Flights from Reality

Num artigo de mesmo título, escrito para o times dos anos trinta, Russell comenta sobre o habito da leitura, discutindo esses pequenos vôos da realidade, esses desvios possíveis ao quais nos damos o luxo de habitar durante uma leitura de uma boa ficção.

Gostaria de que colocássemos aqui diferentes reflexões sobre esse hábito, não o da leitura, ouçam-me bem. Mas o hábito de deixar-se levar para fora da dita realidade, do mundo de nossos afazeres pleonasmicamente mundanos.

Há diversas maneiras de se sair da realidade, e pelo que aprendi até hoje, cada um dos colaboradores do blog poderia levar-nos, por algum tempo, ao seu nicho particular de viagem, a sua pequena caverna na qual ele desfruta os sabores do poder sobre as forças incontroláveis. O poder sobre as forças incontroláveis caracteriza, em alto grau, a ficção, e acho que quando dizemos que alguém de fato está a avoar-se da realidade, ao menos parcialmente implicamos que esse alguém está desafiando alguma força da natureza.

Os vôos para fora da realidade podem-se interpor através da literatura (e aqui acho que teríamos um pouco de problemas entre os membros para relatar o assunto), da poesia (onde creio que o Thor e o Nagase possam dar boa conta), da arte gráfica (e aqui, pedirei, ainda outra vez, a colaboração do Alê, do Arthur também), dos alteradores químicos de consciência (vários podem contar experiências aqui), do delírio e da loucura (Davi, nosso psicólogo poderia nos auxiliar nesse campo), e também da imersão em pequenos nichos sub-sociais e sub-lunares, nos quais há uma transformação total dos conteúdos de nossas intenções, desejos e frases, em outras coisas (O João poderia falar um pouco da nerdisse, alguém de jogos de computador, eu de Magic, vou pedir a algumas meninas que falem de astrologia como evento social), se alguém aqui é bom de sonhos lúcidos, também poderia relatá-los. Por último, estados auto-induzidos psicologicamente de desafio da realidade, que eu me empenharia em relatar (Por exemplo induzir a si mesmo uma crença estranha, induzir os próprios desejos, induzir-se ao nada, como na meditação).

Peço exceção portanto nesse post para que os comments possam ser grandes (até os convoco a serem!) e sugiro algumas formas canônicas de comentários, para evitar que se comece com “Eu acho que meditar é pior que ser nerd porque … e eu sou nerd porque bla bla bla”. Ou seja, para evitar defesas de pontos de vista e possibilitar apenas intercâmbio de mundos conhecidos:

1 Descrever a experiência como um todo, ex: “Ler histórias de detetive nos leva para …. e a sensação… com as consequências ….”

2 Descrever experiências particulares  “Numa viagem de ácido que tive as cores …. e ouvi as pedras….”

3 Uma abordagem genérica ” O homem busca o imaginário pois….  e a condição humana …. o amor então é … ”

Esse post não tem como objetivo ver quem é melhor ou pior nos seus vôos para fora da realidade (então críticas a nerdisse, astrologia, ou drogas, não são bem vindas) seu objetivo é discutir a experiência humana desse desvio do mundo real, e conhecer alguns dos mundos possíveis de se acessar, de diversas maneiras, por favor, não discutam coisas pentelhas, sejamos, a la Alberto Caeiro, “Simples e calmos, como os regatos e as árvores”.

Para garantir, COM CERTEZA que não haverá comentários que não sejam dos tipos canônicos acima nesse post (tipo “A descrição do Thor é interessante porque revela que …”) eu vou postar um outro post que chama COMENTÁRIOS SOBRE OS FLIGHTS FROM REALITY.  E alí devem residir quaisquer meta comentários ou outros que não se encaixem no pré-estabelecido.

Abraços, e não levem minhas obsessões organizadoras à mal.

Um último pedido:  Se você for escrever um coment, faça-o ANTES de ler os que já escreveram, isso evita que sua cabeça fique com uma forma prévia de quanto, como e o que escrever, e diminui a chance de vc não escrever porque já cansou de ler os dos outros.

