Atividade intelectual e Gênero

Esse texto visa esclarecer, do ponto de vista cientifico, a controvérsia a respeito das diferenças entre as habilidades cognitivas entre homens e mulheres. Uma vez que os argumentos aqui apresentados não se inserem no campo sociológico ou cultural esse texto tem a vantagem de apresentar argumentos que estão abertos a debate somente no que se refere à clarificação dos dados apresentados. Acredito que as informações aqui contidas devem ser o solo de qualquer outra discussão feita no patamar cultural sobre o assunto, uma vez que tornar cultural aquilo que é natural é um erro talvez ainda pior do que tornar natural o que é cultural. A principal fonte de informações desse texto é uma apresentação feita pelo psicólogo Steven Pinker sobre a ciência do gênero e ciência que pode ser encontrada aqui: http://www.edge.org/3rd_culture/debate05/debate05_index.html .

Pode-se dizer que em grande medida a ciência, tal como a religião, é devedora em grande parte de crenças. A crença na ciência empírica de nenhum modo pode se levantar como irrefutavelmente e irrestritamente superior a crença em princípios metafísicos, já que a própria crença no dado empírico é metafísica. Mas de um ponto de vista pragmático, percebe-se que interpretações que tem como base dados experimentais reproduzíveis geram teorias mais úteis e aplicáveis a respeito do mundo e que acabam beneficiando mais a humanidade que ideais abstratos, por mais bonitos que esses últimos sejam. Assim sempre que esses ideais abstratos puderem ser substituídos por aquelas interpretações empíricas, essa troca deve ser efetuada. Certas diferenças sexuais se encontram nessa circunstancia, e por mais que a linha entre biológico e cultural (ou natural e histórico) não possa ser traçada com precisão existem certos domínios que são claramente biológicos. (Talvez nem seja necessário traçar essa linha para que se argumente que há certas capacidades imutáveis. Basta dizer que os aspectos sociais já estão ai por tanto tempo que constituíram uma pressão evolutiva e se ‘plasmaram’ nos genes) Eu acredito que os dados que demonstram as diferenças nas capacidades cognitivas entre sexos já foram ostensivamente reproduzidos e viés de analise nenhum conseguiria distorcer certas metodologias experimentais bem definidas, como são a do teste de QI, de rotação de objetos mentalmente e assim por diante. Talvez numa época em que os dados experimentais não eram suficientes foi possível traçar teorias tendenciosas a respeito das diferenças cognitivas entre sexos, mas não creio que hoje nós nos encontramos nessa possibilidade.

Por diversos fatores evolutivos que não serão discutidos aqui, os cérebros dos homens são estruturados de uma forma que os fazem serem mais agressivos, mais impulsivos e terem melhor orientação espacial enquanto que os das mulheres são estruturados para escolherem melhor terem mais empatia e habilidade verbal. Foi demonstrado experimentalmente que testosterona no desenvolvimento embrionário aumenta o desenvolvimento do hipocampo (área responsável por cognição espacial) enquanto que estrógeno e progesterona aumenta o desenvolvimento de áreas relacionadas a habilidade lingüística, como demonstra a imagem abaixo:

cerebro-genero

Apesar do QI médio da população feminina ser igual ao da masculina se nos concentrarmos nos extremos a população masculina é mais representada que a feminina. Possivelmente isso se deve ao fato de que a maioria dos genes que codificam inteligência no cérebro humano ficam no cromossomo X, por conta disso quando ocorrem mutações, tanto as ruins como as boas, os homens são mais atingidos. Assim existem mais homens retardados, mas também mais homens superdotados. Ocorre que campos como ciências exatas e filosofia são aqueles que exigem mais raciocínio lógico, inteligência acima do normal e uma certa ousadia (ou impulsividade) para inovar e se opor a opinião comum, logo os homens são melhores nisso. Em áreas como psicologia e biologia que exigem mais uma empatia e entendimento de comportamento em grupo as mulheres são melhores. Um argumento a favor disso é o fato de que mesmo após políticas de inclusão das mulheres nas carreiras acadêmicas esse sexo continuou pouco representado em carreiras como matemática, física e filosofia enquanto que ocorreu uma explosão da sua representatividade em carreiras como biologia, sociologia e psicologia, até mesmo ultrapassando a masculina.

