Do problema da separação do conhecimento e da tentativa de unificação

Culpemos a filosofia do sujeito por parte de tal distanciamento que a filosofia sofreu das ciências naturais. Culpemos totalmente? Não sei dizer ao certo. Meu texto “Da unidade a contradição” pareceu indicar um caminho de unificação. No entanto, como disse antes[1], o que ele faz é tomar as ciências naturais enquanto produção humana e assim ao analisar a Física Quântica não foca no aspecto natural, em produzir leis a partir de dados empíricos da natureza, mas sim na produção da produção dessas leis, ou seja, o próprio desenvolvimento da ciência enquanto área do conhecimento. Logo, naquele texto fica fácil para mim tomar partido da dialética. Parece que caberia tomar as ciências humanas enquanto produção natural, afinal natureza é uma categoria mais geral que ser humano. Talvez deveria ser executada a tarefa ingrata de aplicar o princípio cosmológico de que a interpretação do universo deve ser a mesma para qualquer observador em qualquer região do cosmos as ciências humanas? Se tal aplicação fosse ostensivamente realizada implicaria em converter esta em área em ciências naturais, todas as ações humanas e frutos da consciência seriam explicados pela mesma lei que explica o movimento dos planetas e o comportamento das partículas subatômicas. Apesar das previsões de para quando computadores conseguirão executar tarefas de graus semelhantes a de um cérebro humano serem otimistas o que o atual estado do nosso conhecimento aponta sobre uma real e completa descrição detalhada do cérebro é que (1) (a) com base nas leis da física é computacionalmente impossível calcular as coordenadas espaço-temporais de todas as partículas do nosso cérebro usando mecânica quântica, ou mesmo a química se para efeitos práticos simplificarmos o sistema para meramente neuroquímico já que nenhuma das partículas e transformações que a química não abrange esta presente no cérebro. (b) Adicione-se a isso o fato do cérebro interagir com o meio e se não colocarmos limites de interação do meio, o igualando ao universo visível, o computador para calcular tudo teria no mínimo o tamanho do universo visível, o que é uma contradição. Infelizmente temos que constatar que o universo visível já computa a si mesmo de maneira mais eficiente possível. Logo temos que estabelecer um limite bem pequeno e o tamanho do computador para simular o pequeno universo que queremos sempre será maior que esse pequeno universo. Grandes interações sociais estão fora de questão do nosso computador. Um cérebro totalmente isolado em que se controla a entrada e a saída torna as coisas mais fáceis, no entanto (2) mesmo se um dia existir a capacidade computacional para tanto nós estamos longe de ter definida a estrutura cerebral num plano geral, quanto menos neurônio por neurônio, processo químico por processo químico quanto mais partícula por partícula. Isso nos leva a conclusão final de que (3) se o conhecimento humano que temos hoje evoluir muitíssimo a ponto de termos avançado estrondosamente em poder computacional e neste momento já termos compreendido perfeitamente o cérebro neuroquimicamente antes de desaparecer como espécie – sendo que a única esperança possível deste trágico evento é que surja outra espécie mais adaptada derivada da nossa e que, portanto eles possam usar nosso conhecimento sobre nossa neuroquimica – e antes de termos que começar a nos preocupar com o esfriamento do universo, resultante da sua expansão, e de como operar a possível solução de transferir nossas consciências para uma nebulosa[2], pode ser que um dia consigamos descrever algo como um cérebro isolado baseando-se na mesma lei e com a mesma certeza que descrevemos o movimento do elétron ao redor do átomo. Parece, portanto improvável que consigamos englobar as ciências humanas com uma ciência com o grau de certeza das ciências exatas numa escala de tempo e valha a pena pensar sobre o assunto. Assim sendo, consideraremos a seguir o entendimento do cérebro por uma ciência não tão exata, a biologia. O estudo biológico do cérebro é o conhecimento em atual atividade, mas ainda estamos longe de produzir um modelo que entenda o cérebro biologicamente como entendemos um paramécio biologicamente. Parece-me que entendemos satisfatoriamente um paramécio, de maneira que se o colocarmos em um meio isolado e inserir impulsos controlados consigamos prever como ele ira reagir, e.g.: ele irá se locomover com seus cílios em direção a outro protozoário, ele ira se reproduzir assexuadamente. Mesmo que tal descrição do cérebro e da consciência seja efetivada pela biologia não conseguirmos prever o que um paramécio faz num ambiente complexo, logo pode não ser possível prever o comportamento de um ser humano em grupo, especialmente em grandes grupos interligados como é a nossa sociedade atualmente. Assim concluímos que com grau de certeza desejável é impossível prever grandes sociedades, mas é possível talvez entender a consciência. Com o mesmo método cientifico das ciências naturais há tentativas com grau satisfatório de sucesso empírico tais como em Dennett. Se for separado o conhecimento como na visão de Russell, Dennett estaria na fronteira entre filosofia e ciências cognitivas, produzindo ele mesmo essas ciências. Entretanto ao criar o mind stuff ele não consegue escapar em certo sentido a filosofia do sujeito.

