Principio Antrópico e Determinismo

Olá, gostaria mais uma vez de trazer outro tópico de discussão de fora do blog para o blog: A distinção entre o principio antrópico forte e fraco é necessária?

Eu defendo que não, pois nós podemos enunciar um único principio antrópico como aquilo que diz que nossas teorias sobre o universo devem dar conta de explicar o dado empírico facilmente acessível para nós, nós. Eu defendo que a distinção entre fraco e forte: “o fraco diz apenas que, se estamos aqui, é claro que o Universo, o sistema solar e a Terra são o tipo de lugar que propicia estarmos aqui, seja o que for necessário pra isso. O forte diz que, se estamos aqui, então o Universo e tudo o mais DEVEM ser o tipo de lugar que propicia estarmos aqui, como se fosse impossível ter sido de outro modo” (Paralelo) é apenas uma discussão sobre o determinismo estrito e não estrito e, portanto só mistura discussões que deveriam ser mantidas separadas. O Paralelo defende que a distinção não tem a ver com determinismo e sim com contingência e necessidade. Eu argumento que contingência e necessidade é outra maneira de enunciar se algo é estritamente determinado ou não. Por exemplo, num terreno mais exato onde as coisas são mais determinadas como a física do modelo padrão nós podemos dizer que leis como a da mecânica quântica e da relatividade tem que prever um universo que se desenvolva a tal ponto que existam seres humanos. Na biologia as leis da evolução não precisam determinar necessariamente no sentido estrito que ocorram seres humanos, mas sim que isso seja uma possibilidade provável dado o surgimento de unidades replicadoras (de vida). Na verdade então a discussão se torna sobre o quanto sabemos ou não das condições iniciais e das leis e como elas são mais ou menos estritamente determinadas. Ou se aceita como auto-evidente que o enunciado de que necessidade e contingência não tem nada a ver com determinismo é falso ou essa discussão só terá valor se movermos o campo dela para discutir outros tópicos imanentes a ela.

12 opiniões sobre “Principio Antrópico e Determinismo”

  1. Primeiro, meu argumento puro.

    Há dois tipos de “princípio antrópico”, o forte (que é ridículo), e o fraco (que é verdade, e é interessante).

    O PA forte afirma que, como estamos aqui, o Universo, as leis da física, a Terra devem ser o tipo de lugar capaz de causar nossa existência.

    O PA fraco afirma que, como estamos aqui, o Universo, as leis da física e a Terra são o tipo de lugar capaz de causar nossa existência – mas poderiam não ter sido e, neste caso, não estaríamos aqui.

    O PA forte deriva, de nossa existência, a necessidade de o Universo ser como é, de que não poderia ter sido de outra forma.

    O PA fraco deriva, de nossa existência, apenas que o Universo é, de forma contingente, o tipo de Universo capaz de nos produzir – já que estamos aqui, é claro que ele é assim. Isso evita, sobretudo, que achemos coincidência fatos como “de tantos lugares, a vida surgiu logo na Terra?” ou “não é estranha a sintonia fina das leis do Universo?”.

    O João, sei lá por que diabos, quer negar a importância desta distinção, unindo as duas definições deste modo:

    “[PA é] aquilo que diz que nossas teorias sobre o universo devem dar conta de explicar o dado empírico facilmente acessível para nós, nós”

    Mas fica faltando algo! Fica faltando o tipo de explicação que se está pedindo na definição acima.

    E, dependendo de como ele responder, caíra no PA forte ou fraco. O que falta é:

    Nossas teorias devem dar conta de explicar o porquê de nós estarmos aqui (o que pode ser contingente), ou o porquê de nós devermos estar aqui (o que seria uma necessidade)?

    Aí, também por razões que me fogem, o João diz que minha distinção não se trata de “PA forte ou fraco”, mas apenas de determinismo ou indeterminismo! E eu afirmo que não tem nada a ver!