9 opiniões sobre “Flights from Reality”

  1. Breaking the Ice

    Para quebrar o gelo, já que 4 pessoas disseram que escreveriam e imagino que estejam esperando que alguém comece, vou escrever um campo de vôo que considero interessante.

    A meditação é levada por mim de uma maneira muito diferenciada da maneira como as demais pessoas parecem vivenciá-la. Como eu tenho, por traço de personalidade, a possibilidade de tentar experienciar sem um guia, isso me permite adentrar mundos que as pessoas que procuram alguma coisa específica não podem conhecer. O que eu faço como meditação toma apenas o núcleo duro do que comumente se pensa como meditar, o mantra, e eu entôo repetidamente e conforme sinta quaisquer disposições modifico um pouco o tom…. Como aprendi originalmente o Om namo naraya naya acabei me acostumando, e me deixando levar principalmente através dele, embora por vezes modifique, consciente ou insconcientemente os sons que estou fazendo enquanto medito

    A meditação me trouxe algumas experiências interessantes e formas de voar que creio que sejam intreressantes de relatar. Uma sensação particularmente interessante e da qual me lembro bem foi a sensação de atingir o pináculo de uma montanha fosforescente escalando sem esforço algum, uma imagem muito interessante de se vivenciar. Outra experiência muito interessante é a que acontece quando me sinto entrar levemente atrasado na tocata e fuga da consciência, essa sensação traz duas percepções muito interessantes, a primeira é uma sensação de mecanização, a impressão de que somos apenas a máquina, porque não temos controle nenhum sobre os conteúdos que passam na consciência, estamos apenas alguns instantes atrasados, e percebemos a mecanicidade imensa que somos. O outro aspecto interessante, e o mais sacralizado e consagrado na tradição meditativa é a sensação de contemplação, como não estamos no controle (e de fato por vezes nos impressiona o som que estamos fazendo, ou o fato de que ainda o estamos fazendo) senti-mo-nos como contemplando uma coisa externa, estamos, por assim dizer separados da máquina.
    O vôo mais interessante para mim no entanto é o que normalmente se diz de encontrar uma conexão mais profunda com o universo (isso requer uma explicação, e evidente que pretendo dá-la). Na tradição filosófica que estudo, nós somos representação, aquilo que chamamos de indivíduo é uma coleção de representações de alguns aspectos da realidade, alguns recortes, essas representações são representações de apenas algumas particularidades da realidade, aquelas mesmas que, quando foram representadas no organismo de nossos ancestrais, permitiram que eles deixassem descendentes. Durante o processo de meditação, em alguns poucos vôos, tive a sensação nítida que essa representação, complexa, sofisticada do mundo estava parcialmente se desfazendo em seus constituintes menores, em pequenas representações que são menos sofisticadas e menos recursivas (para os amantes de Gödel) do que as representações das quais somos constituídos em geral. O que parece ocorrer é que a consciência, em geral colocada sobre grandes fluxos representacionais é posicionada apenas sobre pequenos espaços nesse grande corpo, e podemos experienciar uma representação que, por ser menos trabalhada, e menos retro-alimentada, parece ser mais similar a própria realidade. Os místicos preconceituosos dizem que estamos em um contato mais próximo com a realide, e num sentido importante, isso parece verdade, porque a decomposição da representação de fato nos aproxima, mas também há quem defenda que essa é uma conexão mais profunda com a realidade. Como viajante não consigo aceitar esse moralismo de “o meu é mais profundo que o seu” e tenho outros vôos, que ficarão em oturos comments, que também se diriam mais profundos e que vão para lados contrários. Essa sensação de desligamento parcial, e de contato mais próximo com a realidade, no entanto, eu achei que pudesse servir para quebrar o gelo…