A partir das considerações feitas até agora acredito que cabe separar o conhecimento como se segue:

Não ficou claro no desenho, mas a aresta da Física está se aprofundando, “furando” a pagina, enquanto que a da Moral está no mesmo plano que a da pagina. Sejam as coordenadas cartesianas[3] pode-se dizer que esta figura se encontra no quadrante onde todos os eixos são positivos e: z: produção de conhecimento e universalidade, x: ausência de caráter humano e y: certeza. Nessa figura as áreas de conhecimento aplicado se encontram mais perto da base e distante da área de produção de conhecimento. Uma conseqüência de organizar o conhecimento dessa forma é que ocorre uma perda de certeza da física quando ela se encaminha para a universalidade. Existem vários exemplos em que a física perde simplicidade metodológica e certeza para ganhar universalidade e são justamente nesses exemplos que ela avança e produz conhecimento real.[4] Outra conseqüência é que a estética ganha certeza no seu caminho para a universalidade, isso pode ser expresso na redução da experiência estética a uma lógica interna da experiência artística, operada por Adorno[5]. A moral, por sua vez, no caminho para a universalidade perde o caráter exclusivamente humano e começa a ter um caráter sujeito as leis naturais e biológicas como ocorre na psicologia evolutiva e em Nietzsche. Acredito que outros aspectos dessa pirâmide são facilmente comprováveis, mas pretendo explorá-los mais tarde em outro texto. Outro aspecto da pirâmide é que ainda não podemos dizer que existe um vértice, pois não existe uma única categoria unificadora. Podemos afirmar, no entanto, que a filosofia se encontra na região onde deveria estar o vértice, pois apenas ela lida satisfatoriamente com as 3 áreas restantes. Dizer que a síntese é o vértice da pirâmide se assemelha em tudo a falha que Nietzsche aponta em Kant: responder a pergunta simplesmente dizendo esta de maneira afirmativa. Fujamos desse erro, mas para onde? As vezes penso em abandonar o projeto unificador e abrir mão da unicidade da verdade, mas rapidamente percebo que isso é uma alucinação conceitual, verdades são únicas por definição. Só que no processo dialético de busca da verdade elas se negam e vão sendo falseadas e substituídas por verdades com maior grau de falsiabilidade. Essa busca pode parecer inútil, mas me lembro de um momento em que Stephen Hawking se pergunta porque ir tão alem no entendimento da física teórica e responde que ir alem no entendimento é uma atividade que move a nós como espécie desde milhares de anos atrás e tem dado certo até hoje, logo parece útil. Mas será que como descreve Nietzsche no seu texto “O Pathos da verdade” somos esse povo que inventou o conhecimento e ira logo desaparecer?[6]. Seja U o universo e u a teoria que da conta desse universo[7]. Todas as teorias cientificas até hoje tratam de um subconjunto desse universo e elas crescem por expansão, e.g.: a mecânica newtoniana da conta de um pequeno subconjunto N que são os fenômenos macroscópicos e não relativísticos, a mecânica quântica abarca esse subconjunto e ainda da conta dos fenômenos microscópicos. A relatividade abarca N mais os fenômenos relativísticos. As direções em que esses subconjuntos se expandem não são aleatórias, mas sim determinadas pelos anseios e desejos dos cientistas e da humanidade na época da criação da teoria. Se definirmos a verdade como a teoria x que da conta do maior subconjunto X de U pode-se dizer que a verdade tem caráter histórico. No referido texto, e em outros, Nietzsche ridiculariza o conhecimento humano por ser apenas uma interpretação de um ponto de vista ínfimo do universo determinado pelas necessidades mais mesquinhas do homem. De fato assim talvez o seja, mas isso não invalidada, como quer o filosofo, o conhecimento ou a busca pela verdade, pois (1) seja a expansão do subconjunto determinada pelas necessidades mesquinhas do homem ou não ela será sempre uma expansão sobre U onde os enunciados têm sempre um grau de verdade, (2) proceder desta maneira em busca da verdade é um dos sucessos evolutivos da raça humana e logo devemos continuar a proceder assim e por fim (3) Nietzsche errou a quanto iríamos viver na Terra e a nossa importância, a importância do surgimento de novas unidades replicadoras e como isso ira afetar mesmo outras espécies que virão.

