Meus palpites sobre inteligência

Em  Crime e Castigo, numa das melhores cenas, Raskonikov(o assassíno) e um interlocutor estão conversando. Raskolnikov frio e resoluto começa a expressar suas teorias, até ali só aludidas no livro. Diz ele que enquanto a maioria das pessoas está submetida aos costumes e leis, uma categoria de homens não muito abrangente pode se agarrar a uma legalidade superior, derivada de fins maiores, e simplesmente quebrar a lei. Napoleão é o exemplo áureo do livro inteiro.

Mas quero me prender aqui principalmente à discussão da produção dessa categoria de homem. Raslkonikov postula uma lei da natureza que garantisse a raridade e dispersão desse tipo de homem, e que talvez no futuro se poderia encontrar o mecanismo exato dessa produção.

Esse homem é definido um pouco de modo um pouco abrangente, mas o principal é que tem características de liderança, vontade firme e inteligência.

Pois bem, hoje me parece (pois não tenho a base pra comentar mas peço que os cientistas do blog o façam) que há como ao menos aceitar como possível tal teoria, e elucidar até certo ponto esses mecanismos. Afinal Dostoiévsky escreve quase um século antes da descoberta do DNA.

Além disso, os fundamentos parecem melhor explicáveis, com a teoria da evolução e o conhecimento do estado “”normal”” do homem, o 99% de tempo de sua existência que passou como coletor-caçador, em bandos de 25-50 homens e normalmente nômades.

É que as características de inteligência, liderança e descaso as regras, que tem uma função importante para a comunidade, tem uma importância que atinge um pico em um determinado número de indivíduos, e depois decaí, chegando a ficar negativa.

Afinal um indivíduo mais inteligente e rebelde é importante para ultrapassar a tradição quando essa ficou obsoleta, para criar novas, para codificar mitologias, enfim, para contribuir com a inteligência para a comunidade. Talvez 2 o ganho seja ainda maior. Mas a partir de um número n, o ganho estanca, e começa a abaixar. Afinal a falta de uma liderança clara, excesso de sectarismo e disputa, a falta de solidez, choque de egos; tudo o que parece advir inevitavelmente de uma produção excessiva de Raskolnikovs.

Aquelas figuras maximizadas de brócolis, que são fractais; a teoria de expressão de genes (eles estão lá mas podem ser engatilhados ou não) e o fato de que uma célula tronco espera estímulos complexos do ambiente antes de se determinar; tudo isso me diz que existem regras complexas entroncadas na nossa natureza que regulam um complexo jogo de surgimento e articulação não só destas, mas também das outras características análogas. Dando um exemplo vulgar: se na comunidade já há um inteligente, sua liderança e outros efeitos suprimem a aparição da mesma característica nos outros indivíduos. Esses poderiam ter o gene por exemplo, mas que não se expressasse por falta de um gatilho necessário.

É claro que imagino a coisa ser muito mais complexa. Mas é interessante visualizar.
Outro problema é a questão da cultura. Pois com a ultrapassagem desses exemplos a-históricos e a consideração das sociedades agrícolas e urbanas, ou seja, dos aglomerados atípicos (para a genética); e principalmente a cultura, a coisa muda de figura. Podemos até dizer que a cultura foi em parte um remendo a uma espécie vivendo além de seus meios (genéticos) e que visava dinamizar os estímulos de maneira a manipular essas condições genéticas puras. Mesmo ambiente rural continua mais gente que os pequenos bandos da idade da pedra. Mas ali a necessidade de inteligentes audaciosos talvez fosse menor, proporcionalmente, que a dos bandos. Em compensação em uma cidade a necessidade de artesões, magistrados, etc é maior e portanto talvez seja interessante separar a inteligência da audaciosidade. Tudo isso exigiria uma espécie de “ilusão”(se pensarmos a idade pré-histórica como a norma de realidade), uma inversão de sinais e potencias dos estímulos e suas apreensões que “apertando os botões certos” efetuasse a mágica cega da maniupulação dos genes.

