Israel

Esse post é um adendo do anterior.

E aqui quero tratar de duas questões distintas mas interligadas. A primeira é o standing moral de Israel. De sua orígem, de suas ações,de sua própria existência.

Em segundo lugar quero tratar de sua capacidade de existir continuada.

Começo com a primeira falando que sou um convicto anti-zionista. A idéia de pegar um povo mutilado e massacrado e enxertar em uma terra com donos e especialmente disputada e valiosa, é nada menos que imbecil. Dou um desconto para aqueles judeus que saídos de campos e da Europa em geral viram a necessidade de um estado próprio. Realmente os ventos ainda não eram favoráveis em lugar algum. É por isso que o mundo inteiro devia ter vetado essa empreitada estúpida, assim como fariamos no mais que fabular cenário de levar os pobres sudaneses afligidos por uma guerra étnica terrível e metermo-los em Manhattan, deixando o Brooklin para os nativos.

Mesmo assim, até hoje discordava de uma resolução da ONU que esteve em vigor por muito tempo e que equacionava o zionismo ao racismo. Em meus argumentos anteriores constava o fato de que Israel deu cidadania a muitos palestinos, em Jerusalem por exemplo, nas colinas de Golã, etc. Além disso tem 20% de árabes em seu parlamento. Não é como se a África do Sul tivesse negros no parlamento ou ministérios.

Alguns fatos já perturbavam essa opinião, como o fato de que árabes de facto não podem renovar suas construções em Jerusalem, e caso se mudem de Jerusalem, perdem o direito de ir morar ali. Há sim, portanto, cidadãos de segunda classe. Varias outras instituições garantem que a posse de terras, entre outros, sejam cuidadosamente alocados em mãos judias.

Mas foi a leitura do livro do Chomsky, chamado Piratas e Emperadores, que me fez concordar com a tal resolução. Não há racional possível para o estado de Israel hoje que não precise se utilizar de alguma diferença qualitativa entre os estados Israelense e árabes, que não tenha um fundo racista. Elas são das mais variadas, e a mais leve é:

Israel é um estado democrático (pelas razões que já elenquei acima) de direito, ao contrário da pletora de estados ditatoriais e brutais que o cercam.-as vezes com o adendo: deixado à mão dos palestinos essa terra reverteria a um país atrasado.

-Um estado democrático não mantém regiões trancadas, sem direito a voto, de passagem, de protesto, de consciência e expressão. Pois essa é a paisagem nas desoladoras Gaza e Cisjordânia. Além disso, essa afirmação implica que uma etnia-árabe- é por natureza mais bruta ou selvagem, e/ou sua religião inferior, selvagem ou bárbara.(um rapido olhar sobre as praticas haredis judaicas já anula esse tipo de olhar superior)

-Além disso a falta de democracia ao seu redor foi Israel que ajudou a criar: O Libano, numa ação direta, alguns outros como reação indireta àquele corpo estranho.

Daí pra frente os argumentos só pioram, com teores religiosos- normalmente o velho Deus nos prometeu essa terra, ou explicitamente racistas.

A segunda parte dessa questão complicada da situação moral de Israel passa por um inventário relativizado de suas ações. Sobre isso indico a mesma leitura acima(só para estômagos fortes) e afirmo somente que deve ser incrivelmente triste para um sobrevivente do holocausto ver seus filhos se tornarem os algozes. E para Moisés, se esse ainda vê, ver a idolatria de uma faixa de terra se elevar acima de preceitos básicos como não matarás.

Sobre a questão imensamente mais complicada da existência continuada de Israel, acho aqui que essa nação não é viável a longo prazo. Falo isso sem considerar se é justa ou não a existência de Israel exceto onde a percepção do mundo ajude ou atrapalhe, pois em grande parte ele concorda comigo.

