Potencia e vontade de potencia

Conatus: o principio ontologico proposto na Etica de Espinosa de que cada ser visa preservar-se. E aqui o lugar comum aristotelico de que os seres “sublunares“ sao todos corruptiveis é reformulado, ja que todos os modos sao por definiçao insubstanciais, logo causados, e portanto com começo e fim. Importante ressaltar o carater ontologico e nao somente biologico do conceito. Aplica-se a todos os corpos e ideias e outros modos de outros atributos inacessiveis a nos, pobres humanos com acesso a somente esses dois aspectos do real.

Ja vontade de potencia é um bocado mais dificil de definir. Pelas proprias metodologias antipodas de Nietzsche e Espinosa, uma certa ambiguidade proposital, uma evoluçao do proprio conceito na obra e suas diferentes apropriaçoes por diferentes autores de peso. Heidegger dira que ela é uma ontologia escamoteada mesmo no mais critico dos autores, e que a vontade de assenhorear-se das forças e elementos do mundo é uma lei incrustrada no real, no proprio ser, a estrutura mesma do mundo (como pensariamos vulgarmente ser as leis da fisica, ou os designios de Deus retrocedendo alguns séculos). Scarlet Marton diz ser a retomada de uma cosmologia a la pré-socraticos, como Tales, Anaximandro, Heraclito, etc, que construiam seus cosmos (do original grego ordem ou sistema arranjado; oposto ao caos) postulando uma physis, como a agua, o ar e o fogo foram pra aqueles. Ja Carlos Alberto Ribeiro de Moura dira que o conceito escapa a qualquer pretensao ontologica e que Nietzche é sim a ”ultrapassagem” do dogmatismo classico essencialista, como promete, e é somente (mais) uma interpretaçao privilegiada, submetendo esse conceito ao perspectivisimo nietzcheano.
O conceito ainda traz problemas quanto ao seu conteudo. Aqui ha mais consenso sobre se ler a vontade de potencia como uma vontade de assenhorear-se. E esse é um prisma interpretativo que percorre toda a obra nietzcheana madura: em suas analises de Estado e politica, por exemplo quando considera que um poder muito absoluto nao pode senao ter suas partes constituintes se voltando contra si e competindo, mas que a situaçao oposta, de a oposiçao a um poder muito grande gerar profunda uniao; e suas analises dos afetos, das relaçoes pessoais, dos livros e ideias muitas vezes passa por esse mesmo prisma.

Pois bem. A comparaçao dos dois conceitos nao é novidade. Parte do proprio Nietzche, que tem uma imagem shoppenhaueriana do Espinosa (obra mas principalmente vida). A saber, que Espinosa tinha sido um ”tipo” comum do séc. XVII, o ateu virtuoso. Criou-se uma imagem de um contemplador honesto e placido mas que para a confusao dos teologos era ateu (para se ver até onde ja se chegou a vontade de verdade e o refinamento e boa fé do pensamento: como se um daqueles fanaticos americanos a la jesus camp pudesse admitir tal possibilidade ao inves de pensar em absolutos toscos. But I digress…). Nietzche fara uma analise fisiologica e dira que a filosofia espinosana resulta numa etica ascética, como comprovada em sua doentia vida inerte, de um simples amante da verdade imune ao devir do mundo por uma conexao com um Deus ”desprovido de carne”, o mais longe possivel daquele Deus vivente, de Abraao e Jaco, de que falava Pascal em oposiçao ao arquiteto perfecionista e constante de Descartes (a discussao aqui gira em torno dos milagres e de Deus como uma figura antropomorfica). Dira que o conatus ja esta implicito na vontade de potencia, portanto nao o nega, o afirma, mas diz que é uma constataçao obvia e sem valor que algo que quer assenhorear-se e dominar precisa se manter ao menos no patamar onde esta: entra-se em campo pra ganhar, mas na impossibilidade disso, que ao menos se empate!

