A utilidade e a relevância na pesquisa universitária

Fico bastante intrigado pela quantidade de pesquisas e teses que me parecem não ter nenhuma preocupação em trazer algo relevante ou útil à sociedade ou mesmo ao conhecimento científico (eu daria alguns exemplos, mas não quero que ninguém se sinta ofendido, cada um sabe o que faz). Isto é ainda mais alarmante se considerarmos que são o produto de anos de dedicação, usando recursos públicos (normalmente financiado por bolsas) e no lugar de outros tipos de pesquisa.

Não acho que deva ser negado o direito de se pesquisar um assunto que se queira, mas acho que a situação chega a uma proporção irracional. Não vejo um incentivo e nem mesmo uma preocupação em pesquisar assuntos de importância social e pior, ocasionalmente encontro até pessoas relutantes em fazer qualquer pesquisa com aplicações práticas. Não vejo nenhum sentido nisso. Acho que nos preocuparmos em fazer pesquisa útil e relevante não é uma subordinação ao mercado, ou às pressões da sociedade, é uma opção ética: é escolher utilizar uma oportunidade em favor de fazer algo bom para alguém.

Principalmente na nossa sociedade, onde vemos tantos problemas e não sabemos como resolver. Acadêmicos não servem só para especular, criticar e “pensar positivo”, servem também para resolver problemas. Dedico este post principalmente às pessoas das áreas de ciências sociais: sociologia, política, economia, filosofia e afins, por acreditar que supostamente são as pessoas para as quais esta questão é mais urgente e importante. Mas acho que minha crítica se aplica a todas as áreas de pesquisa.

Pode ser uma perspectiva pessoal minha, mas acho que o conhecimento humano tem valor à medida de que é útil. O conhecimento não é um objeto meramente estético, não conhecemos por conhecer; conhecemos para entendermos melhor como funciona o mundo, para vivermos melhor nele, para resolvermos nossos problemas e conseguirmos criar coisas novas. O conhecimento não precisa ter uma utilidade prática imediata, mas deve ter alguma. E se a universidade é o lugar onde supostamente o conhecimento é feito e promovido, acho que é o lugar onde deveria ser feito de modo mais útil.

Não gosto muito de prescrever coisas, mas tenho para mim que as pesquisas universitárias deveriam atender a pelo menos um de três critérios, nesta ordem de prioridade:
1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico.
3. Investigar e explorar algo cujo potencial ainda não está bem demarcado.

Assim, acho que contextualizar e priorizar as pesquisas em termos destes 3 critérios é fundamental, e que todo pesquisador deveria se orientar por eles. Também não acho que isto seja restrito à pesquisa, os cursos de graduação também deveriam ter este viés, os alunos deveriam ser incentivados a propagar e utilizar seu conhecimento, deveriam saber como aplicá-lo. Creio que isto teria muitos frutos positivos, a curto, médio e longo prazo.

Num aspecto mais individual, acho que cada um deveria escolher dentro destes critérios, o tema de pesquisa em que se julgar mais competente e promissor, de acordo com as próprias capacidades, conhecimentos, interesses e valores. Ou seja, deve-se investir nas coisas que aparentam ser mais promissoras, favoráveis e interessantes.

Ainda estou na graduação, mas acho absurdo saber que a maioria das teses de pós-graduação nunca são relidas, e de ver a abismal ineficácia causal de boa parte do mundo universitário sobre a vida das pessoas, tanto material quanto ideologicamente. Parece-me que as pessoas competentes da universidade são insistentemente atraídas a nichos onde podem ter um profundo envolvimento de suas capacidades intelectuais com o menor impacto possível sobre a realidade.

