Incompetência política

Este é um assunto do qual me envergonho e que me incomoda, principalmente nas épocas das eleições, por razões óbvias.

O fato é que sou completamente ignorante sobre política, ainda que eu ainda tenha algumas poucas noções teóricas, sinto-me completamente perdido e despreparado em relação a votar, a opinar e interpretar acontecimentos políticos, quanto mais a discuti-los.

Resolvi escrever este post para expor o problema e pedir por sugestões a respeito de como resolvê-lo. Embora eu o faça por motivos pessoais, tenho a convicção de que compartilho a mesma situação com muitas outras pessoas, admitidamente ou não. No meu caso particular, fui criado num meio com uma orientação política específica (de esquerda), porém sem forte embasamento teórico ou prático, e sem grande discussão de correntes e opiniões opostas ou diferentes. Hoje julgo que seguir a mesma orientação seria insatisfatório, por ela não se apresentar justificada para mim, porém não tenho um conhecimento significativo dela nem de outras. Tenho votado em branco ou justificado, nas últimas 4 ou 5 votações. Para mim isto significa que me considero tão pouco apto a decidir que considero a opinião coletiva como melhor que a minha, qualquer que seja ela. Esta sensação de imensa ignorância me angustia, desejo sair deste estado de tábula rasa política. Ainda que eu possa pensar que minha participação possivelmente seja pouco relevante.

Como se não bastasse a minha ignorância sobre teoria política, economia, administração pública, estado, direito, constituição e legislação, e coisas afins, a ignorância sobre a história política brasileira, o cenário atual, as histórias dos candidatos e partidos, a situação do país hoje, seus problemas e perspectivas, que são, de certa forma, conhecimentos mais “objetivos”; percebo que o problema de competência política ainda traz questões mais pessoais como, valores políticos (qual o papel do estado, como deve ser organizada a sociedade, qual deve ser a atitude do país em relação aos outros, etc), valores morais (o que deve ser valorizado, promovido, tolerado e desvalorizado e reprimido na sociedade), quais são as fontes de informação confiáveis e quais são seus viéses e tendências e como identificá-los, e finalmente, como resolver o problema prático de se votar, de formar uma opinião, e de interpretar os acontecimentos políticos.

Olhando assim, parece uma tarefa gigantesca, o suficiente para um curso de graduação. É claro, não acredito que a maioria das pessoas de 16 ou 18 anos já tenham noções boas destas coisas, e também não acho que elas sejam todas necessárias; todos nós somos um tanto pragmáticos em nossas decisões, esta é só mais uma delas. Mas o problema não deixa de ser complicado, e não quero parar minha vida para resolvê-lo, de modo que peço ajuda para que possa resolvê-lo aos poucos, e de uma maneira menos tortuosa. Afinal, o problema é complicado a ponto de ser desanimador, de parecer não valer a pena, mas vou tentar persistir.

Dividi o problema da maneira como estruturo minha ignorância a respeito das coisas que julgo que sejam relevantes:

Conhecimentos teóricos relevantes
– Política
– Estado
– Administração pública
– Organização social
– Direito
– Economia
– Relações internacionais
– Noções de educação, saúde e saneamento, urbanização, segurança pública e nacional, indústrias, comércio, pesquisa e tecnologia, entre outros.

Conhecimentos concretos relevantes

– Sistema político brasileiro
– Estrutura do governo brasileiro
– Divisão de atribuições e poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, União, Estado e Município, Subprefeituras, etc.
– Constituição
– Legislação
– Principais instituições e empresas estatais e terceirizadas responsáveis por serviços essenciais.
– História política brasileira, principalmente os últimos 50 anos.
– Cenário político atual. Partidos, candidatos, governantes, suas relações, disputas, conflitos. Denúncias e suspeitas de corrupção.
– História e proposta dos atuais governantes e partidos (estatutos), seus rivais, e outros candidatos e partidos de interesse. As políticas propostas e implementadas por eles e seus rivais, seus sucessos, fracassos e críticas.
– Acontecimentos recentes relevantes.
– Situação do país, estado e cidade hoje. Seus problemas e possíveis causas, suas perspectivas futuras, possíveis soluções, propostas para o desenvolvimento. Políticas implantadas em cada setor, seus sucessos, problemas e críticas, etc.
– Cenários políticos e acontecimentos em países semelhantes ao Brasil, países de importância ao Brasil (vizinhos, importadores, exportadores, etc), países com modelos políticos de interesse.

