Três comentários sobre filosofia

Cada vez mais tenho percebido uma tendência de ter opiniões injustificáveis frente as atuais posições filosóficas mais correntes, penso que estou ficando cada vez mais excêntrico filosoficamente. Resolvi tratar de algumas posições minhas que considero um pouco polemicas, de uma forma sucinta apenas as descrevendo. Talvez algumas das polemicas necessitem de um contexto de explicação, mas como não queria fazer um texto longo e corrido preferi deixar esse contexto ausente e se necessário explicar qualquer duvida nos comentários.

A profissão filosófica – Em todas as outras áreas, exceto a filosofia, tem-se a opção de não se ser genial. Um medico tem como caminho aberto não fazer nenhuma descoberta de um método cirúrgico revolucionário e só cuidando bem de seus pacientes fazer bem ao mundo e ser útil. Na filosofia a distinção entre competente e genial não existe. Pior, a distinção entre ausência de genialidade e a ausência de préstimo também se esvanece. Não ser genial em filosofia é prejudicial. Por isso aqueles que fazem a opção por essa nobre profissão devem pensar bem antes dessa escolha, se o seu objetivo é fazer bem a humanidade. Hoje em dia o que se deve esperar de um filosofo é justamente que tenha idéias geniais ou é isso ou ele é um completo desperdício de recursos.

Da desrevolução kantiana – Iniciar-se pelas questões epistemológicas em detrimento das ontológicas, em outras palavras apreender a nadar sem nunca entrar na piscina, é uma idéia que, apesar de ridícula ainda podia ser sustentada pelos filósofos no tempo em que o dualismo cartesiano ainda era uma via em aberta. No entanto, um real compromisso com o monismo me leva a crer que não só a idéia é ridícula como é impossível, estamos fadados a chafurdar no lamaçal das questões ontológicas. O que as investidas filosóficas godelianas, denominadas por alguns de pré-kantianas, revelam não é, como querem os filósofos adeptos da filosofia da moda, o quanto é prejudicial quando um lógico se adentra em questões filosóficas. O que elas revelam é o quanto em filosofia, ao contrario da matemática, o zeitgeist demora a reconhecer que esta no caminho errado.

Uma estranha desproporção“Philosophy must be of some use and we must take it seriously. If the chief proposition of philosophy is that is nonsense then we must take this seriously and not pretend, as Wittgenstein does, that is important nonsense (..) What we can’t say we can’t say and we can’t whistle it either” (Ramsey) Entre o quanto boa parte do que era a outrora tarefa filosófica por excelência tem-se revelado impossível e o tanto de desapego que se tem devotado a essas tarefas existe uma radical e prejudicial desproporção. Caso fossem de fato responsáveis o que Wittgenstein e o Circulo de Viena deveriam ter feito frente as suas conclusões sobre a invalidade de boa parte dos problemas filosóficos era ter feito ciência. A filosofia, se existe, é uma reflexão sobre a ciência, talvez uma ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas, e nada mais que isso. Ela não deve ter de modo alguma pretensão de validar essa ciência ou tratar de outros temas, supostamente acessíveis somente a filosofia – esses temas provavelmente, se existem, são inacessíveis de qualquer modo satisfatório. O ar de soberba com o qual muitos filósofos ridicularizam as investidas filosóficas de cientistas e matemáticos deveria, antes de tudo, verificar se ele mesmo não é uma das coisas mais ridículas e injustificáveis dos nossos tempos.

12 opiniões sobre “Três comentários sobre filosofia”

  1. A profissão filosófica – Acho que a genialidade, bem que importante para ser um filósofo conhecido e intelectualmente produtivo, não é condição essencial para o professor de filosofia.

    Da desrevolução kantiana – Não entendi… kkkkk

    Uma estranha desproporção – Entendi um pouco. Creio que a filosofia deve estar o máximo possível ligada à ciência, deve tirar conclusões e teorias em cima da ciência, de dados empíricos, mas também, possivelmente, por meio de conclusões lógicas sem base em dados empíricos. A filosofia se ocupa de uma parte importante da idéia de mundo que vai além do alcance da ciência, mas é ainda necessária.

  2. Jonatas,
    Sim voce pode virar professor de filosofia, o departamento de filosofia da USP é prova disso. Mas acredito também que ele é uma prova de quanto isso é prejudicial. Professores que não fazem mais nada a não se limitar a comentar comentadores e que ensinam que isso é filosofia para os alunos, a todo custo. Pensem que eles ganham 8 mil reais vindos dos seus impostos por mês para fazerem isso. Eu considero extremamente prejudicial.

