Adorno, Snickers e Etologia: A informavoridade como motor do homem contemporâneo

O comportamento exploratório, nos dizem os etólogos, é uma das motivações de todos os animais. Seja um espaço vazio e um tempo dentro dele, um animal irá explorar o que quer que possa. Da revista veja até as nuances de sujeira que compõe o rodapé do canto do banheiro (sim, você não foi o único).

O abundante capital e a longevidade da história humana possibilitaram o surgimento de museus megalópole, como o louvre, ou o vaticano, no qual as obras só não são expostas umas sobre as outras por um último suspiro de alguns bons curadores. A produção artística da história humana é tremenda. Empilham-se maravilhas as centenas, não só nos museus, mas em todo lugar, o projeto moderno está completo. A arte foi bem sucedida em invadir os mundos da vida, e é difícil encontrar-se num quarto sem uma obra de arte em qualquer edifício no início do terceiro milênio.

Snickers é um chocolate com amendoim salgado e caramelo.

Os etólogos nos dizem que o ser humano, se exposto a estímulos de diferentes complexidades, irá explora-los em igual medida, entretanto, considerará mais prazeirosos os meio-termos do que ambos aqueles de total simplicidade e aqueles de complexidade demasiada. Imagine-se dentro de uma floresta tropical cheia de cipós e samambaias, com um mangue sob seus pés e carangueijos, animais e borboletas as centenas ao seu redor. Agora imagine-se num campo completamente deserto, sem nenhuma vegetação ou morro até onde a vista alcança. Por fim, imagine-se numa savana, com algumas árvores, poucas borboletas, e bastante espaço aberto e visível. Claramente isso demonstra que temos mais prazer com o meio termo, em termos de complexidade da informação visual e acústica que recebemos.

Pois bem, a constatação de Adorno sobre os museus percebe a mesma questão, o capitalismo, e a abundância, e o desejo humano de consumir informação, nos trouxeram para uma experiência de museu nauseante, um “banho de cultura” no qual imergimos imaginando sair revigorados, e que, ao contrário, nos extenuam. A vida fora dos museus já está visual e sonoramente demasiado complexa, não há mais como o comportamento exploratório ser prazeiroso, pois em virtude do mercado, do capital, dos outdoors, dos Ipods, estamos constantemente circunscritos a um sem fim de complexidade de padrões informacionais que temos de processar.

Snickers é para mim a demonstração última do problema. As empresas percebem que desejamos aquilo que mais há de complexo, ainda que nos satisfaçamos com o intermediário. A experiência estética de um David é indubitavelmente mais tranqüila do que a de um “o caminho da formiga” para quem se lembra dessa bienal…. Mas nossos desejos e nossos prazeres estão desconectados, desejamos ter o máximo de complexidade informacional para observar possível, bem como desejamos ter o máximo de escolhas possível, e no entanto, temos maior prazer com quantias médias de complexidade informacional e também quantias médias de escolha. Para a questão das escolhas, os existencialistas já apontavam a angústia que se segue há muito. É tenso escolher e estamos condenados a ser livre, sempre sem informação o suficiente para fazer uma escolha devidamente informada, já que nosso conceito de “devidamente informada” não conhece limites, nos diz a etologia. Snickers é a resposta empresarial a essa sede a qual o homem contemporâneo está sujeito. É a ativação de todos os centros cerebrais de alimentação ao mesmo tempo. Sal, açúcar, gordura, neurotransmissores ligados ao chocolate, atividade. O café também é sintomático do mesmo.

O projeto moderno na arte populou os mundos da vida com arte e beleza, e apesar das enormes bobagens que quase todos os críticos de arte dizem, vivemos num mundo muito mais belo e estetizado do que jamais foi. O problema, a meu ver, não está na decadência estética contemporânea, ou na busca de usar signos do passado que perdem seu antigo significado num novo contexto. O problema da arte, tal qual o problema do mundo, é a superpopulação.