Valores políticos e morais

– Qual deve ser o papel do estado, até que ponto ele deve intervir e garantir direitos individuais, bem-estar social, organização social, desenvolvimento econômico, etc.? Como deve ser organizada a sociedade? Qual deve ser nossa atitude em relação aos outros países?
– O que devemos valorizar e desvalorizar, promover, tolerar e reprimir, na sociedade, e nas políticas de cada setor, na educação, na saúde, na segurança pública, nos direitos e legislações, na atuação das indústrias, comércios, nos serviços públicos, etc.?
– Devemos decidir politicamente no interesse de quem? No nosso? No dos outros à medida que nos importamos com eles? Nos da população em questão?
– Devemos ser pragmáticos, racionais ou empíricos nos julgamentos políticos?
O problema da tendenciosidade e da informação confiável
– Onde obter informação relevante?
– Quais os meios mais confiáveis, seguros para se obter informação sobre acontecimentos de relevância política?
– A que viéses estão sujeitos? Quais críticas são feitas a eles?
– Que pessoas são úteis para se informar?

Problema práticos

– Como escolher um candidato? Que características são desejáveis? Que características são e quais não são relevantes?
 – Pesquisas de intenção de voto (popularidade)
 – Plano de governo
 – Experiência e habilidade política (negociação, retórica, diálogo, malícia, etc)
 – Relacionamentos políticos
 – Desempenho nos debates
 – Perfil dos eleitores
 – Patrocinadores da campanha
 – Eficiência, prudência, agilidade, organização.
 – Capacidade de ação diante de imprevistos e emergências
 – Inteligência
 – Interesses secundários
 – Coerência
 – Carisma e habilidades sociais, firmeza, ousadia, serenidade
 – Honestidade e moral
 – Princípios e fidelidade a princípios
 – Partido e compromisso com o partido
– Como avaliar o desempenho de um governante?
 – Plano de governo inicial
 – Desempenho, eficiência
 – Aprovação, críticas, popularidade
 – Melhora durante o mandato e após ele.
 – Aproveitamento de projetos de turnos anteriores.
 – Discursos e desempenho público
– Como interpretar acontecimentos políticos? No que se deve prestar atenção? Em quem se deve prestar atenção?
– Como votar? Votar é relevante? Que outros tipos de atuação política uma pessoa na minha posição pode exercer? Quando votar em branco?
– Como decidir sobre assuntos políticos? O que procurar? Quais os aspectos relevantes?

A pergunta fundamental: Como desenvolver competência política? Qual a maneira mais curta e eficiente?

 – Estudar teoria política e econômica, e todas as outras coisas que listei acima.
 – Ler planos de governo oficiais.
 – Se informar com “pessoas competentes”, de tendências políticas diversas.
 – Acompanhar notícias dos grandes jornais.
 – Se informar sobre a história de vida e o passado político dos candidatos principais, e à medida do possível de outros que possam vir a ser de interesse.

Enfim, listei uma quantidade enorme de aspectos e questões que acho relevantes às decisões políticas. Não sei quais são mais importantes, quais deixei de listar, quais são desimportantes, e muito menos quais são suas respostas. Peço por contribuições, opiniões, coisas afins.

14 opiniões sobre “Incompetência política”

  1. Pela dificuldade de votar de maneira bem informada (e pelo respeito aos que não querem votar) eu preferiria o voto opcional.