Aforismo final:

Da defesa da totalidade – Há ainda uma crença em parte da filosofia que tal unificação entre as ciências humanas e as naturais seria uma pretensão vã relegada a tendências do século XIX. Com quanto tom de bravata e chacota a filosofia continental do século XX bradou contra as tendências totalizadoras hegelianas. Mesmo Adorno, com todo seu respeito a Hegel e uma tentativa de desenvolvê-lo sob ele mesmo, tal qual um urubu não cessava de agourar “O particular! O particular!”. De outro galho gralhavam também parte da filosofia francesa, todos em coro. Claro que eventualmente alguns também davam seus vôos, uns fugindo da carcaça da quimera hegeliana e outros indo a sua direção para lhe petiscar a carne. Existem ainda os anglo-saxões, que estavam isolados na ilhota, longe da besta hegeliana, esses quando muito se contentavam de de vez em quando visitar o continente e dar uma boa cagada em cima da quimera! Cagada essa executada por Russell com maestria no seu Historia da Filosofia Ocidental só comparável em fanfarrice filosófica ao modo como Hegel pretende invalidar a matemática no prefacio de sua Fenomenologia. Mas afinal que tenho eu com essas fanfarrices de aves europeias? – eu, uma bela e esbelta ave tropical! O pensamento não vai se recuperar do seu trauma com a ruína das totalidades simplesmente abandonando a pretensão ao todo. Como já bem diria Hegel e bem sabia Adorno “O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento”. Hegel, como afirmava Adorno, não quis dar igualdade de direitos entre o particular e o universal, mas se não fosse meramente por esta questão moral, diria sem titubear “Toda totalidade é falsa”. No entanto a superação da totalidade deve ser empírica e não conceitual. Penso as vezes como toda a macaquice dialética adorniana não pode ser reduzida a um grande marabalismo hegeliano, Adorno de alguma forma esperava tirar ainda algo de engraçado dessa atividade de bobo da corte, atividade essa que deve ser respeitada afinal durante boa parte da historia da humanidade todos nós assistimos extasiados essa atividade artística de prima categoria e difícil de se apreender – muito esmero é necessário nessa arte, um esmero que talvez nós só esperaríamos de algum que é ingenuo o suficiente para propor um saudosismo do artesanato- , expedrando que de alguma forma uma dessas bolas nos cairia no colo com a marca ‘dado empirico’. Russell não passava de um marabalista desajeitado, ao qual poucos apreenderam a rir e por isso a filosofia continental pouco lhe deu respeito. Mas deixemos nós também de brincadeiras, afinal essa crença do abandono da totalidade é na verdade mais uma desculpa para que se oculte o grande erro fatal de quase toda filosofia continental do século passado: a total ignorância das ciências naturais – quando Deleuze ou Lacan tentaram se aproximar delas foram motivo de piada por Sokal. Eu, portanto, não compartilho dessa crença.


