O Pensar

É em certas tardes de agitação discreta que nos vêm os impulsos mais temerosos. Não se trata, pois, de morrer — afinal, morremos todos os dias, definhamos belamente com cada crepúsculo de nossas vidas. Trata-se, simplesmente, de pensar. Não um pensar leve, solene, como aquele que nos acompanha nas horas de sombra mais curta. A reflexão que daí advém é, se não benigna, ao menos irrisória — pode-se sempre afasta-la com um gesto de mão, com o riso seguro de quem não tem nada a perder. Aqui, ao contrário, cada pensar é um parto, um nascimento trágico cujos pais são os nossos próprios restos calcinados. A introspecção é acompanhada, a cada passo, de uma auto-imolação. Tudo se passa como num estranho ritual de invocação, onde para cada demônio-pensamento parido sacrifica-se uma parcela de si. Poder-se-ia mesmo rastrear cada pensamento em suas marcas visíveis no corpo do sujeito, ver em cada cicatriz inscrita o pensamento que lhe deu origem. Pensar é, de fato, sofrer, como quem sofre de uma doença, como quem sofre de uma aflição — como quem sofre de vida.

O pensar não é, como muitos o crêem, a expressão de uma alma imortal, que guardaria assim a promessa sempre consoladora de uma origem cantada ou um futuro radiante, música que brilha numa harmonia celeste e eternamente apaziguadora. O pensar está sempre atrelado ao corpo. Um corpo que, ao contrário dos músculos atléticos exibidos pelas bestas louras da primeira manhã, traz consigo os sinais de sua decadência, de sua origem baixa, do murmurinho secreto do ressentimento que ressoa com cada batida desse coração prestes a ser consumido pelo último dos crepúsculos. O corpo que abriga o pensar é sempre raquítico, curvado ao peso de um retorno infinito, de uma totalidade simbólica erigida sobre ombros disformes. É um volume pulverizado, fruto desse processo de perpétua pulverização que é o pensar. Se a genealogia é a exibição pública das marcas indeléveis da história sobre os corpos, a fisiologia, por sua vez, deve ser o rastreamento desse movimento duplo que caracteriza o pensar. A genealogia pode até ser um retorno às máscaras, uma história concebida como um “carnaval organizado”. Mas a fisiologia vem para arrancar todas as máscaras e revelar, sob a superfície fina do ouropel, não os rostos dos indivíduos, mas as cabeças de nossos corpos. Parafraseando Foucault, a fisiologia deve mostrar o pensamento arruinando o corpo e o corpo inteiramente marcado de pensar.

Posto esses termos, o que pode então ser a filosofia, esse estranho amor a uma arte de desenhar, sobre as cinzas de nossos corpos, figuras que nos marcam tanto mais profundamente, dado que nos atingem de modo mais insidioso e sutil? O filósofo é, sem dúvida, um ser patológico — o senso comum de todas as eras o atesta. Mas de que patologia ele sofre? Devemos, antes de mais nada, afastar a sombra do masoquismo. O masoquismo, entidade complexa sobre muitos aspectos, está sempre preso a pelo menos duas chaves: a instância contratual, enquanto elemento de ênfase da severidade da lei, e a instância humorística, enquanto elemento que permite, pela própria severidade da lei, torcê-la ao mesmo tempo em que a obedece. O masoquista realmente sofre sob o peso de uma lei cada vez mais absoluta, mas apenas porque há, no horizonte, a promessa de um prazer inicialmente diferido. E, de fato, é justamente essa bem humorada inversão — aplicação prazerosa de uma lei que deveria causar sofrimento — que melhor caracteriza as fantasias masoquistas. O filósofo, por sua vez, rejeita toda a promessa hedonista desses contratos, afasta-se, e para sempre, do sopro gélido da lei que nos deixa insensíveis a todo ardor e sofrer. À frieza contratual do masoquista, o filósofo contrapõe a imolação de suas paixões, de seu pathos. O masoquismo é a arte de se extrair prazer de nosso sofrimento; a filosofia é a arte de se extrair mais sofrimento de nosso sofrimento. Ela se instala na dobra do pensamento sobre si mesmo. Muito já foi dito sobre a filosofia ser sempre um pensar crítico. A crítica é sempre um pensar sobre o pensar, meta-pensar que eleva o sofrimento à condição de princípio. A filosofia, enquanto amor ao pensar, é, pois, a patologia de redobrar-se o sofrimento.