    Estou usando os termos “necessidade” e “contingência” num contexto que independe de o mundo ser determinista ou não. Um exemplo da matemática, que usei com ele:

    Suponha que, em vez de humanos, somos uma população de círculos… Descobrimos que o valor de Pi (3,1415), em nós, não é uma contingência, mas uma necessidade: é impossível que, sendo círculos, nosso Pi fosse outro.

    Mas e se fôssemos triângulos? Aí depende.

    Suponha que todos os triângulos de nossa população tivessem, por exemplo, os ângulos internos específicos de 66°, 82° e 32°.

    Por que tais valores específicos? Será uma necessidade?

    Os triângulos de temperamento “PA forte” diriam que sim, e estariam errados… Os valores específicos são contingentes, no sentido de que não é impossível existirem triângulos com outros valores específicos (embora todos somem 180° e isto seja uma necessidade).

    Então, para nós triângulos, o “PA fraco” seria ideal… Se temos ângulos de 66°, 82° e 32°, então o nosso Universo é (embora não deva ser) o tipo de Universo que gera triângulos como nós, com tais ângulos específicos…

    Se o Universo não fosse assim, nós não estaríamos aqui – e sim, talvez, outros triângulos, de ângulos 50°, 50° e 80°, por exemplo.

    Tanto faz se o Universo é determinista ou não, falo de necessidade num sentido lógico, e não de “causalmente tinha que acontecer, por que o Big Bang se deu de forma X e – quer saber? – até o modo como o Big Bang se deu era causalmente necessário!”…

    Tenho dito.

  2. Paralelo,
    Se x é estritamente determinado por y, x segue necessariamente de y. Se y determina x apenas probabilisticamente ou em algum outro sentido mais fraco, x segue de y como elemento contingente. No caso contingente temos o determinismo “normal” que é o da física do modelo padrão, só que na física a probabilidade é tão alta de algo acontecer que se tem a tendencia de acreditar que estamos falando de determinismo estrito no sentido de necessidade dedutiva. Isso não é verdade, é uma necessidade que vem de argumentos indutivos mas que é realmente um argumento de força grande a ponto de supormos necessidade (segundo o Wesley C. Salmon essa é a forma geral da indução afinal! supor fato necessário o que é probabilístico). Na biologia por exemplo, também temos determinismo, mas num sentido mais fraco ainda. Na física clássica tinha-se o determinismo estrito, que foi completamente abandonado. Acho que a argumentação sobre PA fraco e forte tem muito a ganhar se percebemos que ela é na verdade uma discussão sobre determinismo e que o homem ai é um elemento desnecessário da discussão. Depois de estalecido o ponto sobre o determinismo, podemos discutir PA, mas ai de uma forma muito mais clara e evidente.

  3. Existe mais de uma definição de princípio antrópico forte e fraco:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Anthropic_principle

    http://translate.google.com/translate_t

    O “deve ser” do princípio forte só aparece na definição de alguns. De qualquer forma, me parece que a afirmação que diz que “o universo deve possibilitar a vida” está incorreta, assim como a afirmação “observadores são necessários para que o universo exista” (forma de idealismo de consciência).

    Há uma idéia antrópica de que parâmetros fundamentais para as constantes físicas são selecionadas a partir de uma multitude de possibilidades diferentes (e talvez, cada uma existindo num universo ou em outro – isso não explica, no entanto, causalmente por que cada uma aconteceu desse jeito a partir de condições iguais, se as condições iniciais para todos os multiversos forem iguais, ou ainda, se os multiversos partiram da idéia quântica, como universos com parâmetros diferentes emergiriam causalmente de um universo com parâmetros X? (parâmetros não sendo indeterminados como os quantum)). Talvez o universo seja o que é sem possibilidade de ser qualquer outra coisa (o que Einstein propôs).

