Meu primeiro texto com colaborações externas antes de escrito

Fontes de informação e idéias para o texto

 

Time

 

O elogio ao ócio – Russell

 

How to do what you love – Paul Graham

 

The great gig in the sky

 

Hope and Fear and In Praise of Artificiality – Essays in Mortals and others

 

Let

 

pessoas do brainstormers (isso quer dizer dêem idéias, levantem outros assuntos relacionados, coisas que podem ser adicionadas, músicas, metáforas etc…)

 

 

Público imaginado: Meus amigos com potencial

Público potencial: Jovens com potencial…

 

 

Texto – brainstorm rascunho 1.0

 

 

The Starting Gun

 

 

“And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.”

“Every year is getting shorter, never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines”

Pink Floyd

 

 

 

Life is happening now. There is no one to fire the starting gun. Before each one of us, may lie a path of treasure, realization and happiness. The effort of achieving it will be fundamentally dependent on our courage to make and execute plans.

 

The world doesn’t have a gap that we ought to fulfill. The structure of the world has been planned for people to be effective and productive disregarding their abilities. The market, as well as universities are places where people are trained to be useful, to be part of the engine, regardless and inconsiderate to their skills, wishes or potentials.

 

The untold secret, the hidden opportunity lies in creation. The creation of the new. That which represents us. There is no metaphisical space that lacks someone who is a mastercraft in the art we cherish the most. There is only a huge empty space, of all that never was. If we are to achieve something, if we are to make something out of it worth saying “I did this, I was there, I helped creating it, and now it lives” we must first realize this. A creator place in this world is made from the inside out, it is not, as I have formerly believed, incentivated, developed and organized by the outer world. No one is just there for us, expecting what we have of best do unveil itself and reveal, in a master achievement.

 

An age gives value to that which can be changed, not for that that can be taken for granted. Our age gives value to money on the basis that people can change dramatically their life conditions in a few years.

 

As a consequence of the valorization of money, we have become used to giving value only to the product of what we do. In the absence of delight in the process itself, we are to lose significant part of the satisfaction, as well as we are to lose part of the style.

 

When man used to live in smaller communities, there was more valorization of ones work, for it was a bigger part of the whole. This has now diminished, for we may compare ourselves with people from everywhere, the shinning of others should not be an ofuscating force in the achievement of our goals, it should be thought of as a free course of how to get there, which has to be translated to your own language, to your own life. Since people face geniousness at a very young age, they get discouraged of creation, of invention very soon. The bigger the scope of the world that is available to be appreciated, the smaller the chances that anyone in particular shall consider himself apt to the task which he once foresaw. This doesn’t have to be the case. Our mindset is distorted by the hugeness of society and by the strenght of the overvalorization of money, that suffocates other sorts of achievent. We should stand against this urges within ourselves, for we are living only by chance in this time, and we should not surrender to the opressive powers of our time. The people we celebrate and eternalyse are those who have been smart enough to see, understand and climb over the oppressive powers of their time. The opression of our time lies within more than ever before, and it requires less strenght than ever to set one free from his inner chains that imprison realization. Hundreds of past generations had to fight, give their lifes, or their emotions or their lifestyles so that today we are free from outer chains. To entertain oneself in the realization of dreams is not just an amazing oportunity, it is the duty of everyone who is able to realize how lucky we are, how much others have desperately desired to be where we are and how much can be achieved.

 

Once the obstacle of the greatness of the world and of its best Men is behind us, we might look at what this greatness has to offer us. From the finding of others who desire and fight for the same causes, to the perfections of skills to a level which would be impossible before a world in the communication age.

 

The greatness of inertial habits, for good and for bad, the importance of giving the first step, even if we do not know towards what, for it changes the mindset in such a way that might take a long time to go back to the old self minimalized thinking, giving us enough time to find that which might be the achievement we had always faintly foreseen, without ever giving real consideration to the possibility of doing it, or even of reasoning about it enough to shape it, define its borderlines and understand what it is.

 

 

 

 

This is the starting gun, one day, you will wake and find ten years have gone behind you. If you are lucky no one will tell you where to run, most likely people will tell you to follow their path, which leads to their lifes, which usually is as far from your desire as anything can be. Mankind seems to have a particular pleasure in leading others into their own path of desperation and mediocrity, luckily, younger people have a particular pleasure in dodging those paths, but this quality seems to faint before it should, before the realization of the beggining of life. The realization of the beggining of life, of the feasibility of projects, of the chance of turning passivity into activity will not come from the outside, it is born and lives within, and it must be reinforced everyday, for everyday we know this, our glimpse of paradise becomes less cloudy and more defined.

 

 

 

 

 

“The time is gone the song is over, thought I’d something more to say”

14 opiniões sobre “Meu primeiro texto com colaborações externas antes de escrito”

  1. Acho legal pontuar para todos que eventualmente venham a comentar que essa não é de maneira alguma a forma final do texto. No sentido de que cada um desses pequenos parágrafos não estará escrito como está agora. Isso é um resumo do mesmo jeito que uma esquematização, um fichamento ou algo do tipo. Cada idéia que possa estar expressa em 5 ou 10 palavras vai ganhar um corpo e uma forma dela mesma, então não há razão para se preocupar com a questão de se o texto está muito truncado. Está, porque não é um texto, só um esquema.