[1] “Tentei esboçar uma unificação entre ambas as áreas em um texto meu chamado “Da unidade a contradição” mas confesso que minha saída para o problema tenha sido mais uma fuga, pois o artifício que usei foi considerar as ciências naturais enquanto produção humana, cabe considerar também em que medida as ciências humanas são produções naturais.”

[5] “As obras de arte são copias do vivente empírico, na medida em que a este fornecem o que lhes é recusado no exterior e assim libertam daquilo para que as orienta a experiência externa coisificante” (Adorno, Teoria Estética) ou “A exterioridade em sua imediatez não tem valor para nós, mas admitimos que por trás dela haja algo de interior, um significado, por meio do qual a aparição exterior é espiritualizada. A exterioridade aponta para o que é sua alma. E isso porque um fenômeno que significa algo não se representa a si mesmo e o que é na sua exterioridade, mas representa outra coisa.” (Hegel, Cursos de Estética). Em termos mais simples pode-se dizer que para essa tradição a logica interna da obra é ser feita a partir da realidade empírica imediata, mas remeter para uma outra realidade fantasiada e por isso – acrescentaria Adorno – tem um caráter emancipatório pois abre as possibilidades do que pode vir a ser o real para o individuo

[6] “Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares surgiu, certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriavam-se por terem conhecido muito, concluiriam por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento.” (O Pathos da verdade In: Cinco Prefácios para livros não escritos)

[7] Sobre isso ver ultimo parágrafo de https://brainstormers.wordpress.com/2008/03/30/da-natureza-do-conhecimento-matematico/ e discussão subseqüente.

14 opiniões sobre “Do problema da separação do conhecimento e da tentativa de unificação”

  1. Talvez eu não seja a pessoa mais apta a comentar, por não ter entendido muito, e por falta de leitura de filósofos. Mesmo assim, faço este comentário pensando que ele possa adicionar valor, senão para todos, talvez para mim.

    Não entendo o que vc quer dizer pela separação entre essas 3 áreas: moral, estética e física. A realidade é una e compatível. Minha idéia de moral e de estética não tem algo de incompatível com a de física, logo, não vejo onde está a separação.

    Talvez na impossibilidade de explicar a moral e a estética em termos físicos? Mas não há essa impossibilidade na teoria, senão talvez na prática.

    Minha moral corresponde, resumidamente, à qualidade da experiência da consciência. A consciência é entendida como um fenômeno físico.

    Minha estética é parte da biologia, da estrutura do cérebro, resumidamente, a interpretação subjetiva de estímulos por parte do cérebro, sua tradução em qualidade da experiência da consciência (objeto da moral), e em termos de atos e reações de pessoas, etc. A biologia por sua vez é uma maneira de compreender a física.

    A filosofia é o pensar, como um fenômeno é parte da física, e é usada para compreender todas essas 3 áreas, assim como qualquer outra. Há uma divisão que fazemos nas áreas do conhecimento, mas o conhecimento da física não é realmente separado da filosofia.

  2. Jonatas,
    Eu mostrei no meu texto que a possibilidade teórica de reduzir a moral e a estética a física tem um fracasso pratico tão estrondoso ao tentar explicar coisas simples como interações sociais que se torna inviável seguir essa linha.
    Alem disso a sua concepção de conhecimento não corresponde ao atual estado de como o conhecimento humano está organizado. Se você já ouviu falar de um teoria bem aceita e amplamente difundida que esteja em conssonancia com essa sua estética, me avise.
    Essa separação existe de fato no conhecimento, como qualquer colega que faça parte do mundo acadêmico nessas áreas ira confirmar. Concordo que ela não existe na realidade e por isso tento elimina-la do conhecimento.

