I

Que as nações tenham de passar por algum tipo de conflito para se formarem como tal não é nem um tributo aos freqüentes banhos de sangue que antecedem proclamações de “países” nem a tentativa de criação de uma “lei histórica”. Será uma lei só se vista através do conceito preciso de nação moderna, quer dizer, para se juntar ao grupo de nações modernas um território precisa passar por um conflito profundo, uma “tragédia sísmica” que o insula e recorta, ao menos nos corações e mentes.

Que as nações tenham se formado em períodos tão diferentes prova que não falamos de uma exigência natural da dinâmica política que se formem estados modernos. Na verdade a tendência é contrária e as forças internas e conservadoras de um território tendem a protelar ao máximo esse processo. O processo também não surge por uma demanda popular ou algum tipo de necessidade interna, mas é o resultado da subserviência de um território atrasado e a reação que se segue. Afinal se Brasil ou Índia se formaram como nações não foi por um ato real de unificação ou por algum resultado de suas dinâmicas internas consideradas por si mesmas, mas se deram em reação a poderes exteriores imperialistas; reação contra a espoliação. É nessa tendência mais ou menos universal que podemos achar uma justificação da tendência mais ou menos universal da exigência de um conflito profundo, de uma revolução, guerra civil para que se constitua uma nação.

A evidência empírica é enorme. Espanha, França, Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália. Américas inteiras – Brasil, América Espanhola e Estados Unidos. Japão, China, Vietnã, Índia. Como exceções notáveis temos por exemplo Austrália e Nova Zelândia, talvez Canadá. Não falamos portanto de nenhum tipo de Lei histórica necessária. Mas é inegável que na grande maioria dos casos um país só é um país após um ou vários tremores em seu âmago.

II

Nota-se rapidamente que fica difícil falar na invenção de um país através de um só ato – tanto um ato “cênico” quanto um ato efetivo. Não é uma batalha ou a assinatura de uma constituição que vão moldar uma nação. O caso dos Estados Unidos salta a vista. Se falamos desse abalo sísmico, onde encontramos em sua história? Seria na guerra de independência, que uniu diversos territórios, etnias, religiões em torno de alguns valores comuns; ou a guerra civil, um espasmo da diferença de territórios antes unidos só por um inimigo comum? Aqui o terreno é mais nebuloso, e teremos de nos expressar beirando a sofística. De certa maneira uma guerra foi a conseqüência latente da outra; uma certa consumação tardia. Mas também foi resultado de um processo de adaptação e homogeneização que não durou somente durante o período oficial de guerra, mas se manifestou nessas como massas de terras sub-oceânicas que aqui e ali, em suas maiores elevações formam montanhas, ou vistas de cima, ilhas.

Portanto em primeiro lugar, reserva e sofisticação no uso desse conceito de “conflito formador”, atenção para seus limites e a atenção da relação de seus elementos com as particularidades próprias de seus territórios. E as conseqüências particulares também…

III

Essa discussão no entanto não é importante pela precisão histórica que ela pode dar ou então pelas simplificações colegiais em que pode incorrer, mas pelas conseqüências políticas e sociais que ela nos ajuda a entender.

O caso do Brasil é emblemático. O país se inventou diversas vezes: Descoberta e formação de instituições coloniais, vinda da família real e transferência da corte, independência formal, inúmeras supressões de revoltas com convulsões internas e guerra do Paraguai, e finalmente o nacional desenvolvimentismo de Getúlio. Cada uma dessas etapas deixou marcas profundas no tecido social, incluindo o fato curioso de o Brasil, país de etnias, religiões e regiões muito diversas ter pouquíssimos conflitos regionais ou separatistas (e não por um pacto federativo bem acabado, pelo contrário,há e houve um centralismo grande de fato). Mas o mais marcante de cada etapa é o fato de que nenhuma delas é uma mudança que vai além do necessário para manter a maior parte da estrutura anterior. A independência só tirou Portugal da posição de intermediário no comercio com a Inglaterra, o Brasil continuou na mesma posição de antes no contexto do comércio mundial e estrutura produtiva. O Getúlio das leis trabalhistas era o mesmo que dizia ser o melhor amigo da Burguesia brasileira, e não seu inimigo. A famosa frase de Leopardi, “tudo tem de mudar para que tudo continue igual”, essa sim tem na terrinha o privilégio de lei histórica. Poderíamos traçar as origens dessa tendência à acomodação em diversos fatores culturais, vindos da tradição ibérica, da ausência de movimento de independência por motivos contingentes, do patriarcalismo das relações sociais , e alguns outros elementos. Mas esse trabalho escapa a nosso escopo aqui. Queremos agora ver as conseqüências desse “comodismo” brasileiro e a estranha unidade aparente do Brasil apesar de seu âmago restar intocado.