  2. Di,

    adorei as idéías iniciais, achei bem emocionante algumas partes, principalmente qdo fala da necessidade de criação. acho essa idéia essencial e subestimada. creio q as pessoas nao entendem a necessidade de serem elas mesmas e notar que tudo que as formam, os interesses, as paixões são reunidos de maneira única nelas mesmas. as pessoas são universos de conhecimento e articulação que são sempre inéditos e se esperamos achar identificação e correspondencia no mundo fora de nós, precisamos cria-la. para “o mundo através dos nossos olhos” ser de fato o mundo é preciso agir sobre ele. Para termos correnspondência com as coisas temos de agir, mas nao de maneira qualquer, e sim da nossa maneira. Como diria Fernando Pessoa , em uma ode de Ricardo Reis “Para ser grande, sê inteiro: nada
    Teu exagera ou exclui.
    Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
    No mínimo que fazes.
    Assim em cada lago a lua toda
    Brilha, porque alta vive. ”

    Agora, sobre o sexto parágrafo. Nessa idéia de genialidade, acho importante ressaltar a idéia que vc iniciou da comparação. COstumamos nos comparam com quem foi grande e isso as vezes nos tira a potencia ao inves de aumenta-la. Não devemos seguir os estilos alheios, e sim nos inspirar neles. E Não devemos nos desestimular se toda e qq criação nossa nao for obra de genialidade. é preciso aproveitar cada coisa que fazemos, mesmo as que falham como parte de uma tragetória, como parte do exercício daquilo que construímos. A obra, essa coisa abstrata e inexata, é uma qualidade que depositamos à nossa vida. Não há de se ter sempre bons resultados, mas é preciso fazer resultados válidos e sempre, sempre, tentativas. Há uma grande diferença entre o erro e o fracasso.
    Isso me faz relacionar esta idéia com a crítica a certos empregos e à universidade – aidéia de trabalho e carreira de maneira geral. Costumamos crer que para a nossa produção ser bem sucedida devemos investir em carreiras, no tal “right path”. No entanto isso não leva em consideraçao que são inúmeras as atividades que podem nos estimular. Tão inúmeras quanto imprevisíveis. O importante é investir no que desperta nosso interesse, paixão e criatividade, seja o que for. E acredito veementemente que a maioria dessas coisas são lúdicas. O importante é ter fome e alegria de descobreta. Como citou Steve Jobs (não me canso da genialidade dessa frase): “Stay hungry, saty foolish.” A fome de exploração é algo infantil e é preciso manter esse olhar de criança, é preciso criatividade e a força do novo.
    Ainda no sexto parágrafo, há algo que eu pensei após a nossa conversa. Não sei se é uma inquietação pra vc,mas é constantemente pra mim. Há essa questão de desafiar a ordem, quebrar as barreiras do nosso tempo, ousar. Eu acho isso mais q essencial. No entanto, há momento qdo a euforia e a autoestima se vão que eu me pergunto se, talvez, não esteja num delírio, numa loucura. Não sei, há tantos loucos q se acham sábios. Esse é o risco que corremos ao ousar, no entanto, como eu sempre afirmo, nao podemos deixar o medo nos paralisar. Isto é bem mais um questionamento que uma tentativa de conclusão. Abro pra discussao pq eu mesma nao sei bem o que penso, mas isso me inquieta.
    Isto tb me lembra a questão de não desistir… mas ta tao interligado que acho dificil d articular. ficar para um próximo comentário.

    mas, oposto ao medo, acredito na idéia de potência que impulsiona, algo mto relacioanado a juventude, mas que nao se restringe a ela. The world is our for the take. Podemos. é por esse sentimento que contruímos. pelo vontade d sermos quem somos e pelos maravilhosos caminhos que isto pode levar e que só individualmente podemos sentir. Isto que proporciona coisas inenarraveis e únicas. Isto que nao podemos dividir com ninguem por que é tao nosso: a experiencia de contruir o proprio ser e a propria existencia. A sensação afirmativa de ser você.

  3. Como todos sabem, e como o texto que acabei de publicar atesta, sou um pessimista. Nesse sentido, é sempre estranho, para mim, ler textos que prometem um grande caminho de tesouros pela frente, como se bastasse seguir a estrada de tijolos amarelos para, finalmente, alcançar a Terra Prometida. Do mesmo modo, não consigo deixar de considerar a idéia de um retorno a, ou preservação de, a perspectiva infantil como sendo ou muito ingênuas ou razoavelmente cínicas. O que não é de todo ruim: considero a obra de Alberto Caeiro como verdadeiramente grandiosa, ainda que a considere como pertencendo a categoria dos cínicos. (Aliás, sempre gostei do cinismo grego) Essa tentativa de permanecer numa espécie de inocência primeira nunca me agradou muito, e talvez esse seja meu ponto de maior discordância com Nietzsche e seus seguidores. Ao meu ver, uma vez que se começa a trilhar a estrada do dilaceramento chamada “pensar”, nada poderá restituir um homem a sua condição prévia — trata-se, uma vez mais, do terrível labirinto de Borges: uma linha reta, infinita, inexorável, inevitável.

    Isso não significa que o único horizonte a nos guiar seja uma noite eterna e sem fim, esse “horroroso vazio” do qual falava Chesterton, no qual “esse gentil mundo ao redor do homem enegrece como uma mentira”, os “amigos desaparecem como fantasmas e as fundações do mundo desmoronam”, deixando o homem “acreditando em nada e em ninguém, sozinho em seu próprio pesadelo”, até que “as estrelas tornam-se meros pontos na escuridão de seu próprio cérebro; a face de sua mãe torna-se apenas um esboço feito com seu próprio lápis insano nas paredes de sua cela” (Orthodoxy, Cap. 2). Há sempre traços ou intensidades luminosas, feixes de luz riscando o céu escuro e destacando-se contra esse universal a-fundamento — são a família, os companheiros, os amigos, os amantes, enfim, todos esses que aceitam caminhar ao nosso lado, ainda que por trilhas diferentes.

