Visões de mundo opostas em Nietzsche

Me deparei em Nietzsche com duas visões de mundo bastante diferentes.

A primeira é a que vou chamar aqui, talvez com pouco direito, de fisiologismo. Consiste num curto circuito do plano das idéias ao plano fisiológico, como se as idéias não tivessem autônomia mas fossem epifenômenos de movimentos esses sim mais substânciais nas visceras do mundo. As idéias nada são além de ilhas; montanhas subterrâneas que nos aparecem superficialmente como delimitadas e substanciais, mas que se sustentam e devem todo sua existência a movimentos tectônicos mais profundos e sua interação mútua a esses mesmos movimentos, que em nada reflete o que as ilhas são mas sim os humores vulcânicos.

É procedendo assim que Nietzsche faz sua análise do Asceta. O Bem, Deus, as Formas Puras, nada disso é nada além do resultado de gases e outros desconfortos físicos de alguns ascetas ressentidos. Ironia especial pra esse caso onde as mais “sublimes” idéias tem origem vergonhosa. O homem tenta justamente se consolar desse mundo se desnaturalizando, criando outras realidades (transcendentes) e ideais. É claro que os que o farão serão aqueles descontentes com a realidade dada: os doentes, os excluídos, os fracos.

A avaliação do Asceta está na genealogia da moral, e é além de fisiológica, genealógica. Entra em outras questões e pormenores que não nos interessam aqui. Mas no puro fisiologismo a questão que importa é a da saúde e da doença. A avaliação das éticas, um dos pontos nucleares desse autor, será feita a partir desse ponto de vista: quão saudável ou doentio ele é? . Nietzsche adere a uma teoria médica que em grossos termos é como a dos humores: doenças não são fatores exógenos ou mudanças qualitativas, mas sim desbalanços e desequilibrios nos próprios fluídos ou constituintes do corpo (Claude Bernard).É assim também que Nietzsche dirá que os impulsos humanos não tem nenhum valor moral (e fisiológico, portanto) em si, mas sim em relação a uma proporção, além da qual se entra em um estado doentio.

Outra visão de Nietzsche parece nos dizer o contrário. Vou chamá-la, de novo por falta de designação adequada, de Transcendental. Ali onde ele diz que nossas visões são já condicionadas, que todo olhar já é um julgamento moral (e não um dado a ser julgado, como diria o senso comum). A maneira como vemos as coisas, como experimentamos a realidade em geral, depende já de uma constituição mental construída, especialmente se focarmos o sentido moral. Essa visão sem dúvida é tributária a Kant, em cujo sistema o Sujeito ao perceber já da a forma do mundo, é o próprio Demiurgo que carimba a massa amorfa do mundo com selos das mais variadas formas (zebras e zeppelins e dodecaedros agudos) e cria sua própria caverna autista de fenômenos, se aproveitando no máximo dos poucos raios de sol que atravessam o teto para fazer seus próprios animaizinhos de sombra . De qualquer maneira, essa visão de que o próprio sujeito é criador ao menos parcial de seu próprio mundo se encontra muito em Nietzsche, por exemplo ali onde ele comenta sobre os povos europeus e a experiência (seu feeling, seu “tato”) particular de cada país em relação à arte por exemplo. Ou então quando ele diz que os alemães tem olhos mais perspicazes para o vir-a-ser; que são de temperamento mais heraclitiano que pamediniano (e aqui justificado por, entre outros, um fator lingüistico). É aqui que cessa o Nietzsche biólogo disposto a julgar desde o budismo zen até o protestantismo calvinista com seu termômetro saúde-doença e começa o Nietzsche que parece agir de um ponto de vista injustificadamente (pelo seu próprio meio de ação) neutro; capaz de penetrar na maneira de experimentar a realidade (na lente da distorção da visão, se quiserem; e puderem guardar a lembrança que não existe percepção livre de distorção, não como ruído mas como essência própria da percepção) dos outros para entender uma obra, um povo, uma época. Algo similar com aquilo que desenvolve Foucault quando diz que a forma de se experimentar o fenomeno da verdade muda através das eras.

Nagase uma vez, citarei tortamente de memória, me disse que pretendia investigar como em Nietzsche a genealogia é a continuação de uma espécie de jogo de máscaras, ou seja, que buscar os inumeros significados amontoados em cada idéia e fenômeno não levaria ao conhecimento dele (conhecer é conhecer pela causa), e que seria o fisiologismo, o estudo das relações orgânicas subterrâneas o estudo que realmente poderia tirar essas máscaras e expor a fratura do real exposta.

E embora tenha de admitir que talvez a ordem temporal da obra de Nietzsche o fisiologismo vá ganhando peso enquanto o “”transcendentalismo”” vá perdendo, de modo que “O nascimento da tragédia” é admitidamente hegeliano e o “Ecce Homo”, último livro, é onde não só o fisiologismo aparece com mais força em toda obra, mas onde a Alemanha é mais  debochada pelo autor; sugiro que os dois são desenvolvimentos de uma antinomia Schoppenhaueriana:

No parágrafo 7 do primeiro livro Schoppenhauer se debruça sobre o materialismo e o idealismo (de Fichte). O mundo que independe do sujeito, e o tratamento desse como mero objeto enquanto simples agregado de matéria, e o mundo inteiro como criação autônoma do sujeito. Diz as duas serem falsas por se embasarem em suas próprias conclusões, e declara que sendo o mundo representação, não há objeto abstraído do sujeito nem sujeito isolado sem objetos (dada que a representação envolve por definição aquilo que é representado e alguém que pegue a apresentação e a reapresente): “Assim, necessariamente, vemos de um lado a existência de um mundo todo dependente do primeiro ser que conhece, por mais imperfeito que seja; de outro, vemos esse primeiro animal cognoscente dependente de uma longa cadeia de causas e efeitos que o precede na qual aparece como um membro diminuto. Essas duas visões contraditórias, pelas quais somos, de fato, conduzidos com igual necessidade, poderiam decerto ser denominadas uma ANTINOMIA da nossa faculdade de conhecimento”.  O mundo enquanto não é visto por ninguém não tem significação alguma, mas para que surja uma forma complexa capaz de vê-lo, é necessário que ele passe de um estado “simples” (big bang? suit yourself here) à formação dessa estrutura representativa que obviamente não existe, mas confere mesmo o significado retroativo a toda essa atividade passada.

A transição conceitual para Nietzsche ficará mais clara se pensarmos ainda que foi a forma de pensar em antinomias e contradições, típica da época anterior a sua, que abriu espaço para seu perspectivismo. Com a diferença que o perspectivismo permite um crescimento de cada um dos elementos, o proto-fisiologismo (materialismo-objetivismo) e o proto-“”transcendentalismo”” (idealismo-subjetivismo) não enquanto amarrados um ao outro mas enquanto autônomos. Cada um deles fundamenta inquéritos da obra de Nietzsche sem que eles se anulem, e que podem trabalhar muito bem juntos (na Genealogia da Moral por exemplo).

Aguardo no mínimo um post de resposta do Daniel

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