  2. O vôo para fora da realidade como forma de extravasamento do inconsciente.

    Eu acredito no que há de mais podre no ser humano. Não que eu não valorize o belo, o correto, o justo… é só que a nossa (pelo menos a minha) já é tão cheia dessas coisas, por imposição perfeccionista minha e da sociedade, que a negação e a supressão das obsessões, dos desejos ocultos, do ódio, do egoísmo, da devassidão, e todas essas coisas reprimíveis ficam latentes, borbulhando dentro de si. E aí que entra o meu vôo para fora da realidade. Ele, na verdade, se tornou um escape para toda essa energia psíquica reprimida em mim. Tomei a decisão de que me esforçaria ao máximo para falar, ou escrever, TUDO o que me viesse à cabeça em um momento de raiva, sem inibições ou limites. Restaria apenas decidir a quem seria dirigida toda essa energia em forma de palavras (até porque não sou partidária de reações fisicamente violentas). O alvo mais tentador certamente serão as pessoas que você mais ama, porque inconscientemente se tem a esperança de que elas, piedosamente, compreenderão o seu estado psíquico e não se ofenderão com o que for dito. O grande problema é que a maioria dos nossos problemas afetivos se dá justamente com as pessoas que mais amamos. E aí cresce ainda mais a tentação: abrir as suas entranhas mais fedidas, jogar mágoas na cara, tratar de antigas e novas feridas, se posicionar de peito aberto e rosto erguido, mesmo sabendo que não é bonito, para quem você ama, mesmo que naquele momento se diga “eu queria que você morresse”. Ok, essa prática é um pouco agressiva, eu sei… mas em alguns momentos, se pode aplicar. Se não, e essa daqui é a mais fantástica, funciona muito bem escrever loucamente e absurdamente todos os pensamentos que palpitam no momento, sem restrições gramaticais, de coesão ou de vocabulário. Um genuíno brainstorm. Gosto de escrever em formato de carta, endereçada ao alvo do meu ódio ou desejo. Terminada a carta, dobro-a e guardo-a na gavetinha em que coleciono todos esses monstros das profundezas da minha alma (no início, eu mandava… confesso que em algumas vezes me arrependi: nunca se sabe como o outro irá reagir à sua loucura). Transponho do meu coração para uma gavetinha todo tipo de sentimento socialmente reprimível e todo tipo de desejo duvidoso ou conflituoso (ahhh… e aqui são tantos!). Covardia? Talvez, mas é explorando esse tipo de vôo do inconsciente que alivio grandes pesos de minhas costas sem destruir relações que construí com a mais pura dedicação e cuidado. Assim, assumo abertamente para mim mesma a gritante dicotomia existente aqui dentro, dando, simultaneamente, a devida atenção a minha natureza má e egocêntrica e aos meus pensamentos carinhosos, respeitosos e felizes (genuínos!), conciliando tudo em uma carapuça socialmente aceitável.

  3. Poderia escrever sobre um bocado de coisas, but for the sake of novelty, vou ficar com o Poder.

    Manipular os graus mais baixos de realidade, materia inerte, plantas, é um bocado satisfatório. Infelizmente a natureza não me dotou nem com as capacidades que exigem a botanica, arquitetura, engenharia, etc, nem o verdadeiro tesão por essas coisas. Meu ‘thrill” aparece mesmo em manipular e moldar seres humanos.
    Não sou um crápula ou engenheiro social, um conformador, enfim, não sigo a nenhum fim último exceto uma leve justificação de melhoramento da humanidade, completamente confirmada pelo enorme prazer que essa atuação me dá.
    Cada pessoa traz consigo uma infinidade de complexidades e elementos, um ambiente cultural introjetado do qual se partilha ou não, além de incontáveis particularidades. Conseguir transcender isso e atingir uma verdadeira comunicação, isso é realmente sair fora da realidade, oh boy, oh yeah. e transformar essa comunicação em poder, poder plástico e criador! Céus, parece que é o ápice, o destino final da humanidade que se concreta ali, e finalmente o teatrinho do universo pode acabar.
    Enfim, é um duplo prazer. Esse lado de mestre, de ensinar, guiar, ajudar, direcionar, usar…e outro da empatia, uma identificação com o “pupilo”, um acompanhar pelo mesmo caminho e (re)descobrir novamente esse caminho a partir de uma perspectiva complexa que não deixa de ser a mesma de antes.