    Nesse sentido, é um erro grave acreditar que o pessimismo, a dor ou o sofrimento aniquilam todo amor a vida. É verdade que há uma certa erosão do olhar, um certo cuidado e uma certa reticência em todo pessimista. As violências que ele sofreu, os infernos pelos quais passou, já cansaram seus músculos, exauriram em parte suas forças. Já não se é mais o mesmo: a confiança na vida se foi, ela própria se tornou um problema. Mas, como nos lembra Nietzsche no §3 do Prefácio a Gaia Ciência, isso não necessariamente torna alguém sombrio; “o amor a vida ainda é possível — apenas se ama diferente. É o amor a uma mulher da qual se duvida…”

    Esse amor reúne em si toda a potência afirmativa da vida. É essa absoluta paixão, esse pathos ensandecido, que nos faz sentir tão intensamente o que quer que seja, que nos torna selvagens diante desses sentimentos, que nos leva até os mais loucos extremos, apesar de nosso cansaço. Nosso corpo se quebra, se fende, e ainda assim perseveramos em nossa fatalidade. Um pouco como Artaud, soletrando e gritando sua própria dor em urros esquizofrênicos que emergiam de sua radical impotência transmutada em total autopoder. O mesmo Artaud que não admitia que perdêssemos um só excremento sem nos dilacerarmos com a possibilidade de que aí perderíamos também nossas almas, que conhecia muito bem esse “ser uterino uterino do sofrimento em que todo grande poeta mergulhou e onde, ao ser parido, cheira mal”. O mesmo Artaud que, cansado da dor e do sofrimento físico intenso pelo qual passava, dizia que “os organismos são os inimigos do corpo”, exclamando em um singular grito de guerra: “Nada de boca, de língua, de dentes, de laringe, de esôfago, de ventre, de ânus. Eu reconstruirei o homem que sou.” Artaud, esse mesmo Artaud, era um apaixonado pela vida.

    A intensidade com que vivia Artaud, apesar de seus sofrimentos — ou melhor, e não apesar deles, mas exatamente por causa deles —, é, ao meu ver, um dos maiores exemplos de uma vida, de um ponto notável absolutamente intenso enviando ao porvir um traçado atravessando as eras. Daí porque creio eu ser uma falsa questão o problema do primeiro passo, da “starting gun”, dos começos e re-começos de nossas pequenos caprichos chamados “vida”. O que Artaud nos mostra é que o primeiro passo já foi sempre dado, e não foi um primeiro passo, mas uma primeira violência que nos forçou a pensar e nos estabeleceu no registro das profundezas. Se começamos a pensar, é do fundo de um acontecimento disruptivo que nos despedaçou e nos forçou nessa estrada do dilaceramento perpétuo. Não há possibilidade de ignorar esse eventum tantum, assim como o homem “não pode mais ignorar o horror depois de tê-lo visto, mesmo que o queira”. É claro, sempre haverá aqueles a quem o evento simplesmente não existe, que permanecem sempre na região segura e vazia da paz perpétua própria ao senso comum. Como coloca Deleuze, são essas pessoas que “têm tudo para serem felizes: belos, encantadores, ricos, superficiais e cheios de talento”. Mas, aí, não há nada a fazer, a não ser esperar “alguma coisa se passe, fazendo com que eles se quebrem exatamente como um prato ou um copo” (Lógica do Sentido, “Porcelana ou Vulcão). Quanto a nós, que já passamos desse ponto, só nos resta explorar essa fissura até o fim, desdobrá-la em todas suas conseqüências, arriscar tudo e tirar daí um direito imprescritível. Os planos e projetos decorrem dessa primeira resolução, a mais importante.

    Poder-se-ia objetar que esse é o caminho dos loucos e esquizofrênicos (Artaud, Nerval, Roussel, Nietzsche), estrada cujo único destino é a cela escura em um manicômio qualquer. Essa, novamente, me parece uma falsa questão. Realmente, a loucura é como que o limite ou ponto focal de todo esse processo, espaço de dissolução do eu, liberdade tanto mais absoluta quanto mais terrível e horrenda. E, no entanto, como nos lembra Deleuze, nenhuma questão atesta mais o ridículo do pensador do que a tentativa de distinguir estritamente os dois processos, ainda que de fato sejam coisas distintas. Uma vez fendido, não há re-construção, e, se somos loucos, só nos resta extrair disso um novo direito e uma nova potência (Artaud é, novamente, um dos maiores exemplos dessa potência). Em todo caso, só começamos a pensar a partir das bordas, de modo que o medo da loucura e do delírio me parece supérfluo.

    Pensar e viver: eis as únicas tarefas que me propus até o fim e as únicas que, creio, realmente importam.

  4. Querido Nagase,

    como você, e alguns participantes desse blog sabem, eu sou uma otimista viniciana quando o assunto é minha vida. O que não me faz acreditar que o sofrimento aniquila a vida, muito menos o bom da vida, acho que ele pode ser criador e esta possibilidade é sempre positiva. Nada mais própria para uma Viniciana: “foi a vida foi o amor quem quis, é melhor viver do que ser feliz”. Mas apenas o acho possitivo neste sentido: ele é uma parte da vida que permite criação e desenvolvimento. Assim como a alegria. E sou veementemente contrária a idéia que é preciso sofrer para criar, para ter os sentidos e a mente mais desperta. Há a mesma possibilidade de exemplo de genios depressivos, como há de genios felizes e satisfeistos com a prórpia vida. Entendo a perspectiva que nós temos algo dentro que se quebrou e que nos faz ir mais longe, concordo com ela, mas a tristeza contra a alegria creio que é uma escolha que se faz constantemente. Não importa o caso, acho que é uma escolha e não uma necessidade. E também creio a alegria ser mais potente e mais produtiva do que a tristeza, ela estimula mais a nossa fome de viver e por isso nos faz buscar mais. Não sei se estou me fazendo clara. O ponto é que os sentimentos são fontes de criação do ser humano, creio todos eles bem-vindos, mas eles também pode se tornar improdutivos, como a tristeza massiva. O que gosto das pessoas é as formas como elas acham inspiração de situações mais improváveis. Como o próprio Vinícius, internado em um sanatório e ouvindo gemidos de excremunção no quarto ao lado, escreve a música cujo refrão é: “pra que chorar? pra que sofrer? há sempre um novo amor cada novo amanhecer.” Gosto disso, gosto do sentimento que cria, mas nao nos aprisiona nele. No caso, da tristeza que nos leva mais longe e não nos deixa dando voltas em seu carrossel. Creio que você refutará minhasd idéias e assim terei mais opotunidades de desenvolvê-las.