    Realmente no segundo aforismo faltou muitas implicações que eu só chutei que dariam certo sobre monismo impossibilitar começar um sistema filosófico pela epistemologia. Talvez esse tópico mereça um real post a parte.

    A ciência também tira conclusões logicas sem base em dados empíricos, muita coisa é um grande construtu teórico-matemático, se ousa muito. Mas acho que se deve sempre ousar com vistas a voltar e explicar o dado empírico, nem que isso seja um dado matemático (ok e empiricidade do objeto matemático é um tema discutível, mas eu acredito nela). Eu acho que a historia do conhecimento tem provado que toda vez que a filosofia tentou alcançar algo fora dos limites da ciência ou (1) ela queria realizar o impossível ou (2) a ciência no fim, conseguia alcançar essa questão. Quisera eu só lembrar de dois exemplos do segundo caso no momento. Quantas questões metafisicas sobre a verdade e sobre universais não foram resolvidas com a semântica e a teoria dos conjuntos, respectivamente. Quanta especulação sobre a cosmologia a relatividade não respondeu. Quanta especulação sobre a estrutura da mateira a física quântica não solucionou de modo plenamente satisfatório. Ao final faço um apelo ao seu utilitarismo (hehe) qual a importância para fazer da humanidade mais feliz a longo prazo se embrenhar em (pseudo)questões filosóficas (para usar o termo do Carnap) que parecem fadas a nunca terem nenhuma implicação pratica se quer?

    Abraços

  3. O próprio utilitarismo pertence à filosofia. Então acho que a sua crítica é válida à parte da filosofia que pretende se adentrar em território científico, mas ainda resta espaço importante à filosofia, que a ciência talvez não possa alcançar nunca, por exemplo:

    1) a moral, 2) dar um significado ao todo, que não é alcançado pelas áreas especializadas, 3) a religião e o questionamento dela, 4) a teoria da ciência (talvez possa se tornar científica se for pensada assim: a teoria que empiricamente produz melhores resultados), 5) filosofia da mente e implicações éticas práticas (talvez um dia possa ser científica, talvez não).

    Utilitaristicamente, acho que podem ser contraprodutivos alguns casos individuais de filósofos, no entanto, a maior disseminação da filosofia e o incentivo a ela dependem de achar que ela vale a pena, e acho que o desenvolvimento da filosofia em geral é utilitariamente positivo. Eu não diria que seria melhor que os gregos antigos deixassem a filosofia de lado e agissem como os seus povos vizinhos.

    Apesar de que o valor da filosofia é mais dependente da genialidade que de filósofos comentadores. Será que os possíveis filósofos geniais das universidades estariam melhor sem os seus professores, que talvez sejam meros filósofos comentadores?

  4. 1 “Hoje em dia o que se deve esperar de um filosofo é justamente que tenha idéias geniais ou é isso ou ele é um completo desperdício de recursos.”

    Eu acho que você ganharia enfraquecendo um pouquinho essa tese. de “deve fazer filosofia aquele que terá idéias geniais” para “deve fazer filosofia aquele que acha que terá idéias geniais”. Esse segundo, ao se confrontar com a não genialidade de suas idéias, torna-se apenas professor. Um professor que não foi genial, ainda assim seria melhor do que um que nunca o quis, como os da usp.

    2 Ontologia e epistemologia: Parece-me que as duas noções requerem uma a outra, “Qual é a ontologia da sua epistemologia?” e “Através de que Epistemologia você derivou essa ontologia?” são duas perguntas que me parecem sempre se aplicar a todas as ontologias, e a todas as epistemologias. Temos, na minha visão, de estabelecer um ponto fixo donde começar, e esse ponto será uma fixação de ambos epistemologia e ontologia em algum ponto. A partir daí derivaremos o resto da epistemologia e o resto da ontologia. Ex nihilo nihil gignit.

    3 “A filosofia, se existe, é uma reflexão sobre a ciência, talvez uma ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas, e nada mais que isso. Ela não deve ter de modo alguma pretensão de validar essa ciência ou tratar de outros temas, supostamente acessíveis somente a filosofia – esses temas provavelmente, se existem, são inacessíveis de qualquer modo satisfatório.”

    Mandou bem, é isso aí .

