Inteligentes e Audaciosos

A grande maioria das pessoas está extremamente ocupada com seus afazeres para pensar. Pensar no que quer que seja. Como diria Russell: Most people would sooner die than think, in fact, they do so.

Dentre as restantes, a maioria procura ter uma vida razoavelmente feliz dentro da comunidade na qual nasceu, conquistar o respeito das pessoas mais próximas ao seu redor e regular uma vida de trabalho, construir uma família e ter uma filosofia de vida similar a dos vizinhos.

Dentre as restantes a maioria entra em algum tipo de grupo mais ou menos marginal dentro do esquema social vigente em sua região, e se identifica com essa pequena tribo, mantendo-se dentro de um código de costumes que chega a poder ser mais rígido do que o código vigente no mundo “normal”.

Dentre as restantes, é possível encontrar pessoas interessantes. A maioria das pessoas que já chegou até essa diminuta maioria é inteligente, alguns, como Bakunin, Dande, David Chalmers, Dalí, Einstein, Madonna, ficaram bastante famosos dentro de algum nicho particular da sociedade…

O que há em comum entre Dali, o filósofo Abelardo, o anarquista Bakunin, e John Lilly (O homem que na década de sessenta fez o que ele chamou de reprogramar o próprio cérebro com ajuda de tanques de golfinho e alucinógenos)? Eles não tinham medo de ser excêntricos. São pessoas que, além de inteligente, são audaciosas, são capazes de ultrapassar as barreiras de seu pequeno grupo geográfico e seu tempo, e se projetar com suas idéias no invólucro da realidade sem medo. Pessoas que ao escolher como levar a vida ignoravam absolutamente as mesquinhas necessidades do homem de se parecer com o outro homem. O próprio Russell nos dá a máxima desse grupo: “Do not fear to be eccentric in opinion, for every opinion now accepted was once eccentric.”

É desta sorte distinta, de inteligentes audaciosos, que quero falar um pouco. Em primeiro lugar, antes de pontuar o quanto essas são as mais importantes pessoas da história, passada e futura, quero dizer que não acho que essa forma de vida é acessível a todas as pessoas. Pelo contrário, acho que nem socialmente, nem psicológicamente seria possível uma sociedade apenas de inteligentes audaciosos. Digo mais, acho que pouquíssimas pessoas tem a predisposição biológica necessária para ser capaz de dar tão pouca importância aos caprichos e necessidades que o ser humano tem de normalizar o outro. O que quer que seja que faça dessas pessoas as que podem exercer essa forma de vida, claramente não é para todos, e claramente deveria ser contido, se fosse algo que todos tivessem.

É então muito bom saber que não é, essa forma de vida jorra e goza do sado-masoquismo à matemática avançada, do narcótico putrefato jogado à calçada ao som de blues ao narcótico misticalista internalizando pontos de luz da realidade última da vida em seu peito de fogo. Onde se discute a hipótese da Matrix com maneiras vitorianas, ou escreve teses sobre oncogenes ao som de Pavarotti e Megadeath.

Sempre que me deparo com um inteligente audacioso tenho uma sensação imediata, recorrente. Sinto que é para essas pessoas que a história da humanidade está voltada. Milhares se não milhões de guerras, tecnologias, livros e pensamentos foram concatenados num passado sem fim ao longo da história para que os indivíduos do futuro pudessem ser finalmente livres, desfrutar ao mesmo tempo do poder de viverem loucuras, terem grandes prazeres, e não terem medo da opressão de outros homens, e pudessem se associar livremente. Festejar a história passada e viver a história presente sempre foi o sonho dos grandes homens que moldaram a história humana, aquilo que para eles seria a história do futuro.

A sensação que tenho é que os inteligentes audaciosos são as pessoas do “futuro”. De Marx a Bakunin, das diretas já ao sufrágio popular, todas as manifestações e conquistas políticas foram feitas tendo em vista garantir a prosperidade e a liberdade dos homens, principalmente aqueles que de fato as exerceriam (em oposição por exemplo aos evangélicos) e a grande maioria, promovida também por outros que também eles mesmos eram inteligentes e audaciosos, muitas vezes que foram tolhidos numa idade mais jovem das possibilidades de livre-pensar e livre-associação, pelas quais se dispuseram a lutar.

Há aqueles que dizem que um dia chegará (após a revolução talvez, ou após o enriquescimento da áfrica, não sei ao certo) em que todos os homens poderão finalmente ser livres e o paraíso será novamente atingido. Eu não acredito nisso, e acho que isso leva a péssimas conclusões. O principal equívoco é considerar que todos devem ascender juntos. Nunca na história algo foi feito para todos ao mesmo tempo. A história é gradual, e as idéias, mudanças e direcionamentos vão se configurando com o tempo, de uma pequena minoria, para eventualmente tornarem-se a palavra de ordem. Ora, já existem hoje milhões de pessoas que podem viver toda essa liberdade, onde estarão escondidas? O outro equívoco é realmente achar que a maioria das pessoas quer isso, a maioria das pessoas não tem capacidade mental para querer absolutamente nada. Desejar é complexo demasiado para elas. O fato de que vivemos num planeta de idiotas não é justificativa para que não permitamos que uma robusta minoria viva os sonhos políticos e individuais dos homens do passado.

E talvez seja isso mesmo o que mais me intriga. Se já há milhões de pessoas por aí que poderiam estar exercendo toda a liberdade que um dia já foi almejada por seus ancestrais, que não tem de se submeter a lógica da vida tribal, do trabalho, dos subgrupos marginais de organização fascista, porque elas não saem as ruas, a viver como na imaginação que temos de woodstock, da frança de 68, da paris arte do começo do século 20, da celebração da inteligência de um prêmio nobel, e diversas outras fantasias de nossa imaginação? E a sensação que tenho é que a resposta é “falta de compania”

Acho que a maioria dessas pessoas, como provavelmente o filósofo Abelardo, no séc treze, não costuma encontrar muitas outras pessoas do mesmo nível de livre-pensar que elas, e acaba por perder a possibilidade de de fato voar em gravidade zero, rolar em papel bolha, destruir móveis, escrever tratados sobre a beleza ou inovar o campo semiótico-sexual.

Me parece que o advento da internet, e em breve, da realidade virtual interativa, vão ser cruciais na criação real daquilo que Raul Seixas chamou de “Sociedade Alternativa”, e espero que muito mais pessoas tomem banho de chapéu uma vez que isso aconteça.

O futuro já está acontecendo, e as condições materiais da realidade já permitem o livre pensar, o livre caminhar e o livre viver. Os obstáculos que impedem o homem médio de chegar minimamente perto disso são em grande medida biológicos, e se manifestam no medo de ser diferente, que movimenta todos os bilhões que giram anualmente no mercado da moda, pessoas medíocres a parte, existe uma robusta, apesar de minúscula, minoria que deveria estar por aí a se esbaldar em arte, cozinha, banhos de chapéu, caminhadas de pijama pelas avenidas, monociclos, e conferências sobre flutuações de vácuo e suas influências na safra portuguesa de arroz.

O fato de que eu não vejo essas pessoas por aí pode indicar duas coisas, ou elas ainda não perceberam que já podem sair da toca e pulsar em público, ou nós somos bem menos do que é necessário para que a história humana não tenha sido em vão.