    Acho que a propaganda política não informa o necessário, e é bastante prejudicial pois custa caro e isso gera corrupção. Acho que se deveria ensinar conhecimentos básicos ao menos de direito e política no plano escolar (e acho que a escola não deveria ser de atendência obrigatória, possibilitando o estudo por conta própria em casa, usando apenas testes para conferir certificações). Para informar o eleitor sobre planos de um candidato, se poderia distribuir em pontos específicos gratuitamente uma cartilha com os planos feitos pelos candidatos, assim como informações gerais como seu histórico jurídico, seus bens declarados, etc.

    Você pediu muitas coisas, nem sei como responder bem, vou dizer a minha opinião política. Como sabe sou utilitário, então justifico minhas opções não em princípios políticos ou ideologias, mas no efeito mais ou menos benéfico que elas tem.

    Por isso acho que a distribuição de renda dos ricos para os pobres, embora tecnicamente um roubo legalizado, é benéfica, pois dinheiro em abundância traz pouco ganho em felicidade, e dinheiro em falta causa um grande problema. Sou a favor de usar esse dinheiro para criar pleno emprego de baixa remuneração dado pelo governo e por ongs e acabar com o desemprego involuntário e a miséria.

    No entanto, pela mesma lógica, acho também que cada pobre que tem um filho está fazendo um erro, pois está gerando um pobre a mais para o futuro, que será pouco educado e inapto a produzir riqueza, tendo que receber assistencia dos ricos, e ser um peso economico para a nação ao invés de uma ajuda. Por isso gostaria de impor um sistema de limite de filhos como na China, em que todas as famílias que não pagam imposto de renda (pobres) só possam ter 1 filho, pagando multas caso tenham mais.

    Sou obviamente a favor do sistema capitalista, etc. (por motivos empíricos). Acho que o tipo de governo que mais se aproxima ao meu modelo ideal é o da Suiça, da Holanda, ou de países escandinavos, em termos de “capitalismo social” e de grau de liberdade individual.

    Sou fortemente a favor de liberdades individuais como direito a aborto (em qualquer período), uso de drogas leves, suicídio, eutanásia, união homossexual, poligamia, pesquisas com células-tronco, prostituição, liberdade de expressão, etc., pois acho que todas elas se justificam por motivos utilitários e causam um maior benefício e progresso. Por outro lado, como disse, sou menos a favor de liberdades econômicas.

    Gostaria da possibilidade no Brasil de a população criar referendos por livre vontade, como há nos EUA e na Suíça, por exemplo. Isso no Brasil talvez fosse inviável devido ao custo e incômodo por causa da obrigatoriedade do voto. No Brasil também há uma distância grande demais entre o representante e o representado. O político eleito deveria manter contato com seus eleitores para fazer o que eles querem que seja feito.

    Eu aprendi alguma coisa de política frequentando comunidades de partidos políticos no Orkut, como a comunidade do Liber (partido libertário brasileiro), acho que tem bastante pessoas especializadas nisso por ai com quem se pode aprender.

  2. Obrigado, Jonatas, achei suas sugestões bem interessantes.

    Tenho dúvidas se o voto facultativo não transformaria as eleições em grandes campanhas de recrutamento, uma vez que possivelmente muitas pessoas se acomodariam, o que poderia agravar ainda mais o problema da ignorância política.

    Queria que vc explicasse melhor se souber, como funcionam estes tais referendos livres.

    Queria pedir para que os que conhecerem pessoas que possam contribuir neste post, que o façam.

  3. Possivelmente o voto facultativo teria uma influência nas campanhas políticas que levaria os candidatos a chamar a população ao voto. No entanto, minha proposta é a proibição da propaganda política. Mas isso não parece ser um grande problema nos países de voto facultativo (a grande maioria dos países). Lista de países com voto obrigatório:

    Argentina, Australia, Bélgica, Brazil, Chile, Chipre, Congo, Equador, Fiji, Líbano, Liechtenstein, Nauru, Peru, Cingapura, Turquia, Uruguai.

    Com pouquíssimas excessões (Austrália, Bélgica, Liechtenstein, Cingapura), todos os países desenvolvidos têm voto opcional.