O conatus espinosano se complica muito mais que a vontade de potencia quando lembramos que para ele o fluxo do mundo é um dado e muito mais complicado que em autores anteriores. Assim, embora as ideias e coisas tenham uma existencia/essencia garantida por serem os produtos inimpossibilitaveis de um Deus que cria absolutamente tudo que pode (ou seja, tudo que pode ser criado por um Deus que pode criar tudo de infinitas maneiras), as coisas ainda tem duraçoes, e nao sao como na tradiçao platonica crista frutos de ideias atualizadas em corpos/almas que tem uma duraçao independente da sua propria ideia, essa sim imortal pois parte de Deus. A Idéia é a coisa e a coisa é a idéia. Mas aqui precisamos entender como algo que morre (nosso corpo e alma) tem no universo uma existencia permanente. A chave aqui é lembrar que a duraçao so existe do ponto de vista da criatura, nao tem valor ontologico, e que o universo visto por deus é um grande solido estatico de quatro dimensoes. Assim dizer que algo existe agora mas nao em 1900 é algo que so faz sentido para uma criatura que ve o mundo como uma secessao de estados graças ao poder imaginativo de seu corpo (em oposiçao a faculdade de pensar que contempla as coisas desde o ponto de vista da eternidade).
Mas voltando ao conatus, nesse fluxo complexo que é o cosmo, nenhum modo (criatura) pode aspirar a uma verdadeira substancialidade, ou seja, a realizaçao desse conatus, que dependeria da impossibilidade de ser influenciado por algo outro que nao si mesmo. o conatus é um principio dirigente, nao um fim, muito menos um fim realizavel. Assim chega-se a imagem estranha de um ser que para preservar-se e si mesmo precisa…modificar-se! Essa imagem cessa de ser tao estranha quando pensamos no ser humano, que precisa realizar multiplos comércios com o ambiente, como a alimentaçao, para manter um (aproximado) mesmo ser. Uma repetiçao e diferença, se quiserem.

Assim a idéia de ligaçao, que parecia separar a vontade de potencia do conatus nao mais o faz. Ela os aproxima.
E nao conseguimos deixar de sentir reminiscencias nietzschenas quando lemos no tratado da emenda do intelecto que a causa da infelicidade dos homens é unir-se(amor-eros) com coisas pereciveis como dinheiro, causas e mesmo amigos, embora ele dedique a esses uma bela homenagem. E podemos facilmente ler que essa uniao é justamente uma junçao de potencias, contida num mundo de forças determinadas em seu conjunto infindaveis (como a reuniao de todos os corpos, que cegamente se chocam, unem, desunem, ou de todas as idéias-mundo cultural- que igualmente se ”chocam”, ”modificam”, etc). E uma concepçao de mundo muito parecida com a Nietzscheana exceto por um detalhe: a opçao que Espinosa da pela busca de uma suprema beatitude, a uniao com algo de imperecivel que permitisse ao homem olhar com descaso para as partes individuais e pereciveis e se consolar com uma visao de totalidade e eternidade do mundo no seu nucleo mais profundo. Se um deus tao sem carne tem algum poder consolador é algo que nos parece improvavel.
Mas e se tirassemos esse Deus, quer pela refutaçao da prova ontologica, quer pela morte mais bem cultural de Deus, quer por uma evoluçao violenta da vontade de verdade que contivesse os dois elementos anteriores. Merleau-Ponty diz que a marca do racionalismo do XVII, aquilo que une desde pascal até espinosa é a crença num infinito positivo (ao contrario do infinito como mera negaçao, como sera considerado depois inclusive pelo proprio MP.
Assim poderiamos dizer que as concepçoes de mundo sao muito parecidas, se ao menos retirarmos a crença num infinito positivo. O que sobra sao forças cegas em choque constante, sem qualquer barreira entre fisico e psiquico e social (o que permite as interpretaçoes verticais em Nietzsche), que se ligam e se separam sem nenhuma totalidade possivel, nenhuma finalidade no todo, ou mesmo nas partes se excluirmos o poder interpretativo de uns macaquinhos arvorados numa pedra no meio da via lactea. é claro que as consequencias éticas aqui sao tremendas. Nao existe tal suprema beatitude, nao existe nada que possa ser designado supremo, o infinito é somente uma virtualidade e sempre se pode ir além. Nenhuma resignaçao nem ascética nem ascética a maneira espinosana ( que nao tem a ver com renuncia ou pureza e portanto nao mereceria esse nome-consultem a ultima proposiçao da Etica pra mais esclarecimentos).

Bem apos esse exagerado e quase nao necessario panorama, preciso ainda assim dizer que conatus e vontade de potencia, apesar de coincidirem parcialmente, so seriam o mesmo principio do ponto de vista de um paranoico que acha que nunca esta suficientemente armado contra o devir,que acumula como proteçao e escravisa para nao ser escravisado. Ou seja, nao é bem assim.