    Tenho de admitir que no começo aceitação social pra esse gosto tão…peculiar foi um pouco complicado de se arranjar. Mas todo vampiro vai envelhecendo, apredende a escolher suas vítimas, constrói seu castelo e refugio e aprende a disfarçar sua natureza. Como disse minha colega acima, perfeitamente, “devida atenção a minha natureza má e egocêntrica e aos meus pensamentos carinhosos, respeitosos e felizes (genuínos!), conciliando tudo em uma carapuça socialmente aceitável.”

  4. An die Musik

    Poderia ser uma obviedade decepcionante falar em música como um vôo da realidade; em especial se ela for associada a escapismos.
    Mas, contrariando o que sempre julguei fácil de cair em papos comuns sobre “viagens”, a música não apareceu, propriamente dita, no post nem na página inteira.

    Não adianta falar da música pelo efeito emocional particular que ela causa em seu ouvinte e espectador. Pode até ficar uma gracinha, mas como resultado acabamos tendo palavras de cunho poético jogadas a esmo, sem organização, ou sem uma grande possibilidade de estabelecer qualquer comunicação e entendimento com seu interlocutor, como comentou acima o Thor.
    Parto do princípio de que é impossível de fato se estabelecer conexões com um sucesso absoluto por meio de palavras que descrevem sensações e sentimentos. Algo como é apresentado num fragmento de “Waking Life” que, para evitar delongas e desvirtuamentos, não desenvolverei.
    Por isso discutir música por esses caminhos não leva a nada.

    Há um momento crucial na vida do estudante de música. Esse momento em geral não é percebido pelos estudantes, acabam passando por tudo sem reflexão acerca disso. Como faço parte do mundo da música erudita, a ela me atenho. Não apenas por conhecer melhor seu meio, mas pelo motivo de que a música popular não exige certos graus de estudo. Dá pra se virar, simplesmente, e não há tradições a seguir.
    O músico erudito, por sua vez, necessita de estudos completos e intensos. Sem eles há defasagens na formação e essas defasagens o impossibilitam de exercer seu papel com primor; ou mesmo com alguma qualidade mínima e aceitável.
    O momento crucial do estudante é o momento de se propor a absorver as informações – e de fato fazê-las.
    A partir do momento em que o músico estuda os intervalos, as escalas, a linguagem da música ocidental, seu desenvolvimento desde a Idade Média até o Século XX, harmonia e teoria, toda sua percepção muda. É um momento crucial pois é o momento de abandonar todas as razões românticas que o levaram a estudar a música. A música, para os leigos, é puro sentimento. É deslumbramento, é questão de gosto. É colocar música pra conseguir dormir e relaxar, é extravasar sentimentos ao ouvir, cantar ou tocar.
    Para o músico é impossível ouvir Bach apenas sensitivamente. O músico identifica intervalos, tenta seguir as mudanças bruscas, repentinas e frenéticas da harmonia musical bachiana, ouve sensíveis e tônicas o tempo inteiro, vislumbra previsibilidades na música e até se delicia pela surpresa duma cadência de engano. O músico sabe que Bach compunha a música pela música, ele era o grande matemático, o mestre do contraponto. Por saber as intenções racionais da composição sabe que não há sentimento expresso e, por isso, não resta muito o que se sentir, romanticamente falando, sobre a peça.
    Esse é um caminho sem volta. Por mais que seja possível abstrair o conhecimento e deixar-se perder, como no processo da indução à meditação, tudo o que se sabe está lá. A música muda permanentemente quanto à sua concepção.

    (Antes de continuar, um breve esclarecimento: a expressão “leigos” sempre se refere, nesse texto, àqueles que não têm o conhecimento aprofundado técnico, prático e teórico da música.)
    Leigos apaixonados por música tendem a ter medo de nela mergulhar. Têm medo de odiá-la como reflexo do ódio pela rotina do trabalho que sempre periga ser de fato insuportável.
    Mas, na realidade, têm medo de perder essa relação romântica. Romântica mesmo, idealista, de pensar na música como algo sublime e elevado, tudo em proporções exageradas. A impressão que têm esses leigos é de que perder esse amor elevado só fará destruir o que podem sentir de belo pela arte. Nada diferente de paixões platônicas daqueles que sentem prazer em stalkear em vez de confrontar.
    É aí que entra o vôo da realidade.

