar mais a felicidade advinda de prazer intelectual e menos a dos prazeres direto dos sentidos. O principal argumento apresentado contra o prazer dos sentidos é que se acostuma relativamente fácil a eles –portanto se desgastam facilmente. Alem disso eles parecem só acontecer enquanto o estimulo dos sentidos acontece. Entretanto parece existir uma classe de prazeres ‘híbridos’ dos sentidos que fogem a essa critica e conseguem ainda superar os prazeres intelectuais, são as experiências que apesar de se darem no campo imediato dos sentidos são intelectualmente trabalhadas. Nessa classe se inclui, por exemplo, as obras de arte que por terem uma estrutura complexa não saturam os sentidos a ponto de não se sentir mais o prazer proporcionado por elas. Acredito que outros tipos de experiências sensoriais regularmente banais também podem ter esse refinamento, como, por exemplo, comida, sexo ou drogas – possivelmente o Thor e o Diego teriam algo de mais substancial a comentar sobre o ultimo – e esse tipo de experiência proporciona mais prazer que as intelectuais. Alem de evidencias subjetivas e empíricas a esse favor a neurologia parece concordar uma vez que os centros de prazer do cérebro estão mais ligados às experiências sensoriais enquanto que o prazer cognitivo parece ter origem em parte nas conexões entre o final do lobo pré-frontal e o complexo límbico, este ultimo possui conexões muito mais fortes com o órgão do olfato do que com aquele.

    Abraços

  2. Possivelmente as melhores experiências sejam parcialmente baseadas em prazeres sensoriais muito bons, e em uma interpretação subjetiva muito boa deles. No entanto, a crítica contra prazeres sensoriais não é devida a eles gerarem pouco prazer, mas à dificuldade em satisfazer o seu desejo, dependendo do quanto a sua satisfação é difícil, e que pode gerar angústia, fazendo-os nem sempre valer a pena por isso.

    Logo, acho que de modo geral os prazeres sensoriais valem a pena na medida em que se pode facilmente os obter, e não valem a pena na medida em que a frustração do seu desejo gere angústia. Quando não valem a pena, é sempre devido a efeitos colaterais, e não à sua experiência em si. Esse é o argumento de Epícuro a favor de uma vida simples, embora o contexto tenha mudado em cerca de 2 mil anos.

    Abraços

  3. Já li 3 livros e meio sobre felicidade, e estudei bastantemente o tema. Sugiro a leitura do que ainda não terminei de ler, por ser o que é baseado em mais conteúdo empírito.

    Stumbling on Happiness, Daniel Gilbert.

    Ele discute nas poucas paginas que li boa parte dos temas aí colocados, inclusive pontuando que provavelmente, se hoje fosse seu último dia de vida, você provavelmente não faria nenhuma das coisas que fez hoje.

    Ele escreve super bem, super engraçado etc… no mesmo nível de um Pinker.

    Acho que quem tem acesso a prazeres sensoriais os aproveita, e quem não tem inventa desculpas para não aproveitar, exatamente como acontece com o acesso sexual a mulheres bonitas, ou o acesso a dinheiro.

    Como somos capazes de produzir felicidade sintética (nos ensina Dan Gilbert) nós somos capazes de distorcer nossas necessidades de tal maneira que passamos a realmente gostar de não termos parte do que não temos, sejam prazeres sensoriais ou mulheres. No fim das contas, é só ser um bom sintetizador de felicidade e não ser imensamente traumatizado que vai ficar tudo bem.

    Abraços

    ATUALIZAÇÃO: O livro do Dan Gilbert é de fato espetacular, e entre ler os demais 3 ou esse, recomendaria ler esse….. Stumbling on Happiness, um livro que merece o título de best-seller que possui.

  4. “Como somos capazes de produzir felicidade sintética”

    Concordo, acho que isso é a ilusão da felicidade, podemos nos iludir para ser felizes.

  5. Vou colocar uma questão clássica de filosofia da mente aqui, refraseada a partir da concepção de Saul Kripke, mas livremente adaptada para essa conversa.

    Estar iludido a respeito de algo é crer que algo esteja lá que não está lá.

    Ou seja, estar no estado epistemológico de acreditar que há algo ocorrendo, que no entanto, no mundo real, não está ocorrendo.

    Estar feliz é estar num estado epistemológico de felicidade. Não existe distinção entre estar feliz, e estar num estado epistemológico no qual se acredita estar feliz. Os dois são sinônimos.

    Ou seja, não pode haver uma ilusão de felicidade, a felicidade é um termo que não pode ser pensado como ilusão, porque corresponde a um estado mental de observação do mundo, um estado epistemológico.

    Independente de qual a fonte causal de uma felicidade, ela é uma felicidade, e lhe é conceitualmente impossível ser uma ilusão.

    Abraços

    (adaptado de Naming and Necessity, about the epistemic state of being in pain)

  6. então use algo não ambíguo, como ” felicidade com uma causa inadequada” ou “felicidade independente de causas razoáveis” ou “felicidade incompatível com sua causa”

  7. Achei um caso de felicidade que me interessa, tanto pessoalmente como quanto objeto de estudo, num blog por aí a fora.

    WHAT is it about children that just brightens up our day? Is it their innocence? Is it their unbridled joy, their looking at the world with wide-eyed wonder?

    Sure, there are times when you want to tear your hair out — tantrums in the toy store, screams of “NO!” — but overall, kids just brighten up our spirits. When I hang out with my kid cousins, I always feel more relaxed. Gone are the conversations on current events, the stress of work, how money’s so tight. Instead, talks center around what colors to use for Pooh (yup, I think I’ve seen Winnie in purple), how high you can kick a ball, how milk chocolate tastes better with strawberries than dark chocolate.

    There was one time I was really stressed out at work. My officemate’s 5-year-old daughter was at her Mom’s desk, doodling. We’d talk sometimes and joke around, but during that day, I was super grouchy. While I was in the middle of a mental block, the little girl suddenly made an appearance by my side. She smiled at me and gave me a drawing of two fishes. The big one, she said, was Tita Toni. The little fish was her. And then she called me her best friend. My bad mood disappeared on the spot.

    This made me think: What if the world leaders surrounded themselves with children? Our everydays would be so much brighter. Maybe if more of us got doodles from kids — works of art, works of heart, then maybe, just maybe, the world would be a happier place.

  8. Acho que provavelmente uma felicidade embutida vinda do instinto paterno e materno, algo semelhante ao amor. Talvez ainda um sentimento de importância própria pela comparação com um ser minúsculo e inferior em tudo, algo semelhante ao instinto de riso e parte da motivação instintiva por adquirir importância social. No entanto, acho que não compensa ter filhos por causa das noites de sono perdidas, do barulho, do incômodo e do custo financeiro durante a vida.

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