Na verdade as opiniões do mundo são as mais variadas. Os EUA tem uma devoção forte, fruto de décadas de propaganda favorável (consultar Chomsky sobre isso também), um alinhamento da teologia cristã com o apoio  incondicional de Israel, e principalmente um forte apoio e influência política da enorme colonia judaica americana (~5 milhões). A Europa ocidental é defensora dos moldes clássicos do estado, pré 67, mas sua opinião pública guarda um razoável desagrado pelo desprezo Israelense a considerações humanitárias. Também odeiam a continua quebra de suas soberanias por agentes do Mossad. Já para o Leste, a partir da Austria, o anti-semitismo é forte, e na Russia, enorme. O resto dos países tende a se alinhar como a Europa ocidental (Brasil é especialmente vocal ai, mas Chile, Argentina, etc seguem).

Ponto de consenso é que brusca ou suavemente a participação dos EUA no mundo em todos os sentidos tende a diminuir. Em 46 os EUA detinham metade da economia mundial. Desde então essa proporção vem baixando, mesmo que eles mantém um crescimento saudável. Uma nova configuração do cenário internacional vai se montar, com o poder de barganha da Russia bastante aumentado, um EUA tentando lidar com sua decadência relativa, aumento do poder de Brasil e do cone sul em geral, com vozes de esquerda. O mundo árabe terá aumentado um pouco, concentradamente nos microestados da Arábia. Mas o petróleo continuará a ser uma grande peça de troca.

O importante é a ascenção da China e Rússia aqui, além da reversão da unipolaridade. Essas mudanças de que falo são lentas, e mesmo sem qualquer ameaça de bomba trocada, vão se operando nos varios foros de debate internacional, nas influências, nos programas de ajuda, intercâmbio. Ora, para qualquer país que considere somente relações comerciais, o pragmatismo chinês por excelência, o 1 bilhão de muçulmanos supera os dispersos, embora ricos, judeus, especialmente na questão do petróleo. Essa é uma posição que será gradualmente exercida pelo Japão, a medida que esse começar a ter opiniões mais próprias. Os árabes não são pragmáticos e são exclusivistas, e se tiverem mais poder de barganha (e com o óleo mais escasso, terão)usarão. Rússia, como disse, é provavelmente o país mais anti-semita e não se incomodaria em ver os chechenos perderem um de seus principais argumentos de revolta. A China tem um problema parecido com os Uigures. Uma consideração especial para a Igreja Católica, essa é fragmentária, mas tem lados flagrantemente anti-semitas. O papado, que importa no entendo, é de neutro para europeu.

Mesmo assim Israel ainda é uma economia dinâmica, com apoios bilionários ao redor do globo e o exercito de longe mais bem equipado da região. Além de bombas atômicas, que só o distante Paquistão pode rivalizar. E parte de sua população, boa parte, é fanática e não sairia dali a não ser morta. E o apoio dos EUA ainda serão massivos, mesmo que em 20 anos sua proporção da economia mundial baixe significativamente.

Por isso mesmo só pelo soft power se consumirá lentamente a economia e instituições do país. Mas internamente há dois grandes problemas.

-O primeiro é a polarização cada vez maior em torno dos assentamentos. Uma pequena parte dos israelenses vive nos assentamentos, que são enclaves em território além do de Israel (em busca de uma grande Israel, ou um Lebensraum. Qualquer semelhança é mera…), mas que geram a maior parte da confusão. Os Israelenses modernos e conscientes não acha certo servir em um exercito massacrando palestinos por causa de alguns fanáticos religiosos cuja idéia de constituição civil é o velho testamento. A polarização começou a chegar a tal ponto que a organização dos assentados agora retalia qualquer ataque palestino a um assentamento tanto nos palestinos como em organizações de paz. E a verdade é que essas organizações de paz e os israelenses modernos em geral são a cobertura e álibi de Israel no seu marketing internacional de Europa cravada no meio dos bárbaros. Quem se compadeceria dos radicais? Com os desafios externos aumentando, tanto econômicos quanto militares, essas tendências tendem a se exacerbar, e vislumbro até uma parte do movimento de paz e dos cosmopolitas israelenses emigrando. As duas israeis só coexistem na irmandade militar exigida de todos, e no sonho obsoleto de seus avós visionários. A visão parece cada vez menos realidade e talvez os netos e bisnetos desistam se a condição for a guerra incessante.