Ha no entanto um principio espinosano que me agradaria mais aproximar da vontade de potencia que o conatus. é a potencia, ou produtividade. Ali onde Descartes trabalha com nada, finito(homem) e infinito(deus), espinosa fara o mesmo, mas dara uma marca a essas constataçoes que sao, no entanto, imediatas: a potencia, intercambiavel pela perfeiçao. Essa igualdade ressalta um lado muito importante de um pressuposto basico espinosano, baseado naquele ainda mais fundante da causalidade estrita e inquebravel entre todos os elementos do cosmos: a de que a perfeiçao nao é somente a capacidade de optar e ai fazer, nao é um direcionamento de forças mas uma eclosao cega de forças tomada em seu valor total. Deus nao seria melhor por evitar criar um mundo com sofrimento, ele seria menos perfeito, nao seria mesmo Deus por nao ter a potencia de criar absolutamente tudo. Perfeiçao é potencia de criar,e so. Caprichos e contingencias nao cabem a ontologia, assim como consideraçoes morais ou outras interferencias do ser enquanto alguma coisa no ser enquanto ser.

E de certa maneira criar é assenhoriar-se, ha uma hirierarquia dada entre o criado e a criatura. Potencia e Vontade de potencia. Potencias plasticas e moldantes. Claro que Espinosa nao prescrevia diretamente essa escalada que significa a vontade de potencia, mas isso porque ele tinha em maos o infinito absoluto, e com ele, o pacote completo do cristao, mas retrabalhado: Deus, beatitude, vida eterna. E nem seu comportamento era tao indiferente ao curso das coisas, como mostra suas preocupaçoes praticas e teoricas em relaçao a politica, seu apreço pela amizade (que no entanto é um amor a algo finito) entre outras cutchi-cutchices do nosso judeuzinho.
Assim, como provavelmente nem ele conseguia se enganar tanto a respeito desse espectro desencarnado que é seu Deus, ao menos no nivel do consolo(da mesma maneira que Nietzsche acusa Schoppenhauer de um descolamento pratica teoria ao denunciar o habito daquele de tocar sua flauta antes de dormir, seu odio pelas mulhers, etc), aplicou sua potencia gigantesca principalmente de pensar a se assenhoriar com uma logica dura e estrita e um medo descomunal das fogueiras inquisitorias das mentes e coraçoes, a ponto de se traçar a ele o começo do iluminismo, de Hegel e Shoppenhauer, o romantismo alemao, a filosofia analitica, kant, e etc o tomarem como um ponto basilar da filosofia, ou seja, Espinosa se assenhorou assustadoramente do pensamento politico e filosofico de eras inteiras. (Se me utilizo de um psicologismo, e quereis me condenar, é porque sois seguidores do metodo estrutural ao que retruco que aqui estou no ”real nietzcheano”, e que vos fodeis).

é isso. Vou salvar voces de continuar essa minha prosa aspera e tosca, errante e coroada com a falta de acentos do meu teclado defeituoso. é um esboço, ou melhor ainda um vomito em prosa, que ainda nao tive a chance de elaborar com um minimo de rigor e estrutura. Por isso redobro o pedido por correçoes e discussoes sobre o assunto, embora seja um bocado tecnico, é tambem bem interessante. E salvo voces agora da continuidade desse discurso ”oscar”

PS: notem que eu podia ter continuado o ciclo vicioso anterior ad nauseum(pensem literalmente, nao deixem o latim os separar do sentido original, e ai voces chegaram ate onde eu podia ter chateado voces). Mas agora, a suprema beatitude do silencio.