    Quanto à infantilidade que eu havia dito, acho que ela ficou mal explicada. Não se trata de uma ingenuidade de minha parte, não acho que deve conservar a perspectiva infantil do modo que o senso comum diz. É, na verdade, algo que se relaciona com este último exemplo do Vinicius. Foi um argumento contra a sisudez da vida. As pessoas creem que ser grande implica em seriedade. Elas olham para o mundo esperando comedimento e eloqüência dos gênios. Creem que é preciso ser sério, refletir pesadamente, estudar. Quero desafiar essas pessoas a pensar que a seriedade pode ser limitante. É preciso jogar seu amigo nas piscina às três da manhã, é preciso ter uma boa conversa à mesa de bar, é preciso escutar uma pessoa morrendo no quarto ao lado e se permitir não se prender na seriedade das coisas. É preciso não achar que é mais importante, inexoravelmente, ir pra faculdade do que pra aula de dança ou do que passear na rua ou ouvir música. Apenas quis dizer que os exercícios que o senso comum espera de alguém genial e produtivo é provavelmento aquilo que não o faz produtivo. Sua criação vem da capacidade de se sentir desperto pelo mundo à sua volta. Ir ao mundo com fome de descoberta, com ânsia de saber. Ir a ele com um imenso tesão de criatura mortal. É isso que eu tentei metaforizar.
    Com isso posso voltar às idéias dos sentimentos, pois é isso que prezo neles. Os sentimentos, mesmo os negativos, que nos dão ansia de viver e de descobrir são maravilhosos. Não gosto do que é improdutivo, do que me afasta do tesão que tenho pela vida. Não gosto do que me prende, do que me deixa no mesmo lugar. Gosto de explorar e de ir mais longe. A tristeza pode fazer isso. O que não gosto dos sentimentos que me tiram o gosto pela vida, essa tristeza não é e não pode ser produtiva. E eu tenho medo de que se espelhando na biografia de gênios achemos isso possivel: que algo que tire o gosto da vida seja produtivo. Isso é uma romantização. Além do mais é uma idéia que me incomoda, seguir os passos alheios. Por isso acho importante ressaltar a idéia que já foi posta de que nossos pés estão em desmesura com os passos alheios. Meu caminho é intraçado. O que eu estou fazendo agora e o que me compõe só existe agora, nunca exitiu antes e nunca será repetido. É assim toda vez e a todo momento. Não veremos sempre a vida como viram aqueles que admiramos. Não quero copiá-los. Não quero ser como eles. Não quero viver a vida de outro alguém, como disse antes. não acho que isso tornará ninguem grande. A tese que expus é que é preciso ser si mesmo para conseguir a própria grandeza, seguir caminhos alheios, seja ele escola-faculdade-emprego, ou mesmo caminhos mais extravagantes traçado por qualquer referencia que citamos não é o meu caminho, e nisso estes dois exemplos não se diferem. Citando o texto do Diego: “we may compare ourselves with people from everywhere, the shinning of others should not be an ofuscating force in the achievement of our goals, it should be thought of as a free course of how to get there, which has to be translated to your own language, to your own life.”.

    Agora, algo que precisa ser esclarecido: não estou oferecendo nenhuma terra prometida nem uma estrada de tijolos amareles (e creio que nem o Diego). É o mais absolutos contrário. Perante o momento que estamos da vida, jovens promissores, fazendo escolhas, pensando no que nos tornará isso que cremos que devemos ser, iniciamos questionamentos. A conclusão primeira é que NÃO existe uma estrada de tijolos amarelos, a não ser uma que leve à mediocridade. Qualquer anseio de superação precisa de um exercício mais profundo e verdadeiro. Creio ser preciso não seguir automaticamente os caminhos, mas tomar rédeas da própria vida. Isto que chamamos de “starting gun”. É perceber que a vida está passando e que não podemos nos conformar com a idéia de entrar na faculdade pq isso é o que deve ser feito, e arranjar um emprego, pois este é o próximo passo lógico. E mais, não podemos esperar que as coisas aconteçam pq elas tem de acontecer. Nada tem de acontecer, se não vizermos nada com as prórpias vidas não importará quão promissores fomos quando jovens. É fácil nos´perder em nosso cotidianos e acabar longe de onde esperávamos sem perceber que foi totalmente nossa culpa, pois ida após dia fizemos as escolhas erradas. Há muitos no nosso grupo de amigos, com imenso potencial, mas cujo cotidiano e escolhas não espelham suas possibilidades e seus anseios. Escrevo o que escrevi para me por contra escolhas que não levam em consideração o que somos e o que podemos. Diferente d uma estrada d tijolos amarelos, temos um espaço em branco para ser criado. A nossa vida, se grande, não se espelhará em vida alguma, mas será construída por nós e para nós. Mais uma vez voltando ao texto do Diego: “The world doesn’t have a gap that we ought to fulfill. The structure of the world has been planned for people to be effective and productive disregarding their abilities. The market, as well as universities are places where people are trained to be useful, to be part of the engine, regardless and inconsiderate to their skills, wishes or potentials.

    The untold secret, the hidden opportunity lies in creation. The creation of the new. That which represents us. There is no metaphisical space that lacks someone who is a mastercraft in the art we cherish the most. There is only a huge empty space, of all that never was. If we are to achieve something, if we are to make something out of it worth saying “I did this, I was there, I helped creating it, and now it lives” we must first realize this. A creator place in this world is made from the inside out, it is not, as I have formerly believed, incentivated, developed and organized by the outer world. No one is just there for us, expecting what we have of best do unveil itself and reveal, in a master achievement.” É um pensamento otimista no sentindo que nos dá a responsabilidade sobre nós mesmos afirmando que somos possíveis, no entanto ninguém disse que é fácil ser si mesmo. É muito mais fácil deisistir e seguir um caminho já traçado. É muito mais fácil mimetizar os outros, citá-los, segui-los. O difícil é criar aquilo que és estritamente nosso.