-Outro ponto fundamental são os árabes internos. Israel já tem 20% de árabes e uma proporção igual em seu parlamento, que no fundo acabaria com o estado, se tivesse o poder. A verdade é que as projeções demográficas projetam que essa proporção vá a 30% até 2020, o que inviabiliza um governo sem a participação deles quase, e torna um terço da população do estado inimigos deste. Com uma demografia assim, o país parece menos viável, e foi exatamente o que Ariel Sharon percebeu quando saiu de Gaza e tirou os assentamentos dali: seria inevitável dar direitos políticos dentro do estado de Israel aos habitantes daquele território, e eles só ajudariam a compor uma maioria de palestinos.

Ora, você poderia me dizer, e no caso de um processo de paz bem sucedido. muito do que eu disse não faria sentido.

Não acredito em um processo de paz  por uma série de razões. A primeira é que a direita está muito forte em Israel, e tende a continuar e se radicalizar. Afora isso, os Palestinos ja perceberam essas tendências e advogam cada vez mais a saída do estado único, sabendo que se for concedido em poucos anos eles terão maioria e liberarão o direito de retorno, efetivamente acabando com Israel. Além disso  Gaza e a Cisjordania estão divididas, e não há sequer um lider de centro em Israel com a mínima vontade política. O clima não é para paz em lugar nenhum. E o Hezbollah vai atirar misseis não importa o que.

Mas comentem por favor, que acham

19 opiniões sobre “Israel”

  1. Não sei muito o que prever ou pensar, mas lamento pela violência nessa região, e acho que os israelenses têm uma grande ingerência e responsabilidade por esses males, com políticas altamente desumanas e discriminatórias, bem como alguns de seus amiguinhos dos EUA.

    No passado já odiei Israel, hoje estou mais moderado e vejo a história também pelo lado deles. Antes sentia pena dos palestinos, hoje vejo que a sua cultura é uma das piores do mundo em termos de qualquer eficiência, e se disseminando na África (adivinhe onde), e que eles são uns pobres coitados, parcialmente injustiçados, parcialmente responsáveis pela sua situação deplorável.

    Espero que os esforços mundiais por um processo de paz em Israel sejam mais fortes que o interesse dos poucos colonos radicais e acabem frutíferos, apesar de que esse é apenas um dos tantos problemas mundiais que não poderá mais que ser remediado antes da colocação em prática do transhumanismo.🙂

  2. Se a escala temporal do Kurzweil estiver certa, realmente não se resolverá.

    Cara, o que diabos é a eficiência de uma cultura? Eles são um povo que foi fisica e moralmente destroçado desde 45. Se você fizesse isso com Malasia, Indonésia ou México provavelmente ia poder falar dos sangrentos Chicanos ou dos ignorantes malásios. Sabe, realmente atrapalha quando você não tem a chance de construir uma universidade, escolas, é humilhado, etc.

    Mas pense bem, o pior de Israel é que eles são simplesmente o maior fator desestabilizador no mundo. Se a guerra nuclear e o inverno devastador acontecer, a probabilidade de Israel ter algo a ver é grande.

    Não odeio Israel. Odio não é um sentimento pra países ou culturas, e sim pra pessoas. Mas detesto sua influência

  3. “Cara, o que diabos é a eficiência de uma cultura?”

    Eficiência em conseguir viver de uma forma a gerar felicidade e progresso, em termos gerais, ou ainda, mais detalhadamente, em viver de forma pacífica e ordenada, produzindo riqueza material e conhecimento, de forma racional, superando sentimentos religiosos negativos e se organizando de maneira eficaz a promover coisas boas.

    A cultura islâmica me parece uma das piores do mundo, pela sua estreiteza religiosa em plena atualidade, pela sua discriminação de mulheres e pouca liberdade sexual, por suas punições abusivas e seu sentimento religioso que motiva ataques terroristas, jihads, e outros absurdos.