    Algumas variantes de princípio antrópico que encontrei na Wikipedia em “universe fine-tunning”:

    1. O universo absurdo – Ele simplesmente é assim.
    2. O universo único – Há uma profunda unidade fundamental na física que necessita que o universo seja assim. Alguma “teoria de tudo” explicará porque as várias características do universo precisam ter exatamente os valores que nós vemos.
    3. O multiverso – Existem múltiplos universos que têm todas as combinações possíveis de características, e nós naturalmente nos encontramos dentro de um que suporta nossa existência.
    4. Design inteligente – Um criador inteligente projetou o universo especificamente para suportar complexidade e a emergência de vida inteligente. (Impossível, hehe)
    5. O princípio da vida – Há um princípio básico que limita o universo a evoluir em direção à vida e à mente.
    6. O universo auto-explicativo – Uma explicação fechada ou círculo causal: “talvez somente universos com capacidade para consciência podem existir”. (Idealismo de consciência? No entanto parece óbvio que somente universos com consciência podem ser experienciados, e portanto ser vistos por alguém e existir na sua percepção.)
    7. O universo falso – Nós estamos vivendo numa simulação de realidade virtual.

    Poderíamos fazer uma discussão aqui no Brainstormers sobre idealismo vs. realismo em filosofia da mente, acho que o Diego tem uns bons pensamentos a respeito e eu também tenho.

  4. Jonatas,
    Sobre a discussão entre realismo e idealismo acho que a questão é se existe alguem que defenderia o idealismo. Outro problema também é o “na filosofia da mente” o que já me tira da discussão.

    Fazer considerações filosóficas que impliquem coisas fora do modelo padrão (i.e.: multiversos, teoria dos muitos mundos) é muito perigoso e algo que deve ser feito com muito cuidado e muito conhecimento de causa. Existem fortes argumentos em favor do modelo padrão – por isso ele é o padrão – e um dos que me vem a mente no momento é o fato de os outros modelos darem conta de basicamente os mesmos dados empíricos que o modelo padrão da apenas acrescentando uma sujeira filosófica de baixo grau de falsiabilidade. Considero isso um erro, assim como muita gente. É obvio que o modelo padrão tem problemas mas eles vão sendo resolvidos aos poucos e aos poucos o modelo vai se modificando, mas como nem eu, nem a maioria dos filósofos, é físico teórico também (só conheço o Penrose que é alem disso matemático!), é necessário aceitar o modelo padrão como o ponto de referencial já que não temos gabarito verificar se de fato os outros modelos são válidos (mesmo se tivéssemos isso poderia levar uma vida). Sendo assim, fiquemos com o modelo padrão que aponta para um determinismo não radical.

    Um fato que sempre me causou espanto no PA é como ele insere o homem – ou o sujeito – nas ciências naturais. Para mim, que tem como projeto a unificação do conhecimento, isso é bem animador. Mas acho que a física para por ai no que se refere ao homem, ela não quer prever fenômenos sociais, por exemplo. Como o Jonatas observou, ela preveria em tese, mas isso não é suficiente dado a finita capacidade computacional.

  5. Falei errado, o que poderíamos discutir é a possibilidade de estarmos vivendo numa simulação de realidade virtual… versus no mundo de verdade. Talvez ninguém defenda isso, mas seria interessante desprovar a possibilidade da realidade virtual? Enfim, se não houver interesse deixa pra lá.

    Também não aceito a explicação de múltiplos universos, embora acho que teria quem a defendesse aqui.

  6. Jonatas, concordo que há chance boa de estarmos numa realidade virtual. Há um que fala em até 25% de chance. E pode ser. Só não concordo que, por isso, nosso mundo seja “falso”… É perfeitamente verdadeiro, é exatamente o que é.

    João, continuo não vendo a pertinência do argumento. Não consigo ver como a questão de se o PA fala em “necessidade de as coisas serem assim” ou se fala apenas em “se estamos aqui, não é coincidência que as coisas sejam assim”… bem, não consigo ver como isso tem a ver com a questão do determinismo…

    Estamos aqui, ponto.