Adorno nos propõe, ao nos aproximar-mos de uma enxurrada de arte como um grande museu, que adotemos um fetichismo esclarecido, voltando-nos à algumas obras apenas, concentrando-nos em cada uma, e assim extraindo uma experiência estética melhor da experiência como um todo. Eu digo que devemos voltar a comer chocolates simples, independente do que nós digamos, qualquer um pode observar que diversos aspectos da vida contemporânea, em particular na cidade grande, são demais, deviam ser limpos. O projeto moderno ainda não acabou, ele carece de uma política de controle populacional, assim com a onu.

Creio que Simmel, o sociólogo, nos diz que a única maneira de interagirmos com tanta informação como numa cidade grande é tornando-nos constantemente sonados, apáticos, o que evidentemente não é bom. Uma grande tacada pré-etológica da parte do sociólogo alemão. O sono nos retira a motivação da curiosidade e da exploração, e nos permite viver num ambiente super-povoado em estímulos, uma solução angustiante dos sistemas nervosos de uma espécie a uma modificação rápida de mais para ser devidamente respondida pelos genes.

O mundo precisa de menos gente e de menos estímulo, e a crise econômica se acentua nesse cenário terrível, pois nossa informavoridade, nossa sede de consumo de informação é o motor propulsor do capitalismo no terceiro milênio. Cada um de nós mantém-se diante da escolha entre experienciar tanto quanto deseje, guiado por instintos que não tem mais sentido nos dias de hoje, ou livrar-se de grande parte das obras do mundo para sempre, ignorando, desinformadamente, uma parcela aleatória da produção artística e informacional do mundo contemporâneo, nenhum animal sabe lidar com o excesso se não evoluiu para isso, e o homem não é exceção.

6 opiniões sobre “Adorno, Snickers e Etologia: A informavoridade como motor do homem contemporâneo”

  1. Diego,
    O texto tá muito bom. Venho misturando memes de ciencias naturais com Adorno faz alguns anos e considero uma atividade muito instigante e produtiva. Acho fundamental determinarem exatamente o que passa ou o que não passa do que sobrou das ruinas da filosofia continental.

    Abraços

  2. O meio termo entre complexidade e simplicidade pode ser qualquer coisa, já que são dois conceitos relativos, sem qualquer valor absoluto.

    “Pois bem, a constatação de Adorno sobre os museus percebe a mesma questão, o capitalismo, e a abundância, e o desejo humano de consumir informação, nos trouxeram para uma experiência de museu nauseante, um ‘banho de cultura’ no qual imergimos imaginando sair revigorados, e que, ao contrário, nos extenuam. A vida fora dos museus já está visual e sonoramente demasiado complexa, não há mais como o comportamento exploratório ser prazeiroso, pois em virtude do mercado, do capital, dos outdoors, dos Ipods, estamos constantemente circunscritos a um sem fim de complexidade de padrões informacionais que temos de processar.”

    Muito interessante, noto que é verdade mas não consigo ainda chegar a uma compreensão ou solução. O mesmo posso dizer do seu texto, que parece estar cheio demais de informações interessantes, dificultando o foco nelas.

  3. Sem qualquer desmerecimento de seu comentário Jonatas, embora não existam definições universalmente válidas de complexidade, acho que em geral as pessoas tem uma noção razoável do que se trata, ou pelo menos de alguns aspectos envolvidos, e se fosse pedido que ordenassem uma sequência de objetos em ordem de complexidade, esta sequência seria razoavelmente semelhante. Atualmente sou meio contra a idéia de que noções vagas não sejam úteis. Mas este comentário é meio irrelevante.

  4. Hum… acho que a escala (+ -) é perceptível, justamente por ter sempre um ponto de referência, que é o item anterior ou o item posterior na escala, mas não vejo um ponto de referência válido para delimitar o simples do complexo. No entanto, o argumento ainda pode ser salvo por afirmar simplesmente que há aquilo que é muito complexo; que há aquilo que é muito simples, e que há aquilo que é médio, sem definir sua delimitação, que pode ser variável de pessoa para pessoa. Realmente é só uma observação trivial.

  5. Em teoria da informação se mede o quanto um conjuto de informações é complexo ou simples a partir do numero minimo de bytes que são necessarios para fazer um programa que gere aquelas informações. Parece um bom modo de separar o simples do complexo. O Popper também da uma boa definição que relaciona com poder explicativo de um enunciado, que eu ja abordei em outro post sobre simplicidade.

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