Alem das diferenças de habilidades cognitivas existe uma grande diferença de interesses entre homens e mulheres. Diversas pesquisas demonstram que homens têm uma tendência maior a valorizar sucesso financeiro, inventar ou criar algo, ter uma carreira que o ocupe por tempo integral e sucesso profissional enquanto mulheres tendem a valorizar o relacionamento com parentes e filhos, ter uma vida espiritual com significado e ter amizades fortes. Homens em geral são mais obcecados que as mulheres e isso parece ser um fator fundamental da genialidade. Homens também têm uma tendência maior de prestar atenção e se dedicar ao entendimento do funcionamento de objetos e mecanismos enquanto que mulheres dão mais atenção a pessoas. Isso faz com que homens tenham uma tendência maior a ir para áreas como física, matemática e engenharia em oposição a psicologia ou sociologia. Todas essas diferenças bem como as diferenças em cognição espacial são também observadas em outros grandes primatas, o que sugere que elas têm fundo genético e, portanto são imutáveis no presente estado da engenharia genética. (por exemplo, se for dado dois grupos de brinquedos, um constituído por carrinhos e o outro por bonecas, crianças chimpanzés masculinas terão a tendência por optar pelos carrinhos (por eles se moverem no espaço e serem uma coisa) enquanto que as femininas pelas bonecas (por lembrarem seres da sua espécie)).

Afinal se conclui que existem diferenças biológicas nas habilidades intelectuais e interesses entre homens e mulheres. Mulheres têm maior habilidade verbal, maior interesse no entendimento de pessoas e a se dedicar a relações humanas em oposição ao trabalho o que sugere uma habilidade inata para ocupações que estão relacionadas às relações humanas. Homens têm maior habilidade cognitiva espacial, são mais representados nas faixas de QI consideradas de genialidade, maior interesse no funcionamento de mecanismos e objetos, maior tendência a se dedicarem exclusivamente ao trabalho e maior interesse em descobrir e inovar coisas; tudo isso sugere que homens tem uma habilidade inata maior a fazerem descobertas nos campos mais fundamentais da ciência (física e matemática) o que coincide com que as maiorias das pessoas chamam de genialidade.

Referencias:

Cahil, L. (2006) Why sex matters for neuroscience. Nature Rev. Neurosci. 7, 477-484

Haier RJ, Jung RE, Yeo RA, et al. (2005). The neuroanatomy of general intelligence: sex matters. NeuroImage 25: 320–327

Deary IJ, Irwing P, Der G & Bates TC (2005). Brother–sister differences in the g factor in intelligence: Analysis of full, opposite-sex siblings from the NLSY1979. Intelligence 35:451-456

Resnick, Susan M.; Berenbaum, Sheri A.; Gottesman, Irving I.; Bouchard, Thomas J. Early hormonal influences on cognitive functioning in congenital adrenal hyperplasia. Developmental Psychology. Vol 22(2), Mar 1986, 191-198.

http://www4.ncsu.edu/~jwosbor2/otherfiles/PSY304/APA-intelligence.pdf

http://psychology.uwo.ca/faculty/rushtonpdfs/2006%20intell%20jackson%20&%20rushton.pdf

http://www.edge.org/3rd_culture/debate05/pinker.slides.html

8 opiniões sobre “Atividade intelectual e Gênero”

  1. “Todas essas diferenças bem como as diferenças em cognição espacial são também observadas em outros grandes primatas, o que sugere que elas têm fundo genético e, portanto são imutáveis no presente estado da engenharia genética.

    Muito bem observado!

    Concordo que na média, entre os homens e as mulheres, as mulheres tendem a ter um desempenho melhor na psicologia e na biologia, porém nas faixas de genialidade, como são formadas por uma maior quantidade de homens, devido aos fatores mencionados, os mais destacados tendem a ser homens (pense em algumas pessoas famosas nessas áreas).