    Por que o Universo é capaz de nos gerar?

    Porque, se estamos aqui, esta é a única maneira de as coisas serem?

    Ou porque, se estamos aqui, esta é a maneira como as coisas por acaso são?

    Agora, afirme ou negue o determinismo diante destas perguntas, e o que muda? A meu ver, nada.

    Se o mundo é determinista, ainda resta a mesmíssima questão de por que estamos aqui – por que a ordem determinista levou justamente a nós? (e a resposta pode ser o PA forte ou fraco)

    Se não é determinista, idem.

  7. Paralelo,
    Dependendo do quanto deterministas fomos podemos aceitar a PA forte ou a PA fraca. Só se formos absolutamente deterministas para aceitar a forte, nos moldes como você a definiu, ou seja só se rejeitarmos o atual modelo padrão da física. Eu não disse que a questão da PA se esvazia frente a questão do determinismo, eu disse que a questão da distinção entre PA forte e fraca, nos moldes como você a colocou, se esvazia frente a discussão sobre determinismo, e o que o modelo padrão tem a nos dizer é que a natureza parece não operar sob as leis do determinismo estrito e portanto a PA forte não vale se ela for definida como você colocou.

  8. Fazia algum tempo que um comment do Jonatas não me encorajava. Gostei muito desse, e convido a todos a relê-lo com cautela e perceber o quanto o que ele diz é importante, e a atitude de procura por trás dele merece ser enaltecida.

    Considerações minhas.

    1 Quando falamos de hipóteses contra-factuais podemos falar delas em vários níveis. Podemos falar de histórias contrafactuais, nas quais valem as mesmas leis mas mudamos alguma particularidade num passado T0 e falamos sobre T+Dx que é agora nesse outro mundo. “E se não existissem humanos na terra” é um exemplo.
    Podemos falar de universos regidos por leis contrafactuais ” E se o universo fosse regido somente pelas leis de Newton, e portanto deterministico?”

    2 O princípio antrópico na biologia (que constata que vivemos em terra firme e não em corais, no núcleo da terra ou em termas sulfurosas) diz respeito a mundos possíveis (A proposição é “Para todo e qualquer mundo possível, a vida de seres como nós só é possível em terra firme”)
    O princípio antrópico fraco na física também diz respeito a mundos possíveis (A proposição “A vida só é possível em universos com as qualidades tais e tais, o que explica, parcialmente que as condições que encontramos são tais e tais, e não outras”)
    Assim como o forte (Proposição ” Para todo e qualquer mundo possível, haverá vida humana nele”)
    Notem que no caso de aceitar o forte, não podemos imaginar outros mundos possíveis exceto os contrafactuais (seguem as mesmas leis da física)
    O antropico forte fundamentalmente postula que não existem universos possíveis contra-físicos, apenas contra-factuais. (Existem no sentido de possíveis, não de subsistência)

    3 Dizer de algo que “pode ser”, e de algo que “não pode ser” é valido somente se existe alguma restrição ao que pode ou não pode ser. Como o conceito de mundos possíveis restringe seus dizeres do que pode ser bem pouco, é difícil sustentar, na minha opinião, uma defesa do PA forte, porque ele defende a inexistência de um espectro de possibilidades, sem dizer nada sobre porque elas devem ser barradas.

    Diego Caleiro (notem que estou mudando a tática para escrever menos e tornar a discussão mais clara ao invés de provar meu ponto. Façam o mesmo e seus neurônios futuros agradecerão)

  9. Não um comentário, um mero parênteses:
    (
    Acho que eu deveria me delongar mais na escrita, e o seu estilo antigo estava bom, Diego. Não seria bom vc cortar nas explicações em favor de escrever menos. Escrever de uma maneira clara e simples é bom, no entanto escrever de maneira curta pode ser melhor somente quando o leitor é o próprio autor. As explicações adicionam clareza quando ela é necessária a outros leitores (sempre).
    )