  3. O fracasso prático de explicar coisas como interações sociais por meio da física não é uma impossibilidade teórica. Teoricamente temos todos os motivos para crer que isso seja possível. A física é uma maneira de explicar fenômenos básicos, mas um tanto inadequada para um grau de complexidade maior. Vemos uma proteína como um sistema por meio da física, generalizamos isso às outras proteínas, etc. e temos uma célula como uma combinação delas; generalizamos isso às outras células de um tecido, e temos um organismo simples, ou indo mais além, o ser humano. O ser humano é portanto explicável pela física, mas a física é uma maneira inadequada de ver aspectos do ser humano.

    Isso é como a postura intencional, postura física, etc. comentadas pelo Dennett. Digamos que uma maneira de explicar algo (física, biologia, sociologia, etc.) seja como o foco de uma lente. Podemos focar no nível sub-atômico. Aí temos coisas cuja explicação é a física, e não conseguimos ver coisas mais macroscópicas. Vamos afastando o foco, então temos moléculas, células, e uma explicação adequada para este nível de visão. Indo adiante, temos organismos, seres vivos, e ainda outro tipo de explicação de um sistema, e assim por diante. O importante é formular a explicação de uma maneira que seja útil para nossa compreensão. Podemos fazer infinitas subdivisões de explicações para compreender diferentes coisas.

    Podemos inventar carros e criar explicações para engenharia automotiva; podemos observar pássaros e criar explicações para seu comportamento; etc.

    Independente das explicações que criamos para explicar fenômenos de maneira adequada e compreensível, os fenômenos em si são todos parte da física, mesmo sendo estética, filosofia e moral, em termos do comportamento do ser humano.

    Estética e moral são tipos de explicação para uma subdivisão inventada das coisas.

    Talvez a nossa definição da palavra estética não seja bem a mesma, eu inventei a minha idéia de estética, e não sei o que os diversos filósofos disseram a respeito.

    A separação das áreas a nível de conhecimento pode ser útil, como eu falei das explicações adequadas para cada nível de foco. No entanto, é aparente que as divisões não existem.

  4. Jonatas,
    A discussão no meu texto não tem muito sentido para você pois até onde sei dos seus comentários você só conhece um lado das varias coisas que pretendo tornar compatíveis: o do método cientifico vindo das ciências naturais. No meu outro texto, Da unidade a contradição, trato mais dos aspectos referentes ao outro lado, talvez valha a pena você dar uma pesquisada nos assuntos dos quais ele trata, ou talvez não.. haha

    Abraços

  5. Seria um método científico vindo das ciências sociais? Não conhecia essa distinção. Bom, o julgamento moral ou uma estratégia pode ser um tipo de visão diferente da análise do mundo que é a física (metafísica?), embora seja plenamente possível ver o julgamento moral ou a estratégia por uma perspectiva física. Existem muitas perspectivas diferentes de ver um todo, compatíveis.

  6. João

    O texto está divertidíssimo.

    Tenho apenas um problema com ele (devido a meu alto grau de empatia com a humanidade). Considero que só eu tenha um simulador de João bom o suficiente para preencher as entrelinhas do seu texto com conhecimentos que ficaram elípticos. Faço-lhe a mesma crítica que fazem a mim desde a 1 série. ” A cabeça do Diego vai muito rápido e a escrita não acompanha”
    Levei cerca de 11 anos para escrever um texto que considerei mais inteligível a outras pessoas, espero que você leve menos.

    Dá para extender bem isso tudo, e transformar em algo bem legal para debater.

    Quanto as idéias:

    é interessante especificar se a pirâmide é vista com o olho normal ou com o olho de Deus

    Nietzsche e a psico evolutiva compartilham descrições boas com dostoievski, se for o caso.

    Como seria possível atingir a totalidade empiricamente?

    O que você chama de ciencias humanas aqui, seria considerado ciências humanas por algum cientista humano? se sim, o que é?