Ora, e se a memética tem alguma verdade; se idéias boas são as que sobrevivem e fazem seu hospedeiro sobreviver é altamente inteligível esse cenário anterior. É claro que ainda há outros papéis para a cultura (as lendas sobre o terrível lobo, ou a idéia de que os que perderem a vida terão prazer ao lado da divindade), não acho que ela é redutível a essa ilusão mas é fútil dizer que parte dela não está envolvida nessa operação. Somos análogos àqueles animais que criaram proto-patas e sairam da água, não inteiramente adaptados a nenhum dos dois. Nossa genética é muito mal equipada para lidar com as condições de vida pós revolução agrícola, e esse é um processo que vem se acentuando. Paralelamente avança a parte da cultura.

Fico por aqui, só com um apêndice. Se esse modo de raciocinar está correto, legitima-se a forma de pensar patologias psiquiátricas como tendo uma raiz mais que significativa na cultura, e não ser só uma instância individual e particular. Isso ajudaria a explicar, como fazem alguns psicanalistas, o absoluto surto de doenças psiquiátricas, que vem aumentando ano a ano.

9 opiniões sobre “Meus palpites sobre inteligência”

  1. Concordo… muito perspicaz… porém duvido um pouco da capacidade da “natureza” ou da nossa evolução genética em adaptar os genes à necessidade ideal, ou seja, acho que às vezes a evolução não é flexível o bastante para se aproveitar de uma possibilidade ideal de organização genética, acho que isso pode talvez se aplicar à teorização de que um número X de indivíduos inteligentes, nem mais nem menos, seja proveitoso à comunidade. Sendo a evolução cega, às vezes ela cai em poços sem fundo, ou em armadilhas.

    PS: tem um post meu no tópico “Israel” aguardando moderação.

  2. aposto que ela cai e caiu muitas vezes- a cultura azteca parece (só parece,não tenho dado sérios) ter se extinguido por si e em si.
    Mas ai vem uma maior e come a carcaça né. A beleza da coisa.
    Por outro lado, a cultura mainstream norte americana de hoje parece desoladora e extremamente anti-intelectual. e essa é de certa maneira global, então pode ser ruínoso.

  3. Vou começar com as afirmações científicas e de conteúdo empirico, ainda que vulgares…
    “Dando um exemplo vulgar: se na comunidade já há um inteligente, sua liderança e outros efeitos suprimem a aparição da mesma característica nos outros indivíduos. Esses poderiam ter o gene por exemplo, mas que não se expressasse por falta de um gatilho necessário.”
    Evidência contra: Gêmeos univitelinos criados separado compartilham inteligência na mesma medida que uma pessoa e ela própria testada novamente.
    Evidência a favor: Os irmãos mais velhos tem o QI em geral 3 pontos maior do que cada um dos mais novos, cumulativamente.

    Ou seja, podem existir princípios genéticos de “desativação” da inteligência, e isso não é absurdo, mas não é tao provável.

    Quanto aos inteligentes audaciosos:

    Conheço poucos inteligentes audaciosos. No limite, conheço dois, eu, e você. Folgando o laço consigo fazer mais algumas concessões não tão difíceis.

    Estive pensando por várias vezes esse mês em escrever uma espécie de manifesto. Um manifesto para um pequeno grupo, de inteligentes audaciosos, cujo conteúdo seja fundamentalmente de demonstrar como é possível exercer muito intensamente essa propensão genética que nos foi dada no mundo atual, como as condições são possíveis para ir do que noutro post chamei de ir da experiência à Experiência.

    Acho que existe em todas as pessoas um medo constante de ser observado, de fazer algo considerado errado, etc etc… isso as impede de ser livres, de pensar de maneira livre. São pessoas que ao sentar, ocupam o mínimo de espaço possível. Elas comem exatamente como os outros estão comendo, vivem ao máximo de maneira a não parecer muito diferentes etc…. Tenho um grande incômodo com o fato de que o mundo seja assim, não com as pessoas, mas com o planeta.

    Esse comentário está ficando demasiado extenso, e decidi tranformá-lo num texto sobre liberdade mental, inteligentes audazes e etc…..