  10. (
    É importante ter um estilo sintético, principalmente na filosofia que seja la qual for a tradição sempre guarda uma pretensão à totalidade do conhecimento. Atingir esse todo depende da habilidade de sintetizar muitos enunciados em cada vez menos. Isso faz, num certo sentido, o texto ficar claro. Num sentido subjetivo, faz ele ficar de difícil leitura. Mas como a exposição de um assunto tem um caráter educativo, acho que ela tem de ser difícil mesmo nesse sentido, para obrigar o leitor a pensar e se acostumar com os termos e os encadeamentos próprios ao tema.
    )
    O encaminhamento que o Diego deu foi, para mim, novo. Aguardem um futuro comentário meu, que provavelmente irá passar por uma critica a como ele usa a hipótese dos muitos mundos.

  11. Lanço a seguinte questão, para que alguma outra pessoa, que provavelmente será o Rend ou o João, fazer um post a respeito:

    Quando falamos em mundos possíveis, o que definimos como possíveis é simplesmente o que nós, cabeças humanas, achamos que é possível? ou é algum princípio de outra natureza, anterior ao homem?

    Afinal, são mesmo possíveis esses mundos? E digo mais, Existem mundos impossíveis? E mundos impossíveis que são logicamente possíveis (não violam não contradição)?

  12. O Princípio Destrópico
    Por: Jocax

    Resumo: O “Princípio Destrópico” é um argumento que estabelece que todo universo é equiprovável, e a possibilidade de vida não é uma característica mais especial que outra qualquer. Isso vai de encontro ao “princípio antrópico” quando este é utilizado para argumentar que existe a necessidade de uma divindade, ou de múltiplos universos, para explicar a configuração de nosso universo, em particular, a de poder abrigar vida.

    Vou colocar uma nova refutação ao “princípio antrópico” quando este é utilizado como argumento da necessidade de uma deidade, ou de múltiplos universos, para explicar a vida em nosso universo. O argumento que irei elaborar eu já havia esboçado no meu artigo anterior sobre o tema: “O Principio Antrópico e o Nada-Jocaxiano” [1], mas agora irei aprofundar um pouco mais em sua análise.

    O argumento não é muito intuitivo, e por isso lançaremos mão de uma analogia para entendermos a idéia que está por trás. Antes, porém, vou resumir o que é o principio antrópico, e como ele é utilizado pelos criacionistas, e religiosos em geral, para justificar Deus:

    Introdução

    As leis da física, geralmente escritas em forma de equações matemáticas, são consideradas as responsáveis pelas características do universo e sua evolução no tempo. Estas leis, como nós as conhecemos hoje, são compostas por equações em que aparecem algumas constantes numéricas (parâmetros). Como exemplo, podemos citar, entre outras: a velocidade da luz, a massa do elétron, a carga elétrica do próton etc. [2].

    Argumenta-se, – sem demonstração -, que uma pequena alteração (também não se esclarece qual a magnitude desta alteração) em alguma destas constantes inviabilizaria a possibilidade de vida no universo. Os que argumentam isso também concluem que um universo criado com constantes físicas geradas ao acaso, dificilmente poderia proporcionar vida.

    Colher de chá

    A bem da verdade, precisamos observar que um universo com leis aleatórias não precisariam seguir o padrão de leis físicas que temos em nosso universo, isto é, as equações matemáticas que definiriam um universo gerado aleatoriamente, poderiam ser totalmente distintas das que temos no nosso universo atual (em princípio tais universos nem precisariam ser descritos por equações matemáticas), de modo que os parâmetros que temos hoje não se aplicariam em nenhuma das equações deste universo aleatório. Dessa forma, é totalmente FALSO alegar que todos os universos possíveis podem ser descritos mantendo as mesmas equações do nosso universo particular, e variando apenas as constantes que nele aparecem.