    Bom, isso aí são idéias para pensar o texto extendido, nada que eu queira discutir por agora……

    até

  7. João,

    Li o texto sobre Popper e Adorno, e pesquisei mais sobre Adorno. Eu entendi um pouco sobre suas proposições de métodos de adquirir conhecimento: dialética e falseação, que me parecem muito semelhantes, ao fazerem uso da crítica ou contradição para chegar ao conhecimento (método descoberto por muitas pessoas ao longo da história), como vc menciona no outro post:

    Existem ainda certas semelhanças, identificadas por Adorno, entre seu método e o de Popper: “A partir do instante em que ele identifica a objetividade da ciência com a do método critico, ele eleva este a condição de órgão da verdade. Nenhum dialético poderia exigir mais atualmente”.

    No entanto, pouco consegui compreender a relação com o assunto deste post.

    Ainda não consegui perceber bem qual o assunto deste post, imagino que seja a aparente divisão entre moral, estética e física. Eu não entendo o que exatamente é essa divisão que vc sugere. Vejo que moral e estética são parte da metafísica, e também da física, mas não exclusivamente da física. No entanto, a própria física também pertence à metafísica, e dificilmente haveria progresso na física (construção de teorias novas, por exemplo), sem a metafísica (talvez seja isso que vc sugere ao defender Adorno?)

    Aqui tem uma definição de moral da Wikipedia: Morality (from the Latin moralitaser “manner, character, proper behavior”) is the learning process of distinguishing between virtues and vices. The proper system of values and principles of moral conduct promotes good customs (virtues), but also condemns bad customs (vices). Moral judgement determines whether an action should be considered as appropriate or inappropriate.

    A minha moral é a análise de um objetivo a ser alcançado, e a classificação de ações como produtivas ou contraprodutivas para atingir esse objetivo. A moral portanto é, teoricamente, passível de verificação, e precisa.

    Definição de estética da Wikipedia: Aesthetics is commonly perceived as the study of sensory or sensori-emotional values, sometimes called judgments of sentiment and taste. More broadly, scholars in the field define aesthetics as “critical reflection on art, culture and nature.”

    Vejo a estética de um ponto de vista neurológico, evolutivo, e psicológico, ou seja, físico. A estética seria o estudo do resultado (subjetivo) que o cérebro pode dar a estímulos internos e externos. Pode ser portanto vista plenamente de uma perspectiva física ou lógica.

    Definição de física da Wikipedia: Physics is the science of matter and its motion. as well as space and time — the science that deals with concepts such as force, energy, mass, and charge. Physics is an experimental science; it is the general analysis of nature. Its purpose is to understand how the world around us behaves.

    A impossibilidade prática de reduzir a moral e a estética à forma de explicação física não diz nada de sua incompatibilidade. A física simplesmente é uma visão com foco diferente. Seria como tentar ver os astros com um microscópio. Aumentando o grau de incerteza, aumenta a contradição, diminui a objetividade e aumenta a subjetividade, no entanto, isso não se dá como característica fundamental à coisa em si, isso se dá apenas pelo nível de certeza que temos.

  8. Jonatas,
    Acho que supor que algo acontece sem de fato verificar e provar que acontece não faz parte dos procedimentos de quem almeja qualquer rigor teórico. Não conseguimos nem explicar a evolução biológica a partir da física muito alem do surgimento dos coaservados, quanto menos explicar o juízo estético.

  9. Jonatas,
    Estava pensando um pouco sobre isso que você disse e que sempre concordei de tudo poder ser explicado pela física. Acho que apesar disso temos que recorrer a outros níveis de explicação, dada a finita capacidade computacional. Vou pegar um exemplo do seminário do Diego sobre memética: o nível de explicação evolutivo. Podemos dizer o que for sobre a física prever de direito o mundo, mas como mostrei no meu texto, é bem possível que de fato ela nunca consiga prever nem pequenas sociedades. Temos que abandonar certeza, portanto, e ir para um patamar em que as leis da evolução explicam o mundo. Se caminharmos mais ainda em fenômenos incertos chegamos ao patamar da estética, da intensa experiencia subjetiva e artística, onde a dialética parece ser um grau de explicação necessário. Mesmo fenômenos sociais mais amplos como o desenvolvimento da historia da filosofia parece ser explicado melhor pela dialética do que pela meme tica, mas isso é algo que deixo para os memeticistas descobrirem a respeito.

