Da importância de se expodirem americanos.

Cena clássica. Você, com algumas leituras avançadinhas e um pouco de visão global. Seu avô, com nada disso mas um bocado de vivência. Cada um com um desprezo pelo tipo de saber do outro tentando se impor entre petiscos natalinos que eventualmente saem voando em alguma tia com alzheimer suficiente pra não conseguir tirá-lo do cabelo, mas de menos para se incomodar.

Ok, ok, de volta ao avô, e ao título. Trouxe isso a tona como experiência pessoal por que me lembro o calor que havia para vencer uma discussão dessas. E as vezes tinha de torcer por piores resultados para que meus prognósticos dessem certo. Algo do tipo, a guerra do Iraque vai ser um grande fracasso, ou, o incidente das torres gêmeas foi a conclusão mais que lógica de anos de assimetria de relações, extorções, chantagens, ameaças a soberania e imperialismo às tortas no “continente” árabe. (pra não parecer anti-americano poderiamos falar das consequencias igualmente nefastas da politica imperial francesa, e pra não acharem ou anacrônico ou direitista demais, extendo essa critica até o Mitterand)

A primeira acusação que vinha pra mim era claramente a falta de compaixão, e que era como se eu desejasse que essas catástrofes acontecessem para que meus prognósticos dessem certo. Em verdade, desejava sim. E o custo humano de uma certa distância começa a parecer irrelevante, já que inevitável em qualquer curso de ação possível.  De qualquer maneira a acusação vira o estômago (sem contar, desqualifica a opinião).

Mas hoje em dia a situação é outra. A situação do Iraque não pode se estabilizar. É horrivel ter de torcer pela morte, nos dois lados. Acho que pro Iraque a coisa realmente ficaria melhor com certa estabilidade, até mesmo do ponto da ingerência externa (é mais facil de se aproveitar daquela colcha de retalhos do que de um  estado coeso). Mas é importante para o mundo que isso não aconteça, e que haja uma debandada americana.

Como muitos (O Nassif até, por exemplo) descrevem por ai, os ataques de 2001 era  situação perfeita para a nova era que previram pra depois do muro de Berlim cair mostrar sua face. Havia marchas em Teerã de condolências, o mundo inteiro se apiedava (apesar da fácil demonstração que aquilo era um joão bobo voltando, como disse lá encima). Mas como Eisenhower já havia afirmado, o maior inimigo americano é sem dúvida o complexo militar-industrial, e os falcões, remanescentes da guerra fria que não tem lugar algum fora do contexto de um conflito, criaram um. E etc, etc, etc.

De novo uma tragédia anunciada. Criou-se rapidamente um militarismo, uma máquina de propaganda e se deu passe livre para que esse grupo fizesse o que achava melhor. O pensamento binário (você quer ganhar essa guerra?sim ou não??!!) evitava que as perguntas importantes fossem feitas, mesmo aquelas táticas!

Assim, só o impacto profundo de uma derrota pode fazer com que a pressão gigantesca de lobby das empresas que participam dos lucros dessa guerra de alguma forma diminua de proporções, e dar aos americanos uma sensação de Vietnã, que compra ao mundo mais umas duas décadas de um pouco de paz.

E até, talvez não só até mas principalmente, deixa as forças americanas reservadas para os verdadeiros inimigos. Inimigos digo aqui, do mundo. Com aquelas forças estenuadas, quem quer contruir uma bomba nuclear sabe que agora é o momento. É um clube que a hora em que se entra, já não se pode ser retirado, e que retaliação é possível num momento como esse?

Esses são os horrores da visão global. Um crime tê-la, maior não tê-la. Ainda bem que não tenho a decisão nas minhas mãos.

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