Gostaria de saber o que pensam a respeito, principalmente os que discordam.

p.S.: Uma visão um pouco idealizada da ciência é a de que ela consiste em decompor grandes questões difíceis e complexas sobre a realidade em pequenas perguntas mais fáceis de serem respondidas pelos métodos de investigação científicos. Acredito que tanto as questões da ciência como os problemas humanos tem uma estrutura hierárquica deste tipo. Acho que é um exercício interessante tentar encontrar dentro de que grande pergunta e dentro de quais outras subperguntas se encontra sua pesquisa, para se saber quais delas poderão ser parcialmente respondidas com a resposta que obtiver.

p.p.S.: Adicionando contribuições posteriores (principalmente da Karynn), acho que poderia se estender ligeiramente os 3 critérios:

1. Ajudar a resolver um problema humano ou a desenvolver algo que melhore a vida das pessoas e/ou da sua relação com o meio ambiente e outros seres vivos.
2. Ajudar a responder uma pergunta fundamental ou fortemente relevante ao desenvolvimento do conhecimento científico ou filosófico.
3. Investigar e explorar assuntos cujo potencial e aplicabilidade ainda não estão bem definidos.

Convém também dar uma ênfase maior às questões e autores atuais os quais ainda podem ser influenciados pelos frutos da pesquisa.

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15 Respostas

  1. Concordo plenamente. Mas como é difícil conciliar todas as necessidades, não é?

  2. Seu criterio dois pressupoe uma definição tacita do que é fundamental, de modo que esse cirterio permanece subjetivo até que uma definição seja dada.
    Como no brasil dificilmente se aplica a pesquisa feita em ciencias naturais o governo disperdiça bastante dinheiro com pesquisas que poderiam ser uteis mas não são. Como a pesquisa em humanas custa menos, esse é um ponto (de modo algum conclusivo) a favor do argumento de que as pesquisas em ciencias naturais desperdiçam mais e são mais inuteis.
    É uma puta falta de vergonha na cara e uma palhaçada certos servidores publicos ganharem 6,7 mil reais vindos dos impostos para pesquisarem a correspondecia de Espinosa com pessoa X. Eu não entendo como essas pessoas conseguem dormir a noite ao fazerem isso. Atualidade deveria ser um criterio não só das ciencias naturais, como das ciencias humanas. Tenho muito mais coisas que queria falar sobre isso mas seria só a demonstração da minha completa repulsa a esse tipo de servidor publico sem vergonha.

  3. Concordo que não há uma definição do que seja fundamental, mesmo embora possamos estabelecer mais ou menos consensualmente que certas coisas sejam mais fundamentais que outras. Tenho para mim que em cada área os especialistas concordem com quais as questões fundamentais dela, embora em geral discordem muito de como chegar nela e quais as perguntas intermediárias que precisam ser respondidas. Acho que estas disputas são bem-vindas e são parte da competição memética da ciência.

    Mas acho que vemos pesquisas por aí que tornariam difíceis ao próprio especialista justificar porque ela é relevante a responder uma pergunta fundamental.

  4. Há pessoas que ganham muito dinheiro vindo de impostos para projetos de pesquisa em teologia. Não que essas pessoas achem que seu projeto é inútil, mas os responsáveis por conferir bolsas para projetos deveriam saber. Talvez o problema seja a falta de inteligência de ambos. Vivemos num país que ainda tem alguma influência religiosa. Recentemente foi aprovado o ensino religioso em escolas públicas no Brasil.

  5. Acho que esta discussão caberia a um outro post, mas pessoalmente não sou contra religiões e pessoas religiosas em si, embora seja contra certas posições e atitudes. Acho que as religiões atualmente tem um papel mais benéfico do que prejudicial sobre a sociedade e que no momento não dispomos uma estrutura capaz de substituir suas funções eficientemente sem o que sua eliminação geraria muito caos e infelicidade social.

    Também não acho ruim que se estudem religiões, seus princípios e sua fenomenologia social, afinal é algo bem relevante e significativo na nossa sociedade. Acho que o ensino religioso poderia ser bom, se fosse dado numa perspectiva ampla não comprometida a nenhuma delas e se associado às suas questões filosóficas e críticas (o que, creio eu, não vá ocorrer em quase nenhuma escola em vista da falta de pessoas devidamente preparadas e com interesse nisto).

    De qualquer maneira, ao que sei que teologia não é um assunto que atualmente tenha grande prioridade nas nossas universidades (exceto nas católicas, nas quais isto é esperado). Estou me referindo mais às universidades públicas, uma vez que as privadas tem interesses particulares por própria sua natureza.