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5 Respostas

  1. Caro Thor,

    Reforçando um ponto trabalhado na primeira metade do seu post, gostaria de ressaltar que a vontade de potencia me parece uma operação sob o conatus. Ela é o aumento do conatus, um aumento da vida, que é aquilo que se tenta manter no esforço de perseverar na existência. Na época em que entrei em contato com o conceito de conatus pela primeira vez, já de posse de uma idéia vaga de vontade de potencia, me lembrei de uma analogia com funções matemáticas em que existem funções que crescem de maneira linear tal qual uma reta f(x) = 2x e funções que vão crescendo de maneira cada vez mais rápida como g(x) = x^2 (x elevado a 2), nesse caso a taxa com que x^2 cresce é igual f(x) e nesse sentido existe uma operação matemática (a saber derivada) com as qual se consegue chegar em f(x) a partir de g(x) e vice versa – no caso 2x seria o resultado da derivada de x^2. Nesse sentido o conatus seja algo como uma função constante de permanecer existindo e a vontade de potencia uma função de aumentar essa existência, englobando todas as funções de derivada maior que 0 (F(x) = c, tem derivada 0, pois ‘cresce’ a uma taxa 0). Assim definidos os termos, conatus não poderia de maneira alguma ser atribuído a nenhum ser animado, somente a expansão do conatus – a vontade de potencia – poderia existir, já que qualquer ser vivo sempre está de alguma maneira modificando e expandindo sua existência através da subsunção do mundo imaterial a si mesmo – tal como por exemplo uma grande arvore absorve nutrientes e luz do sol, assim também impedindo o crescimento de outras arvores de mesmo porte por perto – e até em certos casos com a destruição direta de indivíduos animados (não por mera competição como no caso da grande arvore absorvendo nutrientes e bloqueando o sol das outras arvores com sua copa). No homem essa vontade de potencia se manifesta de maneira mais bela, mais horrível e mais atroz através da ostensiva dominação da natureza e dos outros homens. (Nele, traçando aquela analogia com a derivada, a derivada alcance os valores mais altos) Nesse sentido me parece uma suposição bem ingênua a de que o conceito de conatus seria suficiente para explicar o ser humano, a não ser que esse conceito seja visto como uma operação que subjaz a vontade de potencia – mas ai não tem mais porque se falar em conatus. Essa suposição gera a concepção espinosana que você apontou num contraste com a nietzschiana: “exceto por um detalhe: a opção que Espinosa da pela busca de uma suprema beatitude, a união com algo de imperecível que permitisse ao homem olhar com descaso para as partes individuais e perecíveis e se consolar com uma visão de totalidade e eternidade do mundo no seu núcleo mais profundo.” Mas essa concepção de Espinosa me parece ser tão absurda e idiota e carregar o mesmo erro que carrega supor que princípios como o de conatus expliquem o homem de forma direta e ingênua, o erro é supor que o homem é algo que apenas tenta perseverar a sua existência quase que como algo inanimado. Nesse ‘perseverar’ há já a indicação de uma ação, de algo animado, mas, no entanto essa múltipla explosão de vontades e desejos humanos que Nietzsche tanto considera em suas obras parece escapar a analise de Espinosa. Se mudarmos o nosso ponto de vista para explicações que se baseiam na teoria da evolução e na existência de unidades replicativas essa concepção do conatus se torne menos absurda, mas ai o foco não é mais o homem ou o individuo, ou mesmo a sociedade. Parece-me que quando nos focamos em fenômenos humanos, mutáveis e até certo ponto imprevisíveis, explicações que consideram mais essa mutabilidade são de maior poder explicativo do que afirmações que considerem mais o caráter natural. È esse meu pressuposto que me faz acreditar que por mais longe que ciências como a memética um dia conseguiram ir, elas nunca vão conseguir ter o mesmo poder explicativo que analises dialéticas no que concerne a fenômenos estritamente humanos e não naturais.

    Quanto a sua postura na segunda metade do seu texto. Penso se essa não era justamente a parte que te aconselharia a prosseguir, num clichê cito Hölderlin: “Ali onde mora o perigo, cresce também a salvação”. É justamente nesse delírio enauseante que considero que mora a verdadeira produção de um texto, principalmente no começo da produção filosófica de alguem. Falo isso numa defesa ao que fiz em quase todos os meus outros textos decentes postados aqui no blog, foram delírios ad nauseum, mas foram também os textos em que expressei o que tinha a dizer sobre a filosofia. Claro que a primeira parte do seu texto é interessante e contem muitas explicações esclarecedoras, mas possivelmente não existe nada de genuinamente seu ali. Lembro-me de quando li o texto ‘O pathos da verdade’ de Nietzsche tive uma identificação muito forte com uma postura que ele critica ao final do texto (postura essa que tento salvar num dos parágrafos do meu texto “Do problema da separação do conhecimento…”) a postura seria a do filosofo em busca da gloria através da descoberta e eternizarão de uma verdade sólida e imutável. Nas palavras de Nietzsche: “São os momentos das iluminações súbitas, quando o homem estica seu braço imperiosamente, como que para criar um mundo, produzindo luz diante de si mesmo e espalhando-a em torno. Então, impõe-se a ele a certeza confortadora de que a posteridade não pode ser privada daquilo que o elevou e o ocultou no ponto mais distante, da altura de sua sensação única; na eterna necessidade, para todos os que virão, desta mais rara das iluminações, o homem reconhece a necessidade de sua glória.”. O problema desses delírios no entanto é que eles parecem só se mostrarem válidos quando exercidos com a mais completa seriedade.