    Como sempre, me despeço ainda com muitas coisas a dizer, mas esperarei mais comentários. Divirtam-se.

    Beijos,
    Let

  5. Uma de minhas principais idéias concernente ao método em filosofia trata sobre o estilo. Creio que há pelo menos dois modos de se tratar uma questão: um decalca seus termos em proposições, proposições que são por sua vez referidos a objetos externos às mesmas via o modelo da designação. Procede-se por uma argumentação rigorosa e tem-se por objetivo uma demonstração da validade e veracidade de um complexo de enunciados. É o modo mais comum e corriqueiro, perfeitamente adequado às tarefas do cotidiano e mesmo a certos problemas mais abstratos na filosofia. Mas existe uma outra maneira de tratar as questões: tomá-las como entidades autônomas, como expressão de algo mais profundo e com uma realidade própria, tendo suas próprias coordenadas e campo de atuação — é o modelo do sentido, intrínseco a própria questão. Aqui, não se trata mais da demonstração de teses e argumentos, mas sim da constante exploração de um problema, de uma questão, seguindo-se seu encadeamento rigorosamente até suas últimas conseqüências. Nesse plano, não são as questões que devem se adequar às coisas, mas as próprias coisas que são forçadas a se adequarem às questões (potência criadora dos problemas). É esse modo ou estilo que considero o mais pertinente e, em todo caso, como elemento genético de um dado sistema filosófico (daí porque as questões importam mais que as respostas em filosofia).

    Nesse sentido, creio que os diálogos, que procedem sempre via o primeiro modo, são quase sempre inúteis ou infrutíferos. Não existe a possibilidade de uma “dupla lógica”, ou mesmo de uma troca genuína: estabelece-se um ponto de referência e a partir daí demonstra-se uma tese. Embora sirva como exercício argumentativo ou mesmo como uma iniciativa para que uma das partes reveja algumas de suas posições, creio ser isso tudo muito pobre, já que não há uma troca genuína entre ambos. Muito mais interessante, creio eu, é o modelo da conversa, verdadeiro exercício a dois (ou mais), que trata a questão como uma questão e abre o horizonte para uma exploração polivalente de um determinado problema. Aí sim multiplicam-se as perspectivas, estabelecem-se novas bases, redefini-se uma série de táticas e estratégias; aí sim há uma verdadeira troca, não aquela de refutações e objeções, mas sim aquela de genuínas experiências vividas em conjunto. É claro que isso não significa que toda conversa seja pacífica ou conciliatória; pelo contrário, pode-se mesmo contrapor as exacerbações das diferenças, as exasperações dos conflitos, enfim, o modelo agonístico de uma conversa à relativa tranqüilidade de um diálogo, espécie de tribunal de juiz de paz onde partes discordantes vêm selar um acordo mútuo tendo como referência os ditames do senso comum e da razão. São os calores e paixões de uma conversa contra a frieza abstrata de um diálogo.

    Isso vale para qualquer interlocutor, seja ele um amigo, um colega ou um texto perdido em uma biblioteca qualquer. Ao meu ver, é a isso que se resume toda incursão na história da filosofia ou, de modo mais geral, toda confrontação com um texto. Diante de todo texto, deve-se se interrogar não acerca do estado de coisas que a ele corresponde, mas sim qual a questão que anima seu movimento. A partir daí, as únicas considerações que importam dizem respeito a essa questão: seu rigor, isto é, de que modo o texto desenvolve internamente as conseqüências de seu problema; seu valor, isto é, de que modo nós avaliamos a própria questão de acordo com nossa própria perspectiva interna à vida. Quando interpreto um texto, é sempre de acordo com essa dupla chave, e quando me aproprio de um filósofo, é sempre por conta de uma similaridade de questionamentos que de algum modo faz com que partilhemos de certos pedaços de estrada.

    É claro, a apropriação de um texto filosófico nunca é uma operação simples, já que não se trata meramente de tagarelar certas teses desgastadas, mas sim de viver segundo uma certa problemática que define uma ética (daí porque toda filosofia é, no fundo, um problema prático, mais do que teórico). Fazer falar certos filósofos ou pensadores, não é meramente reproduzir suas palavras ou gestos; mais do que isso, é fazê-los falar através de nosso nome próprio e de nossa problemática. Desse modo, não penso ser fácil citar ou repetir um pensamento — não confundindo aqui repetição e mimesis, repetição e reprodução. Há toda uma potência da repetição, que disfarça e desloca diferenciais sob um discurso, uma potência do impessoal que nos permite ultrapassar a fragilidade de um ego a fim de alcançar as intensidades puras de uma vida. Lembro, nessa perspectiva, de uma afirmação bastante pertinente de Deleuze:

    “Dizer algo em seu próprio nome é algo muito curioso; pois não é em absoluto no momento em que se toma por um eu, uma pessoa ou um sujeito que se fala em seu nome. Ao contrário, um indivíduo adquire um verdadeiro nome próprio após o mais severo exercício de despersonalização, quando ele se abre às multiplicidades que o atravessam por todos os lados, às intensidades que o percorrem.” (Pourparlers, p. 16)

    Um sentimento que ecoa também em Foucault, quando esse diz na “Introdução” à Arqueologia do Saber que “muitos, como eu sem dúvida, escrevem para não ter mais um rosto. Não me pergunte quem sou e não me peça para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil, ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.” Tudo se passa como se o pensamento só começasse lá onde não há mais um “eu”, onde Deus e o sujeito encontram uma morte comum, deixando finalmente o horizonte livre para a total experimentação que caracteriza o pensar. Não surpreende, nesse sentido, que todo pensar seja correlato de um sofrer, como se pensar fosse sempre perturbador. Uma tal dissolução do eu implica sempre experiências-limite, eventos de uma tal violência que estilhaçam o senso comum, fraturam o sujeito e produzem esse “Eu profundamente rachado pela linha do tempo” de que tanto fala Deleuze.