    Eu li o trabalho de uma neurologista, Louann Brizendine, que explica as diferenças em ocupações de ciências exatas, por exemplo, dessa forma:

    “[…] the testosterone that floods the male brain makes boys extremely competitive but also more willing to spend many hours studying alone or working on their computers. With the teenage girl’s flood of estrogen, in contrast, a female becomes a lot more interested in social bonding and her emotional life, and as a consequence is unlikely to sit for hours alone pondering mathematical puzzles or battling to top the class. Even as adults women are compelled by their brain chemistry to want to communicate and connect, and this favors them less for the sort of solitary work often required by mathematical, scientific, or engineering careers. Brizendine’s theory in a nutshell: It is not lack of aptitude that makes women stay out of these fields, but brain-driven attitudes to the work involved.”

    Ela parece ignorar que nesses campos os homens costumam ter níveis de testosterona mais baixos que o normal, além de ignorar a diferença no desvio-padrão devida ao cromossomo X.

    Comentei um desses artigos com um amigo por msn, e ele observou que conheceu uma amiga muito inteligente e bonita, mas era lésbica. Por coincidência, eu também conheço uma lésbica muito inteligente. A causa pode estar em alguns hormônios masculinos que na vida intra-uterina podem causar tanto uma coisa quanto a outra.

    Enfim, o seu texto está extremamente bem escrito, lidando de maneira clara, objetiva e ousada com um assunto controverso.

  2. Em homens QI é inversamente proporcional a testosterona e em mulheres é diretamente. Isso sugere que existe um nivel ‘otimo’ de testoterona, maior que o da media das mulheres e menor que o da media dos homens. Talvez depois de um certo ponto para de compensar ter um hipocampo maior e mais cognição espacial porque a pessoa também vais e tornar mais agressiva e com mais tendencia se importar mais com aspectos fisicos.

  3. João, gostei do seu texto, eu particularmente gostaria mais se você tivesse distribuído citações ao longo dele (veja [1], [2] discute bem este assunto), mas enfim é uma questão de estilo e dá bem mais trabalho.

    Acho que é um tema muito interessante e que devemos compreender bem melhor nos próximos anos, principalmente com genética e imageamento funcional.

    Queria saber em quais referências eu posso encontrar a teoria ou constatação de que os genes que codificam diferenças de inteligência possam estar no cromossomo X. Também queria saber as refs de que homens são mais obcecados que mulheres e do experimento dos chimpanzés com os brinquedos.

    Alguém sabe como se medem diferenças de QI entre homens e mulheres? Os testes não são padronizados para darem as mesmas pontuações nos dois gêneros?

  4. Os homens funcionam como cobaias de experimento para novas mutações no cromossomo X. Nas mulheres, pela presença de dois cromossomos X, essas mutações são mais atenuadas, exceto se estiverem presentes em ambos os seus cromossomos X, ou se forem dominantes (não sei bem se há uma tendência maior a serem recessivas ou dominantes).

    Talvez o cromossomo X seja responsável por apenas uma porcentagem de mutações relacionadas à inteligência, no entanto, a diferença devida a ele pode se tornar perceptível numa escala estatística. O cromossomo X também controla em grande parte outros aspectos mentais, como as habilidades sociais, que se tornam então mais variáveis em homens e mais normais em mulheres.

    Este artigo comenta o papel do cromossomo X na mente:

    “Although this pattern of inheritance leaves men vulnerable to a host of X-linked disorders, Hameister contends that it also positions them to reap the rewards of rare, beneficial X-linked mutations, which may explain why men cluster at the ends of the intelligence spectrum.”

    http://discovermagazine.com/2005/oct/sex

    Como consequencia da maneira como funciona a transmissão do cromossomo X na reprodução, homens recebem mutações no cromossomo X relacionadas à mente exclusivamente da mãe, de um dos seus dois X, selecionados aleatoriamente, e mulheres recebem uma média equilibrada do X do pai e de um X da mãe.

    Este artigo relaciona baixa testosterona tanto a alta como a baixa inteligência em meninos, e alta testosterona à inteligência média, não ocorrendo variação decorrente de testosterona em meninas (os resultados podem não se aplicar para adultos):

    http://cat.inist.fr/?aModele=afficheN&cpsidt=18599095

    Este artigo encontrou uma correlação inversa entre testosterona e inteligência tanto em mulheres como homens, sendo que níveis médios de testosterona beneficiam mais as mulheres:

    http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9622799?dopt=Abstract

    Este artigo encontrou uma correlação positiva entre QI e testosterona em canhotos de 17 a 19 anos:

    http://www.informaworld.com/smpp/content~content=a784229279~db=all

    Este artigo achou uma correlação entre QI e testosterona que é exatamente o inverso do que eu pensava (baixo QI nos extremos de testosterona alta e baixa; alto QI com testosterona média):

    http://cat.inist.fr/?aModele=afficheN&cpsidt=14148428

    Enfim, a relação entre testosterona e QI parece pouco clara.