    As pessoas tendem a voar de mil formas diferentes com música. Em especial com música instrumental, com algumas de Pink Floyd, canções que sugerem sensações sem as escancararem por meio de letras.
    Sinceramente não sei muito mais como descrever meus antigos vôos de pré-musicista, pois hoje em dia a música ocidental alimenta minha insônia.

    Trata-se tudo duma estranha relação de distanciamentos e aproximações e quiçá reconstruções da realidade. Talvez nem caiba muito bem na proposta feita.

    O medo que dá pros leigos, um medo que senti, é o de perder a sensibilidade. É o medo de se tornar imune a drogas, insensível à arte. Medo de ficar preso na realidade e não conseguir mais dar esses vôos.
    O músico, quando segue em frente no momento crucial, o faz exatamente por sentir um certo distanciamento da realidade. Embora dê para voar com um papel apenas passivo na música há ainda algo que o impele a chegar mais e mais perto. E quanto mais chega, quanto mais sabe e entende e domina a linguagem musical, mais se distancia da realidade.

    É um vôo, enfim, pelo prazer do conhecimento, do domínio, pelo prazer de estar tão perto dessa linguagem, por nós organizada, mas que em comparação às nossas formas comuns de comunicação é muito mais simples (e não por isso inferior). É um vôo pois é a possibilidade de fazer parte inteiramente dessa linguagem. Uma simplicidade com explicações, regras, tradições e até lugares comuns, mas que ainda assim dá mais espaço pra voar que qualquer outra coisa.

    Não é qualquer um que encontra isso no mundo (ou em gente).

  5. Bem, fui convidada a comentar este post e vou tentar me ater às regras – não li os outros comentários, e serei descritiva.

    As minhas experiências mais freqüentes de fuga da realidade inserem-se em três nichos: o mundo nerd/geek (literatura de RPG como Senhor dos Anéis, filmes como Star Wars), a literatura “de verdade” (a que os estudiosos do ramo elegem como “boa” – não vou comentar mais para não entrar em argumentos normativos) e a música. Desses três nichos, a música é a que sempre me propiciou as fugas mais profundas.

    Eu me considero uma musicófila hardcore. As fugas musicais da realidade tiveram papéis diferentes nas 3 grandes fases da minha vida:
    – infância (até os 10/11 anos): propiciar uma continuidade à alienação e ignorância inerentes ao estado pueril, nos momentos em que eu não estava brincando com os meus amigos ou vendo TV. Dois exemplos soltos: dançar Beatles (especificamente ao som da cítara de The Inner Light) na sala de casa, girando sozinha até ficar tonta. Ouvir Marisa Monte e cantar lendo a letra das músicas no encarte do CD (interface com os escapes literários – era a época em que eu estava aprendendo a ler sozinha).
    – primeira adolescência (11 a 15 anos): propiciar momentos catárticos. É a fase em que todo mundo “se descobre”, começa a lidar com seus inner demons, e eu tinha grandes crises de não-identificação com o resto do mundo. Ouvia grunge, metal e hard rock – escutar música “pesada” e até certo ponto deprimente era um meio de identificar os meus sentimentos com algo externo, e usar isso como um ponto de apoio, uma referência para que eu não tivesse que suportar sozinha o fardo de lidar comigo mesma. Ainda que eu continuasse sozinha, music was my only friend, until the end!
    – segunda adolescência e pós-adolescência (17 a 21 anos): início da minha fase atual de relacionamento com a música. Procura pelo sublime, pela perfeição técnica e artístico-sensorial. Busca de composições que tenham um mínimo de originalidade, e que ao mesmo tempo reflitam meus sentimentos no momento em que ouço. É quase a mesma função da fase anterior, só que com uma diferença importante: a referência está em mim e não externa a mim; eu antes busco o que sinto para então me confortar na música, fugir através dela, mas não me apoiar nela completamente. Ela não é a minha salvadora, minha única amiga, é minha interlocutora, a quem eu critico além de admirar. Mas busco sempre o que é digno de se admirar (no meu conceito pessoal), porque só essa música é capaz de estar entre os meus interlocutores ideais.