  6. A Karynn (minha namorada) postou estes comentários no nosso blog:

    “karynn disse…

    Outro dua conversando com uma colega, apresentei essa questão e o argumento que ela tentou a favor desse tipo de pesquisa foi que “pode ter algum valor pessoal pra quem estuda”. Ai,ai… dizer o que né?”

    “karynn disse…

    Gastam anos e anos tentando entender determinado autor, mas nunca cogitam tentar compreender uma pessoa de sua convivencia. Quando Leem um autor, querem arrancar tudo o que conseguem, supõe coisas, imaginam que com aquela frase o autor estava revelando isso e aquilo e que no fundo aquela outra vírgula queria dizer não sei o que… coisas tão teóricas que elas jamais poderão saber ao certo. E a pessoa real, que poderia ser seguramente investigada, que poderia responder sobre a utilidade de uma vírgula, sobre a existencia ou não de uma idéia contida numa frase, não desperta nenhum interesse. A menos que ela morra e passem-se algumas décadas, então alguem começará a espicular sobre suas palavras, suas vírgulas… e assim vai.
    Ah, vc poderia ter falado sobre a idéia de que essas coisas tem um fim fechado, em si mesmas, que a gente comentou aquele dia, lembra?”

    “karynn disse…
    Inviaabilidades dos seus critérios:

    De certa forma os três são critérios subjetivos.

    Suponhamos a seguinte pesquisa: “Freud e a sexualidade infantil”.
    Ela satisfaria o 1º critério? Depende… podemos considerar que a sexualidade infantil seja um problema, ou que envolve diversos problemas (não vou ficar exemplificando quais poderiam ser). Mas há margem para se dizer que não existe aí um problema. Aliás, de que tipo de problema estamos falando? Qualquer um ou algum problema social? E em relação a melhorar a vida das pessoas? Essa pesquisa poderia melhor a vida de algumas pessoas, talvez 100, 50, ou apenas das pessoas relacionadas a pesquisa (por estarem recebendo bolsa ou ganhando algum prestígio acadêmico, enfim). Seria preciso melhorar a vida de quantas pessoas pra ser considerada uma boa pesquisa segundo esse primeiro critério?
    E quanto ao 2º critério? Será que a sexualidade infantil é uma questão fundamental? Talvez para quem tem contato com crinaças e observa uma série de acontecimentos alarmantes seja, mas para outras pessoas esta pode ser uma questão extremamente desimportante. E aí acabaríamos criando uma hierarquia estranha de importâncias. (A pesquisa deve ser fundamental pra quem?). E sobre o desenvolvimento do conhecimento científico? É complicado propor o descarte do que não contribui nesse sentido. Há questões que não são científicas, ou não podem ser investigadas por um método científico (como a religião por exemplo), então elas devem ser excluidas?
    O 3º critério achei meio obscuro, não entendi muito bem. Você quer dizer que não se deve pesquisar coisas que já estão “esgotadas”, ou algo desse tipo? Eu acho que o problema não é pesquisar questões batidas (como a moralidade em Nietzsche, na filosofia), afinal isso poderia ser até bom, pois quanto mais uma questão é explorada, mas pode haver um bom resultado, certo? O problema é quando essa questão não tem nenhuma utilidade prática e vira um clássico acadêmico, que ganha um caráter estético, de status intelectual., simbólico. Não há como impedir um estudante de pesquisar Nietzsche, por mais que hajam dezenas deles fazendo isso. Mas acho que daria pra mudar a forma como essas pesquisas se dão.

    Acho também que estes três critérios parecem desprezar um pouco os interesses das ciências humanas.

    Pessoalmente, uma pesquisa que muito me interessa é “Como os animais são tratados pela nossa sociedade”. Leo, percebi que esta pesquisa não seria aprovada caso seus três critérios fossem aceitos. Talvez ela passasse pelo 3º (mas isso depende muito do que você quis realmente dizer). No entando, a considero extremamente útil, prática e atual!

    Sem dúvida é bastante dificil promover essa “triagem” dos temas que devem ser aceitos. Achei muito boa a sugestão da ATUALIDADE como critério para todas as áreas do conhecimento. Por enquanto, acredito que este critério possa reduzir o grande número de pesquisas inúteis existentes por aí sem cometer tantos equívocos.