    Os referendos funcionam assim:

    Suíça:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Switzerland#Direct_democracy

    EUA:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Direct_democracy#Direct_democracy_in_the_United_States

  4. Sobre os conhecimentos relevantes que vc disse querer, não que eu os tenha, mas acho que vc pode conseguir boa parte deles em livros. Um deles, que eu li, e que me deu um bom entendimento sobre economia relativamente a governo e política é “Entenda a economia” (Economics Explained) de Heilbroner e Thurow.

    Como desenvolver competência política? Acho que principalmente “estudar teoria política e econômica”, etc., se informar com “pessoas competentes”, de tendências políticas diversas (ver planos de partidos políticos e conversar com seus proponentes, no Orkut, por exemplo), acompanhar notícias dos grandes jornais (pode ser feito mesmo pela internet e dá alguma base de conhecimentos gerais).

    (Tem um comentário meu anterior aguardando moderação)

  5. Rend,
    Gostei do seu post, me deixou um pouco perplexo também sobre os meus próprios conhecimentos. E olha que considero como amador esses campos justamente os que me interessam.

    O problema de uma resposta aqui é que ela não tem começo, hehe.
    Enfim, sou de esquerda também. Sempre foi um pendor que só aumentou conforme minhas leituras e aprendizados.
    Não acho que agir politicamente de forma a-crítica seja necessariamente negativo (por isso sou a favor do voto analfabeto). A esquerda se beneficia em um primeiro nivel desse efeito mais emocional porque em seu núcleo duro está um ideal de comunidade e um de ser humano estéticamente agradáveis. Quero dizer, a direita sempre está do lado ou ao lado de racistas, homofóbicos, xenófobos, etc. São ideologias de uma forma ou outra baseadas no medo (Norberto Bobbio, um autor que te recomendo, diz que uma das características fundamentais da direita é o pessimismo antropológico).

    As discussões sobre economia, geopolitica, sociologia são dependentes dessa polaridade direita-esquerda. Por exemplo alguém que crê que é importante que cada ser humano no planeta tenha um minimo de dignidade provavelmente entenderá que é necessária intervenção governamental para assegurar isso (aqui a direita retrucará com cinismo-ou isso é impossível ou não se pode apressar).

    Enfim, poderia discutir seus tópicos por textos e mais textos sem esgotá-lo. Mas vou dar algumas sugestões
    -Norberto Bobbio, que fala sobre a questão direita esquerda.
    -Hobsbawm, um historiador importante e legal de ler.
    -Rousseau é tranquilo e importante também, se quiser entrar em um clássico.
    -Um livro de introdução de economia, mas um pouco específico é o “Moeda” do J.K. Galbraith.
    -Algo menos ortodoxo é o Hakin Bey, um anarquista- http://www.hermetic.com/bey/

  6. Tenho que interceder.

    Não li o texto, só li o comentário do Thor. Mas preciso urgentemente interceder dizendo:

    Não leia Rousseau. Faça tudo o que quiser na vida, mas não leia Rousseau. O texto não é interessante, as hipóteses não são relevantes e ele está completamente errado!

    Não sentiria que meu dever cívico estivesse em dia sem dizer isso.

    depois eu comento de verdade, o título do meu comentário será “Boas e más razões para ser politicamente ativo”

    abraços

  7. Recebi um email do Diego pedindo explicitamente que eu comentasse esse post, de modo que cá estou eu cumprindo meu dever cívico… Não entendi muito bem porque eu seria uma pessoa competente para fazer recomendações sobre política; embora tenha um certo interesse pelo tema, me comporto com relação a ele mais como um dos personagens de Marçal Aquino, cuja única relação com os políticos era a de desligar a TV no horário eleitoral gratuito, e cuja “politização” havia sido um pouco como essas doenças que pegamos na infância, as quais nos afetam por um certo período e depois passam sem deixar marcas. Posto de outro modo, não sou, nem de longe, um pensador político e política não é minha principal área de interesse, de modo que não tenho muito a acrescentar à discussão, em larga medida porque concordo com você no que diz respeito a enormidade da questão. De fato, uma das principais razões pelas quais eu me abstenho de tomar uma posição política inflexível é minha consciência da complexidade do fenômeno em questão (a começar pela decisão sobre o que é, precisamente, esse fenômeno). Nesse sentido, não tenho nenhuma grande recomendação a fazer, até porque meu plano é basicamente o mesmo que o seu: primeiro adquirir uma cultura política minimamente decente (incluindo a leitura de um amplo espectro de idéias, sejam elas liberais, como Mises e Hayek, sejam elas marxistas, como o próprio Marx), e depois elaborar um pensamento adequado. É evidente que isso vai demorar anos, mas não tem outro jeito; o que não dá é para ficar palpitando.