IV

O Brasil é um país desprovido daquele espaço ideal do público: res publica. Não há disposição de se sacrificar o pessoal pelo público. Os EUA, país do capitalismo e individualismo por excelência tem sim o seu espaço público, uma convenção de valores e um ideal de nação que permeia toda consciência da nação. Ali não é incomum que se doe dinheiro a universidade que se estudou, que milionários se dediquem a filantropia e criem verdadeiras instituições de pesquisa, artes, desenvolvimento ou cultura. Como em todo lugar há uma boa dose de hipocrisia e a falência desses valores por ali é um processo mais recente, mas ainda assim é um lugar de onde uma figura marginal como Noam Chomsky pode falar de seu país como “greatest country in the world”- O melhor do mundo! Uma coesão social curiosa dadas as diferenças gritantes nas opiniões de Chomsky e a da América média.

Sobre a Europa em geral então a expressão desse ideal é mais gritante e menos necessária. Representações físicas desse ideal, parques, escolas e sistemas em geral, de transporte, educação e todo o mais mostram o grau de sacrifício que o individuo está disposto a se sujeitar pelo público (através de impostos bastante altos as vezes. Imagine dedicar 70% do seu salário ao governo – escandaloso e sueco).

V

Essa inexistência de espaço público é efeito direto da falta de uma força unificadora, um princípio harmonizador que é raramente encontrado em tempos de paz, fora de forças armadas ou guerreiras ou subversivas. São nos camisas negras, nos portadores do livro vermelho ou nos puritanos calvinistas; em toda sorte de iludido idealista (que oxímoro) que se encontra a força e impulso que constituem uma nação. O apagamento temporário das individualidades, das diferenças em vista de algo maior é o que dá origem a uma verdadeira nação, e não uma coleção de indivíduos que acha coletivamente proveitoso subsumir-se legalmente a uma categoria arbitrária de país para ganhar reconhecimento internacional. Os poucos intelectuais que ousavam demandar uma Europa unida eram uma minoria antes que duas grande guerras fizessem ocorrer ao Europeu médio que talvez a etnia e religião do seu vizinho fosse menos importante do que ter um governo central e democrático (enquanto o tal vizinho for um europeu também. Nenhum respeito ao marroquino sujo…).

Nem à direita nem à esquerda o Brasil teve algo ligeiramente apelidável de revolução. Acomodações e cessões esterilizavam qualquer processo e esvaziavam seu significado. O general Golbery entendeu bem as regras do jogo e foi um dos principais catalisadores da criação do Partido dos Trabalhadores, em plena ditadura. Comandou a transição pacífica, conseguiu trancar segredos e fazer com que a transição se desse calmamente, com interesses aqui e ali assegurados. À hora da constituinte, mesmo com o dorso moral que certos deputados lhe conferiam, seu alcance não poderia ser mais do que limitado.

VI

Felizmente as linhas de tensão da história não são uniformes, não há leis históricas ou etapas determinadas. Enquanto o Brasil em muitos sentidos ainda é uma ficção romântica, ele tem forças descomunais e particulares que poderiam no futuro servir de tijolos à construção de um ideal verdadeiro (ou seja, com conseqüências efetivas). Seu apreço pela diversidade (e não uma simples tolerância como na tradição protestante), sua capacidade de juntar sem prejudicar as partes é especial por si, e mais ainda considerando o déficit global desse tipo de atitude. E parece ser o absoluto melhor material para se constituir uma nação, não só mais um entre outros. Arriscaríamos mesmo a dizer que até agora o Brasil se deu ao luxo de se formar tão pouco como nação pela sua potência exagerada pra tal, por um gasto mínimo energia, onde tão pouco impulso constituinte produz uma coesão tão surpreendente? Por enquanto ainda um gigante adormecido, um urso em hibernação. Mas só ursos, não ratos, podem hibernar, e seu despertar é sempre poderoso,

5 opiniões sobre “”

  1. Algumas considerações, analíticas e evolutivas, e algumas considerações politicas e eticas.

    A guerra cria nações porque somos projetados para pensar as coisas intensionalmente. Quando conseguimos “ver” uma entidade? Quando conseguimos ver intenção nessa entidade. E não há melhor jeito de fixarmos a atenção numa entidade abstrata do que quando alguém diz “Ela quer nos matar”. Essa frase precisa de um nós para ocorrer, e dessa necessidade psico-evo-linguística, emerge a possibilidade, cognitiva, emocional e política, de uma nação. Daí que até hoje locais como Brasil e china não funcionem como nação (uma exceção interessante é a china, que como algumas nações antes de si, regulou-se pela teologia para criar sua nação unificada Mao, o “último filho do sol” retira seus poderes de cima, e não de fora, como é a praxe no mundo desmistificado do sec 20)

    Dizer que a tendencia é contrária ao surgimento de nações é verdade num sentido e falso em outro. É verdade que é contra nossa natureza psicológica a união em grupos muito maiores do que 500 para qualquer coisa que seja. É no entanto uma tendência do desenvolvimento social o surgimento de instituições que englobem massas. ver “Can Cultural Group Behavior Evolve by Group Selection?”