    Não vou levar muito a longe a questão étnica de inteligência, apesar de poder te assegurar com certeza, após extenso estudo, que a diferença existe (mesmo entre negros, brancos e Ashkenazim nos EUA, sob condições iguais, numa extensão de 1dp para menos e para mais), mas se vc quiser pensar que não, tudo bem. De qualquer forma somos todos burros e apenas o transhumanismo nos salvará de nossos problemas intrínsecos, e eu defenderia um transhumanismo a todas as etnias, igualando então sua inteligência em algo além do que temos atualmente.

    Sobre Brave New World, não tenho tempo de comentar, mas dê uma olhada aqui: http://www.huxley.net/

  4. Oh, não, nada chegou perto de me ofender. Foi uma simples demora.

    Acho que essa visão de cultura é muito distorcida. Sou o primeiro, como fiz no artigo acima, a admitir que uma cultura determinada tem grande impacto na organização material e imaterial de um país. Mas é claro também que existem outros fatores que normalmente são muito mais determinantes, como os econômicos. No Islã pós segunda guerra, aparte a Arabia Saudita, todos os países tinham governos seculares, governados por pessoas que apreciavam um bom gin inglês ou vinho francês. O que nós conhecemos da cultura islamica é o resultado de massivas intervenções e influências do ocidente que se combinaram e causaram uma enorme pobreza, desolação intelectual, enfim, aqueles elementos de que você não gosta em uma cultura.

    O que quero dizer aqui é que acho que é sempre muito mais determinante a qualificação da cultura por conceitos como rural, urbana, imperialista, colonial, necessitada, afluente, etc. Há lados incríveis do mundo islãmico- o sufismo, o cosmopolitismo, tradições libertárias e místicas. Infelizmente a geopolítica há tempos empurra esses elementos interessantes e produtivos pra fora e aumenta a influência dos Mulás, a classe clerical. Aqui também as particularidades são relevaveis- é uma classe clerical como as outras e causa os mesmos problemas que a Igreja Católica e instituições parecidas causavam e ainda causam um pouco.

    Como prova cito a era dourada do Islã, um núcleo cosmopolita (muito mais que a Europa cristã), bastante pacífico (relativo a época, claro), com tolerância religiosa, desenvolvimento intelectual. Se o Islã fosse em si uma doutrina venenosa já ali teria se revelado. E se se replicar que ele o é na era moderna, digo o que já disse ali. No Irã, Iraque, Arabia, Síria movimentos modernizantes e reformadores tentaram operar, mas foram detidos por estar em uma região particularmente problemática do globo e serem peões das grandes potências (URSS fez sua parte também). O caso mais flagrante é o do Mossadeq, onde o reino unido e EUA abortaram o projeto de industrialização e assim, causaram a revolução islãmica.

    Cara, me passa então esses dados sobre a variação étnica do QI, porque fiquei curioso.

  5. Dados sobre a variação étnica do QI… hum…

    Tem este estudo sobre os Ashkenazi, “Natural History of Ashkenazi Intelligence”, que aborda as causas evolutivas de um aumento no seu QI médio na Idade Média, de forma bem científica, identificando genes comprovadamente relacionados ao desenvolvimento de neurônios, e também originando doenças peculiares aos Ashkenazi:

    http://homepage.mac.com/harpend/.Public/AshkenaziIQ.jbiosocsci.pdf

    Se o fato de alguns Ashkenazi terem esses genes, o que aumenta seu QI médio como população, é admitido, fica estabelecido um caso em que diferença no QI médio entre populações existe.