    Em relação ao motivo pelo qual as pessoas insistem em estudar essas coisas que todos aqui criticamos, concordo com o Jonatas, parece falta de inteligência. Está é a parte mais complicada da questão, porque é praticamente impossível mudar esse sistema. Resumindo em duas palavras, a “tradição intectual” é a principal patrocinadora deste tipo de pesquisa que tanto nos incomoda.”

  7. Em relação à justificação do valor pessoal, é claro, as pessoas devem fazer coisas que tenham valor pessoal para elas, ou o farão sem vontade. Entretanto, não acho que as universidades, que tem recursos e capacidades limitadas de financiar pesquisas e pesquisadores devam sustentar pesquisas que sejam meramente justificadas por valor pessoal, e acho que as pessoas deveriam tentar conciliar aquilo que tem valor pessoal a elas com aquilo que é útil a outros indivíduos, para que sua pesquisa tenha um valor transpessoal.

    De fato, seria bom dar uma ênfase maior aos problemas atuais do que a problemas já passados e estudados, afinal, questões atuais ainda podem ser mudadas pelos resultados das pesquisas. Estudar autores vivos também me parece muito válido.
    Acho que este aspecto de ciclos fechados viciosos na academia funcionando para si mesmos é de fato algo muito ruim; cria-se uma linha de pesquisa irrelevante, mas que acaba sendo relevante só porque há pessoas discutindo aquilo, até que cresce e se prolonga a ponto de virar uma tradição, e acaba consolidando uma relevância artificial. É todo um circo; a roupa nova do imperador.

    Em relação aos critérios. São subjetivos na sua aplicação, porque não creio que se possa sistematizar a “relevância” dos temas de pesquisa de maneira precisa, formal, consensual e universal. O que propus são linhas gerais, guidelines.

    Em relação ao primeiro critério. Novamente, não acho que deva ser estabelecido um número determinado de pessoas a serem beneficiadas, mas acho que deve-se sim pensar em quantas pessoas poderiam ser beneficiadas (ou prejudicadas), em que intensidade, e em que escala de tempo com a tal pesquisa.
    Creio que o tema Freud e a sexualidade infantil seja potencialmente muito importante a problemas humanos, é claro, supondo que a teoria freudiana não esteja completamente errada. A sexualidade infantil estaria envolvida na determinação de muitos aspectos da conduta sexual e social adulta, de modo que estudá-la poderia proporcionar maneiras melhores de explicar e tratar problemas de conduta de adultos e é claro, ajudar a entender e lidar melhor com as crianças.

    Em relação ao segundo critério, acho que o pesquisador deve ser o primeiro a saber defender a importância do seu trabalho, ele deve ser o mais interessado em saber qual o impacto que seu trabalho terá, que questões ele poderá responder, que questões novas ele trará. Disse que ela pode ser importante para o desenvolvimento científico, porque ela pode resolver um problema metodológico por exemplo, criando protocolos experimentais, ou maneiras mais eficientes de se pesquisar, talvez não sendo diretamente uma contribuição para o conhecimento, mas sim um meio para ele. A religião pode ser investigada por métodos das ciências sociais. Se se estiver interessado nas características ideológicas íntrinsecas às doutrinas (teologia e afins), acho que isto entraria no ramo da filosofia, acho que se quiser, poderia ser colocado um adendo: “…conhecimento científico ou filosófico.”
    A questão da sexualidade infantil poderia ser importante ao trazer informações importantes sobre a natureza humana, a formação da psique e do sistema de conduta. Eu a considero uma questão potencialmente importante.

    No terceiro critério me referi a áreas novas, as quais ainda não se conhece bem seu potencial e aplicabilidade, e que só poderá vir a ser útil se estes forem explorados, me refiro às teorias novas e as proto-ciências.

    A questão do tratamento dos animais ao meu ver entraria no primeiro critério, se este fosse estendido a “problemas humanos e/ou da sua relação com o meio ambiente e outros seres vivos.”. Limitei-me a problemas humanos porque a maioria das pessoas não está muito preocupada com o bem-estar animal, mas acho que a extensão seria legítima. Mas ela também poderia entrar no 3o critério, se vc considerar que ela ainda não foi bem estudada.