Já se afirmou, certa vez, que nós somos hábitos, nada mais que hábitos, simplesmente o hábito de dizer Eu. Alguns, talvez, prefeririam afirmar que tais hábitos são, na realidade, vícios. Seríamos, assim, o simples vício de ser nós mesmos. É uma correção justa. Todo vício, porém, pressupõe um problema ao qual ele é uma resposta. Não existem vícios inatos, tampouco transcendentais. Adquiri-se sempre um vício como uma resposta a uma circunstância dada. E, se o pensar é um vício, a filosofia deve ser a exploração desse vício, a tentativa sempre renovada de esgotá-lo, de levá-lo a cabo. O vício arruína o corpo; a exploração do vício é esse processo de dilaceração potencializado. Dissolução do eu, esfacelamento do corpo. Daí porque é Dionísio o deus patrono de toda filosofia. Dionísio, lembremos, é a dissolução encarnada, a carne desmembrada. Todo filosofar é, assim, sacrifício a Dionísio, imolação perpétua de si que não se rende a nenhuma promessa e a nenhum descanso. O filósofo é sempre um ser trágico.

6 opiniões sobre “O Pensar”

  1. Comecei a pensar o que responder a seu texto, meu otimismo fez muitas considerações. Como a não filósofa do grupo (pelo menos dentre os que conheço) gosto apenas de ler e me divertir sozinha com meus comentário. Nop entanto lembrei de um diálogo interessante, mais uma vez envolvendo Vinícius (seu pessimismo desperta meu otimismo como só).

    Disseram certa vez que se o talento do Vinícius tivesse a disciplina de João Cabral de Melo Neto o Brasil teria enfim um grande poeta. O poetinha respondeu “eu penso nisso, mas o João fica com aquela dor de cabeça… eu prefiro a música e as mulheres bonitas”

    O poeta é tragicômico.

  2. Há uma imagem deleuziana de que eu gosto muito. Acho que cabe muito bem publicá-la aqui, já que, apesar dos tecnicismos que envolve, serve muito bem como um de meus ideais de filósofo. É o último parágrafo da Lógica do Sentido (descontando os apêndices). Um pouco para mostrar que, de fato, filosofar não é necessariamente algo sisudo.

    “A univocidade do sentido apreende a linguagem em seu sistema completo, exprimente total para o único expresso, o acontecimento. Assim, os valores de humor se distinguem dos da ironia: o humor é a arte das superfícies, da relação complexa entre as duas superfícies. A partir de um equívoco a mais, o humor constrói toda a univocidade. A partir do equívoco sexual que fecha toda equivocidade, o humor isola um Unívoco dessexualizado, univocidade especulativa do ser e da linguagem; toda a organização secundária, em uma palavra. É preciso imaginar um outro estóico, um outro Zen, um outro Carroll: com uma mão masturbando-se, em um gesto excessivo, com a outra escrevendo sobre a areia palavras mágicas do acontecimento puro aberto ao unívoco, Mind — I believe — is Essence — Ent — Abstract — that is — an Accident — which we — that is to say — I meant —, fazendo assim passar a energia da sexualidade ao assexual puro, não cessando, contudo, de perguntar ‘o que é uma garotinha?’, pronto para substituir a esta questão o problema de uma obra de arte por fazer, que unicamente responderá a ela. Assim, Bloom na praia… Sem dúvida, a equivocidade, a analogia, a eminência retomarão seus direitos com a ordenação terciária, nas designações, significações, manifestações da linguagem quotidiana submetidas às regras do bom senso e do senso comum. Considerando então o perpétuo entrelaçamento que constitui a lógica do sentido, aparece que esta ordenação final retoma a voz do alto do processo primário, mas que a organização secundária em superfície retoma alguma coisa dos ruídos mais profundos, blocos e elementos para a Univocidade do sentido, em suma, instante para uma poesia sem figuras. E que pode a obra de arte a não ser retomar sempre o caminho que vai dos ruídos à voz, da voz à palavra, da palavra ao verbo, construir essa Musik für ein Haus, para aí encotrar sempre a independência dos sons e fixar esta fulguração do unívoco, acontecimento recberto depressa demais pela banalidade quotidiana ou, ao contrário, pelos sofrimentos da loucura.”

  3. Desculpe o comentário rude e fora do assunto, mas, entendi nada desse texto ai… talvez se eu me concentrasse mais pudesse entender alguma coisa… ou imaginar alguma coisa e achar que entendi. De toda forma acho que não valeria o esforço. Por que alguns autores não usam uma linguagem mais entendível, se o seu objetivo é se fazer entender? Na minha opinião, ao escrever, deve-se usar sempre a linguagem o mais simples possível, essa também tem chance maior de ser a menos ambígua.