    Estudos com gêmeos idênticos separados no nascimento mostram que o ambiente tem um efeito negligível no QI. E a diferença entre etnias persiste em média mesmo ajustando para as condições ambientais serem iguais. Algumas etnias minoritárias e socialmente em desvantagem obtêm QIs maiores que a média dos brancos, enquanto que outras obtem QIs muito menores, nas mesmas condições.

    http://www.innovations-report.de/html/berichte/studien/bericht-43536.html

    É claro que esse é um assunto politicamente desconfortável e pouco agradável de conversar, talvez até seja melhor as pessoas acharem que não há diferença, porém pessoas envolvidas com o conhecimento sério devem saber o que acontece de verdade para tirar suas conclusões… como diz o Steven Pinker no seu mais recente TED Talk:

    Você deve estar certo sobre o lado positivo da cultura islâmica, pelo pouco que eu sei, e acho que você sabe mais… considerando no conceito cultura islâmica um aglomerado de coisas, acho que se pode dizer que tem lados positivos e negativos, e que os negativos andam mais aparentes ultimamente. Quanto às causas desse negativo prevalecer ultimamente, no âmbito econômico e político, não consigo ver bem como foi que os países europeus ou os EUA tiveram causa nisso, vc tem conhecimento sobre e poderia explicar?

  6. Não li os comentários de vocês, então desculpem quaisquer repetições.

    Primeiro, Thor, use títulos nos seus textos, tanto para que eles possam ser achados por internautas aleatórios quanto por ficar mais fácil achá-los no site etc….

    Quanto a israel, não sei muito sobre israel. Mas suponho que o crescimento demográfico árabe seja maior que o judeu em qualquer lugar, então a perda de força é natural, assim como china e índia estão dominando muitas áreas, como as olimpíadas e a informática.

    A característica “só sai de lá morto” me parece um dos principais regentes do mundo político futuro, o que é bem ruim. Explico. Antes ninguém tinha segurança e ninguém entendia nada, então todos queriam conquistar mais território etc… etc… Hoje em dia, quase todo mundo ( uns 4 bilhões ao menos) tem segurança e vive tranquilamente, e por isso tem medo de perder essa segurança e morrer. Acho que cada vez mais, o frenesi individual, a indiferença com a morte, terão um papel político importante, porque menos indivíduos terão esse frenesi.
    Os palestinos, vários árabes e os israelenses, por razões distintas e religiosas, são todos mais propensos a essas “loucuras” do que um brasileiro ou americano comum. Então acho que haverá ainda mais agitação em israel.

    O decréscimo do apoio do governo israelense é patente, mas não significa que quem não o apoia apoia o “inimigo”. Me parece que caminhamos mais para um isolacionismo suiço do que para qualquer tomada de lado, afinal, porque tomar algum lado se você pode ficar tranquilo, e ganhar mais pontos no final.

    O fato maior, que ultrapassa o escopo de israel, é que o mundo está se interligando economicamente e politicamente. Os destinos das nações estão se tornando correlacionados (ou seja, se uma cai, muitas caem, ao contrário do passado) veja por exemplo a queda da bolsa russa em 98 e as hipotecas americanas agora. Diante disso, uma tendencia unificadora deve surgir. A paz vai virar dinheiro, e quando isso acontecer, ninguém, nem israel, conseguirá impedí-la.

  7. Interessante. Realmente, vejo a possibilidade.
    Mas por uma questão de intuição pessoal e aquela teoria que postulei no outro post, discordo que o social é importante para o QI. Me dizer que a criação-um pai que da livros, conta histórias e compra Lego pro seu filho-não influi na contrução dele me parece descabido.

    Quanto à destruição sistemática do oriente médio, ela se dá em vários fronts. Mas desde que os árabes tomaram o poder para si, na descolonização, tentativas de mudar o status quo (democratizar, reformar, industrializar) encontraram a força das armas e impérios no caminho. Na década de 50 a Inglaterra e EUA derrubaram o governo (democraticamente eleito) do Mossadeq, um cara secular, competente, reformista e com visão de país. Puseram no lugar o Shah, um cara que conseguiu gastar 150 milhões dos cofres públicos dando uma festa nababesca de dias e dias. O grupo dos liberais seculares ficou fraco e quem fez a revolução contra o crápula foi a classe clerical (Khomeini), que embora tivesse intenções reformadoras, só levou o país pra onde ele está agora-um antro de corrupção desintelectualizado e sem prospectos.