    Não se deve, porém, confundir o sofrimento de que falo com a tristeza. Até porque a tristeza sempre implica uma diminuição das forças, uma sensação de impotência e um certo desfalecimento por parte do individuo. Quando se libera as verdadeiras potências do sofrer, já não se trata mais de uma tristeza opaca, mas de uma alegria de fato criadora, afirmação total da vida, a qual não é mais julgada, mas simplesmente vivida. É nesse sentido que Nietzsche fala de amor fati: “Nada querer diferente, seja para frente, seja para trás, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo — todo idealismo é mendacidade face o necessário —, mas ama-lo.” (Ecce Homo, “Por que sou tão sábio”, §10)

  6. Hmm, estava lendo o livro de Deleuze sobre o pintor irlandês Francis Bacon (link), e há uma passagem que me parece extremamente pertinente para nossa conversa, particularmente o tema do sofrimento e sua relação a alegria de viver. Ei-lo:

    “É muito curioso, mas trata-se de um ponto de vitalidade extraordinário. Quando Bacon distingue as duas violências, a do espetáculo e a da sensação, e diz ser preciso renunciar a uma para atingir a outra, trata-se de uma espécie de declaração de fé na vida. Há nas entrevistas muitas declarações desse tipo: cerebralmente pessimista, diz Bacon de si mesmo, ou seja, ele apenas horrores a serem pintados, os horrores do mundo. Mas nervosamente otimista, pois a figuração visível é secundária em pintura, e terá cada vez menos importância. Bacon se criticará por ter pintado demais o horror, como se o horror bastasse para nos fazer sair do figurativo; ele segue cada vez mais na direção de uma figura sem horror. Mas em que escolher “o grito mais do que o horror”, a violência da sensação mais que a do espetáculo, seria um ato de fé vital? As forças invisíveis, as potências do futuro, já não estariam aqui, e não seriam muito mais intransponíveis que o pior dos espetáculos e até mesmo que a pior das dores? Sim, de certo modo, como toda vianda [viande] dá testemunho. Mas, de outro modo, não. Quando o corpo visível enfrenta, como um lutador, as potências do invisível, ele apenas lhes dá sua visibilidade. É nessa visibilidade que o corpo luta ativamente, afirma uma possibilidade de triunfar que não possuía enquanto essa forças permaneciam invisíveis no interior de um espetáculo que nos privava de nossas forças e nos desviava. É como se agora um combate se tornasse possível. A luta com a sombra é a única luta real. Quando a sensação visual confronta a força invisível que a condiciona, libera uma força que pode vencer esta força, ou então pode fazer dela uma amiga. A vida grita para a morte, mas a morte não é mais esse demasiado-visível que nos faz desfalecer, ela é essa força invisível que a vida detecta, desentoca e faz ver, ao gritar. É do ponto de vista da vida que a morte é julgada, e não o inverso, no qual nos comprazíamos.* Bacon, tanto quanto Beckett, está entre os autores que podem falar em nome de uma vida muito intensa para uma vida mais intensa. Não se trata de um pintor que ‘acredita’ na morte. Há todo um miserabilismo figurativo, mas a serviço de uma Figura da vida cada vez mais forte. Deve-se render a Bacon, tanto quanto a Beckett ou a Kafka, a seguinte homenagem: eles ergueram Figuras indomáveis, indomáveis por sua insistência, por sua presença, no momento em que ‘representavam’ o horrível, a mutilação, a prótese, a queda ou a falha. Eles deram à vida um poder de rir extremamente direto.

    *Nota de Deleuze: E.II, p. 25: ‘Se a vida o excita, a morte, seu oposto, tal como uma sombra, deve excitá-lo! Talvez não o excite, mas você está tão consciente dela como está da vida… Sua natureza fundamental será totalmente sem esperança, entretanto, seu tecido nervoso será feito de um tecido otimista.’ Sobre o que Bacon chama de ‘avidez’ de viver e sua recusa em fazer do jogo uma aposta fúnebre, cf. E. II, p.104-109.” (Lógica da Sensação, 2007, pp. 67-68)

  7. Pessimismo filosófico

    “Men who are unhappy, like men who sleep badly, are always proud of the fact.”

    Nagase,

    serei breve e analítico, e estou num diálogo tentando provar alguns pontos, e não numa conversa exploratória.

    Não prometi tesouros, pelo contrário, faço um esforço pessoal para demonstrar que não se encontra tesouros salvo pela exploração consciente e minuciosa.

    Manter a perspectiva infantil é uma escolha ou uma falta de alternativa. Ela pode ser feita com ou sem ingenuidade ou cinismo. São variáveis independentes, e não se pode desqualificá-la, ou melhor, qualificá-la como produto de tais formas de pensar (a ingenuidade e o cinismo).

    Pensar não é uma estrada do dilaceramento, considerar isso como fato depende ou de pura e simples ignorância ou de um desequelíbrio químico em neurotransmissores, que pode ser inato ou causado por ausência de exercícios físicos e mentais ou de uma vida saudável para padrões neolíticos de saúde.

    Conquanto não se considere isso de fato, ainda se pode defender isso. E defender isso é considerar a mesquinhês um nobre valor, e agir politicamente para ampliar e extender o sofrimento de qualquer pessoa suficientemente seduzível por erudição, é mascarar o a ovelha de lobo para promover o medo.

    “Há sempre traços ou intensidades luminosas, feixes de luz riscando o céu escuro e destacando-se contra esse universal a-fundamento — são a família, os companheiros, os amigos, os amantes, enfim, todos esses que aceitam caminhar ao nosso lado, ainda que por trilhas diferentes.”

    Para a maioria das pessoas é dia. E as excessões são algumas nuvens negras, em sua grande maioria passageira, isso não é uma afirmação a priori, isso é empírico, testado e retestado.