  8. Oi, o Leo me pediu para comentar, então aqui vai…

    Posso discordar de (quase) tudo?

    Primeiro, Leo, de uma olhada na pagina de editais do CNPq, vc vai ver que a maior parte do dinheiro é dirigida para pesquisas aplicadas, em todas as áreas.

    Segundo, acho que se você se apegar ao conceito de que todo conhecimento tem que ser util (pelo menos potencialmente), entao voce confunde as categorias entre ciencia e engenharia. Tudo deve se reduzir à Engenharia (tecnologica ou social?)

    Terceiro, com o criterio de pragmatismo (social ou de mercado) voce nao eliminaria amplas areas da ciencia como Cosmologia, Fisica de particulas etc, teoria da Evolucao etc, que não tem aplicacoes praticas mas tem impacto cultural enorme?

    Quarto, eu tenho impressao que justamente por certas pesquisas serem inuteis (por exemplo, linguas mortas – que tal decifrar a lingua Maia?) é que elas não podem depender de financiamento privado, do mercado etc. O que sobra? O Estado. Pelo mesmo motivo, o Estado financia outras atividades inuteis como as artes, museus, orquestras simfonicas etc.

    Quinto, sendo assim, serão justamente “funcionarios publicos”, do Estado, que estarão trabalhando nessas areas, pois o mercado não vai, por exemplo, pagar para alguem ser paleontologo… Ou seja, me parece que voces foram contaminados com esse discurso neoliberal (Revista Veja?) de critica ao “funcionario público”.

    Bom, mas agora as concordancias:
    Precisamos de lutar por uma maior qualidade da ciencia, relevancia (“artistica ” sim, não apenas pragmatica) . Mas se a pessoa quer fazer pesquisa pragmatica, está cheio de dinheiro no CNPq e FAPESP para isso!

    Acho que isso se faz se formos capazes de atrair os melhores cerebros, e as pessoas mais apaixonadas, mais vocacionadas por seus topicos de pesquisa.

    Ou seja, para termos ciencia de qualidade precisamos ter (pelo menos) pessoas inteligentes. Mas agora fica a duvida: se os empregos cientificos pagarem pouco, as pessoas nao irão para eles.

    Alguem ai reclamou que se ganha 6/7 mil na USP (bruto, ok, liquido é bem menos!). Não acho que se segura, na docencia, os melhores medicos, engenheiros, economistas ou advogados com esse salario. É por isso que a dedicação integral nessas áreas está cheia de problemas.

    Por outro lado, se pagarem muito, gente que não tem vocação para cientista vai querer entrar na profissão…
    Eu imagino que o salário atual é um compromisso entre essas duas pressões…

    Finalmente, sobre as teses, acho que deveriamos lembrar que elas derivam da idade media, quando o discipulo deveria apresentar uma obra-prima frente a uma banca de mestres, a fim de provar que tem a capacidade de se tornar um mestre, ou seja, guiar outros discipulos. Ou seja, a tese é uma demonstração da capacidade do estudante: uma tese bem escrita, com estatistica bem usada, sobre o sexo das joaninhas pode demonstrar a maturidade de um aluno (na sua transição para ser um pesquisador, onde escolherá outros temas).

    Mas uma tese, sobre um assunto importantissimo, mas mal escrita, mal argumentada, mal defendida, não valerá de nada… A tese tem a ver com a formação final do aluno (seu ultimo rito de passagem na academia), e a importancia do assunto não é capaz de salvar uma tese mal feita.

    Eu vi uma tese sobre como fazer uma nova garrafinha de plastico para suco de laranja. Acho isso importantissimo para o mercado, exportações do pais etc, mas sinceramente me parece apenas que uma empresa (ou o orientador) “usou” o aluno como mao de obra barata para fazer uma pesquisa pragmatica que poderia muito bem ser feita em laboratorios industriais (se as empresas se dispusessem a financia-los).