    Abraços

  10. Exatamente, conforme o nível de complexidade aumenta, diminui a utilidade da física como explicação, aumenta a incerteza, e há uma abundância de explicações possíveis (talvez infinitas), que são maneiras de ver ou explicar certos fenômenos (como as diferentes áreas do conhecimento, sendo que a filosofia é a explicação que foca no pensar e no conhecimento em si, estando à base das outras áreas), não de explicar tudo como a física, mas de os ver de maneira mais especializada para fazer sentido. O grau de certeza e confiabilidade dessas explicações vai ser determinado pela filosofia, pela epistemologia, seja o método de Popper ou Adorno. Acho que o princípio do método crítico da dialética e da falseabilidade é importantíssimo, foi descoberto também por Socrates, e eu descobri lendo o Tao te ching. Coincidentemente Socrates viveu mais ou menos na mesma época do tao te ching, uma época intelectualmente produtiva, 500 a.C.

  11. A logica paraconsistente é o análogo logico da dialética e ela não suporta infinitas possibilidades. Um dos problemas que o Newton da Costa enfrentou ao elaborar a logica paraconsistente foi justamente o de ela não suportar infinitas possibilidades – dela não ‘explodir’ – ou seja, ser trivial. Na ciência também tentamos evitar isso pois como Popper concordaria algo que diz tudo não diz nada pois não é falseável.
    Quando a Sócrates e o chinesinho ai: CALMA LÁ! Uma coisa é a dialética nos moldes que ela tomou a partir de Hegel, outra coisa é a dialética no sentido que ela tem na Grécia Antiga e outra coisa completamente diferente, que nem filosofia é, é o chines ai. Mesmo a dialética do Adorno guarda relações bem complexas e controversas com a dialética hegeliana pois a hegeliana ainda tem pretensões de uma totalidade e de um saber absoluto, a de Adorno nega completamente essa possibilidade.

  12. Elas têm um princípio em comum, que é ver a verdade de uma afirmação pela sua contradição ou suas exceções. A isso que eu me referi. Sócrates enfatizou isso, e o tao te ching com suas metáforas de forças opostas me levaram a pensar nisso…

  13. Caros colegas,

    Tem um certo diário de bordo de como venho pensando o problema da unificação por esses dias. Vou expor seus pontos mais cruciais:

    1) Ele ganha status de problema filosófico importante e atual se observarmos que ele equivale ao ‘problema do monismo’. Postular o monismo enquanto meta parece bom, mas qualquer um que já discutiu como a consciência emerge do mundo físico notará a dificuldade de ser monista de fato – isso para não falar de compatibilizar essa postura com outras tradições filosóficas que estão aquém do monismo.

    2) Walter Benjamim parece ter apresentado um insight de uma saída para esse problema na seguinte passagem do texto “A origem do drama barroco alemão”:
    “Se a tarefa do filosofo é praticar uma descrição do mundo das idéias, de tal modo que o mundo empírico nele penetre e nele se dissolva, então o filosofo assume uma posição mediadora entre a do investigador e a do artista, e mais elevada que ambas. O artista produz imagens em miniatura do mundo das idéias, que se tornam definitivas, porque ele as concebe como cópias. O investigador organiza o mundo visando à sua dispersão no reino das idéias, dividindo esse mundo, de dentro, em conceitos”. Benjamim também fala em outras passagens de como o pensamento conceitual quer abarcar o empírico de tal forma que os dados empíricos fiquem amalgamados e dissolvidos aos conceitos. Nesse sentido, por exemplo, abstração que fazemos ao postular a existência de partículas e todo o tratamento matemático dado a essas entidades é o melhor método que descobrimos de fazer essa dissolução da empiria nos conceitos. O fato de a teoria física prever e lidar tão bem com a realidade deriva do fato de a natureza e os dados empíricos estarem lá amalgamados de alguma forma aos conceitos (de uma forma não diretamente física, com certeza) de modo que é possível operar somente com as abstrações mentais e conseguir dizer algo a cerca dos dados empíricos. Quando na física newtoniana é possível prever tão bem o movimento de um bloco ou de um pendulo apenas com as 3 leis de Newton e o que se desenvolveu como conseqüência delas é porque as três leis captaram e mimetizaram de uma maneira muito forte o mundo empírico, de maneira que esse de dissolveu naquelas.
    O que me chamou atenção nessa concepção do Benjamim foi a separação que ele fez entre investigador e artista, de alguma forma isso me relembrou uma separação do conhecimento que já havia feito antes e que se diferencia da dicotomia ciências humanas/ciências naturais. Essa outra separação pode ser assim esquematizada:

    Foi posto como tarefa de toda uma tradição filosófica criar modelos de como ciências humanas particulares devem funcionar, como no caso do Adorno com a sociologia. Por outro lado uma outra tradição filosófica se espelhava no método cientifico das ciências naturais já posto. Inversamente essas ciências encontraram mais lugar na reprodução técnica de objetos através das ciências aplicadas enquanto que aquelas ciências humanas se limitaram a atividade interpretativa falhando ostensivamente na produção (i.e.: Marx). Resulta que aparentemente a única instancia de produção genuína é a artística e os momentos de aplicação de uma nova teoria da natureza, que no resto das vezes se limitam a reprodução. Penso que discussões mais consistentes e conclusivas sobre esse tópico ainda ficam em aberto.

    3) Os estímulos sensoriais alimentam as simulações cerebrais que temos da realidade e os processos de decisões e ações praticas são resultado dessa interação. Os modelos científicos das ciências exatas são como um método muito bom para fazer com que as nossas simulações cerebrais obtenham respostas positivas dos estímulos sensoriais. Só que no interior desse método se restringe o campo de atuação aos fenômenos que admitem esse tipo de ‘subsunção à simulação’ ou seja, aos que podem ser facilmente abstraídos em categorias como partículas dotadas de poucas propriedades ontológicas. O método acaba excluindo os fenômenos que dependem de um grande feedback interativo com as simulações e que alem de tudo são mais resistentes àquela subsunção, como são os fenômenos sociais. Talvez isso seja a exposição, num raciocínio mais ‘analítico’, da oposição que Adorno expõe entre ciências sociais e ciências exatas no debate com Popper em 1961. Esse feedback mais preponderante se da porque, como observa Adorno, nas ciências sociais o objeto e o sujeito do pensamento coincidem. (http://www.fundaj.gov.br/tpd/106.html)

    4) Outro dia na aula do Prof. Vladimir Safatle ele comentou uma das teses do Adorno sobre como a historia molda o acesso do homem a ontologia (a existência, a natureza, ao dado). Já tive muito contato com Adorno desde minha infância e me parece que aquela minha formulação que fiz para escapar da critica de Nietzsche utilizando o conjunto U e a teoria u se assemelha, quanto ao conteúdo, a tese de Adorno e, portanto deve de algum modo ser influencia desse pensador. Ainda sim está exposta numa forma completamente estranha ao filosofo alemão. Essa forma parece guardar certas afinidades com a forma que expus o ponto 3, que eu chamaria de forma analítica, que usa a mesma lógica clássica das ciências naturais e guarda um poder explicativo grande em relação a como essas ciências funcionam. A outra lógica possível é a dialética, que opera de um modo bem diferente e parece dar conta de explicar o funcionamento de inúmeras áreas das ciências humanas. O projeto unificador equivaleria idealmente a dar conta de ambos esses modos de pensar e, portanto de ambas as tradições filosóficas que corporificam esses métodos: a continental e a analítica. As minhas proposições teóricas feitas nesse e em outros posts são o exercício inconstante da tarefa pratica que a ultima frase pareceu indicar.

    Abraços

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