    No Iraque foi o apoio do partido do Sadam contra os igualmente seculares e reformistas esquerdistas que garantiu o atraso. Aqui a coisa foi especialmente terrível porque o secular ocidental não era como o Shah. Esse preferia porões de tortura a salões de festa. Pode dizer que a barbaridade é árabe, mas quem ensinou as tecnicas foi a CIA.

    A Arábia Saudita é uma criação colonial (Lawrence da arábia). Para provocar o império Otomano incentivaram uma revolta de beduínos e tribos do deserto. Depois a casa de Saud unificou o território e usou do infame Islã wahabita (o que tem lá até hoje) como meio de domesticar a população. Tudo isso, claro, com a benção sedenta de petróleo norte americana (tem uma foto do Saud com o Roosvelt em algum lugar).

    No Egito, um dos casos mais flagrantes, quase abortaram a nacionalização do canal de Suez (foi necessária intervenção nuclear da USSR). Israel se encarregou com assassinatos, bombardeios e terrorismo (sequestro de barcos, abatimento de aviões comerciais) de semear os germes da irmandade muçulmana, organização que já matou um presidente e tentou dar vários golpes.

    Quero demonstrar aqui que o ocidente pratica uma política de dividir e conquistar, e que contra elites cosmopolitas e reformadoras, jogam as forças do atraso, tribais e rurais. Já era feito durante o período colonial, mas se intensificou após o pós-guerra e a descolonização, quando o ímpeto democrático foi “longe demais” e a independência excessiva dos povinhos marrons tinha de ser diminuída. Não é portanto, genético ou cultural esse atraso.

  8. Interessante, não conhecia essa história do Oriente Médio. Parece que alguns países europeus e os EUA tiveram de fato influência negativa na região.

    A influência de “um pai que da livros, conta histórias e compra Lego pro seu filho” no seu filho é em termos de conhecimento, ou inteligência cristalizada, mas pouco afeta a sua capacidade mental de lidar com informações novas, a inteligência fluída, segundo informações empíricas que vi. O conhecimento é bem correlacionado à inteligência, pois a vontade em o adquirir cresce paralelamente ao nível dessa. O efeito da aquisição do conhecimento na inteligência como fator isolado é pequeno.

    O conhecimento é necessário, claro, juntamente à inteligência, para muitas realizações intelectuais, pois representa a soma do trabalho intelectual de muitas gerações passadas. Mas deve ser recebido com muita cautela, criticismo, e cuidado para não se tornar uma resposta pronta que iniba a necessidade percebida de raciocínio próprio.

  9. Como não sei comentar sobre o que o Thor falou de política, e me parece certo, vou falar só sobre inteligência.

    A influência dos pais não reflete nos filhos, me parece, por uma causa simples. A inteligência que o Jonatas chamou de fluida leva as pessoas a serem curiosas e interessadas, se os pais não derem nenhum estímulo, a criança vai correr atrás por sí mesma.

    Nesse link, diversos cientistas e alguns filósofos falam sobre o que os levou a tal escolha e posição na vida, recomendo lerem apenas dois:

    http://www.edge.org/books/curious_index.html

    Nessa sequência (isso é importante)
    Murray Gell-Mann
    Steven Pinker

    abraços

    Abraços

  10. Diego, concordo com você que a personalidade dos pais não determina a dos filhos. Mas a inteligência e interesses influenciam. A música que toca na casa, quais serão os efeitos cognitivos de um pagodão frente a um Chico ou Mozart? E as pessoas que se recebe em casa, viagens que se faz. Sua casa por exemplo tinha um Russel sentado na estante, como você me contou. Na minha há uma coleção de clássicos abril, que minha mãe mal leu, mas me embalou em meus primeiros devaneios literários.
    Assim a transitoriedade da inteligência em geral não é uma determinação, mas mais espaço e possibilidades. Mesmo pais engenheiros podem entender um urge e talento de desenho na criança por ex, e estimulá-los. Pais ignorantes e descuidados desconsiderarão em bloco as capacidades.

