Blake, Nietzsche e a Era de Aquário

Em sua mitologia, Blake cria a figura de Urizen. Tendo seu corpo forjado por Los (poesia/impulso artístico/profeta) Urizen cria não do nada, mas do mundo infinito de seres infinitos um canto seu, a Terra. Um mundo de finitude, regras, leis. Horrorizados, os outros espiritos cobrem esse mundo com um véu (a ciência). Os quatro filhos de Urizen são Terra Fogo Agua e Ár, e seu filho fogo acaba por castrá-lo, tirando assim sua parte profícua, que se torna uma bela mulher atormentada, “a” pecado (sin). Urizen finalmente lança suas teias pelo mundo, a religião, e a percepção de todos os seres vai então sendo limitada e diminuída, até que chega num mínimo, os cinco sentidos. E nada mais.

A saída disso nos é dada por Blake em duas horas. Uma, na voz do diabo:

“Those who restrain desire, do so because theirs is weak enough to be restrained; and the restrainer or reason usurps its place & governs the unwilling.”

“…the whole creation will be consumed and appear infinite and holy, whereas it now appears finite & corrupt.

This will come to pass by an improvement of sensual enjoyment.

[…]

If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite.

For man has closed himself up, till he sees all things thro’ narrow chinks of his cavern.”

E outra no dia do julgamento final, onde a própria figura do Urizen abandona seus instintos tirânicos, e é recompensado com sua antiga forma. Aceita então uma coexistência pacífica com os outros instintos humanos.

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Nietzsche entre outras coisas versa sobre essa mesma tirânia da razão. Ele a chama de impulso de verdade, e diz que é um sentimento asceta-cristão, um produto da bile acumulada que sublima em má consciência intelectual. Uma jogada ousada naquele eterno jogo de forças que é o mundo, uma busca por dominação sobre os outros, e principalmente uma forma de dominação sobre si mesmo. Assim como Blake, Nietzsche vai nos falar da irônia dessa obcessão chegar mesmo a nos deixar certas verdades inalcançáveis (a crítica da moral por exemplo), e os dois concordam inteiramente que ela é um fenômeno paralelo ao religioso (mas não espiritual!), e ambos afirmarão que o ascetismo é que dá origem a essa razão tirânica (“This will come to pass by an improvement of sensual enjoyment”). Freud vai reproduzir essa idéia ipsis literis em uma carta resposta ao Einstein quando esse pergunta como se poderia evitar a guerra, e aquele responde que dado o homem ser apenas pulsão de morte e pulsão de sexo, só um aumento da pulsão sexual poderia fazer o homem pensar menos, e principalmente agir menos belicosamente. Me pergunto se leu essa carta quem inventou o slogam “Make love, not war”.

Mais interessante ainda é essa última associação. Os Hippies além desse moto tinham se apropriaram da crença astrológica que o mundo vive um ciclo de idades astrológicas que influenciam e criam uma certa consciência global. É claro que é possível ler isso como uma cristalização de um Zeitgeist, embora essa leitura não nos dá a vantagem da vidência. Os maias também têm esse idéia de ciclos (eram ótimos astrônomos), e embora sejam calendários diferentes, os dois dão uma data importante, 2012 (na verdade no astrológico canônico 2012 seria o primeiro ponto alto de uma influênica que já começou a ser sentida).

Estariamos passando da idade de Peixes, era que simboliza um rápido desenvolvimento tecnológico, uma relativa paz frente a era de áries (pense nos assírios) e principalmente, a era da cristandade. Um dos conflitos dessa era é entre o livre-arbítrio contra as determinações divinas, um conflito que o cristianismo tenta fazer uma saída a Hegel, afirmando os dois possíveis. A marca dessa era é a dualidade.

Já em aquário individualidade se aprofundaria. Urano, o regente dessa era privilegia a intuição(knowledge above reason). Mais outras muitas coisas, bla bla ba… Mas principalmente, a razão-religião deixaria de tiranizar todos os outros impulsos e a humanidade encararia a espiritualidade de uma forma mais particular, mais “protestante”(no bom sentido). O ódio contra o corpo, a misoginia, todas essas caracteristicas ascetas perderiam lugar.

(Improvement of sensual enjoyment. A próxima vez que baterem uma punheta na internet pensem o quanto vocês estão colaborando para a paz mundial!)

Você pode pensar piscianamente nesse texto e imaginar que as leituras esotéricas como astrologia são cristalizações conceituais de zeitgeists, espíritos (não metafisicos, transcententes, espíritos como “O espírito das leis” de Montesquieu). Que esses fenômenos são muito melhores explicados por Nietzsche, o ser com mais rigor científico nessa lambança toda. Pode continuar pensando piscianamente e imaginar que todo nosso Zeitgeist, nossa vida e destino e idéias são causados por astros malucos e sem sentido pululando no céu. Mas esse é exatamente o tipo de questão que se dissolve de acordo com a nova mentalidade.

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