    “Nesse sentido, é um erro grave acreditar que o pessimismo, a dor ou o sofrimento aniquilam todo amor a vida. “

    Esse sentido não existe, o mundo não é uma escuridão negra e trevas, com pouca luminosidade breve e tênue. O pessimismo, em maior parte aniquila sim o amor a vida, e é por isso que pessoas como eu, que consideram o amor a vida algo de bom e que deve ser promovido, tem boas razões para falar contra o pessimismo, razões estatísticas, porque a visão do “bom pessimismo” é uma visão de poucos, muito poucos. Como diria Russell, “Most people, however reggretably, will try to have a good time”

    “Esse amor (da mulher a qual se duvida) reúne em si toda a potência afirmativa da vida.”

    Vi toda a potência afirmativa da vida seguidas vezes em crianças, em jardineiros, em vendedores de cortina, em empregadas domésticas, em grandes homens de negócios e em palhaços. Nunca, sequer uma vez vi toda a potência afirmativa da vida em qualquer pessoa que eu julgasse intelectualmente capacitada e pessimista. Poucas vezes vi a potência afirmativa da vida em pessoas inteligentes, em parte pela moral intelectualóide, que prega o sofrimento como um cálice sagrado, e em parte porque é mais difícil viver sabendo que você é apenas um sistema nervoso solto num universo sem sentido.

    “O mesmo Artaud que, cansado da dor e do sofrimento físico intenso pelo qual passava, dizia que “os organismos são os inimigos do corpo””

    Comprovando, ainda outra vez, a conexão entre a indisposição física e o gosto pela filosofia pessimista. Longa vida ao exercício físico, longa vida a sorte de ter saúde, longa vida a medicina, que, mais do que qualquer otimista como eu está solucionando os mais intrincados problemas exploratórios propostos pelos filósofos do pessimismo.

    “O que Artaud nos mostra é que o primeiro passo já foi sempre dado, e não foi um primeiro passo, mas uma primeira violência que nos forçou a pensar e nos estabeleceu no registro das profundezas.”

    Artaud não nos mostra nada. Artaud conta sua história, e deveria nos gerar tão somente pena, tal qual nos gera pena saber que uma garota que impediu dezenas de serem castradas só principiou sua ação ao ser ela mesma castrada. Não soframos com Artaud, soframos por Artaud.

    “ Como coloca Deleuze, são essas pessoas que “têm tudo para serem felizes: belos, encantadores, ricos, superficiais e cheios de talento”. Mas, aí, não há nada a fazer, a não ser esperar “alguma coisa se passe, fazendo com que eles se quebrem exatamente como um prato ou um copo” (Lógica do Sentido, “Porcelana ou Vulcão).”

    Eu costumava pensar que quando um homem aprendia o suficiente a respeito do mundo, ele passava a controlar melhor seus sentimentos, e tinha mais influência sobre quais deixaria aflorar e quais não. Deleuze, dominado nessa passagem por uma inveja aterradora e morbidamente destrutiva, me mostra o contrário. O conhecimento a respeito do mundo, quando não utilizado em si mesmo, pode gerar esse tipo de crime intelectual, e é importante que haja destaque de como isso já foi feito no passado, para sabermos evitar um futuro tão negro quanto o dos sonhos de alguém como Deleuze, ao que aparenta.

    Conclusões podem ter sentidos muito diferentes, eu por exemplo, concluo exatamente o mesmo:
    Pensar e viver: eis as únicas tarefas que me propus até o fim e as únicas que, creio, realmente importam.

  8. Gostei do segundo texto, apesar de evidentemente discordar de suas teses centrais, ou seus focos de conversação, for that matter.

    Uma tal dissolução do eu implica sempre experiências-limite, eventos de uma tal violência que estilhaçam o senso comum, fraturam o sujeito e produzem esse “Eu profundamente rachado pela linha do tempo” de que tanto fala Deleuze.

    Atingir experiências limite em parte depende de fato de uma desvinculação do eu e do senso comum. Nem sempre, mas é um caminho interessante, traçado por exemplo pelos hindus e budistas, e por foucault e deleuze. Existem outros, e eu estaria disposto a ceder que dificilmente se pode atingir muitas experiências limites com um eu suficientemente centrado, mas algumas é sim possível. E experiências quase-limite também é mais fácil.

    Considero o amor fati uma intelecção do impossível, não gostamos de tudo que nos veio e virá. gostamos de algumas coisas, e desgostamos de outras. Nietzsche incluso. A totalidade pretendida por ele pode ser explicada por sua sede de poder e necessidade de submeter-se a essa mesma sede. Mas não segue que o amor fati seja possível. A meu ver, não o é.

    Abraços

  9. Nagase,
    Não estou acompanhando a discussão como um todo e nem o meu apontamento vai se referir a ela dessa maneira, mas me preocupou muito um trecho de um de seus comentários:

    “É claro, sempre haverá aqueles a quem o evento simplesmente não existe, que permanecem sempre na região segura e vazia da paz perpétua própria ao senso comum. Como coloca Deleuze, são essas pessoas que “têm tudo para serem felizes: belos, encantadores, ricos, superficiais e cheios de talento”. Mas, aí, não há nada a fazer, a não ser esperar “alguma coisa se passe, fazendo com que eles se quebrem exatamente como um prato ou um copo” (Lógica do Sentido, “Porcelana ou Vulcão). Quanto a nós, que já passamos desse ponto, só nos resta explorar essa fissura até o fim, desdobrá-la em todas suas conseqüências, arriscar tudo e tirar daí um direito imprescritível. Os planos e projetos decorrem dessa primeira resolução, a mais importante.”