    Entretanto, para podermos refutar o “princípio antrópico”, em sua própria base de sustentação, iremos aqui considerar como verdade que todos os universos possíveis mantenham a mesma estrutura de equações de nosso universo. Também iremos supor que estas equações sejam verdadeiras, mas sabendo de antemão que isso não é verdade, uma vez que há incompatibilidade teórica entre a teoria da relatividade e a mecânica quântica. Além disso, também suporemos que seja verdade, embora ninguém ainda tenha demonstrado, que qualquer alteração de uma das constantes fundamentais inviabilize a possibilidade de vida.

    Uma analogia

    Para entendermos a idéia do “Princípio Destrópico”, faremos uma analogia das equações que regem os vários universos possíveis, com os números reais. Vamos supor que cada um dos universos possíveis possa ser representado, por um número real entre zero e dez. Podemos justificar isso se pensarmos que podemos concatenar todas as constantes fundamentais num único parâmetro numérico.

    Nessa nossa analogia, o parâmetro “4,22341”, por exemplo, representaria um universo U1, que por sua vez seria diferente de um universo U2, representado pelo parâmetro “6,123333…”, e assim por diante. Assim, cada um desses parâmetros numéricos definiria completamente as características do universo por ele representado.

    Vamos supor que exista uma máquina que gere, aleatoriamente, números reais entre zero e dez. Cada número gerado seria o parâmetro que definiria um universo. Podemos perceber que é ínfima, praticamente nula, a possibilidade de prevermos qual número a máquina irá gerar. Entretanto, certamente a máquina irá gerar um número.

    Suponha que nosso universo seja representado por U1 (“4,22341”). Podemos então perguntar: qual a probabilidade de que o número do nosso universo seja escolhido, sendo que há uma infinidade de outros possíveis? Há infinitos números reais entre zero e dez, assim é praticamente impossível prever que o número “4,22341”, que é o parâmetro que define as características de nosso universo, seja escolhido.

    Assim, quando a máquina gerar um número, representando um parâmetro do universo, a resposta à pergunta: “Quão provável seria a geração de um universo como o nosso?”, deverá ser “Tão provável quanto à de gerar qualquer outro universo específico”.

    Equiprovável

    Nesse nosso modelo de geração aleatória de universos, todos os universos são equiprováveis, pois qualquer número real entre zero e dez teria a mesma probabilidade de ser gerado. Nenhum universo é mais provável de ser gerado que um outro qualquer. Dessa forma, qualquer que fosse o número gerado pela máquina, ele seria tão improvável de ser previsto ou acertado como qualquer outro número. Podemos então concluir que o nosso universo é tão provável de ser gerado como qualquer outro.

    Vida

    Mas alguém pode retrucar:
    “-O nosso universo é o único em que há possibilidade de vida”.

    A possibilidade de vida é uma peculiaridade de nosso universo. Qualquer outro universo gerado também teria suas peculiaridades específicas. Por exemplo: talvez algum deles pudesse ser formado por minúsculas bolinhas de cristais coloridos cintilantes, outro poderia formar gosmas elásticas, outros, esferas perfeitas, e assim por diante. Se, por exemplo, o universo gerado produzisse bolinhas de cristais cintilantes de cor azul, então poderíamos fazer a mesma exclamação:
    “- Apenas nesse universo se produz bolinhas cintilantes!”
    Ou então:
    “-Apenas neste universo há possibilidade de se produzir estas gomas elásticas!”

    E assim sucessivamente. Para nós, humanos, a vida pode ser mais importante do que bolinhas cintilantes, ou do que gosmas elásticas, mas isso é apenas uma valoração humana. Não há nenhuma razão lógica para supor que um universo com vida seja mais importante do que um universo que produza bolinhas de cristais cintilantes, ou gosmas elásticas.

    Portanto, não podemos alegar que nosso universo seja especial e único, pois ele é tão especial e único quanto qualquer outro universo que fosse gerado aleatoriamente. Todos teriam suas características únicas, geradas por suas constantes físicas também únicas.