    Acho que é isso o que eu tenho a relatar…basicamente, a música sempre cumpriu uma função de refletir o meu mundo interior, de maneiras diferentes conforme a fase da vida. É o meu instrumento de afastamento do eu, quando quero esquecê-lo, ou de autocompreensão, quando quero entendê-lo.

  6. O que gostaria de relatar são experiências relativas à influência da mente nas sensações corporais, e à influência das sensações corporais, por sua vez, nos estados mentais.

    Eu comecei a me interessar em psicologia lendo um livro que comentava sobre abordagens diferentes de vários psicólogos. Entre essas abordagens, é relevante para esse relato a psicologia corporal, particularmente Wilhelm Reich.

    Há uns cinco anos atrás eu comecei a aplicar suas idéias de que a tensão mental, e as patologias mentais, são de alguma forma traduzidas em tensão corporal, o aspecto corporal delas mantendo o aspecto mental, e vice-versa. Então tentei relaxar totalmente os músculos corporais, com o auxílio de respiração. É um processo muito difícil e demorado, e dificilmente eu conseguiria mais que relaxar um grupo particular de músculos.

    Devo lembrar que todos adultos têm tensão muscular, decorrente de um nível mínimo de experiência psicológica, com possível exceção das crianças, e que um nível mínimo de tensão é necessário até para a postura e para manter o corpo de pé. Praticamente todas as pessoas adultas respiram de uma maneira tensa, e a tensão é a regra e não a excessão, embora ela atinja graus maiores com um maior nível de doença psicológica. A yoga tenta justamente mexer com isso e relaxar o corpo de uma maneira gradual e semelhante.

    Em uma ocasião consegui relaxar os músculos do topo da cabeça, coisa que não consegui mais repetir desde então. O que senti foi uma mudança imediata de estado mental, um aumento de tranquilidade, espontaneidade e auto-confiança. Geralmente o relaxamento muscular me trouxe sensações parecidas com essas, que foram inéditas para mim até então, e semelhantes ao efeito do álcool e da maconha, mas sem efeitos adversos como declínio de capacidade cognitiva e de controle motor.

    Em outras ocasiões consegui relaxar grupos musculares diferentes. Um dia tentei relaxar completamente os músculos faciais, levei uma hora ou algo assim até conseguir, e na hora seguinte aproveitei efeitos parecidos, principalmente um aumento de naturalidade e de criatividade, e uma sensação bastante boa.

    Com o relaxamento do tórax consegui o relaxamento da respiração, o que seria semelhante à respiração abdominal ou diafragmática, uma respiração que flui livremente e sem esforço, acompanhada de um leve prazer corporal.

    Uma vez ou outra, ainda nessa época, consegui relaxar moderadamente o corpo inteiro, de maneira a quase perder a sensação do corpo, me sentir “sem corpo”, livre e solto, o que veio acompanhado de uma sensação mental correspondente, de extrema tranquilidade e de prazer.

    Outra vez, com um relaxamento semelhante, consegui uma significante alteração de personalidade, com um aumento de criatividade, de naturalidade e de confiança, como se eu voltasse a ser um “eu” que eu havia perdido há muitos anos atrás. Como sempre, isso durou por não mais que algumas horas. Eu estava no último ano da escola, na aula de matemática, e me senti especialmente capaz de resolver problemas.

    Sabe-se que a depressão, por exemplo, diminui a habilidade matemática. Os diversos graus de patologia psicológica, maior ou menor, têm efeitos inesperados.

    Nos anos seguintes eu tentei menos esse tipo de relaxamento, até porque é extremamente trabalhoso e os resultados são de curta duração. Acho que o método proposto pelos seguidores de Wilhelm Reich é combinar o relaxamento psicológico com a terapia psicanalítica, para conseguir efeitos duradouros, isto é, tratar a origem mental das tensões para que elas não retornem em seguida. Embora eu desaprove da psicanálise como teoria, admito que ela possa trazer resultados práticos terapêuticos, mas questiono o quanto ela é eficaz comparado com outras possibilidades de terapia.