  9. Acho que eu posso resumir o que falei sobre as teses: elas são os exercícios de “pintar a cerca” do filme Karate Kid. Não as leve muito a sério… o principal é o combate que vem depois.

  10. Oi Osame, obrigado pela participação, eu queria justamente alguém que apresentasse argumentos contrários.

    1. Que bom que pelo menos o financiamento das pesquisas tem preocupações práticas.

    2. Não acho que eu esteja confundindo as duas coisas, na minha concepção a ciência investiga a natureza, a engenharia investiga maneiras de aplicar o nosso conhecimento sobre a natureza em favor favor da sociedade. São coisas bem relacionadas, mas distintas.
    Quero salientar que fui razoavelmente amplo no meu conceito de utilidade, incluindo por exemplo “entender como funciona o mundo”. Considero explicações científicas como muito úteis, uma vez que elas permitem saber que circunstâncias são necessárias ou suficientes para que algo ocorra, e assim permitem prever e/ou controlar fenômenos.
    Não acho que as universidades devam pesquisar assuntos que não apresentam nenhuma perspectiva de utilidade; se eu quiser estudar algo meramente por interesse pessoal, não acho que a universidade deveria dar algum auxílio; acho que toda pesquisa deve ser justificada, fundamentada em alguma perspectiva, ainda que um pouco longínqua de utilidade.

    3. A cosmologia é importante, ela permite explicar fenômenos cósmicos e astronômicos, auxilia a pesquisa de outras áreas da física (como teorias unificadas, gravitação, etc), e tenta responder perguntas muito fundamentais.

    A física de partículas eu não conheço tanto, mas além de responder perguntas fundamentais (que talvez a esta altura do desenvolvimento da física já não sejam tão fundamentais assim), auxiliam também outras áreas da física (creio que estejam todos tentando explicar o modelo padrão, violações de simetrias e coisas do tipo). E acho que talvez ela tenha lá suas aplicações tecnológicas.

    A teoria da evolução é muito importante na biologia, e atualmente nas ciências relacionadas, como as ciências cognitivas. Na biologia ela fundamenta praticamente toda a história natural, genética e o surgimento das características dos seres vivos. Além de permitir algumas previsões, como como determinada população de organismos reage a tal tipo de intervenção. Nas ciências cognitivas ela permite explicar (e refutar) e prever uma porção de características humanas.

    Acho que se estas ciências em particular tem um impacto cultural enorme, deve ser porque estão respondendo a perguntas fundamentais que interessam até o público leigo.

    4. Sim, acho que o estado deve se responsabilizar pelas áreas que não interessam tanto ao setor privado, mas que ainda interessem para alguma coisa. Não comentei diretamente sobre artes no texto, acho que a “utilidade” das artes caberia a uma outra discussão, mas acho que elas certamente tem um impacto sobre a vida das pessoas, pelo menos a música, o cinema e a literatura claramente o têm. Acho que seria possível também defender a “divulgação cultural” como um tipo de utilidade. Mas acho que o tema é mais extenso. Este ponto talvez possa servir para ampliar um pouco os critérios que propus.

    5. Não entendi a questão da crítica ao funcionário público. Não estou criticando diretamente os funcionários, estou criticando suas opções, acho que deveriam ter outras prioridades.

    Em relação aos pontos concordantes:

    Acho que se os cientistas se preocupassem mais em utilizar seus conhecimentos em favor da sociedade, os governantes dariam mais importância em investir em pesquisa (uma vez que o investimento estaria se mostrando vantajoso), e a própria população se interessaria mais, atraindo pessoas competentes para carreiras científicas, que também ganhariam mais “status”.

    Em relação às teses, acho que talvez um pós-graduando não esteja tão pronto a decidir o que pesquisar e como, mas já que irá se dedicar por anos neste fim, por que não fazer algo útil e relevante? Sem falar que muitas pessoas saem da universidade após terminar a pós-graduação, nunca entrando no “combate que vem depois”. A falta de impacto das teses se mostra no quão empoeiradas elas ficam com o passar dos anos.