  11. e gente,minha opinião é que vocês superestimam a genética e subestimam o ambiente. Acho que o conjunto da escola, leituras, criação, estímulos, valores é muito mais determinante que genética. A aristocracia européia toda aprendia inumeras linguas, matemática, liam extensamente. O nivel de conhecimentos que tinham era assustador comparado mesmo ao melhor do nosso sistema educacional.
    Assim, creio que mesmo alguém com uma genética desfavorável sob tais condições estaria muito melhor que alguém com uma genética boa (não estou tomando gênios em consideração aqui) mas sem tutores e livros e métodos.

  12. Pode-se dizer que as duas coisas se confundem, já que uma criança que herdou inteligência geneticamente dos pais herdará também um nível proporcional em média de conhecimento e cultura no seu ambiente familiar, pois a busca do conhecimento cresce paralelamente à inteligência. O problema é separar esses dois fatores, e ver qual causa qual. Acho que o melhor, para isso, é ver informações empíricas de estudos que separam esses fatores, como com gêmeos idênticos separados no nascimento.

  13. A gente não subestima nem superestima nada Thor. No mundo mágico em que a gente vive, ninguém estima, a gente experimenta, controla variáveis, verifica e conclui. É tão contra-intuitivo pra mim quanto é pra você que inteligência seja somente determinada geneticamente, que os livros do Russell não tenham sido uma influência de fato na minha vida (note por exemplo que comecei a ler Russell sem ser os livros que meu pai tinha).
    Mas é um fato empírico conhecido e avaliado. Tem extensos estudos sobre gêmeos.

    “It involves pairs of identical twins separated at birth. One twin of a male set was brought up as a Catholic in a Nazi family in Germany, the other was raised as a Jew by an adoptive father in Trinidad. When they finally met in their 40s, they were wearing identical blue shirts with epaulets. Both had rubber bands around their wrists. Both flushed the toilet before using it as well as after. Both liked to sneeze in crowded elevators to watch other people jump. ”

    Esse é um exemplo…. tem muitos outros.
    esse aqui é bom também

    “Nancy Segal lists the following shared characteristics:

    * As youngsters, each Jim had a dog named “Toy.”

    * Each Jim had been married two times — the first wives were both called “Linda” and the second wives were both called “Betty.”

    * One Jim had named his son “James Allan” and the other Jim had named his son “James Alan.”

    * Each twin had driven his light-blue Chevrolet to Pas Grille beach in Florida for family vacations.

    * Both Jims smoked Salem cigarettes and drank Miller Lite beer.

    * Both Jims had at one time held part-time posts as sheriffs.

    * Both were fingernail biters and suffered from migraine headaches.

    * Each Jim enjoyed leaving love notes to his wife throughout the house. ”

    Espero que isso tenha deixado no mínimo uma impressão de awkward no ar.

  14. anedótico e irrelevante eu diria. Eu pelo menos nunca vi uma casa muito intelectualizada com filhos que não correspondessem razoavelmente. Mas já vi vários casos contrários. Não consigo me convencer da proporção de vocês.

    E já conheci gêmeos idênticos mais diferentes

  15. Acho que o efeito do ambiente existe e pode afetar muito da produção intelectual e artística, além do conhecimento que a pessoa encontra disponível e adquire. No entanto, a configuração desse ambiente, se descontar o fator inteligência genética, é um tanto aleatório, dependente das outras pessoas do lugar em que uma família vive, do tipo de governo, etc. Essa influência importante do ambiente também tem um efeito muito pequeno sobre a inteligência fluída, usada para lidar com informações novas. É verdade que a produção intelectual e artística dependerá não só dessa inteligência, a inteligência é apenas um dos fatores importantes, mais um requisito que uma garantia.

  16. What is wanted is not the will to believe, but the wish to find out, which is the exact opposite.
    Bertrand Russell

    Thor, se você quiser ir atrás da informação sobre hereditariedade, e sobre efeitos de criação, é só fazer. Se quiser acreditar no que quer que queira acreditar sem ir atrás, problema é seu, só vai tirar sua credibilidade.

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