    Agora quanto a segunda parte propriamente dita. É justamente essa lógica dura e estrutural a ferramenta de dominação do homem, é através dela que, quase que por uma mimetização da frieza e imutabilidade da natureza, o homem consegue dominar essa natureza e também dominar os próprios homens. Se alguém reclama dessa lógica seria justamente a voz do escravo pisoteado por ela e a ele não se deve dar nenhuma voz. Ter afirmado que essa lógica dura e estrutural se desenvolveu a partir de Espinosa foi um erro estratégico seu, pois te permitiu de algum modo ridicularizar essa lógica – já que um ingênuo feito Espinosa é facilmente ridicularizado. Mas não foi em Espinosa que os princípios essenciais da lógica formal surgiram. Esses princípios tomaram corpo principalmente nos escritos de Aristóteles, um senhor por excelência que já la na abertura de um dos primeiros livros da Metafísica afirma “De fato, o sábio não deve ser comandado, mas comandar, nem deve obedecer a outros, mas a ele deve obedecer quem é menos sábio”, disso alguém pode querer derivar algum governo idealizado tal qual o de Platão, mas penso que se deva proceder de modo inverso, se deve admitir que são justamente os menos sábios os que sempre são de fato os comandados e são os mais sábios os que de fato comandam. (Isso se torna evidente quando contemplamos a obra de escravos, tais como a obra de Espinosa ou a de Marx, quem encontrar sabedoria ali que me desculpe!). O impulso lógico e duro pode até ter surgido em Espinosa como medo da fogueira, mas ele surge no interior do método cientifico justamente como a fogueira encarnada, como o próprio chicote do dominador. A dificuldade de entender que ele é um chicote deriva do fato de que hoje o escravo criou um amor masoquista ao que lhe fere a carne.

    Abraços

  2. Eu não li a resposta do João, porque são 5 da manhã. Mas mando a minha.

    Parece, aos olhos de um velho e curvado analítico uma recapitulação muito boa de parte da filosofia de natureza de Nietzsche e Espinosa, escrita não na forma dos pós-modernos, mas numa forma que zigue-zagueia entre o pré-darwinismo, coroado por seu animismo típico da matéria, e Shostakovich, como é costume do autor to post.

    Eu sugeriria salvar-se das gírias e coisas assim, e deixar o vocabulário um pouco mais polido, para transformar isso eventualmente nalgo de longo alcance.

    Como me cabe na vida, faço um comentário analítico :

    “A chave aqui é lembrar que a duraçao so existe do ponto de vista da criatura, nao tem valor ontologico, e que o universo visto por deus é um grande solido estatico de quatro dimensoes.”

    O valor ontológico de algo se determina a partir de onde escolhemos posicionar, no universo, o nosso sujeito epistemológico. Essa sonda epistemológica que chamamos de Deus, e poderíamos chamar de Onisciência, não é uma sonda bem determinada. É necessário cautela ao falarmos dela, sobre o que está ou não em seus poderes conhecer… Sou mais favorável a epistemologias que partem de nós mesmos. Pelo que favoreço a opção do “Só existe o agora” do Dharma budista do que a “O tempo não existe” que as vezes é colocada logo em seguida pelo mesmo sábio de bigodes negros, grossos e lisos.

  3. Guys, precisa ser uma longa resposta eu suponho.
    Primeiro, Diego.

    Mesmo o primeiro Wittgenstein tem um apreço reputado (eu nao testemunhei de perto) pelo sub specie aeternitas, o termo original espinosano pra designar essa visao da eternidade. eu tambem estou de acordo contigo que nao existe visao desprovida de posiçao, de ser no mundo, como essa pretende ser, e logo de um sentido original. Posso dizer que minha posiçao no momento se assemelha de Merleau-Ponty que rebate a afirmaçao Leibniziana que a visao total de um objeto é aquela que por coneter todas as perspectivas possiveis, nao é nenhuma delas. A densidade do objeto nao precisa ser dada por um deus que testemunha o mundo alem dos meus poderes finitos de faze-lo, mas sim por um ato de percepçao que constitu um mundo.

    Mas derivo aqui. Alem do mais, se Nietzsche chamaria de ”Mal e anti humanas” as teorias do uno e imperecivel, é preciso aqui fazer uma exceçao muito especial a Espinosa. Seu uno e imperecivel nao se serve aos propositos éticos das outras metafisicas, nao é de forma alguma anti humana. Sua filosofia é, como ele mesmo diz, uma reflexao sobre a vida.