  5. 1- Discordo totalmente do primeiro ponto, acho que não é necessário ser genial pra ser um bom professor de filosofia, acho que pensar assim é achar que a filosofia não tem nenhuma importância pro povo e pro cidadão médio. Nunca entendo essas críticas à filosofia vista como história da filosofia, pois é justamente isso que ela é. Se limitar a entender bem o pensamento de outras pessoas e repassá-los aos alunos está de ótimo tamanho pra quem deseja ser um bom professor, imagina só se cada professor de filosofia tivesse um pensamento próprio, seria uma balbúrdia.

    2- Concordo com o post anterior, mas acredito que temos de rever o que se pensa por ontologia, porque se consirarmos a análise das categorias do conhecimento uma análise ontológica além de epistemológica, estaremos fazendo ontologia e epistemologia desde o começo. Do contrário acho que a epistemologia deve preceder a análise, porque validará a possibilidade do conhecimento através das “formas” do pensamento por uma via introspectiva e lógica, se é que isso é possível.

    Por outro lado se formos por uma epistemologia evolucionista, aí sempre fazemos também ontologia, porque consideraremos um contexto específico e uma história de uso para o conhecimento.

    3- “A filosofia, se existe, é uma reflexão sobre a ciência, talvez uma ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas, e nada mais que isso. Ela não deve ter de modo alguma pretensão de validar essa ciência ou tratar de outros temas, supostamente acessíveis somente a filosofia – esses temas provavelmente, se existem, são inacessíveis de qualquer modo satisfatório.”

    Discordo disso, é claro que a filosofia deve tratar de temas que até o momento são inacessíveis para a ciência, e certamente estas questões existem. Se não tratasse, como ela poderia ser uma ante-câmara pra que estes assuntos depois sejam científicos?

  6. Gustavo

    2 Sua primeira e segunda frases no primeiro parágrafo do segundo tópico não tem nenhuma contradição, não vejo porque o uso de “Do contrário”. “A meu ver” ou “Segundo minhas idéias” ficaria melhor e menos confuso.

    “Por outro lado se formos por uma epistemologia evolucionista, aí sempre fazemos também ontologia, porque consideraremos um contexto específico e uma história de uso para o conhecimento.”

    Um contexto específico e uma FORMA de uso para o conhecimento. Não vejo uma história de uso aqui.

    3 Seu terceiro ponto é inteligente, e aparentemente uma pontada sagaz. No entanto, pontuo que até onde sabemos, é só retrospectivamente que podemos olhar para uma questão filosófica e reconhecê-la como tal, e isso só se dá quando ela de fato foi ante-câmara da ciência. “Certamente essas questões existem” se se referir a questões que estão além da clarificação e da ciência, é uma afirmação que carrega consigo o fardo de demonstrar que o Wittgenstein das “Investigações filosóficas” está errado. Adoro afirmações duronas, mas adoro ainda mais quando elas são feitas por alguém que compreende a responsabilidade intelectual que encerram, e se vê pronto para o desafio. Alguém que, por assim dizer, é um filósofo disposto a ter idéias, e gerar balbúrdia.

    Abraços

  7. Repassar o conhecimento filosófico, ou ainda, os pensamentos de certas pessoas, disseminando-as para o público, é, na minha concepção, um trabalho mais próprio de um publicitário, jornalista ou historiador, que de um filósofo. Filosofia, para mim, é o pensamento original. Para o avanço da filosofia é preciso não a comentar, mas a fazer.

    Talvez buscando evitar ter de aguentar tais aulas eu tenha decidido não seguir esse curso, pois julguei que não me beneficiaria desse tipo de ensinamento. Devo soar arrogante e nojento, mas, honestamente, encaro a filosofia de outros com um pé atrás. Meu pai tem um doutorado em filosofia e é, na minha opinião, um filósofo pior que eu, que não sou sequer graduado. Uma pessoa com QI alguns desvios-padrão acima da média é um filósofo inato, enquanto que o mediano não pode senão comentar a filosofia, sem participar de maneira relevante do seu exercício, da sua atividade.

    Talvez eu esteja sendo injusto com o professor de filosofia, talvez ele tenha seu papel, afinal, os publicitários, historiadores e jornalistas também são úteis.

  8. Diego,

    2- Não entendi esse seu ponto. Pelo que eu entendi, o ínicio do tópico tratava sobre a anterioridade ou não da epistemologia sobre a ontologia. Eu disse que gostaria que se esclarecesse melhor o que se está entendendo por “ontologia”, porque se considerarmos a análise de Kant, por exemplo, sobre as categorias da percepção dos fenômenos e as intuições originárias de espaço e tempo como ontológicas, não haveria anterioridade nem posteridade, porque a ontologia se fundaria pela epistemologia. Agora, se não se considera esse tipo de análise como ontológica (quer dizer, se quiséssemos separar a ontologia da análise do modo pelo qual os fenômenos aparecem a nós, e foi isso que eu quis dizer com “do contrário”) eu opinaria que a epistemologia deve preceder a ontologia. Veja:

    “Do contrário acho que a epistemologia deve preceder a análise…”

    acho = a meu ver né?