  4. Jonatas;

    De fato, quando pensei em publicar esse texto, já imaginava que a linguagem de Deleuze fosse bastante obscura, de modo a não dar margem a um pleno entendimento. Publiquei-o mesmo assim pela imagem do estóico que ele preconiza, a qual acho bastante… interessante, para ficar com eufemismos. Nesse sentido, não precisa desculpar-se por manifestar um certo desconforto com a terminologia deleuzeano.

    Dito isso, creio haver um certo equívoco no que diz respeito aos objetivos da obra de Deleuze. Mais que se fazer enteder, creio quer nos fazer pensar, o que talvez seja um pouco mais difícil, mas tanto mais interessante. Tendo em mente essa perspectiva, uma certa opacidade do texto pode ser de certo modo uma técnica para forçar o leitor a de fato interrogar e forçar o texto, ao invés de simplesmente instalar-se na comodidade de uma clareza originária. Além disso, é sempre bom lembrar que a linguagem de um autor adequa-se a seu objeto de estudo; e, como nota Adorno (em Skoteinós, ou Como Ler Hegel), há certos objetos que exigem uma certa dobra da linguagem, objetos que forçam o discurso ao ponto de quebra ou fratura, de modo a constituir certas regiões de silêncio no interior da obra. Não se trata de uma apologia ao obscurantismo (longe disso!), mas simplesmente da lembrança que nossa linguagem nem sempre é adequada aos objetos de nosso discurso.

    Isso de modo geral. No caso em questão, porém, creio que o motivo de tal hermeticidade é mais simples. O parágrafo em questão encontra-se no final de um dos livros mais importantes na experiência intelectual de Deleuze, no qual ele progressivamente constrói e explicíta alguns de seus conceitos basilares (e.g. sentido, acontecimento, univocidade, singularidade, entre outros). Considerando que é a conclusão desse complexo estudo, creio ser bastante desculpável o uso de termos que ele passou o resto do livro inteiro tentando definir, explicitar e problematizar. Há um capítulo inteiro só sobre o conceito de univocidade, por exemplo (“Da Univocidade”). Presume-se que você os tenha lido antes de chegar a conclusão, principalmente quando se trata de um filósofo como Deleuze, cuja visão da filosofia é justamente encará-la como a arte de construir conceitos.

    Além disso, é importante notar que diversas das questões tratadas por Deleuze inserem-se num debate filosófico que remonta pelo menos a Aristotéles e que ganhou corpo durante todo o desenvolvimento da história da filosofia. O debate acerca da homonímia do ser, temática exposta no livro IV da Metafísica, por exemplo, foi bastante discutido durante a Idade Média por filósofos como Avicena, Averróis, Tomás de Aquino e Duns Scotus. Grande parte da terminologia deleuzeana deriva de tais debates, dos quais pressupõe-se do leitor um mínimo conhecimento. O mesmo com relação a certos discussões contemporâneas das quais Deleuze toma parte, como sobre o cálculo diferencial e o estatuto da psicanálise. Dado que esses campos desenvolveram todo um léxico próprio, novamente pressupõe-se do leitor um conhecimento prévio desses assuntos. Daí porque não vejo grabdes razões para se condenar Deleuze por utilizar uma terminologia específica aos debates de seu tempo, ainda que ela seja razoavelmente hermética (a menos que você seja um filósofo do “common sense”, como certos intérpretes de Wittgenstein, mas aí a problemática é toda outra).

  5. Ok, entendo. Você pode ter razão. Eu li muito pouco de filosofia e não estou habituado a uma grande parte da terminologia usada. Tenho uma enorme preguiça de ler. Pessoalmente meu estilo é mais curto e objetivo que delongado e imaginativo, mais ou menos no espírito do Wittgenstein quanto a isso, mas um pouco menos extremo.

    Quanto ao assunto, o pensar, a mim não é algo que normalmente venha acompanhado de temor ou sofrimento, embora seja uma agitação. É como uma excitação ao buscar a solução a um problema, como a sensação de jogar um jogo de computador na busca de vencer o jogo, e há a sensação de recompensa ao encontrar uma solução. É uma fonte de prazer, e não de sofrimento.

    O pensar ativo talvez seja algo que o corpo evite. Vendo evolutivamente, talvez pelo alto consumo de energia de um cérebro pensante. O cérebro consome uma proporção muito grande da energia do corpo, e o pensamento ativo aumenta o suprimento de sangue a algumas regiões do cérebro, daí a hipótese. No entanto, a descoberta e a curiosidade são coisas naturalmente presentes nas pessoas, e são estimulantes. É possível que com o hábito isso venha a se associar ao pensamento ativo, criando um condicionamento positivo. Algumas pessoas tiram bastante felicidade do pensamento ativo.

    Também há quem diga que filosofar sobre questões existenciais possa ser deprimente. Para mim não é. Isso é uma coisa um tanto particular e subjetiva.

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