    “O Brasil é um país desprovido daquele espaço ideal do público: res publica. Não há disposição de se sacrificar o pessoal pelo público”

    Eu diria que isso é um traço do Brasil que, economicamente, nos atrasa bastante (através do não pagamento de impostos etc..) no entanto, considero essa característica uma das principais bases de duas coisas que são consideradas internacionalmente marcas do brasil, e muito boas. O ritmo brasileiro, no sentido da sazonalidade, sexualidade, musicalidade nível de atividade do brasileiro. E por outro lado, e mais importantemente, a felicidade. O fato de que não produzimos tecnologia, nem nos subjugamos a trabalhos obsessivos (como na china, korea, Japão e Taiwan) nos permite uma vida mais feliz do que a que teríamos, se fossemos capazes (se nos achássemos capazes) de exequir tais trabalhos….

    Oxalá, quando foi criar o mundo, peste como ele só, negou-se a fazer oferendas a Exu, e foi punido com a sede, bebeu de uma árvore embriagante, e fez um trabalho mais ou menos, produzindo algumas pessoas certo, outras errado.

    Essa cosmogonia abrasileirada mostra bem a forma de pensar do Brasil, imagine se um alemão aceitaria ter sido criado por um Deus bêbado? desleixado?
    Nós no entanto vivemos confortavelmente à sombra com aguardente fresca, e isso nos separa fortemente dos alemães e dos chineses, e nos impede de tornarmos sóbrios.

    O Brasil não está hibernando, está apenas muito bêbado pra trabalhar, e agora ele precisa dormir, porque amanhã tem mais samba, e oxalá que continue assim, devagar e sempre, como se bem sabe que deve ser, para a boa governança dos intestinos

  2. Ótimo post, Diego…😀
    Concordo plenamente sobre o Brasil…
    Serão essas características devidas a causas culturais ou étnicas? É difícil separar uma da outra, já que a cultura é herdada paralelamente aos genes nas diferentes etnias… se vc olhar para os descendentes alemães ainda verá um pouco da Alemanha, e assim por diante.
    Haverá alguma relação de dependência entre as características que prezamos no Brasil e o nível de inteligência?

  3. Hehe, bom comentário mesmo Diego.

    Só acho que essas definições de contraposição pra se criar uma nação não é o requerimento específico de uma nação mas de qualquer individuo em geral, uma proposição meio lógica.
    Discordo completamente que a China não funcione como nação. Céus como eles são uma nação. Penso em poucos lugares mais nação do que lá. O custo, sem dúvida alto, mas eles sem dúvida tem um espaço público. Mas interessante a análise do fora e o de cima. Mas acho que a diferença é mais tenue: todo inimigo é meio idealizado.

    E a teodicéia brasileira ainda é mais sensata que a germânica: Que Deus todo poderoso crie o melhor dos mundos possiveis por amor e ele seja isso! Só um povo bebado pra tolerar um Deus sóbrio desses.

    Não acho que produzir tecnologia gere um povo mais infeliz. Claro que o modo de produção e desenvolvimento oriental é uma coisa nojenta, e preferia quando o ocidente os escravizava ao invés deles mesmos. Acho que a Califórnia exemplifica uma influencia mais benéfica, e um aspecto mais agradável. O Brasil é o lugar onde existem mais hackers do mundo também. Uma abordagem interessante e pouco oriental

  4. Acho que faltam dados sobre a china. Acho que a china urbana é uma nação, sob a égide do Deus sol Mao. A china rural é muito desconhecida (mesmo sendo 2 vezes maior que o brasil) e não tenho muita opinião sobre ela.

    Num dos últimos TED Talks, tem um cara que faz o Ted wish dele, um fotógrafo que fotografa imensidões industriais, é interessante, e me deu uma repulsa extrema pela forma de tecnização deles, e vontade de gritar “Brasil mostra sua cara” e lembrar o quanto o malandro é bem melhor que o chines obreiro .

  5. Bom, existe melhor e melhor… para algumas coisas e outras… tem horas que vc quer ser sério e ter inteligência e tecnologia, e nisso o jeito brasileiro me parece ineficiente. Os asiáticos não foram escravizados, até onde eu sei. O fato do Japão não ter uma grande proporção da população vivendo em condições precárias e sem saneamento básico como o Brasil é um outro lado da moeda do seu jeito de ser, sem falar em outros problemas brasileiros intimamente ligados ao nosso jeito.

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