    Dito isso, só gostaria de uma coisa. É uma convicção pessoal minha que a leitura dos clássicos, como Rousseau, é fundamental — no caso de Rousseau isso vale especialmente, dado que ele é, provavelmente, o pensador político mais influente do Ocidente, de modo que é difícil ignorá-lo (o que, obviamente, não quer dizer que ele esteja correto ou que suas hipóteses sejam relevantes para nossa realidade, mas ele certamente guarda um interesse no mínimo como fator determinante dos rumos do pensamento político do Ocidente). Defendo essa leitura dos clássicos por duas razões. Em primeiro lugar, essa leitura propicia a formação de uma cultura geral acerca do tema que lhe dará a oportunidade de pensar eticamente, isto é, lhe fornecerá as bases para que você comece a entender quais os problemas éticos fundamentais. É claro que nenhum desses pensadores virá com respostas prontas, mas o fato de que todos tem um pensamento muitas vezes sofisticado pode lhe ajudar a entender exatamente isso, quer seja, como determinar quais são os problemas éticos relevantes e porque eles são relevantes. Só isso já é um grande avanço, pois muitas vezes não conseguimos sequer entender porque uma discussão ética é relevante. E, em segundo lugar, mesmo que as respostas fornecidas por tais autores sejam aparentemente equivocadas, só o fato deles fornecerem baterias de argumentos em seu favor já nos obriga a rever nossas posições originais ou, pelo menos, fortalecê-las. É o que Rawls chamava de “reflective equilibrium”, o “ajuste” entre nossas intuições morais e argumentos racionais em favor de posições muitas vezes contrárias a essas intuições.

    O que me leva a um segundo ponto. Discordo absolutamente, até no nível emocional, de qualquer discurso maniqueísta que polarize o debate direita-esquerda em termos de Bem e Mal. Como disse acima, creio que um dos principais objetivos de se ler algum pensador é, precisamente, incitar uma reflexão que muitas vezes nos força a rever nossas posições morais mais íntimas; polarizar a questão em termos de “nós somos os bonzinhos e eles são os malvados”, algo muito frequente em debates políticos, é a melhor maneira de arruinar o pensamento. E, em todo caso, é um delírio achar que qualquer pensador respeitável, seja ele Marx ou Mises, elaborou sua teoria com o objetivo de denigrir a dignidade humana. É óbvio que todos estão preocupados com a dignidade humana, sim, o problema é decidir quais são os valores que decorrem dessa dignidade e qual a relação de prioridade entre eles (se é que há). Isso não significa que a polaridade direita-esquerda deva ser abandonada — embora ela seja certamente mais nuançada do que parece, acabei de assistir um debate com Paulo Arantes cujo principal consenso era a classificação do keyneisianismo como direita —, ela certamente deve ser mantida como um meio de nos orientar um pouco nesse cipoal teórico que se tornou o pensamento político atual, e não como uma oposição absoluta que determina o conteúdo e mesmo o valor de um determinado pensamento.

  8. Boas e Más razões para ser politicamente ativo

    De início, quero pontuar que todas as razões que falo aqui Parecem boas, pelo menos para algumas pessoas. Estou decantando as razões boas e más em geral para aquelas que eu individualmente considero boas e más.