    —-

    Acho que você me interpretou como defendendo apenas pesquisas estritamente voltadas ao mercado e à indústria. Não foi o que eu quis dizer, fundamentalmente quis defender que pesquisas sejam bem justificadas, e que os próprios pesquisadores se perguntem no por que estão pesquisando estas coisas e que imfluência e impacto isto pode ter sobre a sociedade e sobre o trabalho de outros pesquisadores.

  11. “Em relação à justificação do valor pessoal, é claro, as pessoas devem fazer coisas que tenham valor pessoal para elas, ou o farão sem vontade.”

    Discordo. Acho que é ABSURDO (em todos os sentidos) o quanto uma instituição pode influenciar o que as pessoas querem fazer. Aliás acho o ser humano em parte medíocre por isso. Todo mundo na FFLCH estuda spinoza do mesmo jeito que todo mundo na arábia saudita é muçulmano. E olha que nem cortam a mão de ninguém na FFLCH.

    Osame Kinouchi, sou absolutamente favorável a tudo o que vc disse, por favor, apareça mais no nosso blog, comente posts de outras pessoas etc…

    Leo, entendo que sua crítica se dirige a alguns aspectos revoltantes da pesquisa que praticamente deseja ser inútil. Acho que existem outras soluções.
    Se tivessemos um sistema universitário baseado em Double blind paper publication, sem nepotismo e abobrinhas afins, acho que tudo daria certo automaticamente, porque as pessoas iam ter que ser competentes de verdade (seja em moral em Nietzsche ou em combate a malária) .

    Mas o brasil é paternalista, não é self-made man. Nossa tradição é de família e nepotismo, o que mina o universo intelectual brasileiro (ao mesmo tempo, não nos esqueçamos, que garante a felicidade nacional).

    A academia brasileira podia se americanizar, e sem dúvida as parcerias publico-privadas deveriam se concretizar, mas a liberdade individual de escolher a pesquista (depois de suficiente lavagem memética por uma academia decente) deve ser mantida, mesmo que alguém ainda quisesse, nesse paraíso, investigar a correspondência de Spinoza.

  12. Diego, você está defendendo que a relevância não é importante desde que o trabalho seja de qualidade?

    Não concordo, embora trabalhos de qualidade tenham uma maior probabilidade de acrescentar coisas novas as suas áreas (portanto tendo uma utilidade e relevância), acho que a relevância é um critério importante por si mesmo, e que não se deve deixar de se pesquisar algo relevante para se pesquisar a correspondência de Spinoza (supondo que esta pesquisa seja irrelevante).

  13. Leo, uma questão a se pensar.

    O LHC é muito, muito, muito caro.

    E o LHC não é útil de fato.
    Beleza tem lá os bósons de higgs etc.

    Agora coloca o dinheiro do LHC no combate a malária, e junto com o Bill Gates, que está combatendo a malária, acho que você obteria a erradicação da malária.

    Mas os físicos são geniais e os políticos ignorantes.
    Então temos o LHC aí.

    Mas acho que sim, se tiver qualidade, tanto o LHC quanto a correspondência de Spinoza, quanto a linguagem indígena de um povo, devem ser preservados.

  14. Diego, não sei avaliar qual a importância teórica do LHC e se isto tem potencial de aplicações práticas no futuro, infelizmente está fora do meu alcance. Mas acho que deve ter uma importância teórica bem grande.

    De fato, seria mais útil aplicar o dinheiro do LHC na malária, mas como os países que investem no LHC não são os mesmos mais afetados pela a malária, não vejo uma incoerência fundamental, afinal cada país investe defendendo os próprios interesses.

    Ando pensando bastante sobre utilitarismo, e acho que os critérios que eu propus precisariam ser revistos, não porque não são razoáveis, mas por serem um pouco incompletos, por exemplo acho que é preciso levar em conta estratégias de investimento e prioridades (incluindo urgência), riscos, entre outras coisas.

    Mas afirmo mais uma vez, acho que como regra de bolso, cada um deveria saber justificar honestamente a importância e a relevância da própria pesquisa, se não sabe é melhor mudar de área.

  15. Também acho que a academia seria muito mais útil se produzisse conhecimento que impactasse a sociedade. Caso fosse pesquisador não me retiraria da responsabilidade de que o meu trabalho fosse relevante.

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