Desprovando Hume, num e-mail para Bolzani

Como não sei se articulei as idéias corretamente, nem se entendi direito o que você disse. Resolvi formalizar o que estava pensando. Para deixar claro o meu ponto e evitar mal-entendidos.

Na quinta sessão Hume diz que não há razão para se supor a partir de uma conjunção que algo seja causa e algo seja efeito.
” He would not, at first, by any reasoning, be able to reach the idea of cause and effect; since the particular powers, by which all natural operations are perfomed, never appear to the senses; nor is it reasonable to conclude, merely because of one event, in one instance, precedes another, that therefore the one is the cause the other the effect. Their conjunction may be arbitrary and casual. There may be no reason to infer the existence of one from the appearance of the other.”

Além disso, ele diz que o poder explicativo de dizer que se faz isso pelo hábito se deve ao fato de que fazemos esse tipo de inferência causal quando algo ocorre muitas vezes, mas não fazemos quando ocorrem poucas instâncias de um evento.
” This hypothesis seems even the only one, which explains the difficulty, why we draw, from a thousand instances, an inference, which we are not able to draw form one instance, that is, in no respect, different from them.”

Ou seja, o que ele está dizendo aí é que sua explicação é boa porque ela é capaz de explicar um fenômeno particular. Isso é uma teoria que pode ser testada. Basicamente, ele propõe que fazemos a associação sempre que ocorrem muitas instâncias de um caso, e que essa é a única teoria capaz de dar conta disso.

Essa teoria pode ser desprovada de algumas maneiras. Se por exemplo não fosse o caso que existissem eventos contíguos no tempo. Ela estaria desprovada. Se surgisse outra teoria que abarcasse o mesmo fenômeno e também explicasse uma série de outras coisas, ela seria substituída etc…
Então examinemos o que aconteceria no caso que eu citei em sala de aula.

Suponhamos que alguém fugiu da vela após tão somente uma vez ter se aproximado dela.

O que eu disse foi ” Isso retira o poder explicativo que Hume pretende atribuir ao costume.”

O que você disse foi ” Se não fosse a existência de um princípio do hábito, ou do costume, seria impossível que essa pessoa criasse o hábito de fugir da vela. ”

O que estou defendendo é completamente compatível com o que você está defendendo, mas não consegui me explicar na hora. E faço agora.

Vejamos que o que você estava defendendo é basicamente que existe uma condição necessária para que alguém crie o hábito de desviar de uma vela em chamas. Essa condição necessária é a existência da possibilidade de se ter um hábito. Ou costume.

Isso é um fato, e não há razão para contestá-lo. Mas isso tem algum poder explicativo? Isso demonstra porque o hábito ou o costume são aquilo que nos guia a desviar de uma vela? Não necessariamente. Isso é apenas (para plagiar o franklin e o kant) uma condição de possibilidade para o costume. Não é uma descrição de porque o costume é a perspectiva certa para se pensar o assunto. E não outro princípio da naturezal.
Ou seja, é condição necessária que exista a possibilidade de se ter costumes (por exemplo uma tendência natural). Mas não é condição suficiente para se explicar nada.

O que seria condição suficiente, segundo Hume é o que ele diz, e repito aqui. ” This hypothesis seems even the only one, which explains the difficulty, why we draw, from a thousand instances, an inference, which we are not able to draw form one instance, that is, in no respect, different from them.”

Ou seja. Ele está evocando que a razão pela qual devemos acreditar num princípio do costume, a razão pela qual existe o hábito é exatamente a de que não há outra explicação que seja capaz de diferenciar nosso comportamento em relação a contiguidades particulares e contiguidades repetidas. Suponhamos então que ele esteja certo. Isso implicaria necessariamente que fazemos inferências causais de contiguidades que sempre se repetem. E implicaria necessariamente que não fazemos inferências causais para casos particulares; mas esse parece não ser o caso.

O exemplo da vela extensamente discutido demonstra que não é necessário, em certos casos, mais do que uma experiência para criar o hábito. Outros exemplos também poderiam ser citados (quase-afogamento, envenenamento alimentar). Ora, se existem casos que desviam da hipótese de Hume, ou, mais do que isso, se existem casos que desviam daquilo que Hume usa como sustentáculo de sua hipótese, sua teoria tem de ser considerada uma má generalização. Ou seja, ou ela só é válida para algum subgrupo particular de casos. Ou ela simplesmente está errada e deve ser abandonada.

Minha defesa é de que ela é válida apenas para associações que não dizem respeito a fatores que são extremamente evolutivamente importantes no curto prazo. Pois o princípio de fazer inferências ou associações existe em nós proporcionalmente a razão evolutiva que haja para crer que algo vai interagir causalmente. Ou seja, temos uma tendência maior para acreditar em causa e efeito tanto mais quanto essas causas e efeitos afetarem nossa evolução biológica.

É possível evidenciar claramente o porque a teoria dele há de estar errada com um exemplo mais complexo.

Tomemos os 4 eventos contiguos.

1 Vela acesa
2 Lampada acesa
3 Emissão de um som desconhecido
4 Dor na mão.

Suponhamos que esses quatro eventos se dessem ao mesmo tempo com uma pessoa.

Ela vai até um local, no qual uma vela acence, uma lampada acende ao mesmo tempo, emite-se um som desconhecido, e ela sente dor.
Ela retira sua mão de perto da vela. E o som para e a luz apaga.

No dia seguinte, em um certo horário, uma lampada acende numa sala em que ela está. Ela não prevê dor. (ou seja, Hume está certo. Apenas uma instância, logo nenhum hábito)
Da mesma maneira, a mesma música começa a tocar duas horas mais tarde, noutra ocasião (Mais uma vez, apenas uma instância, nenhum hábito. )
Meia hora mais tarde, ela está passando por um estreito corredor com uma vela, e sua mão, se deixada a esmo, passaria diretamente na chama. A pessoa levanta o braço, incluna o corpo e desvia da vela.

O que temos nesse caso? A prova inelutável de que a tese de Hume está errada, não é válida universalmente. Apenas uma instância, e mesmo assim a criação de hábito.
Mais do que isso, apenas uma instância de uma série de eventos que não são associáveis de nenhuma maneira na razão, no intelecto, e no entanto a criação de um hábito com relação a apenas um deles, e particularmente justo aquele que de fato resguarda uma realação de causa e efeito. Peculiar.

Evidente que se não tivessemos um princípio de hábito, como você disse, isso seria impossível em absoluto. Mas a questão é que a tese que Hume defende não é essa. O que ele defende é que evocar o hábito é a forma correta de se explicar o fenômeno . E isso, considerando os exemplos que pensamos em sala de aula, não é fato. É um equívoco.

Uma opinião sobre “Desprovando Hume, num e-mail para Bolzani”

  1. Claro, isso é do campo da psicologia cognitivo-comportamental. Eu nem espero muito desses intelectuais de muito tempo atrás… são invariavelmente cheios de suposições erradas.

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