    Abraços

  4. Meu argumento tem como (outro) apêndice a possibilidade de “racionalmente”(intuindo grosseiramente esses mecanismos culturais) perceber e modificar algumas tendências, mesmo que seja em um pequeno grupo, para aumentar essas influências. Um cara com um excelente olho desses e uma intenção parecida (afinal não estamos falando só de inteligencia aqui) é o Nietzsche, e seu conceito de vida (ascendente/ descendente).

    Por último, acho que é uma tendência da cultura moderna incentivar a inteligência mas sem o senso crítico (build bombs, but don´t worry about them). Um problema

  5. “Evidência a favor: Os irmãos mais velhos tem o QI em geral 3 pontos maior do que cada um dos mais novos, cumulativamente. ”

    I wonder what could be the cause. Talvez a idade da mãe no parto? Para ver se isso poderia ser a causa, teríamos que analisar se há correlação entre a idade da mãe e a inteligência (acho que não há). Talvez o tempo dedicado pela mãe a coisas como amamentação, que aumenta o QI?

    Há que se observar se a diferença entre irmãos é mais ou menos constante, se depende ou não de algum tipo de comportamento específico dos pais que na média possa dar uma diferença estatística.

    Eu não sou audacioso em termos sociais, mas em intelectuais. Qual é mais importante?

  6. Assim como Jonatas, não acredito que a seleção natural tenha muito espaço aí, acredito muito mais que uma influência biológica apareceria como uma seleção sócio-sexual, mas certamente atribuiria como causa principal da variação de frequência das tais pessoas a complexa dinâmica político-cultural das sociedades…

    A diferença de QI entre irmãos talvez esteja relacionada com o nível de testosterona, que cai a cada filho, uma vez que um cérebro mais masculinizado (“mais autista”) provavelmente teria um desempenho melhor em testes de QI, que medem em boa parte reconhecimento de padrões. Mas acho que o tempo de dedicação parental pode ser uma variável importante.

    Pessoalmente, e como leigo sem quase nenhum conhecimento de ciências sociais e afins, sou meio cético em relação à capacidade da humanidade controlar os seus rumos intelectualmente, enquanto iniciativas como anti-escravidão e feminismo tenham tido bons sucessos, eu os atribuiria muito mais às conveniências políticas e econômicas do que ao ativismo em si, mas é claro, o ativismo foi importante para que as tais conveniências pudessem surgir. Só quero dizer que acho que as relações materiais são muito mais fortes do que a ideologia.

  7. Leo, acho difícil que o nível de testosterona esteja relacionado, porque inteligência em mulheres é correlacionado diretamente com testosterona, e em homens é inversamente. Ou seja, o seu raciocínio valeria apenas para metade da população e isso anularia os efeitos benéficos, por assim dizer.

    Os testes com gêmeos, sobre os quais há uma discussão maior nos comments do https://brainstormers.wordpress.com/2008/10/09/israel/ demonstram que sua conjectura sobre dedicação parental não é verdadeira (apesar de soar super plausível a qualquer pessoa normal).

    abraços

  8. Pode haver uma relação positiva com testosterona, conforme este artigo:

    http://health.dailynewscentral.com/content/view/78/62

    “Men having levels of testosterone very much higher than normal for males would also create the right hemisphere dominated brain which could help in science. The extremes of low testosterone and high testosterone for men would create the scientific brain”

    No entanto, que uma correlação aparecesse estatisticamente não parece provável, pois tanto um nível maior quanto menor que a média desse hormônio poderia estar levemente relacionado com inteligência. Talvez estatisticamente isso possa provocar alguma diferença, mas suspeito que o efeito seria bastante inconstante, algumas vezes beneficiando também os filhos mais novos (digo isso sendo filho mais velho).

  9. Precisamos de mais Nietzsches e mais pessoas que façam com que os inteligentes audazes se descrubram como tais e saiam, vociferantes, em busca do suco da vida, do sangue da natureza.

    Não há porque não permitir aos poucos à quem a contingência permitiu a possibilidade de viver a vida como ela deve ser vivida. Acho que gente como Nietzsche e Thor tem algo a dizer sobre isso………..

    Eu digo isso em vários lugares, em particular no the starting gun e na parte form drugs and experience desse https://brainstormers.wordpress.com/2008/09/15/what-i-learned-to-appreciate/

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