  5. “Alguém sabe como se medem diferenças de QI entre homens e mulheres? Os testes não são padronizados para darem as mesmas pontuações nos dois gêneros?”

    Não sei bem. Acho que os testes de QI procuram medir ao máximo possível o fator g (que possivelmente é o melhor conceito que temos para a inteligência). Para ler explicações sobre o fator g (recomendo a leitura):

    http://en.wikipedia.org/wiki/General_intelligence_factor

    Acontece que o tipo de questão que mais mede o fator g (com grande carga de g) normalmente é numérica ou espacial, duas áreas em que há vantagem masculina, ao contrário de verbal, em que costuma haver vantagem feminina. Isso significa que grande inteligência numérica ou espacial geralmente implica grande inteligência em todas as áreas cognitivas (alta carga de g), enquanto que grande inteligência verbal implica menos uma inteligência também alta em todas as outras áreas (menos alta carga de g).

    Isso pode explicar uma ênfase maior dos criadores dos testes em questões direcionadas aos homens, na tentativa de dar maior validade aos seus testes (por melhor medir g).

    Então qual conta mais, o fator g ou a inteligência dada pela combinação de resultados em várias áreas?

    É difícil definir a inteligência num construto só, e o quanto cada área de inteligência deve ser valorizada num teste, por isso se procura medir o fator g que tem uma alta correlação com todas as habilidades cognitivas. No entanto, mulheres poderiam sair prejudicadas num teste que, mesmo tendo alta carga de g, não leve em conta habilidade verbal, e esteja baseado em habilidade numérica ou espacial. Mas mesmo os testes feitos para dar a mesma média para os homens e para as mulheres podem ser enviesados justamente por isso.

    Talvez a diferença na média de inteligência entre homens e mulheres possa ser negligível.

  6. “Também queria saber as refs de que homens são mais obcecados que mulheres e do experimento dos chimpanzés com os brinquedos.”

    O estudo é com humanos recém natos, nao com chimpanzés. A nao ser que também tenham feito outro estudo com chimpanzés, mas me pareceria estanho.

    http://www.edge.org/3rd_culture/baron-cohen05/baron-cohen05_index.html

    É uma entrevista com Simon Baron-Cohen, que pesquisa autismo e diferenças entre sexos. Ele comenta sobre um estudo que deve ser o mesmo que voce está procurando.

    http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6W4K-4299352-7&_user=10&_rdoc=1&_fmt=&_orig=search&_sort=d&view=c&_acct=C000050221&_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=77ab4883ff2753c96549fce4a0bce28e

    Sobre obsessao, com certeza alguém pesquisou diferenças de personalidade entre sexos, nao deve ser difícil achar referências.

  7. Existe um estudo com chimpanzes, e ele prova justamente o ponto de que é genetico e não cultural. Ta numas das edições da NewScientist de 2005, vou procurar e coloco aqui. ENquanto isso, achei esse artigo aqui: http://www.newscientist.com/article/dn13596-male-monkeys-prefer-boys-toys.html?feedId=online-news_rss20 . No artigo que li mencionava que provavelmente os machos gostavam mais dos carrinhos porque eles se moviam e isso está relacionado com a maior cognição espacial, enquanto que as femeas preferiam as bonecas porque elas lembravam um outro macaco e elas possuiam maior empatia. O ponto do meu texto não é só dizer que existem diferenças de habilidades cognitivas e que essas diferenças fazem os homens terem melhor desempenho em certas areas, é dizer que essa diferença (tanto a de habilidades quanto a de desempenho) são inerentes e geneticas e não culturais.

  8. Um livro que parece ser interessante sobre o assunto é “The Essential Difference: Male And Female Brains And The Truth About Autism” do Simon Baron-Cohen. O título é auto-explicativo.

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