    “Por outro lado se formos por uma epistemologia evolucionista, aí sempre fazemos também ontologia, porque consideraremos um contexto específico e uma história de uso para o conhecimento.”

    Apesar de não ver grandes problemas em usar “forma de uso” aí, acho que “história de uso” ficaria mais adequado, porque as evoluções biológicas são acumulativas e se dão sobre orgãos que podem anteriormente ter servido a outros fins. Com o aparato cognitivo evoluindo pela seleção natural deve ter acontecido a mesma coisa…

    3- “Seu terceiro ponto é inteligente, e aparentemente uma pontada sagaz. No entanto, pontuo que até onde sabemos, é só retrospectivamente que podemos olhar para uma questão filosófica e reconhecê-la como tal, e isso só se dá quando ela de fato foi ante-câmara da ciência.”

    Esse seu ponto é interessante, e acho que toca na distinção entre os problemas filosóficos genuínos e os pseudo-problemas, como os da metafísica clássica, na visão de Wittgenstein. Mas não acho que é só retrospectivamente que sabemos se uma questão é filosoficamente genuína, mas também atualmente, do contrário a filosofia ficaria engessada e não poderia jogar nenhuma destas questões nessa “ante-câmara”. A meu ver, isso seria uma contradição…

    ““Certamente essas questões existem” se se referir a questões que estão além da clarificação e da ciência, é uma afirmação que carrega consigo o fardo de demonstrar que o Wittgenstein das “Investigações filosóficas” está errado.”

    Não, são as questões que “até o momento”, como eu disse, estão além da ciência, e por isso não preciso mostrar que o Witt. tá errado.

  9. Jonatas,

    Jornalistas e publicitários não têm muito interesse pela história da filosofia, e se fosse por eles, a tradição filosófica já estava morta. Aliás, a história prova que a filosofia só avança assim: como uma tradição.

    “Talvez eu esteja sendo injusto com o professor de filosofia, talvez ele tenha seu papel, afinal, os publicitários, historiadores e jornalistas também são úteis.”

    Se eles conseguirem ser pelo menos úteis, acho que já está ótimo.

  10. Não é produtivo rebaixar os filosofos a jornalistas pelo fato de os jornalistas não conseguirem ser jornalistas. Historia da filosofia, como o nome diz é historia e é trabalho de historiador e não de filosofo. Se a filosofia tem uma tradição é a do pensamento inovador, influente e atual e não é de modo algum essa tradição que se passa ao se ensinar historia da filosofia. Se faz muito menos justiça ao filosofo quando se estuda ele do que quando se faz o q ele fez, que é ser revolucionario.
    Ontologia acerca a existencia das coisas, epistemologia o acesso as coisas. Kant é epistemologico, sim isso presupoe uma ontologia da parte dele (as categorias) que presuporia uam epistemologia e…

  11. Olá amigos, muito debate a se fazer não é…
    Convido a todos a lerem Apologia de Sócrates, isso sim é argumentação e coragem, destemor que parece até presunção, mas não é, é onde Sócrates deixa claro que sabe que é o mais sábio homem da Grécia e porque.

    Coloquei um link em http://pensamentobr.blogspot.com/2009/04/03-0-platao-apologia-de-socrates.html

    Para completar, você pode baixar o Critão, em áudio, onde Sócrates explica para Critão, qual opinião realmente vale levar em consideração. Coloquei o link em :
    http://www.cultura.dequalidade.com.br/?p=34

    Muita paz e vençamos primeiramente a nós mesmos.

  12. ” A filosofia, se existe, é uma reflexão sobre a ciência, talvez uma ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas, e nada mais que isso.”
    Como isso pode ser verdade? Quando mesmo filosofia sendo a mãe de todas ao ciências, há algumas coisas que não estão acessíveis à ciência para estudar e/ou provar, de exemplo seria os conceitos: o sentido da vida, verdade, culpa. Se isso não está ao alcance da ciência como a filosofia pode ser “ante-câmera pelas quais certas questões tem de passar antes que se tornem plenamente cientificas”?

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