    Boas:

    Organizar pensamentos e decidir com que tipo de pensamento seu próprio pensamento se alinha.
    Tentar compreender um fenômeno bastante complexo pelo seu próprio interesse no fenômeno.
    Entender um pouco de um campo interessante ao qual grande quantidade de grandes pensadores dedicou bastante tempo.

    Más:

    1) Fazer alguma diferença. Seu voto não faz nenhuma diferença. Nos Eua, onde o voto é facultativo, calcula-se que cada pessoa tenha uma influência de 3 votos quando vota (por atrair amigos a votarem). Aqui não deve ser sequer 1,5 na média a influencia de um votante. Cerca de 1 a cada 20 mil eleições encerram por uma distância de um voto ou empate. Assim sendo, não há nenhuma dúvida de que sua participação política é absolutamente irrelevante e você não faz nenhuma diferença.
    2) Mudar o pensamento do povo. Sabe-se que cerca de dois terços da população tem uma vinculação de personalidade a uma certa ala política, toda a propaganda política (bem feita) se dirige aos 35% restantes, que são os que variam. Uma vez que você se consolide num lado (por exemplo, sendo petista) você se torna parte de uma parcela fixa, que não influencia o resultado das eleições. (o que já estava evidente no outro ponto)
    3) Manter a consciência de voto na população. No Brasil, a população votará, vote você ou não. Mesmo nos Eua, como eu disse, a influência é de um para três, e sem dúvida o colossal esforço necessário à compreensão do fenômeno não justifica a idéia de manter 3 pessoas votando conscientemente (até porque, o voto consciente quase nunca é um voto de profundo conhecedor, apenas de alguém que se importa com o tema).

    Pessoas famosas, evidente, tem um círculo de influência muito maior, e nesse caso, é deveras provável que valha a pena para eles pesquisar bastante sobre quem vão votar etc… (pense no tamanho da influência de uma declaração de caetano sobre seu voto, por exemplo). No caso deles, faz diferença.

    Em suma, todas as boas razões para participar de atividade política são unicamente individualistas e concernem aos seus interesses em relação a você, não em relação ao mundo. Isso não é razão para menosprezar a política, mas é razão para compreender que o único beneficiário de seus esforços políticos será a sua própria pessoa, e que é com esse dado que você deve embasar suas decisões sobre estudar, por exemplo, Rousseau, ou jogar Zelda, ou ler sobre pósitrons e a curvatura do espaço-tempo.

    Meu último comentário é contra a idéia de “pessoas competentes” a respeito do mundo político. A grande maioria das pessoas é completamente irracional com relação a política, e como em todo movimento tribal de massas, quanto mais irracional, maior a chance de conseguir seguidores. Sabe-se que as pessoas escolhem candidatos por personalidade e personificação, e não por projetos ou carreira política. Sabe-se que a escolha política é largamente determinada geneticamente, e que mesmo em casos não tão claros, uma vez determinada, ela opera por bases totalmente irracionais quando falando do inimigo político(há experimentos demonstrando isso).

    Quando lhe foi oferecida a presidência de Israel, einstein disse: Equations are more important to me, because politics is for the present, but an equation is something for eternity.

    Meu conselho pessoal a respeito da política é simples. Abandone-a. Ame a democracia, tudo o que o sistema criou por nós, e viva o mais isolado dela, tal qual já o fazemos com os jogos do coríntians, a voz do brasil e o padre marcelo…

  9. Existe ainda a filosofia política, por assim dizer, ou a teorização de um sistema político ideal… acho que há um papel mais importante para isso. A política pode ser uma técnica e não um conhecimento, mas devido a sua importância enorme sobre os rumos do mundo (mesmo sobre o transhumanismo, dinheiro investido em pesquisas, etc.), acho que é importante teorizar uma política que seja o melhor possível, talvez isso possa influenciar outros mais tarde, assim como grandes pensadores políticos influenciaram.

  10. Frente ao comentario do Nagase acredito que a solução mais elegante seja mais radical: não ler Rousseau ou qualquer pensador influenciado por ele.

  11. Uau, quanta e rar concentração de burrice nesse blog.
    digo rara porque não é habitual do espaço isso.
    Não comento as razões de porque sim ou não se afastar da politica. Mas essa aversão ao Rousseau é patética.