    Acho que a tensão corporal e mental varia com os costumes culturais, de cultura para cultura, e varia com o grau de doença psicológica, atingindo graus maiores com transtorno de estresse pós-traumático, fobias, inibições, etc. Também costuma ser maior em alguns grupos de pessoas, como autistas, por motivos que eu desconheço, e costuma ser menor em negros, ao que me parece, tanto em termos mentais como corporais. Eu particularmente sofro de uma tensão corporal e mental bastante grande.

    No final do ano passado, em um momento particularmente estressante da minha vida, eu tentei num dia esse tipo de relaxamento, particularmente do tórax e do quadril, e como sempre consegui um imediato aumento de espontaneidade, tranquilidade e criatividade que me impressionou bastante. No entanto, parece que nesse estado minhas defesas estão comprometidas, e estou mais aberto a frustrações.

    Quando o efeito acaba, o aumento de tensão é sentido, e acompanhado de sentimentos mentais de sofrimento. Nesse dia, algumas horas depois, eu tive um aumento de ansiedade, e sensações corporais particulares. Tive palpitações e uma onda de frio bem localizado no peito, depois tive dor no peito e tontura, e muito medo. Achei que estava tendo um problema de saúde, talvez cardíaco, e fui para a emergência do hospital. Descobri mais tarde que tive um ataque de pânico, que causa esse tipo de sensação corporal e muito medo. Nos seis meses seguintes eu lutei contra a síndrome do pânico que havia se estabelecido, pois o ataque de pânico gerou uma fobia a novos ataques, e essa fobia retro-alimentava o pânico.

    Esses foram provavelmente os piores meses da minha vida, foi um inferno em algumas ocasiões, e achei diversas vezes que iria morrer, mas aos poucos fui melhorando com o auxílio de terapia cognitivo-comportamental, que é um tipo de psicologia muito bom e relativamente científico, e que eu recomendo a todos. Faz cerca de um mês que estou melhor, e acho que superei o pânico. Tenho ainda algumas sensações de vez em quando, como dor no peito e tontura, mas quase nada.

    Durante o meu pânico pude compreender como o estado mental pode influenciar o corpo a ponto de causar esse tipo de reações somáticas extremas, levando a uma reação cerebral de “luta ou fuga” quando um certo limiar de ansiedade é alcançado, e pude ver como as sensações têm o poder de influenciar a cognição, causando padrões de pensamento automáticos sobre os quais temos pouco controle, afinal eles são nós mesmos, e nós funcionamos fisicamente e temos causa e efeito. A extensão dos esquemas cognitivos adquiridos me levam a questionar o livre-arbítrio do corpo em si, e a encarar de uma maneira nova esse problema que eu já tinha como resolvido, mas creio que o arbítrio ainda exista de alguma maneira pequena.

    Enfim, não tenho mais intenção de mexer com o relaxamento corporal por ver que ele pode ter consequencias perigosas. No entanto, me interesso em compreender o mecanismo como se dão essas interações entre o corpo e o cérebro ou o estado mental, e acho que, se bem compreendidas, podem dar origem a potenciais interessantes e possibilidades inovadoras de terapia.

    Segundo Epícuro, outros filósofos antigos, e Schopenhauer, a ataraxia, ou a ausência de preocupações e de sofrimento, é o nosso grande objetivo, fazendo o caráter da felicidade e do prazer no corpo humano se dar de uma maneira um tanto negativa, como mera ausência de sofrimento e de preocupações, apesar de poder também ser positiva.