    Sempre me pareceu ser exatamente o contrario disso, confesso que senti até um certo tom de plebeísmo nessa argumentação. Vários sinais de “perigo” acendem na minha mente quando tento seguir a sua mesma linha de raciocínio. Não são justamente os que têm tudo para serem felizes: belos, encantadores, ricos e cheios de talento que cabe a filosofia e o pensar? Elas podem se dar ao luxo de refletir, ao luxo da cultura. Meu pai, em tom piadista, parafraseava freqüentemente Aristóteles em alguma obra que não me lembro “primeiro a refeição, depois a cultura”, no sentido de que primeiro se garante os bens materiais depois se chega ao exercício cultural. Creio que, assim como argumenta Nietzsche no aforismo 262 de Alem do Bem e do Mal, a genialidade só aparece quando existe o excesso, o excesso de cuidado e de recursos: “ Uma espécie nasce, um tipo se torna firme e forte na luta prolongada com condições desfavoráveis essencialmente iguais. Das experiências de criadores se sabe que, inversamente, as espécies favorecidas com alimentação abundante, e, sobretudo com proteção e cuidado extra, logo propendem fortemente à variação do tipo e são ricas em prodígios e monstruosidades (também em vícios monstruosos)”. Ainda num dialogo com o filosofo alemão, penso que para aqueles que como se refere Thomas Malthus tiraram o bilhete em branco na loteria da vida – os que não são ricos e talentosos – não há qualquer esperança, esses por não terem tudo garantido tem que lutar pelos meios materiais de subsistência e estão imersos no plano da mera coisa, no plano animal. Qualquer esforço intelectual que fizerem produzira sempre aquele tipo de filosofia meditabunda típica de sacerdotes religiosos, será sempre um discurso mal são, doentio, de um corpo debilitado e que, portanto sofre ao pensar. Este autentico Homo dysintericus meditabundus* está sempre almejando a transcendência do sensível seja no reino dos céus ou nos seus substitutos mais refinados, os conceitos metafísicos. Pois justamente nesse mundo sensível, no mundo real, eles estão em franca desvantagem com a classe mais favorecida e saudável. Talvez isso explique sua constante fuga da experiência sensível, já que o que ela lhes desvenda, a realidade, é penosa. Pergunto-me quantas das especulações metafísicas dos sacerdotes medievais não foram o mais fino resultado de uma grande desinteira! Ademais é necessário o cuidado para, ao valorizar a empíria, não cair no odioso preconceito da pratica, o qual não passa também de outra forma de plebeísmo.

    Frente isso e a minha experiência pessoal o pensar só pode vir acompanhado de um grande sentimento de alegria, de expansão do ser, de criação. Talvez aos meditabundos mal sãos ele venha acompanhado de grande dor já que revela a sua grande impotência. Não me lembro ao certo onde, mas Nietzsche fala em um certo aforismo sobre como é algo não muito natural para certas pessoas o pensar, por isso eles o tomam sempre com um ar de solenidade e seriedade, enquanto que aquele que realmente está acostumado a este ato sempre o faz com certa irreverência e alegria. Esse pensar que se dilacera e sofre me lembra um pouco a figura do camelo, o primeiro estagio do espírito, no Zaratustra “O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto”.Enquanto que o pensar como algo positivo me lembra a terceira e ultima transformação, a criança: “A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.”

    Ainda vou procurar as devidas fontes, mas se não me engano a atividade cognitiva libera uma serie de neurotransmissores que nos deixam feliz e concordo com o Jonas no comentário que fez ao seu texto O pensar: “No entanto, a descoberta e a curiosidade são coisas naturalmente presentes nas pessoas, e são estimulantes. É possível que com o hábito isso venha a se associar ao pensamento ativo, criando um condicionamento positivo. Algumas pessoas tiram bastante felicidade do pensamento ativo”.Achei a analise que ele fez clara e limpa, em fim… saudável. Eu acho que se deve eliminar de uma vez por todas essa figura daquele que medita e sofre herdada da idade media, o Homo dysintericus meditabundus, em favor de uma imagem mais esclarecida de um verdadeiro homo sapiens, da figura do filosofo como senhor, de homem privilegiado, de um membro da nobreza e não da classe sacerdotal, em fim de um homem mais humano e natural e menos cristão e metafisico. O homem que o texto O outro pensar do Diego anuncia.

    Parece-me que esse post, O Pensar e O outro pensar estão muito interligados, faço a sugestão de que se unifique tudo em um único post adicionando os outros posts como comentários, pois se não o blog ficara poluído com comentários semelhantes sobre o mesmo tema mas espalhados por pots diferentes.

    Para quem quiser a citação integral do aforismo 262 que considero de uma genialidade assombrosa: http://pastebin.com/f671812c7

    Abraços

    *Aqui note-se que dysintericus pode significar tanto sofredor, resultando o homem sofredor pensante, quanto aquele que tem disenteria, o homem com disenteria que pensa.

  10. Segundo meu dicionario de grego epékho significa: ” 1) to have or hold upon, apply, to observe, attend to 1a) to give attention to 2) to hold towards, hold forth, present 3) to check 3a) delay, stop, stay ” como essa palavra acrescenta algo a discussão? Por favor esclareça seu ponto com relação a isso e também com relação a onde ocorrem as tais falacias. Acho que todos gostariamos de um novo integrante ao grupo de comentadores do blog, assim espero ansiosamente por seus esclarecimentos. Alem disso acho que não considero uma boa pratica escrever em grego no blog sem a respectiva tradução já que nem todos aqui falam esse idioma (eu incluso nesse grupo).
    Nota: Gostaria de lembrar que ao meu ver o argumento ad hominem é formalmente valido, seja ele:
    X é (anti-)autoridade em Y, #a probabilidade de X dizer a verdade em Y é maior(menor) que 50%#
    X disse Z em Y.#Z tem chances (menores)maiores que 50% de ser verdade#
    Z tem chances (menores)maiores que 50% de ser verdade.
    Por indução, Z é (in)verdade.
    #Não considero 50% aceitavel. Digamos que 75% é otimo o suficiente em filosofia, considerando que 98% é a certeza do eletron estar no orbital numa ciencia exata como a fisica.#

    Abraço.

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