    Como o Daniel eu poderia fazer uma defesa dos clássicos enquanto tais, mas expando o argumento dele para mostrar como nosso exemplo helvético tem uma influência maciça na nossa realidade politica e teórica.
    No discurso sobre as artes e as ciências Rousseau mostrou que realmente estava na contramão do seu tempo e respondeu com uma negativa à pergunta de se o progresso das artes e ciências tinha colaborado para o melhoramento da humanidade. Ele não é nenhum ludita, não está propondo nenhum bom selvagem como ideal último; está questionando a idéia da bondade absoluta do progresso. A absoluta atualidade dessa problematização se reflete por exemplo em um pensador econômico contemporãneo brasileiro: Celso Furtado. Em O Mito do Desenvolvimento ele faz uma incisiva crítica da era Delfim-Ditadura e sua cegueira conceitual que levou ao tal “milagre econômico”. Além desse exemplo, muitos, e praticamente a crítica teórica inteira deve seu quinhão a Rousseau, por via de Kant. Ou seja, o modelo de constituição republicana, o cânone da moral secular, um naco incalculável é compreensível e elucidavel através da chave roussouiana. Por cima, foi um dos primeiros a se debruçar sobre a música, a pedra basilar da teoria da educação do periodo, e a lista se extende imensamente.

    Disse burrice ali em cima porque a abordagem de um livro autor ou teoria com as categorias simplistas do certo/errado é o equivalente intelectual da caipirice.

  12. Decidi autoritariamente que de agora em diante está proibido postar comentários falando bem ou mal (juízos de valor) de Rousseau neste post.

    Gostei bastante dos comentários, gostaria que alguém opinasse sobre o comentário do Diego, sobre a relevância de se votar. Acho que ele está subestimando um pouco a influência que alguém pode ter sobre seus próximos ao sustentar uma opinião política bem fundamentada (veja por exemplo os blogs), mas que mesmo assim um indivíduo isoladamente não é capaz de fazer diferença.

    Uma outra maneira de ver a defesa de um ponto de vista político é como um movimento social; mesmo que não se faça diferença isoladamente, está se contribuindo para a massa que favorece aquele ponto de vista, como qualquer forma de ativismo ou defesa ideológica/propagação memética (como o transhumanismo, o ateísmo, etc).

  13. Oi Léo,

    não posso ajudar muito a responder suas perguntas, mas compartilho dessa angustia. Me assusta pensar que uma grande porcentagem da população não sabe nem como são contados os votos. Me lembro com bastante tristeza dos jornais tentando explicar porque que um candidato com miseros 100 votos foi eleito deputado federal pelo PRONA a alguns anos atrás.
    Na última eleição votei nulo e não me arrependo. Acho que aos poucos estão encontrando o meu caminho com respeito a essas questões. Acho que a política se faz muito antes e muito depois das eleições. Não me arrependo pois pela primeira vez na vida estou me sentindo um ser minimamente político e isso não tem absolutamente nada a ver com as eleições.
    Espero que você encontre as respostas que procura. Se quiser trocar mais idéias me escreva. As respostas tardam, mas chegam.

    Abraços

    Márcio

  14. Pessoalmente concordo com a segunda hipótese do Léo sobre votos. Pessoas não votam, movimentos, segmentos demográficos, regiões votam.

    Mas um questionamento mais importante é o real valor de uma “democracia” onde isso quer dizer um voto por cabeça. Acho que esse modelo teve seu tempo e lugar e já foi um catalisador de progresso, mas ha muito tempo o sistema se engessou e a reação aprendeu a jogar o jogo (da demagogia, diversionismo, entre outros).
    A tendência do modelo é tecnocratizar de um lado, e uma legião de populistas grosseiros se insurgirem do outro.

    Só mais um comentário, a questão do Rousseau não era só Rousseau, para mim, mas o valor “intrínseco” dos clássicos do pensamento politico para pensar nossos modelos e valores.

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