  7. É muito estranho porque não consigo separar direito o que seria um vôo da realidade e o que seria um aterrisar da mesma. Sensitivamente tudo me parece real. Já tive muitos sonhos lúcidos, medito todos os dias, danço, pinto, leio, choro, ouço música, rio, tudo isso e mais algumas coisas indescritíveis me parecem formas de transcender a mesmice (talvez seja essa a chamada realidade).
    Mas há algo novo que descobri, algo incontrolável, e por isso talvez mais ligado ao mistério do que aquilo que fazemos por vontade ou necessidade.
    Descobri o luto.
    Chorar a morte de alguém, maravilhar-me com a vida e o percurso de quem se foi abarca tanta coisa que desconecto-me do normal. Parece que o mundo inteiro está condesado neste fato: um vai de encontro ao grande mistério, muitos ficam, com a ânsia de entender– impossível.
    Por isso digo que me é difícil separar real de irreal.
    Tenho ouvido de muitas pessoas que a morte é natural, mas o fato é que ela está exatamente na fronteira do natural, a incompreensão é inevitável.
    Como algo pode ser tão pleno de significado, e tão vazio?
    A vivência deste momento é justamente esta junção de cheio e vazio que já não se separam, de raiva e compaixão abraçadas. Uma ardência corrosiva no estômago e um calor expansivo e aconchegante no baixo ventre. A vontade de deixar ir e a tristeza de dizer adeus– e saber que é preciso chorar pra viver este momento com intensidade e leveza.
    E todos os pensamentos e emoções que sei que ainda não vieram, e a ansiedade de vivê-los logo para “resolver”a questão, e saber que isso não se resolve.
    Perder a mãe é perder a referência física daonde vim, mas é ganhar a referência mística de praonde vou.
    Alarguei as fronteiras da vida porque me vejo cercada de mistério. A vida inteira é meu vôo da realidade, e por vida quero dizer existência, o que pra mim abrange muito mais do que o período em que respiramos e temos a sensação de que as coisas são concretas.

  8. Apêndice ao “An die Musik”

    Embora tenha escrito bastante coisa, acabei não escrevendo o efeito dessa vôo. Afinal, cada um é diferente, claro.

    Postei, em meu blog, um pedaço dum trabalho pra faculdade: uma crítica contida num relatório de um concerto.
    Descreve bem a suspensão que se dá pela apreciação passiva da música, mas que decerto não seria dessa forma se eu não tivesse um papel tão ativo nela.

    http://insoniaimpessoal.blogspot.com/2008/03/impresses-ps-romnticas-de-mahler-e.html

  9. Oi oi!
    Entao, eu tive a ideia desse voo falando com o di e a iara esses dias, espero q ninguem tenha contado sobre isso ainda ^^
    Uma boa parte de nós fez teatro e pra mim o teatro era dos maiores voos.
    Voce chega la, de uma semana normal, escola amigos de todos os dias e bla bla bla, e do nada, você é uma ninfa, um burgues gordo do seculo 19 ou uma puta do seculo 15.
    No que me diz respeito, eu mergulhava de cabeça em cada um dos personagens, por mais que fosse so por uma cena, uma cena que nao ia pra peça e tudo, agora eu so um leão, entao eu vo ficar pensando como um leão, agindo como um leão e nada mais do que tava la fora importa.
    A sensaçao que me era mais forte nessa hora era a de liberdade.
    Não necessariamente liberdade absoluta, mas liberdade relativa, eu me colocava com as amarras do meu personagem, entao nenhuma das da minha vida, aquelas que ja tavam me enchendo o saco existia mais.
    Algumas vezes eu tinha personagens que em alguns aspectos eram parecidos comigo, passando eles pro teatro acontecia na verdade uma coisa muito estranha, eu ficava muito sensivel e costumava acabar a cena chorando. Era estranhamente intenso pros meus padrões… e apesar de nao ser suuuuper agradavel, eu gostava…. Parecia me dar uma perspectiva de fora da minha vida, sabe?colocando tanta dramatizaçao nas coisas, eu via no grande o que na vida existe so no pequeno (n sei se deu pra entender…)
    Tem outra coisa que eu queria relatar q é a falta de normalidade nas nossas sensaçoes….
    uma vez, uma personagem minha era espancada ate morrer, e o cara que me espancava costumava perder um pouco a mao e me bater de verdade, so que eu nunca senti dor fazendo as cenas, apesar de eu no geral acabadar os ensaios com uns hematomas de outro mundo. Doia no final, eram batidas que normalmente teriam me feito parar o que quer que fosse que eu tivesse fazendo pra sentir a dor, mas nunca me passo pela cabeça interromper a cena por culpa delas…

    Eh isso, esse eh meu vôo
    espero que minhas incapacidades de redaçao nao atrapalhem muito
    beijos

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