    Outro Formalismo

    Para clarear esta idéia vamos refazer nosso argumento utilizando um outro formalismo:
    Suponha que os universos sejam descritos por seis constantes fundamentais, (o número exato não importa, o raciocínio que faremos serve para qualquer número de constantes).

    Assim, qualquer Universo U poderia ser definido por um sistema de equações que utilize de seis constantes básicas. Vamos representar essa dependência da seguinte forma:

    U= U (A, B, C, D, E, F).

    Particularmente, o nosso universo, U1, é descrito neste formalismo como:
    U1= U (A1, B1, C1, D1, E1, F1)

    Agora, considere um Universo U2 com constantes diferentes de U1:

    U2 = U (A2, B2, C2, D2, E2, F2)

    Como U1, por definição, contém os parâmetros do nosso universo, ele vai gerar um universo que pode abrigar “vida”, mas não pode gerar um “voda”. Da mesma forma, U2 pode gerar “voda”, mas não pode gerar “vida”. “voda” é uma característica qualquer de U2, como por exemplo, a de poder formar um grupo de partículas onde a densidade seja exatamente 0,12221 (um número qualquer). Apenas U2 pode gerar um “voda”, e qualquer mudança de parâmetros inviabilizaria a geração de “voda”.

    Claro que, da mesma forma, um outro universo, U3, com outras constantes:
    U3 = U (A3, B3, C3, D3, E3, F3)

    Também não viabilizaria “vida”, e nem “voda”, mas viabilizaria “vuda”.
    “vuda” é uma condição física que ocorre quando as partículas estão submetidas ao regime de forças geradas pelas constantes de U3 (A3… F3). E qualquer alteração numa destas constantes de U3 inviabilizaria “vuda”.

    Note que não existe uma importância INTRÍNSECA se o universo irá gerar “vida”, “voda” ou “vuda”. Para a máquina geradora, ou para o próprio universo, isso não faz nenhuma diferença. Mesmo por que o universo ou a máquina aleatória não tem consciência ou desejos. Para a máquina, o que difere é o valor das constantes fundamentais, e não o que elas irão ou não gerar. É irrelevante para a máquina geradora, e mesmo para o universo gerado, se ele poderá abrigar vida, “voda”, “vuda” ou apresentar qualquer outra peculiaridade. Cada universo tem sua própria característica. Se U1 permite “vida” ele não permite “voda” nem “vuda”, se U2 permite “voda” ele não permite “vida” nem “vuda”, se U3 permite “vuda” ele não permite “vida” nem “voda”. E assim ocorre para qualquer universo gerado.

    Desta forma podemos perceber que nosso universo não tem nada de especial porque nada é intrinsecamente especial. “vida” é tão importante como “voda” ou “vuda”. O universo não está preocupado se “voda” gera consciência ou não gera, nem se “vuda” gera um aglomerado de brilho amarelo incrível que nunca existiria em U1. Ou que “voda” gere micro pirâmides coloridas de brilho próprio de indescritível beleza. Isso pode importar para os humanos, pequenos seres egocêntricos de U1 que dão importância à “vida”, talvez porque também são vivos.

    Assim, a probabilidade de gerar um universo que tenha “vuda” é equivalente a um outro que possua “vida” ou “voda”. Não há nada de miraculoso ou mágico em nosso universo que o torne REALMENTE especial. Portanto, não tem sentido dizer que a probabilidade de nosso universo ser assim seja obra de alguma divindade. Qualquer que fosse o universo gerado, a probabilidade de ele ter exatamente aquela característica é a mesma que a de o nosso ser exatamente como é.

    É como escolher aleatoriamente um número real entre zero e dez: Todos são igualmente prováveis e difíceis de serem escolhidos, nenhum é mais ou menos especial que os outros.

    http://www.genismo.com/logicatexto26.htm

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