    Mas quanto a visao da eternidade, tal abstraçao é interessantissima, especialmente porque possibilita a coincidencia entre essencia e existencia das coisas; e como poucos negariam a abstraçao em si (em oposiçao a um espectador ontologicamente positivo) de um universo contemplado a partir de um ponto extratemporal, essa abstraçao tem algo de util ali por exemplo onde se considera a existencia ou nao de um arrow of time, consideraçao que leva em conta a possibilidade do tempo ser um fenomeno meramente psiquico, que nosso cerebro processa de uma forma curiosa e sequencial que chamamos tempo.

    Joao,
    Em primeiro lugar, eu nunca afirmei que foi em espinosa que surgiu a logica formal. I do know better then that. e nao ridicularizo a logica, até congratulo espinosa por poder imergir num hocus pocus de precisao e fortaleza tanto pensamento ao mesmo tempo coerente e subjetivo, pessoal. Ele é um verdadeiro dançarino, eu nao poderia deixar de reprocar a nietzsche, mesmo que seus passos pareçam uma marcha militar bem coordenada.

    Escravo, Espinosa? E Marx? Falho em ver tal coisa. Um porque tal afirmaçao implica em um juizo sobre a vida de ambos, e ai nao ha maneira de fazer valer esse juizo. Mas se voce quer falar sobre as reminiscencias da obra e achar uma princesa isabel no alemao barbudo, ja é mais discutivel. Mas Espinosa??! O homem tem os cojones (bolas, em espanhol) nao so para desafiar um establishment e arriscar a vida, mas intelectualmente ninguem ousou como ele, mesmo se desligando dessas consequencias mais bem fisicas. Eu sinto, lendo espinosa, o contrario da servidao: nao o assenhoramento, mas o heroismo mesmo. A pureza veritativa em seu grau maximo a ponto dele afirmar simplesmente que o direito é uma instituiçao de força; aquela afirmaçao hobbesiana de que os homens classificam moralmente as coisas de acordo com seu simples gosto ou desgosto pessoal por elas, mas levada a suas ultimas consequencias.
    A frieza com que demole estruturas bem montadas, o heroi mesmo da filosofia, comparavel a um socrates, ou, nas palavras de Deleuza, o Principe dos Filosofos.

    Eh isso ai. Quanto a minha autocritica quanto a forma era so porque imaginei o texto chato de ler pelo estado bruto, sei muito bem o valor que carregam esses textos vomitados.

  4. Thor,

    O momento em que você diz “…a ponto de se traçar a ele o começo do iluminismo, de Hegel e Shoppenhauer, o romantismo alemao, a filosofia analitica, kant, e etc o tomarem como um ponto basilar da filosofia, ou seja, Espinosa se assenhorou assustadoramente do pensamento politico e filosófico de eras inteiras.” foi aquele para o qual a minha critica se dirigiu. Errei em afirmar “Ter afirmado que essa lógica dura e estrutural se desenvolveu a partir de Espinosa foi um erro estratégico seu…”, substituo por “Ter afirmado que em Espinosa é possível ser traçado o inicio de um assenhoramento de uma logica dura foi um erro estratégico seu…”

    Não é verdade que não existe de fato maneira nenhuma de fazer tal juízo sobre o caráter servil de Marx e Espinosa. Acho perfeitamente possível ao se olhar para as condições da vida de ambos constatar de maneira metafórica o que disse. Há uma certa idolatria por Espinosa no departamento de filosofia da USP e em certas tendencias do pensamento contemporâneo e para mim elas são tão validas quanto afirmar que há algo de escravo em Espinosa ou Marx (ou seja, bem pouco validas, mas possíveis). Talvez tenha que de fato ler mais Espinosa, mas até o momento é essa a impressão que me fica dele. Existe em Espinosa uma resignação teórica com elementos que não admitem essa resignação, os humanos. Essa pureza veritativa que você menciona eu vejo mais uma uma ingenuidade infantil, principalmente na Ética em que paira uma crença de que é possível tratar temas filosóficos daquela forma matemática bem rudimentar. Com isso ele confunde os limites entre as duas áreas e fica com o pior das duas. Muita coisa de boa pode sair da transposição da forma como são feitos os raciocínios matemáticos para a filosofia, Russell é prova disso, mas com certeza Espinosa não é um exemplo desse caso.

    Achei o texto mais interessante e divertido na segunda metade, por isso fiz aquela minha critica a sua autocritica.

    Thor e Diego,
    Qual é a do Shostakovich no meio da historia?

  5. O shostakovich é só uma representação da constante variação emocional e de tom dos textos do thor.

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